Estagnação capitalista favorece planeta terra

A situação do capitalismo está chegando a tal ponto que a estagnação ou semi-estagnação econômica temporária – não se sabe por quanto tempo – pode ser uma boa para ele.

Seria mais vantajosa do que a alternativa oposta à vista, a destruição, caso não haja um esforço global comum para evitar a bancarrota financeira, expressa na supressão/empoçamento do crédito em mar monetário que deixa de azeitar as relações econômicas globais.

Entre destruição e estagnação não há discussão. Vencerá o utilitarismo.

A natureza, por sua vez,  deve estar achando excelente essa possível paralisação ou semi-paralisação da economia americana, com reflexos globais.

No ritmo do super-consumismo ultra-exacerbado americano, que se espalha para China, Japão, Europa, Africa e América do Sul, uniformizando comportamentos culturais suicidas, rola, perigosamente, tremenda destruição ambiental.

Com a bancarrota financeira, entra em xeque tal modelo de vida, que ameaça a humanidade.

Se os Estados Unidos, punidos pela lógica da irracionalidade, que levou a nação ao buraco negro monetário, serão obrigados a viver possivelmente fase recessiva dura, significa que haverá menos demanda sobre o planeta, cujo resultado tem sido, claramente, crescente desequilíbrio do meio ambiente.

Desde 1987, os cientistas, preocupados com o avanço da irracionalidade capitalista, que avança destruindo a natureza, alertaram sobre o impasse decorrente das excessivas emissões dos gases C02, gás carbônico, e CH4, metano, responsáveis pelo aquecimento terrestre. 

Em 1997, foi assinado o Protocolo de Kyoto, em que os signatários se comprometeram a reduzir suas emissões de CO2 em 5% quando comparados aos níveis resgistrados em 1990. O acordo estipulava que ele só se tornaria efetivo quando fosse ratificado por, pelo menos, 55% dos países signatários e que somassem 55% das emissões.

 

Unilateralismo faliu. Multilateralismo ocupará o vácuo

 

Os Estados Unidos, maior economia poluidora do meio ambiente, responsável por 25% do total das emissões de gases de efeito-estufa, não assinaram o protocolo. Frustração mundial.

A contaminação do ar, das águas e do solo, seja pela queimadas das florestas, pela emissão dos gases tóxicos das indústrias químicas e de beneficiamento de minerais, ou pelas toxinas geradas na decomposição do lixo urbano, seguiu em frente, destruindo as forças naturais.

Cenário apocalipto, apresentado pelo Painel Internacional de Mudança Climática(IPCC), descortinou-se forte:o efeito estufa estaria estreitamente ligado ao aumento da ocorrência e intensidade de inundações e secas, amboas resultando em redução das reservas de água potável. Além disso, aquecimento da atmosfera aumenta mortalidade de velhos, crianças, graças a expansão de casos de doenças pulmonares e do aparelho digestivo.

O aquecimento global mudou características fundamentais do clima europeu, proporcionando elevação de temperaturas em continente onde o frio predomina, impondo temperaturas superiores a 40%. No Brasil, o aquecimento se expandiu com a destruição das florestas em escala irracional, estimulando ampliação da produção e exportação de soja, carne, milho, algodão e, sobretudo, madeira. 

A lista do desastre é interminável, no compasso do ritmo da destruição ambiental imposta pela busca insaciável do lucro, que não visa o interesse do contribuinte.

A natureza pede, desesperadamente, um tempo, racionalidade ao estouro consumista. Nada. Os interesses individualistas, preponderantes, relativamente, aos interesses coletivos, continuaram e continuam a destruição.

A bancarrota financeira, enfim, pode dar uma parada técnica na loucura, impondo a necessidade do interesse coletivo, socialista, impor-se, politicamente, sobre o individualista, capitalista, abrindo espaço a uma maior cooperação internacional, algo que os Estados Unidos se negaram a pratica, até agora, recusando assinar o Protocolo de Kyoto.

 

Chegou a hora de uma parada na busca louca do lucro

 

A crise bancária, que destroi riquezas puramente fictícias, sinalizando redução do nível de atividade geral, a partir dos Estados Unidos, conspira a favor dos interesses da natureza. Poderá arrefecer a destruição ambiental e dar uma orientação racional à irracionalidade anárquica capitalista.

A desaceleração econômica nos Estados Unidos, cujo consumo sustenta, organicamente, a economia mundial, dados os fios do tecido econômico traçados por ele, impõe novo rítmo aos parceiros comerciais, detonando lógica desacelarativa nos elos gerais do capitalismo global, em termos proporcionais.

Gigantes parceiros comerciais dos Estados Unidos, como China, Japão e Europa, que sofrerão sérias consequências decorrentes da derrocada financeira americana, terão novos comportamentos diantes dos demais elos mais fracos da cadeia econômica capitalista global? Ou será preciso chegar mesmo ao caos total, para surgir nova Arca de Noé?

Não estaria descartada possibilidade de acontecer com os Estados Unidos o que aconteceu, na década de 1990, com o Japão. Depois de viver, nos anos de 1970 e 1980, a farra dos nipodólares, expressos na euforia das exportações de produtos tecnológicos avançados, os japoneses se transtornaram nas angústias do empoçamento excessivo de dinheiro, que levou à deflação. O nacionalismo japonês, feito em casa, como está ocorrendo, com a China, trouxe, como resultado, paralisia. O capitalismo ficou parado, juro zero, deflação na porta, só jogando na exportação, com moeda desvalorizada.

Seria esse o futuro do nacionalismo chinês que abarrota o mundo de mercadorias de toda a natureza, sustentando o mercado de matérias primas global?

 

A terra se agita contra a expoliação destruidora do capital

 

A bancarrota americana pode servir de ponto de inflexão à lógica anteriormente desenhada pela exacerbação egoística capitalista global tocada por moeda podre especulativa implodida no excesso de dólares derivativos.

Viria por aí um relativo repouso econômico global determinado pelo estresse de Tio Sam? A natureza começaria a sorrir.

