Cadastro positivo é fetiche legislativo

michel-temer a liderança que se revela anti-lidernaça por não evidenciar como verdadeiro líder o caráter social do cadastro negativo, a fim de buscar as razões de sua existência, em vez de fixar nas suas consequênciasmaurcio-rands é a expressão máxima da alienação parlamentar ao tomar o acessório pelo principal e não relatar que o cadastro negativo existe porque o cadastro positivo o impõe, revelando que a aparência não é a essência e vice-versa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A aparência não é a essência. O que está por trás do cadastro positivo , aprovado pela Câmara dos Deputados, é a verdade segundo a qual os parlamentares fogem da realidade que leva os consumidores a adquirem o cadastro negativo. O que faz isso acontecer, evidentemente, é a fuga do parlamento nacional dos problemas reais.

O cadastro negativo ou positivo não é a causa dos problemas, mas as consequências deles. Os nobres parlamentares se debruçam sobre a aparência evitando a essência. Esta requereria um aggiornamento parlamentar nacional, para adequar o Congresso aos interesses da sociedade e não apenas aos dos que dominam a economia política brasileira em sua totalidade, o sistema financeiro oligopolizado em franca agiotagem.

O cadastro positivo é a expressão acabada da sua própria negação, já que o cadastro negativo como representação dos interesses da sociedade inadimplente emergiu porque mereceu tratamento desigual relativamente ao cadastro positivo como representação do sistema financeiro. Sem ampla discussão popular, o cadastro positivo tornou-se tradução da imposição dos bancos ao Congresso para condenar o cadastro negativo afetado pela conjuntura determinada pelo primeiro em prejuízo do segundo, no âmbito da macroeconomia política brasileira.

Discutiu-se , conceitualmente, o cadastro positivo e negativo em suas aparências, ou seja, o que é cadastro positivo, senão aquele que dispóe de conta bancária e contas em dia, e cadastro negativo, senão aquele que é o oposto, ou seja, conta bancária negativa e contas a pagar. Limitou-se ao relacionamento mecanicista entre as partes, não o relacionamento interativo, dialético, político. Relação invertida entre objeto e sujeito. O sujeito vira objeto e o objeto, sujeito.

Não se discutiu o  cadastro positivo e o cadastro negativo em sua expressão real, isto é, social. Na sociedade capitalista a relação de troca acaba se verificando naturalmente não como relação entre pessoas, mas entre coisas, até que as pessoas viram coisas e as relações entre elas se tornam normais. Elimina-se, fundamentalmente, seu conteúdo social. Emerge poder, que, segundo o genial Marx, torna-se estranho à própria pessoa, esmagando-a, alienando-a sob o manto fetichista do capital, para o qual tudo é mercadoria.

Assim, dialeticamente, o cadastro positivo seria o seu próprio contrapolo, o cadastro negativo, em meio a uma relação social encoberta por relações entre coisas, em que o interesse social é desbancado pelo interesse econômico no âmago da economia política, sob aprovação parlamentar. O cadastro positivo é confeito de bolo, como se os bancos precisassem do Congresso para saber o conteúdo real da existência do cliente correntista em seu cadastro contábil. Piada. 

 

Eutanásia da representação

 

 

A plena alienação neorepubliccana neoliberal contorna a beleza arquitetôn ica de Oscrar Nieymeier

Como o Congresso Nacional , ao renunciar a sua condição de legislador e fiscalizador dos poderes republicanos, dominados, na Nova República, pelo capital financeiro, acabou virando mercadoria com preço fixado por tabelas no mercado do caixa dois eleitoral. Renunciou, durante a Nova República, aos seus pressupostos fundamentais. Perdeu credibilidade, virou em seu contrário. Em vez de ser a expressão do poder popular, transformou-se, neorepublicanamente, neoliberalmente, na expressão do poder anti-popular, financeiro. Praticou a eutanásia da representação.

A Constituição neorepublicana de 1988 tem que ser lida em seu contrário em termos dialéticos. Não é a Constituição cidadã. É a constituição anti-cidadã. Basta olhar as taxas de juros ao consumidor brasileiro. Inicialmente, a Constituição neorepublicana neoliberal cercou os juros dos agiostas. O artigo finado 192 era a expressão do poder popular constitucional sobre a cobrança de juro limitado em 12% ao ano.