O perigo maior para os Estados Unidos é o excesso de moeda podre – fala-se em 60 trilhões de dólares derivativos, coisa de doido –  e a consequente desmoralização monetária que dificultaria a saúde do governo americano de continuar enxugando a base monetária global para evitar inflação exponencial.

O fato novo, portanto, é a crise do keynesianismo americano e não do liberalismo, que já havia entrado em colapso na crise de 1929.

O próximo presidente americano adotará as medidas neoliberais que a Casa Branca sempre pregou para a periferia capitalista, a fim de enxugar o excesso de gordura podre?

A natureza baterá palmas, porque o protocolo de Kyoto vai sair. Haveria parada obrigatória no gigante consumista , guerreiro devastador, impulsionador da economia de guerra, bancada por moeda estatal fictícia sem lastro.

A ordem unilateral está se rompendo, para dar lugar ao seu oposto, o multilateralismo. A tese produz a antítese. Qual será a síntese?

A primeira grande crise monetária do século 21 pode ser uma boa. Negação da negação. O keynesianismo negou o neoliberalismo e agora se vê negado.

Representaria freio ao capitalismo devastador e a imposição de uma nova ordem dada pelo excesso do próprio homem, que, de agressor, passou a ser agredido e condicionado pelas forças naturais racionais em substituição às forças humanas irracionais?

Estagnar, nesse contexto,  tornou-se útil.

Consumir menos significaria prejuízo ou avanço?

O que o crash financeiro pode conseguir, ou seja, menor demanda destrutiva econômica sobre a terra, minimizando desproporção incompatível com a sustentabilidade ecológica, representaria na prática, por outras vias, nova conjuntura que leva a humanidade a outros questionamentos.

Novas possibilidades, novas culturas comportamentais transformadoras, nova economia, nova ética?

Se não foi possível, enquanto o unilateralismo político-militar americano predominou, à custa de moeda sem lastro, com a destruição financeira, que coloca Tio Sam desmoralizado, pode ser que surjam as condições reparadoras, naturais, que impõem suas vontades supremas. Bloqueariam, consequentemente, o avanço da economia de guerra.

Pintaria a economia da paz, no rastro da falência keynesiana guerreira?

 

Explosão da falsa consciência consumista empobrecedora.

 

O modelo de desenvolvimento econômico apoiado na escala super-consumista, que desequilibra o meio ambiente, tornando-o irrespirável, tenderia a sofrer abalos.

Qual seria o perfil da economia, combinando forças produtivas compatíveis com a sustentabilidade ambiental?

Essa pode ser a grande promessa do século 21, sinalizando mudanças quantitativas e qualitativas, no compasso da desaceleração capitalista destrutiva?

O debate está aberto.

Haveria espaço para ampliação do individualismo, que levou à loucura, na medida em que se julgou absoluto, como forma de vida, ou o coletivismo ganharia nova dimensão, como forma equilibradora, capaz de mudar paradigmas culturais e psicológicos?

O socialismo real soviético, que levou a ideologia coletivista ao paroxismo, bloqueando potencialidades individuais de se afirmarem em sua plenitude, teve como antítese o capitalismo ultra-individualista e egoísta, depois da queda do muro de Berlim, em 1989.

Resultado prático: explosão das bases de sustentação humana na terra. O capitalismo, como já disse Marx, não pode desenvolver exponencialmente as forças produtivas, porque, na busca prioritária dolucro, explode a si mesmo. Atual.

Assim, entre as radicalidades de um e outro, de um lado, o coletivismo, de outro, o individualismo, qual seria a saída?

Individualismo mais coletivismo divididos por dois? Se o unitaleralismo explodiu na crise do subprime, o pluripartidarismo emerge como natural candidato a ocupar o vácuo político.

Por enquanto , as respostas emergentes são nacionalismos. Seriam suficientes, sabendo aonde desemboca o nacionalismo capitalista japonês, na deflação, caminho que pode, ser, também, o do nacionalismo chinês, como está sendo o nacionalismo americano guerreiro destruidor da natureza?

Nova era está se iniciando, no sentido de relativizar individualismo e coletivismo em nome de um acordo para permitir sustentabilidade ambiental terrestre.

Política se impõe à economia em bancarrota

Quarta-feira decisiva para a democracia ocidental. A euforia altista do mercado financeiro, na terça, 30, depois da depressão total, na segunda negra, num sintomático dia 29, assombrando os americanos com o fantasma de possível repeteco do crash de 1929, em doses ampliadas, mostrou que os fatores psicológicos passaram a comandar os fatores econômicos. O espírito(a política) sobrepõe à matéria(o econômico).

A prova disso foi a explicação geral no mercado de que a onda altista em seguida à onda baixista se apoia na crença dos especuladores na capacidade de ser alcançado acordo político no Congresso americano em torno da solução para o impasse detonado pela bancarrota financeira americana e européia. Esperança como arma estratégia. Funcionará?

O econômico deixou de confiar em si, apelando para a política. De repente, o econômico subordina-se totalmente ao político, visto que aquele deixou de ser solução, para se transformar em problema, no contexto de um capitalismo sem lei, sem regulamentação, sem freio, completamente louco.

Os economistas, simplesmente, faliram com suas teorias equilibristas, neoequilibristas, supostamente, autônomas, auto-ajustáveis, deixadas ao livre curso dos interesses egoístas, que representam o suprassumo do espírito investidor em busca do lucro máximo possível e imaginável, tendo como alvanca abstratas expectativas supostamente racionais. Mostrou-se o oposto, ou seja, falsamente racionais. O racional revelou-se irracional. Contra a irracionalidade econômica, a economia política.

A explosão do mercado imobiliário, regado por títulos financeiros podres, produtos de imaginações expressas em derivações financeiras destinadas a trazer para o presente lucros concebidos para o futuro e vice-versa, mostrou que os mecanismos matemáticos, dominados por técnicos competentes e imaginativosa serviço da reprodução ampliada do capital na especulação, levou a sociedade a uma esquizofrenia financeira que se autonomizou como algo exterior à própria realidade. Alienação total.

Simplesmente, o espírito de contestação diante dessa autonomização ancorada em regras pré-estabelecidas a partir de dado modelo experimental abstrato tornou-se incômodo para o status quo financeiro, que transcendeu ao mundo político e pensou eternizar na imaginação da autotutela. Loucura.

 

A liberdade está acuada pelo capital especulativo em crise

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O fracasso de tal empreitada, bastante vivo à vista de toda a humanidade, nesse momento, traz de volta a economia subordinada ao interesse público-político, fruto do antagonismo decorrente das categorias sociais divergentes no seio do próprio capitalismo que trafega no interior dos partidos na democracia.

Aí, o contraditório dialético é a lei e , naturalmente, não combina com o automatismo do pensamento único mecanicista neoliberal que eliminou a política do cálculo econômico, ou seja, da própria democracia. A ira dos congressistas contra os desmandos dos todos poderosos financistas de Wall Street demonstra o óbvio: o Congresso tornara-se marionete do mercado financeiro.

No entanto, o caos financeiro busca quem para ser solucionado? O Congresso. A crise bancária, cuja face é a escassez de dinheiro, para azeitar as relações econômicas gerais, em clima de relativa confiança, vê no Congresso, e não mais no mercado, sua própria salvação.

O mercado, nesse contexto, para o grosso da sociedade, apavorada pelo fato de ser chamada a arcar com grandes prejuízos, perdeu utilidade, na medida em que virou problema que deixou de ter solução por si mesmo, como apregoavam os seus oráculos.

A solução foi buscada no plano político legislativo, porque nem o Executivo se mostrou capaz de dar conta do recado, visto que sua responsabilidade na crise é total, em razão do relaxamento geral que promoveu com a desregulamentação das regras financeiras no mercado da reprodução ampliada do capital na super-especulação.

 

Capital escraviza e aflige a população

 

O Executivo corre o risco de desmoralização completa, e o Legislativo, diante do impasse, se vê entre dois fogos: ou se agiganta e honra a democracia ou sucumbe como mera casa de lobistas a serviço dos grandes interesses anti-populares de Wall Street e abre espaço espaço para sua própria superação dialética.

Ou ele salva o contribuinte dos prejuízos, relativamente, ou os contribuintes poderão buscar um novo salvador, para além do plano democrático.

As crises monetárias, por alterarem o poder de compra da moeda, deixa o contribuinte predisposto, psicologicamente, a alterações brusca de humor que se refletem em radicalismos políticos. Hitler, como dissemos em comentários anteriores, nasceu numa dessas.

A sutileza de Lenin, ressaltada por Keynes, em 1922, de que o líder soviético percebeu nas crises monetárias a alavanca do socialismo, é o alerta geral que apavora o partido republicano, nos Estados Unidos, temeroso do avanço do estado americano, sob orientação de Lenin, na economia no compasso da bancarrota financeira. 

Fazer o que? Deixar a vaca ir para o brejo?

O desafio dos congressistas americanos, portanto, é grande. A esperança alimentada pelo próprio Congresso de que pode ser o salvador da pátria coloca na mão da democracia americana novo caminho em que o Legislativo passa a comandar amplamente o Executivo, de joelhos, sob o fracassado W. Bush.

Como o mercado, o Executivo, também, faliu, com sua moeda estatal guerreira, predisposta, sempre, ao unilateralismo imperial. O fôlego para tanto, parece, chegou ao fim.

Ou pode vir por aí, como muitos temem, um último rugido do machismo imperialista, tentando criando um novo 11 de setembro, para gerar confusão geral na plataforma global em decomposição econômica debaixo da anarquia financeira?

O fim da pré-história

 

Onde está Francis Fukuyama, aquele que, sob aplauso da grande mídia nacional e internacional, escreveu em 1989 ensaio famoso intitulado “O fim da história”, como comemoração à vitória ideológica neoliberal diante da queda do Muro de Berlim e do colapso da União Soviética e consequente  soerguimento do unilateralismo político americano na condução dos assuntos internacionais, sem levar em consideração a opinião dos outros?

O princípio único fukuyamista, que caracterizou o neoliberalismo em sua tentativa de ressurreição no século 20, a partir do final dos anos de 1970, depois de ter falido no final do século 19 e implodido no inicio do seguinte, no crash de 1929, entrou em parafuso. O cadáver insepulto tentou voltar ao útero materno, freudianamente. Não deu pé. A pretensa concepção fukuyamista do absoluto hegeliano em funcionamento perfeito, com base na unicidade básica pensante, personificada no Estado burguês, ajustado, em sua superestrutura jurídica, à lógica da lei da oferta e da procura, foi para os ares na bancarrota financeira do mercado imobiliário nos Estados Unidos. Levou de roldão grandes bancos, podendo afetar, igualmente, grandes oligopólios. Já era a etapa da pura financeirização econômica global, totalmente, desregulamentada. O império está tremendo em suas bases e, com ele, a grande mídia, que, como mostram os editoriais, analisando o processo em curso, não dispõe de suficiente clareza, para ir fundo, a fim de analisar a evolução do capitalismo em suas contradições históricas. Fica na superfície. Por isso, o panorama permanece furta-cor. Tenta-se separar duas coisas inseparáveis no capitalismo atual, o real e o fictício, sem perceber que o real passou a depender da ficção e a ficção do real, interativamente, de modo que a crise de um é a crise do outro e vice-versa.Mostrar as contradições do sistema e seus impasses seria condenar a própria grande mídia que não jogou com a dialética da realidade, mas com o seu caráter meramente mecânico, distante da concretude do real em movimento contraditório.