O furor neoliberal tucano , sob pressão do Consenso de Washington, suprimiu a supremacia popular consticuionalmente na garantia da fixação dos limites para os juros. As normas bancárias permaneceram relativamente rígidas, para evitar que os bancos alavancassem exageradamente, mas as regras estabelecidas pela norma ficaram livres de controle no que diz respeito ao crédito direto ao consumidor. Cada empréstimo, a juro de compostos de 150% ao ano, representa um assalto, crime do colarinho branco em permanente repetição. Não se ouviu do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, nenhuma reprimenda indireta, como tem feito relativamente aos sem terras. Estes ele condena por tentar suprimir a propriedade. Já os bancos, que representam vampirismo puro sobre a bolsa popular, ou seja, sobre a propriedade privada do consumidor, não merecem nenhuma atenção de sua excelência. Há propriedades e propriedades.

Não se discutiu o cadastro negativo e o cadastro positivo sob o ângulo do poder político do sistema financeiro no contexto constitucional, que eterniza um privilégio para os bancos, de um lado, e um constante prejuízo para a sociedade, de outro. 

Os bancos, atuando em oligopólios, sem jamais serem perturbados pelo Cade, jogaram sempre no ataque, forçando os riscos da economia brasileira endividada historicamente no mercado internacional, para aumentar os juros. Esse foi o jogo permanente, durante a crise monetária dos anos de 1980, depois que o Banco Central dos Estados Unidos subiram os juros de 5% para 17%, em 1979, desatando a quebradeira financeira capitalista periférica.

Os riscos levaram ao controle dos governos estaduais e do arrocho fiscal que desestruturou o Estado deixando-o vulnerável, a partir do presidente Fernando Collor, brincadeira na mão dos banqueiros internacionais. Itamar Franco, nacionalista, foi fulminado pela grande mídia, porque tentou organizar resistência à banca, transformando-se em alvo de chacota dos tucanos. Todos os demais governos neorepublicanos, devidamente, amarrados, instituicionalmente, pela lei de (i)responsabilidade fiscal, subordinaram-se à pregação do Consenso de Washington. Era necessário baixo crescimento econômico, em face do endividamento estatal, bombado pelos juros altos, para compatibilizar a relação PIB-pagamento dos juros. Equilíbrio homogêneo absoluto sob o manto da irresponsável LRF. Toda a armação consistiu-se em decretar a propriedade privada para os bancos e a exclusão da propriedade privada para a sociedade, em termos financeiros.

Tudo assegurado, constitucionalmente, no ambiente em que o Congresso passaria a ser joguete da governabilidade provisória. Nasceria ali o cadastro positivo para os bancos e o cadastro negativo para a sociedade sujeita aos juros altos desregulamentados.

 

Constituição anti-cidadã

 

Os propositos igualitarista da con stiuição cidadã de ulisses guimares expressa no artigo 192 foram destruidos pela constituição anticidadã neoliberal determinada pelo Consenso de WashingtonO artigo 166, parágrafo terceiro, ítem II, letra b, é a expressão do poder bancário constitucional neoliberal neorepublicano, na medida em que fixa a proibição de contingenciamento dos recursos orçamentários ao pagamento dos serviços da dívida interna. Todos os demais setores integrantes do chamado orçamento não-financeiro – educação, saúde, infra-estrutura, segurança, emprego etc – ficaram sujeitos ao contingenciamento, enquanto os bancos ficaram protegidos no orçamento financeiro da União. Tremendo privilégio neoliberal. Até quando?

A prioridade número um da Nova República, sob domínio do Consenso de Washington, foi o pagamento dos juros aos banqueiros. Os demais setores da economia se subordinaram às exigências impostas para formação de crescentes superavits fiscais, de modo a bancar o pagamento do serviço do endividamento governamental, impulsionado por políticas monetárias que valorizariam o real em forma de juros altos, para atrair especulação financeira interna e desestruturação industrial em nome do combate à inflação. Mundo favorito da bancocracia, constitucionalmente, assegurado pela Nova República fetichista.

Objeto constitucional no lugar do sujeito constitucional, eis o retrato neoliberal da Nova República. Criou-se, debaixo da conticuição anti-cidadã, dois pesos e duas medidas no espaço institucional neorepublicano obediente estritamente ao Consenso de Washington. Ficou fixado aí o compromisso maior do Congresso brasileiro que passaria a pagar o preço de subordinar-se às regras ditadas pela Casa Branca aos executivos da Nova República herdeira da ditadura militar. O presidente da Venezuela, Hugo Chavez, não está totalmente errado quando diz que o Senado é papagaio de Washington. A verdade dói, principalmente, vindo de pregador do socialismo na América do Sul.

O cadastro positivo aprovado pelo Congresso é a negação do Congresso. Em vez de encarar de frente as causas dos problemas nacionais, prioriza os assuntos que interessam aos credores. A resolução dos problemas dos bancos é a não-resolução, o agravemento, dos problemas populares.

 A subjetividade torna-se, com o cadastro positivo, a marca registrada do parlamento nacional, na medida em que demonstra, cabalmente, o mecanicismo político que tomou contra dos alienados congressistas, em que se prioriza a relação entre coisas em vez de relação entre pessoas, porque, sob a Nova República, o Legislativo brasileiro virou o negativo de si mesmo. De sujeito, que nunca foi, desde os anos de 1930, em objeto, em que se constitui, permamentemente, sob governabilidade provisória, anti-popular. O cadastro positivo é o cadastro negativo do Congresso.

Mensalão: Barbosa complica PSDB e livra PT

O PSDB de Minas Gerais sofre violento golpe com a decisão do ministro do STF e abre espaço para os petistas avançarem sobre o prestigio do governador Aécio que pode sofrer abalos com a mancha na reputação do seu correligionário senador mineiroNa justiça comum, Valério, com dinheiro para pagar bons advogados, terá seu julgamento protelado ad aeternumO ministro, com sua decisão, cria fato político que esquenta ainda mais a temperatura política no Congresso em meio aos movimentos sucessórios já acelerados pelo presidente Lula que o indicou para o STFInacreditável! Saiu escorregando do julgamento pelo Supremo Triunal Federal  do episódio do mensalão Marcos Valério, o epicentro do negócio, a via pela qual todas as informações e recursos financeiros transitavam para abastecer os mensaleiros lulistas e aliancistas, no maior e mais escandaloso caso de corrupção da Era Lula.
O ministro Joaquim  Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, relator do mensalão, acatou sugestão dos advogados mineiros de Marcos Valério, para que o seu julgamento seja feito pela via comum da justiça e não por um foro privilegiado, como ocorreria se fosse julgado pelo STF.
Como, nas instancias inferiores, os advogados são craques para livrar seus clientes, jogando com os prazos e recursos jurídicos protelatórios, tornando quem tem dinheiro eternamente livre, somente sendo presos ladrões de galinha, Marcos Valério ganha, na prática, com o despacho de Barbosa, a liberdade incondicional dos ricos.
 
O operador do mensalão pagará, certamente, caro, quem sabe com o dinheiro mensaleiro depositado em paraísos fiscais, para seguir os trâmites jurídicos da justiça desde o início do seu processo até etapa final, que seria o próprio Supremo Tribunal Federal. Certamente, quando Valério, pela via comum, tiver que chegar à frente do STF, para apreciação final das suas estrepolias financeiras como gerente do mensalão, o próprio ministro Joaquim Barbosa poderia estar aposentado. Valério, lá para a casa dos 7o anos, dadas as chances proporcionadas pela burocracia jurídica para protelar julgamentos, à custa de altos honorários advocatícios, poderia limpar a sujeira formal de sua biografia.

A sorte sorriu para Valério pelas mãos de Barbosa. Já , quanto ao senador tucano mineiro Eduardo Azeredo, esse, sim, por dispor de mandato, não poderia usufrir da justiça comum, que o levaria à salvação, ou não, de forma mais demorada, como deverá acontecer em relação a Marcos Valério. Por possuir foro especial, será fritado na gordura quente da apreciação dos ministros do STF, celeremente, se comparada à demora decorrente da interminável tramitação verificada na justiça comum.
A situação se inverte. Os que dispõem de foros privilegiados passam a sonhar com a condição de não disporem desse foro, altamente carbonizado, principalmente, no ambiente político nacional, subordinado, de agora em diante, a todas as incertezas decorrentes da bancarrota financeira global que desatou a luta de classes em um capitalismo neoliberal moribundo.
Valério, com os seus advogados, estão dando uma rasteira geral naqueles que acreditaram na eficácia da ação do mineiro esperto. Deixam aqueles – cerca de 40 correligionários da coalizão governamental –  a quem financiou na chuva e se salva debaixo da lage burocrática da justiça comum, movida por recursos e contra-recursos intermináveis, graças ao despacho do ministro Joaquim Barbosa.
 