O pecado do falso pensador

Pecou o falso pensador americano – e seus porta-vozes do poder midiático alienado – , porque não considerou, corretamente, com amplo conhecimento de causa, a dialética, que impõe rítmo de mudança à história. 
Ficou esdrúxulo. Falar em fim da história, como foi o caso do filósofo, representa a negação da dialética colocada em uso sistemático pelo autor que tenta cultuar, ou seja, Hegel, grande pensador alemão(1770-1831). 
Marx, atrevido, dialético e amante de Hegel, a quem chamou de “O grande Hegel”, reconhecendo que escreveu O Capital com a “Ciência da Lógica”, de Hegel, debaixo do braço, fez o próprio mestre dançar no processo dialético em “Manuscritos Econômicos e Filosóficos”, sem que ele perdesse, entretanto, o passo. 
Tentou mostrar que Hegel colocou a realidade de cabeça para baixo, para ressaltar que a dialética hegeliana se altera em seu movimento, dialeticamente, para sofrer mudanças  nos pressupostos de sua própria conceituação, que ergueu a conformação do Estado burguês. 
E daí? Exausto, na tentativa de sobrepor-se a ele, Marx rende-se ao ensinamento dele, sem conseguir, inteiramente, desbancá-lo, considerando-o, enfim,  fundamental. 
Na prática, Hegel vira a realidade de cabeça para baixo, porque , como filosofo do Imperador, não podia falar as coisas muito claramente. Perderia o emprego. O espírito é a matéria e a matéria é o espírito.
Lênin, em 1922, acompanha Marx em sua admiração pela dialética hegeliana que Fukyama não entendeu amplamente. Pregou criação da sociedade dos amigos de Hegel, na URSS, como forma educativa popular para o povo, levando-o a pensar mediante formação de categorias lógicas que, impulsionam indagações conforme às contradições do próprio movimento do pensamento diante da realidade, essencialmente, dual, que avança por processo de negação.
Fukuyama, que pensou comandar a dialética, foi, ao final, detonado por ela. O fim da história dele é o fim da pré-história que ele esqueceu de analisar, observando a contradição do real concreto em movimento. Agora, é arrastado pelo próprio processo histórico dialético.
O anuncio de Fukuyama foi excessivamente prematuro. Ejaculação precoce. O fim da pré-história que ele e a grande mídia, que o consumiu, acriticamente, não viram , é a confirmação não do fim, mas do renascimento de nova história.

Lição viva da destruição da economia de guerra 

Ambos, Fukuyama e grande mídia, viajaram na maionese escorregadia da alienação, expressa na derrocada do modelo monetário que ancorou a sobrevivência da reprodução ampliada do capital, depois que o padrão-ouro, vigente no século 19, deixou de ser solução, para se transformar em problema, para o próprio capitalismo.
Uma aula de história da economia política está sendo escrita com cores vivas, excessivamente fortes e dramáticas no transcurso turbulento da bancarrota financeira da moeda substituta do ouro, o dólar sem lastro – moeda estatal inconversível – sopro de Tio Sam em pedaço de papel, que, ancorado nas bombas e produtos bélicos espaciais, dinamizou, no século 20, até agora, a economia capitalista, essencialmente, economia de guerra.
O fim da pré-história é o começo do fim da economia de guerra. O strep-tease de Tio Sam é total em cima do palco global iluminado.
Tomba-se, nesse instante, com grande encenação teatral global, a  moeda do estado burguês, que chegou ao poder no final do século 19, para desbancar, definitivamente, o poder das monarquias e suas moedas, impulsionadoras do capitalismo industrial, ancorado no discurso promotor da poupança e do puritanismo conservador que construiu a Era do Capital industrial, sob o padrão-ouro, descrito por Hobbsbaum.
O século 20 nascia não para preservar as virtudes da poupança, mas para pregar a religião consumista como abridora das portas do céu para o consumismo capitalista como passaporte para a salvação eterna.
A ciência e a tecnologia, colocadas a serviço da produção, afastaram os perigos de desabastecimentos. Pelo contrário, exigia consumo e mais consumo para assegurar a reprodução capitalista ampliada. 
Abaixo as virtudes poupadoras. Viva as novas virtudes, consumidoras, a liberação dos sonhos, construídos a partir das bases de uma moeda sem lastro, propulsora da desinibição total.
Quem daria partida a esse processo não poderia ser a velha moeda monárquica, expressão das reservas de ouro, seguras, puritanas, o padrão-ouro anti-consumista.

Eficiência capitalista exige Estado ineficiente e guerreiro

Essa filosofia econômica, predominante no século 19, levou o capitalismo, conforme descreve Malthus em “Princípios de economia política”, a viver, permanentemente, a contradição entre produção e consumo.
O desfecho de tal contradição sempre foi o de levar o sistema às recorrentes crises deflacionárias, produzidas pelo subconsumismo, de um lado, e sobreacumulação de riqueza, de outro.
O excesso de eficiência das forças produtivas produzia além da capacidade de consumo da comunidade, afetada pela sobreacumulação de capital, de tal modo que requeria, dialeticamente, o seu contrário, a ineficiência, dada pelos gastos do governo. 
Escândalo para as virtudes puritanas, mas, fazer o que? Era, como reconheceu Keynes, neomalthusiano de carteirinha, dissimulador genial, a solução para o capital. 
Malthus falara a verdade e, consequentemente, fora condenado ao ostracismo eterno.
Como superar, no século 20, essa contradição, que levou o capital à primeira guerra mundial e, em seguida, à derrocada final do modelo de economia de mercado, na crise de 1929?
Simplesmente, deixando de lado o real e adotando-se a ficção. A ficção monetária impõe-se, como arma para sustentar a reprodução ampliada do capitalismo, para livrá-lo da deflação, por meio da sua oposição dialética, a inflação, expressa na moeda estatal inconversível, sem lastro.
Fukuyma ou não viu ou fingiu que viu e fez de conta que entendeu, mas não de todo: a nova moeda, no século 20, é uma representação do Estado, não mais sob o poder do rei, mas dos burgueses, que abandonam o real e adotam a ficção.