No caminho de Cunha Lima
 

Cunha lima se livrou do foro privilegiado, preferindo submeter-se à justiça do seu estado, onde teria mais chances de se livrar, já que ser privilegiado no Congresso tornou-se arriscado no cenário da corrupção generalizadaturma-do-mensalao representou a página mais suja da era petista, eliminando a reputação do PT como partido que renovaria os costumes éticos brasileiros. Acabou na sarjeta do imoralismo político

 

 

 

 

 

 

 

 

 Restaria ao senador Azeredo, por meio dos seus advogados, advogar a tese cínico-escapatória de que quando se meteu com Valério era governador de Minas e portanto teria que ser julgado em tal condição não pelo Supremo Tribunal Federal, mas pelo Tribunal Superior de Justiça(STJ), na instância jurídica mineira. Colaria? Difilmente, pois teria que renunciar para que isso acontecesse.
Há antecedentes. O ex-governador e ex-deputado da Paraíba, Ronaldo Cunha Lima, pai do ex-governador Cássio Cunha Lima, recentemente cassado pelo  STF, por corrupção eleitoral, conseguiu escapar do foro privilegiado do Supremo, para ser julgado pelo Tribunal de Justiça da Paraíba. Aqui, teria chances de escapar das acusações sobre tentava de matar, em novembro de 1993, o ex-governador Tarcísio Burity. Tal possibilidade dificilmente concretizaria pelo julgamento dos juízes do STF, no fórum privilegiado.
Azeredo, que, graças ao corporativismo senatorial, escapou do destino dos ex-deputados José Dirceu(PT-SP) e Roberto Jefferson(PTB-RJ), de terem cassados pela Cãmara seus direitos políticos, correria o risco de encerrar, de forma humilhante, sua carreira política, abreviada pelo julgamento do STF, graças à sua condição de dispor de foro privilegiado. Ou renunciaria, para escapar da humilhação como fez o ex-deputado paraibano, transformando-se, também, em ex-senador mineiro, para comparecer perante à instância judiciária, em Minas, como fará Valério?
Certamente, a espada de Dâmocles pesando sobre o pescoço de Azeredo poderá mobilizar os tucanos em defesa dele, obviamente, não solicitando suspensão do foro privilegiado, mas exigindo que o julgamento de Valério precisaria ser apreciado, igualmente, de forma rápida pelo STF. Do contrário, o tucanato ficará exposto à execração pública, enquanto os petistas – Valérios e os que não dispõem de mandatos, relacionados no julgamento do mensalão – escapariam pelo ralo da justiça comum protelatória.
 

Desgaste para Aécio
 

aecio-neves sofrerá impacto indireto, mas forte, pelo desgaste do senador Azeredo, seu correligionário, que o prejudica na sucessão mineira e presidencial, abrindo espaço para o PT nas Geraiso senador tucano Eduardo Azeredo aliado do tucano governador Aécio Neves, candidato potencial à sucessão lulista, o estrago direto da imagem do parlamentar afetaria indiretamente a imagem do executivo comandante do Palácio da Liberdade.
 
A reputação do neto de Tancredo Neves desgastaria , abrindo, consequentemente, maior espaço para o PT em Minas Gerais, na sucessão mineira, enquanto o enfraqueceria na sua disputa interna dentro do PSDB com o governador de São Paulo, José Serra.
O despacho jurídico do ministro Barbosa teria potencial de fogo para atiçar petistas contra tucanos e tucanos contra tucanos, pois, evidentemente, os serristas esfregariam as mãos com satisfação diante do possível desgastes aecista.
Restaria saber se a decisão de Barbosa estaria destituida de caráter político, para ganhar, apenas, conteúdo técnico, ou se, ao contrário, conteria, essencialmente, carburação política, que esquentaria ainda mais a corrida sucessória.
 
De uma coisa não escaparia o controvertido ministro do Supremo: da acusação por parte da oposição de que estaria dando curso a uma posição política ideológica antineoliberal com a qual os seus ex-colegas de Ministério Público Federal o identificam.
 
Como Azeredo, tucano, seria, na Era FHC, a expressão explícita do neoliberalismo que tomara conta do país, sob orientação do Consenso de Washington, Barbosa, indicado para o STF pelo presidente Lula, que adota medidas antineoliberais, no calor da crise global, estaria se identificando-se com posições governistas, voltada ao desgaste, quanto maior possível, dos tucanos, adversários maiores da coalizão governamental em 2010.
 
Ou seja, a decisão de Barbosa, implicitamente, suscitaria conteúdo viés político ideológico eleitoral. O STF estaria entrando, também, na dança da sucessão?
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Real desbanca dólar sob ataque especulativo

Lula e Obama estão prisioneiros dos destinos que serão dadas pelas contradições que enfrentam o sistema financeiro global sob a moeda americana que sofre ataque diante do receio de que o governo americano não seja capaz sozinho de conduzir nova política monetária que seja seguida pelo mundo globalizado

A valorização do real frente ao dólar, durante a semana, no momento em que os poupadores das cadernetas sacam R$ 1,5 bilhão no caixa, com medo de ataque a eles pelo governo ou porque precisam deles para cobrir suas dívidas afetadas pelo desemprego, colocou em cena a expectativa e desconfiança globais relativamente ao resultado que seria obtido pela tentativa do presidente Barack Obama de salvar da falência, sem estatização bancária, os bancos privados, outrora mais fortes dos Estados Unidos, agora, garroteados pela bancarrota financeira internacional. Indiscutivelmente, é o assunto mais palpitante do mundo na debacle da financeirização econômica neoliberal global.

Como o mercado, com as barbas de molho,  especula sobre a verdadeira capacidade de os bancos passarem no teste de estresse aplicado pelo Banco Central dos Estados Unidos, os detentores de dólares continuam altamente desconfiados, predispondo-se a buscarem ativos mais seguros, embora 10 dos 19 testados, mediante apoio financeiro governamental, tenham se saído mais ou menos, deixando dúvidas generalizadas. Temem os americanos que a banca privada, se sair do colo estatal, onde se encontra baleada, não poderia andar sozinha. Vigora firme o dirigismo estatal americano que ganha colorido chinês no modo de conduzir o capitalismo.

Há, por isso, tendência à fuga do dólar, especialmente, para os emergentes, que, dessa forma, vêem suas moedas valorizadas frente à moeda americana, como está sendo o caso brasileiro. Suficiente em abundância de matérias primas para as manufaturas em geral, terras que asseguram até três safras anuais , petróleo e etanol, biodiversidade infinita, além de base industrial competitiva e mercado interno amplo, o Brasil vai chamando a atenção em plena crise. Por duas vezes, durante a semana, o Banco Central teve que jogar água na fervura, sacando reais para comprar verdinhas encardidas , a fim de reanimá-las.

Os exportadores brasileiros já seguem as tendências maiores do mercado em franca especulação contra o dólar, que pode sofrer novos abalos, se intensificar a desconfiança nos bancos privados, semi-estatizados, como forma de manterem vivos. Ao contrário de antes de outubro do ano passado, quando começou a crise, os exportadores deixaram de acumular dólares ou manter os créditos junto aos importadores. De repente, começaram a correr do dólar para o real, diante da sensação de perda psicológica.

O inconsciente instintivo do empresário deu alerta sobre o perigo de os bancos americanos sucumbirem, jogando o dólar no chão, caso retarde demais a estatização bancária, para aliviar as tensões do mercado. Como este deixou de acreditar em si mesmo, passando a torcer e a clamar pelo socorro estatal, busca desovar seus dólares, quanto mais o teste de estresse aos bancos, aplicado pelo governo, sinaliza desconfianças na capacidade deles voltarem a ser saudáveis sem o colo do Estado americano dirigista à moda da China. É como se o sistema vivesse a expectativa de um pré-dilúvio, tendo Barack Obama comandando nova Arca de Noé.

Além dos exportadores, os fundos de investimentos estão recebendo ordens dos aplicadores para sairem dos dólares e comprarem ativos nos países emergentes. O movimento levou o FMI a divulgar relatório de que a novidade econômica de 2009 poderá ser a resistência dos países emergentes sul-americanos, diante da paralisia econômica européia e americana. Motivos para os dólares e derivativos empoçados se dirigirem para as praças emergentes, valorizando as moedas nacionais.O movimento até tem jeito de calote.


Corrida aos emergentes

O excesso de dólar na praça global joga o preço da moeda americana no chão quanto mais o mercado desconfia da capacidade de o governo barack obama de remover os créditos tóxicos que empoçam a praça mundial

O medo de reter dólares em meio ao teste de estresse dos bancos americanos valorizam as demais moedas , quanto mais os que acumulam a moeda americana buscam dela se safar para adquirir outros ativos. As informações de que investidores , em larga escala, estão comprando terras no oeste da Bahia, maior espaço mundial para plantio de leguminosas exportáveis, colocam os fundos de investimentos na linha da especulação com ativos nos países emergentes, como fator de reprodução do capital que está sem onde aplicar depois do estouro financeiro nas praças americana e européia. Nelas, ele está ocioso e sucumbindo-se à eutanásia do rentista sob juros negativos em nome da reanimação do consumo e da produção.