Poder monetário abstrato comanda espetáculo

Não são mais as reservas de ouro, mas o próprio poder estatal abstrato, ancorado numa infra-estrutura jurídica, que se ergue como instância poderosa capaz de dar sustentação política à moeda deslastreada, sob domínio burguês, que deslocara o rei do comando do processo político.
Os burgueses vinham, desde a Idade Média, tentando fugir dos altos impostos cobrados pelas monarquias, para sustentar ampliações territoriais por meio de guerras. Entre 1740 e 1974, houve 344 guerras, 85 milhões de seres humanos detonados, relata Lauro Campos em  “Neoliberalismo, crise e miséria”(Senado, 2001).
Em nome dessa nobre causa, os monarcas – depois os burgueses fariam a mesma coisa – , avalizadores do padrão-ouro, extraiam riqueza da burguesia, via tributação cada vez mais elevada, até que a roda a história alcançou as monarquias, destruindo-as.
Primeiro, com a Revolução Francesa, em 1789, depois com as seguidas revoluções burguesas em toda a Europa, no século 19, apogeu do capitalismo industrial.
Faltava à burguesia sua própria moeda, para fugir do equilibrismo orçamentário imposto pelo rei, via controle monetário e fiscal. A oportunidade chegou com crise neoliberal de 1873-1893. 
Esta sinalizou explosão do padrão-ouro neoclássico. A falsa segurança das monarquias rompeu-se e emergiu o Estado que se transforma em capital para contrapar ao lassair faire, ao mercado, não mais sob comando dos reis, mas dos próprios burgueses.
Se o rei teve sua moeda, por que os burgueses não teriam a sua? Por que se limitar ao reino, se destronara o rei?
Nascia, sob o poder burguês, expresso em democracia representativa, o papel moeda inconversível estatal que levaria o capitalismo, depois do estouro do padrão ouro, na crise neoliberal de 1929, a romper os controles monetaristas monarquistas e impor sua nova lei.

Estado é capital em estresse na bancarrota

O Estado, capital em si, por si, para si, por si mesmo,  emerge, no século 20, século americano, nascido nos escombros da libra esterlina, dominante no século 19,  para irrigar a circulação capitalista. 
Essa moeda estatal, que Keynes considerou essencial, para dinamizar o capitalismo depois do crash de 29, tem a missão não mais de desenvolver as forças produtivas, mas as forças destrutivas, na guerra, como previu Marx, em O Capital. 
A moeda estatal burguesa inconversível, sem lastro, impõe, pela sua dinâmica, o fortalecimento militar do Estado burguês mediante gastos crescentes com produção bélica e espacial, como arma macroeconômica. 
São tais gastos, em sua dimensão macro, expressos na moeda estatal, que cria o chamado Departamento III da economia capitalista, para sustentar a reprodução ampliada do capital que havia entrado em crise em 1929, quando, então,  o sistema se apoiava em apenas dois departamentos: D1, produtor de bens de produção, de capital, e  D2 , produtor de bens de consumo. 
As contradições entre produção(D1) e consumo(D2), no contexto do livre mercado, à moda neoliberal, neoclássica, levou a economia à bancarrota deflacionária,que exigiu a emergência de um departamento salvacionaista, o Estado(D3), com sua moeda estatal inconversível, burguesa, sem lastro, ficção pura. 
Com D3, nasce uma moeda que não é, apenas, reserva de valor, meio de troca, aspecto ao qual se prende, neuroticamente, a grande mídia, mas, sobretudo, representa instrumento de poder, de ação política do próprio Estado investidor.  
A reserva de valor se transforma em um não-valor. A crise monetária americana, agora, mostra, claramente, esse aspecto. O dólar, moeda papel, sob ataque, corre risco de virar papel podre, deixando de ser equivalente universal.
O Estado, virando capital, sob poder burguês, livre das monarquias, cujo controle orçamentário enforcava a capacidade de investimento e expansão da própria burguesia, dispõe de uma moeda que não é neutra no processo econômico, como ensina a cartilha neoliberal. 
Os comentaristas do poder midiático, em geral, salvo honrosas exceções, estão, nas páginas da grande mídia, vendidos. O valor que cultuam, transforma-se em não-valor do qual todos fogem.

Colapso do monetarismo guerreiro

Fukuyama pensou que essa armação monetária para reprodução ampliada do capital seria eterna e estabeleceria um repouso absoluto sob o neoliberalismo capaz de sobreviver a si mesmo. Eterno se transforma em etéreo.
Esse poder monetário estatal, D3, que compra mercadorias que não são consumidas pela sociedade, mas pelo Estado – corrida armamentista, produtos bélicos e espaciais etc – torna-se a fonte de sobrevivência de D1 + D2, que haviam entrado em crise nos anos de 1930.
De lá para cá, D3 puxa D1+D2 até entrar, também, em crise. O dinheiro estatal, keynesiano, é o que, agora, explode na crise dos subprime nos Estados Unidos. Fim de linha? 
D3, conforme destaca Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”, impulsiona a produção, não de mercadorias, mas, sim, de não-mercadorias, bancada pela capacidade do Estado de manejar a quantidade da oferta de moeda , única variável econômica  verdadeiramente independente, sob o capitalismo, como reconhece Keynes. 
É ela que desperta o espírito animal dos empresários, pois, quando lança moeda em circulação, o governo 1 – aumenta os preços, 2 – diminui os salários, 3, perdoa a dívida dos empresários contratata a prazo e 4 – diminui os juros. 
Vale dizer, os empresários somente se animam, ou melhor, se animalizam, dispostos aos investimentos, quando não precisam enfiar a mão no bolso. Grande Keynes, cuja solução, no entanto, mostra-se, na crise americana, limitada, quando antes era soberana. 
O governo, diz Lauro,dinamizando D3, aumenta o consumo sem elevar a oferta, nem de D1 nem de D2, para que ambos possam conviver em relativo equilíbrio, sob relativa escassez, para que os preços subam e os lucros, idem, a fim de evitar que a contradição entre produção e consumo de bens e serviços não exploda em deflação. 
D3 é a guerra que sustenta a paz expressa em D1 + D2. Isso, até que a capacidade de endividamento do Estado mereça a confiança do mercado e da sociedade. 
Não está sendo mais o caso, no presente momento da crise monetária, que leva de roldão a arrogância uniltaralista utilitarista de Tio Sam, endeusada por Fukuyama e grande mídia.
Marx disse que o capitalismo dinamizaria as forças produtivas, entraria em senilidade e passaria a dinamizar as forças destrutivas, na guerra. A moeda estatal, no século 20, é a moeda promotora da economia de guerra. 
O fim da pré-história é o começo do fim da economia de guerra. O contrário do fim da história de Fukuyama e dos seus oráculos do poder midiático global.
A humanidade vai, finalmente, entrar na história? Ou ainda vai demorar demais?

Sucessão em ritmo de desaceleração econômica

A sucessão do presidente Lula, certamente, vai ocorrer em clima oposto ao que o titular do Planalto estaria planejando, se for levada em consideração suas  declarações super-otimistas, de primeira hora, quando estourou a crise bancária, levando de roldão o bancão Lehman Brothers e, em seguida a seguradora AIG, exigindo cobertura estatizante.

Pouco antes, já havia estourado os dois maiores bancos imobiliários, também, estatizados, dando dimensão sombria da catástrofe financeira.

Naquele momento, o presidente sorria largo. Que crise? Era sua pergunta irônica. Pergunte ao Bush, gozou. Além disso, falou grosso contra os que ficaram ao longo dos últimos vinte anos dando palpites errados sobre a condução da economia brasileira, como o FMI e o Consenso de Washington. Talvez sonhando com o dinheiro antecipado do petróleo do pré-sal, o presidente jogou para o alto as possibilidades de que consequências mais sérias venham a afetar fortemente a a economia brasileira.

Era uma convicção psicológica expressa sobre a sua segurança relativamente não apenas à economia, mas, também, à política, pois declarou sua confiança em fazer sua sucessora, ao admitir que quem o substituirá poderá ser uma mulher. Os ventos poderiam mudar, abrindo maiores chances à oposição, no momento, sem bandeira?

Confiança abalada

Sintomaticamente, a ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, supostamente, a preferida do presidente, passou a falar prospectivamente sobre supressão de todas as carências sociais nacionais mediante exploração da riqueza do petróleo depositado no pré-sal. Passou a sacar contra o futuro.

Entretanto, a confiança excessiva presidencial sobre o panorama global mudou da água para o vinho em Nova York, onde foi falar, na terça, 23, na Assembléia Geral da ONU.

Ali, na babel capitalista, a confusão era geral entre os líderes mundiais, todos apavorados. O presidente, que pregou multilateralismo e governo mundial, para tratar do assunto crise americana, sentiu que a barra da bancarrota financeira é , realmente, super-pesada e que o Brasil seria afetado.

Teve que deixar de olhar apenas para o seu umbigo.

Por mais que a economia brasileira esteja bombando nesse momento, no compasso dos números positivos do IBGE, sinalizando PIB de quase 6% em 2008, pode pintar um ressaca braba, se o crédito internacional diminuir para todos, de modo a diminuir o rítmo da economia global, como começou, efetivamente, acontecer.

O presidente Lula pegou onda econômica internacional favorável, depois que havia passado onda desfavorável, que levara o governo FHC, de roldão. Fragilizara-se financeiramente depois de três transfusões de sangue pelo FMI, sob vigilência do Consenso de Washington, nos anos de 1997-2002.

Agora, o titular do Planalto tem a oportunidade de enfrentar situação inversa, negativa, nos dois anos finais de administração petista,  podendo ser mais severa do que a enfrentada por FHC.

O ex-presidente enfrentou vendaval das economias capitalistas periféricas, de 1997 e 1998. Lula, nesse  momento, passa a enfrentar crise da maior economia do globo, no capitalismo cêntrico, do qual todos dependem, organicamente. O buraco é mais embaixo. 

As incertezas não permitem prognósticos confiaveis

 

O exemplo de susto pavoroso foi dado durante toda a semana no compasso do vai-e-vem das bolsas em queda. Os bancos, esperando sinal do Congresso americano, fecharam as torneiras. As empresas, consequentemente, sinalizaram suspensão de investimentos, para compatibilizar com tempos de vacas magras no mercado consumidor mais forte do planeta.

Os empresários brasileiros, com as torneiras fechadas para os financiamentos às importações e exportações, correram para o BNDES, pedindo empréstimos e redução da TJLP – Taxa de Juro de Longo Prazo – na casa dos 8% ao ano. 

Teria dinheiro para todos?

Certamente, as torneiras serão abertas, depois da tempestade, mas não se sabe quando a tempestade passará, mesmo depois do acerto político de democratas e republicanos no Congresso, embora os candidatos Barack Obama, democrata, e John MacCain, republicano, relutem diante de W. Bush, para aprovar o pacote de 700 bilhões, quantia considerada insuficiente para cobrir os prejuízos gerais deixados pela implosão do setor imobiliário americano altamente alavancado na base da moeda podre.

Calcula-se que os dólares podres derivativos, que encharcaram o mercado imobiliário, nos últimos dois anos, somando-se a outros créditos podres, herdados de crises especulativas anteriores, alcançam entre 45 e 55 trilhões de dólares, algo três vezes superior ao PIB americano. Seriam os chamados “credit default swaps”(CDS), sobreacumulados na praça.

Trata-se de quantia ainda não contabilizada, inteiramente, configurando fenômeno de reprodução monetária jamais visto na história do sistema, engolfado no excesso de dinheiro que perde valor e pede socorro ao governo para ser enxugado.

Parece hiperinflação alemã dos anos de 1920, que destruiu a República de Weimar e abriu espaço, com a crise bancária de 1931, à ascensão de Hitler e do nazismo, como relata Hjalmar Schacht, o mago das finanças do furher, em sua autobiografia “Setenta e Seis Anos de Minha Vida”, Ed. 34, 1999.

Nesse ambiente, a moeda brasileira seria porto seguro, sabendo que, com a desaceleração da economia global, torna-se mais difícil financiar o deficit em contas correntes de perto de 2,5 do PIB, algo em torno de 30 bilhões, quando, no início de 2007, havia um superavit de quase 1,5%?

Confiança externa maior que interna

 

O presidente Lula, na última etapa do seu governo, veria a sorte abandoná-lo em meio a possível tempestade, invertendo situação que o levou aos pincaros da popularidade de quase 95%, somando os que acham que faz um governo ótimo e os que dizem que realiza governo regular, segundo a última pesquisa Sensus?

A crença do presidente Lula nesse sentido pode ser dada menos pela confiança interna do que a externa. O jornal inglês Financial Times destacou, na quinta, 25, que o Brasil pode ser porto seguro para os investidores.

Há três meses, o primeiro ministro inglês, Gordon Brown, destacou ser necessário ampliar espaço para Brasil e Índia, no Grupo dos 8. O presidente Sarkozi, essa semana, na ONU, bateu na mesma tecla.

O século 21 não seria, pelo andar da carrugagem da crise monetária, um século americano, como foi o século 20, na era do dólar. O dólar, inchado pela especulação, abriu o bico.

Brasil e América do Sul, destacam líderes mundiais, estão na tela dos investidores. Os árabes, que estão preocupados com a saúde do dólar, que cota o preço do petróleo, podem desembarcar no Brasil, em busca de terras para comprar, a fim de garantir alimentação, como já estão fazendo na Ásia e na África.

Se for lançada moeda sul-americana e banco sul-americano, ancorados nas reservas reais sul-americanas disponíveis, os depositantes no banco poderão  pintar, como admitiu agir nesse sentido o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, em encontro com o presidente da Venezuela, Hugo Chavez.

Os dólares do petroleo iraniano seriam convertidos, no Banco sul-americano, em moeda sul-americana,como nova alternativa monetário no cenário pós-era dólar?

Nesse contexto, o Brasil, de riquezas incomensuráveis, junto com os países sul-americanos, que caminham para uma integração econômica mais acelerada, tem, aos olhos externos mais que os internos, possibilidades de continuar sendo o paraíso dos especuladores e dos oligopólios. Estes, felizes, aumentam a cada ano as remessas líquidas de lucro, já na casa dos 35 bilhões de dólares, valor correspondente ao total dos investimentos externos. Tremenda sangria financeira que se eterniza.

Apocalipse bushiano é jogo de pânico fascista

O tom apocaliptico adotado pelo presidente W. Bush para tentar convencer o Congresso a aprovar o pacote salvacionista de 700 bilhões de dólares para economia mergulhada em crise bancária, caracterizada por sumiço do crédito, oxigênio da produção capitalista, joga estrategicamente com o medo como arma política, algo tipicamente fascista, para alcançar rapidamente seu objetivo. Na prática, é dinheiro podre, sem lastro, para tentar salvar dinheiro podre, que está apodrecendo a vida dos americanos e lançando desconfianças generalizadas do mundo na saúde do dólar, como moeda equivalente nas trocas comerciais globais. A economia de guerra, tocada com dinheiro estatal fictício, bate biela.

Os americanos, nesse momento, estão, certamente, temerosos sobre o futuro da sua segurança pessoal. Vão apostar numa renovação radical, com Barack Obama, o primeiro negro que ganharia a eleição nos Estados Unidos? Ou, com medo, optariam pelo conservadorismo, deixando renovações e mudanças mais ousadas para depois?

O povo da América,  que traz, psicologicamente, a certeza de ser o enviado de Deus, do destino manifesto na terra, onde a riqueza é o bônus da benção divina, para a salvação eterna como prêmio pelo lucro acumulado no juro composto, sente o medo do imprevisível, do imponderável, do espectro da pobreza. Quem lhe dá mais segurança, depois que W. Bush espalhou a insegurança geral, Obama ou MacCain?

A classe média, super-endividada nos cartões de crédito, com os quais vai rolando seus papagaios financeiros impagáveis – calcula-se que seja de 15 trilhões de dólares a dívida global das famílias no crediário – , como se tal costume representasse segurança eterna em suas vidas, teme pelo pior.

A segurança do futuro abre-se em seu oposto, em abismo sob os próprios pés. Segurança nenhuma. Os aposentados estão apavorados, pois seus sonhos são jogados no mercado de hipotecas e ações, desde sempre. Pavor coletivo.

W. Bush, em discurso dramático, na quarta à noite, não regateou. Falou em perigo de pânico. Pânico vira estratégia política da Casa Branca.

O presidente que alerta para o pânico quer o quê? Chocar. Amedrontar. O estadista falaria como Churchill:” nada tenho a oferecer-lhes senão suor e lágrimas, sendo a salvação a capacidade de enfrentar a realidade adversa”.

O que propõe W. Bush? Papel podre para combater papel podre, o mesmo papel que está financiando a demanda global puxada pelo consumo americano, bem como ampliando, por sua vez, essa mesma demanda, por meio do aumento de gastos na produção bélica e espacial, jogo keynesiano que vem desde 1936.

O Congresso pôs as barbas de molho, porque sabe que os 700 bilhões de dólares não são suficientes. O FMI adiantou e disse ser a quantia insuficiente. Aposta em 1,3 trilhões.

Ninharia perto do mercado de dólares derivativos , raiz da crise, ainda não contabilizados, que somariam entre 45 trilhões e 55 trilhões de dólares, os chamados “credit default swaps(CDS).

Trata-se de quantia superior a quase 4 vezes o PIB dos Estados Unidos. Os 700 bilhões de dólares bushianos seriam pinto perto dessa montanha fantástica de dinheiro podre que o mercado imobiliário pôs para rodar no mercado derivativo, em que dinheiro pare dinheiro, indefinidamente.

Realmente, o capitalismo derivativo regado pelo derivodólar viajou na maionese. Agora, esburracha-se no chão. Não há fôlego keynesiano capaz de levar o tesouro americano a acalmar a situação com apenas 700 bilhões de dólares. Brincadeira.

A solução(keynesiana) que virou problema

 

O que já está acontecendo não suporta panos quentes. Pega fogo geral. Mais dinheiro sem lastro para cobrir dinheiro que apodreceu, simplesmente, resultará em inflação e mais inflação.

A bomba de enxugamento do mercado especulativo, a dívida pública, para tentar dar sensação de escassez de moeda, para que esta suba de preço, desviando a desconfiança na sua saúde, mostra-se incapaz de exercitar a tarefa keynesiana.

Keynes não é mais solução, mas, problema, na medida em que o fôlego financeiro de Tio Sam, para enxutar o mercado de derivativos, esgota-se.

Está parecendo a República de Weimar, que tinha um marco-ouro valendo 12 bilhões de marco-papel, quando todos os pepinos foram contabilizados pelo presidente do Banco Central alemão, Hjalmar Schacht, para que a cotação caisse, repentinamente, para 1 marco-ouro = 4,2 bilhões de marco-papel, como passo inicial, fundamental, para inverter a tendência e dar visibilidade ao tamanho da hiperinflação alemã entre 1919 e 1923.

Evidentemente, se os dólares derivativos, os derivodólares, os CDS – “credits default swaps –  forem contabilizados, pode pintar uma brutal desvalorização da moeda americana, semelhante à do marco-papel, que obrigaria Tio Sam a submeter-se à receita de Hjalmar Schacht, conforme demonstra em “Setenta e Seis Anos de MInhas Vida”( Ed. 34, 1999).

A dívida pública interna americana, que já não está pagando juro nenhum para vender títulos, teria que enxugar, lançando uma montanha de títulos, que, sem rendimento nenhum, sinalizaria negócio desinteressante para o rentista, que se candidataria ao empobrecimento compulsivo, como se a eutanásia rentista fosse a sua opção fundamental.

Os árabes já estão fugindo desse fantasma, buscando jogar o dinheiro arrecadado com petróleo, isto é, os dólares, em terras e outros ativos mundo afora. Dólar virou moeda quente da qual todos tentam fugir para não se queimar.

As expectativas psicológicas da comunidade, nesse momento, bombada por um sistema de comunicação instantâneo, que a estressa, extraordinariamente, produzem desastres psicológicos que se materializam em sentimentos de frustração e radicalização.

Tal espírito social irascível emerge irresistível, quanto mais aumenta a sensação popular de perda de poder de compra da moeda nacional.

Sim, W. Bush tem razão. Pânico. O titular da Casa Branca utiliza o pânico como arma política. Com essa estratégia tenta forçar a barra, no Congresso, em busca de solução rápida. 

Conseguirá? Dificil. Todos os políticos que estão disputando eleição, agora, percorrendo o território americano atrás de votos, subordinam-se aos interesses da comunidade medrosa, que quer reaver suas perdas.

Poder executivo faliu. O Legislativo compensará?

Os movimentos sociais que se manifestam pela internet, fazendo pressão sobre os congressistas, para que sejam equitativos na distribuição dos prejuízos, avisam que se não cumprirem essa determinação social, não terão o voto necessário na eleição, para continuar na vida política.

A pressa que W. Bush exige para tentar movimentar a economia e afastar o fantasma da quebradeira choca-se com a característica essencial do parlamento, ou seja, a necessária falta de urgência para tratar o jogo dos contrários, no debate político.

A divisão da sociedade capitalista em grupos sociais antagônicos impõe, dialeticamente, condição que produz o confronto entre a pressa do Executivo e a não-pressa do Legislativo, na apreciação da crise bancária.

W. Bush joga com a pressa, pois pode ser ejetado, antes de terminar seu mandato, pela ira popular. Já se os congressistas, sob pressa de W. Bush, acionarem decisão que tenha como resultado frustração, deixam de ser acreditados, para serem desacreditados pela sociedade.

A pressa de W. Bush, que tem por trás os poderosos interesses financeiros e oligopolistas, que dominam Wall Street, representa, na prática, uma armadilha para os congressistas e uma má conselheiras, deixando o Congresso diante de dois caminhos: ou render-se ao Executivo ou agigantar-se e tornar-se, na crise, maior que o Executivo.

Pode lançar sementes de mudanças, no médio e longo prazo, no comando do próprio poder político, visto que as lições a serem tiradas dos acontecimentos dramáticos do presente se materializarão em possíveis alterações na correlação de forças no contexto da democracia americana.

O que se vê, na bancarrota financeira americana, não é um desastre do mercado, mas do governo, que deixou o mercado comandá-lo. O Congresso, na prática, está sendo jogado no fogo, para resolver problemas criados pelo Executivo. Qual a fatura que cobrará?

 

Casa Branca se autocondenou ao render-se ao mercado

 

 

Como o governo é executivo, legislativo e judiciário, com distribuição de atribuições de poderes relativos aos três entes republicanos no ambiente da democracia representativa, sua capacidade institucional de comandar o processo econômico tenderia a ser democraticamente contestada.

A destinação constitucional do Executivo para executar poderia ser relativizada com o legislativo que além de legislar poderia, também, executar, como se dá no modelo parlamentarista. As chances do legislativo estão colocadas por W. Bush, desesperado.

O executivo, no governo imperial americano, entrou em crise, porque em vez de disciplinar o mercado capitalista, rendeu-se ao mercado, à especulação, à loucura.

Comanda o caminhão capitalista na ladeira rumo ao precipício sem freio, na banguela, a loucura dolarizada-derivativa, proporcionada pelo Executivo, que abandonou as regras da regulamentação, da fiscalização e da prudência, eximindo-se da responsabilidade de ser coordenador geral do processo.

Inevitavelmente, a desmoralização do Executivo se intensficia, quanto mais elevados são os prejuízos financeiros da população, afetada pela irresponsabilidade do próprio Executivo

A questão é econômica, mas, também, política.

A pressa de W. Bush é a pressa de uma Executivo falido, em cima de um poder, o Legislativo, que somente se justifica, constitucionalmente, se tiver condições de impor a relatividade das coisas no ambiente do poder democrático. Sua lei é a flexibilidade.

A lei de W. Bush, enforcado pela crise bancária, é a da inflexibilidade, característica da pressa, semelhantte ao caráter das medidas provisórias que governam o Brasil desde a crise monetária dos anos de 1980.

O jogo do medo de W. Bush é a tentativa de ganhar no grito. O jogo do Congresso, pela sua peculiaridade, é o oposto.

A democracia americana, nas águas da bancarrota financeira impressionante, está diante do seu maior desafio.