Não haveria, para esse capital sobreacumulado, possibilidade de reproduzir-se na construção da infra-estrutura européia e americana, onde ela está bem edificada ao longo dos últimos cinquenta anos, destacam analistas internacionais. Do mesmo modo, os gestores dos fundos perceberam que com o ímpeto anti-consumista que toma conta da Europa e dos Estados Unidos, no auge da bancarrota financeira que paralisou o crédito, os rendimentos das ações dificilmente voltariam a ser o que eram na escala altamente consumista, como destacou aos seus acionistas o empresário mais rico dos Estados Unidos, Warren Buffett, no final da semana passada.

Restariam outras alternativas ao capital especulativo, que está se desvalorizando rapidamente, depois da bancarrota, na qual, calcula-se perdas de mais de 8 trilhões de dólares pelas famílias. A mais importante delas, segundo Buffett, seria a oportunidade dos investimentos em infra-estrutura nos países emergentes, onde quase tudo ainda está por fazer. Do contrário, seus acionistas tenderiam a entrar em perdas maiores, porque não haveria lucratividade nem na especulação bursátil diante de empresas cujos produtos perdem mercado diante na onda anti-consumista em marcha nem na mera formação das bolhas especulativas, animando setores econômicos, para gerar riqueza fictícia, como predominou até à implosão especulativa global.

No novo cenário, os fundos buscam transferir, agora, os dólares e derivativos tóxicos que perderam valor na praça capitalista rica, para a praça dos emergentes. Comprariam nessa praça próspera os ativos reais que os seus ativos fictícios não compram mais na praça do primeiro mundo em bancarrota.

A valorização das moedas dos emergentes começa a ser construída pelo novo movimento dos fundos de investidores que atuam em escala global , bombando possibilidades para sustentar a reprodução do capital acumulado na especulação. Na prática, vê-se uma corrida contra o dólar.

Nova bolha especulativa

Buffett reuniu seus acionistas e destacou que os tempos de bonança acabaram, emergindo a era do não-consumismo, o que leva os invstimentos para os emergentes, onde a especulação pode se instalarArmínio Fraga sentiu o cheiro da nova onda especulativa em cima do real e busca coordenar fundos de investimentos interessados em sair do dólar para aplicar nos ativos brasileirosNOBEL PRIZE ECONOMICS

Configura-se, claramente, que o governo Barack Obama , como destacou o premio nobel de economia Edmund Phelps, não conseguirá sair sozinho da crise. As informações generalizadas nesse sentido, concorda ele, criam o ambiente de desconfiança que condena os bancos à danação, salvo se o governo ajudar.

O sarcasmo dos americanos demonstra o estado de espírito nacional. Antes de deixar o poder, W. Bush, em desabafo perante os banqueiros, disse que o mercado financeiro passara a viver tremenda ressaca. Era a consagração da verdade do fracasso da união do estado americano com a banca privada, que comanda o Banco Central dos Estados Unidos, desde sua criação, em 1913, pautada pelo pensamento neoliberal avesso a qualquer regulamentação.

No plano das finanças, Washington tornou-se totalmente neoliberal, para livrar o capital de qualquer freio à sua própria acumulação, enquanto no plano econômico, continuou mantendo posição protecionista para sustentar setores que perderam a competitividade global.

O requiém final da era neoliberal republicana americana sob W. Bush é o requiém do sistema financeiro que Barack Obama herdou. Sua tentativa de transformar o funeral da bancocracia privada em festa de ressurreição dela coloca o mercado mundial, mergulhado no excesso de moeda americana e seus derivativos tóxicos empoçados, como quem possui brasa no bolso.

No Brasil, a fuga do dólar poderia afetar a política monetária do Banco Central no sentido de tornar desnecessária sustentação do juro elevado, para valorizar o real, atraindo especuladores para os títulos públicos, a fim de bancar investimentos anticíclicos estatais, porque, simplesmente, essa valorização começa a ser dada por outros meios, essencialmente, pela desconfiança dos fundos de investimentos no próprio dólar.

O ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, notório especulador internacional, deu o sinal da nova onda que se forma no rastro da fuga do dólar e da consequente valorização do real ao destacar que as ações na bolsa passaram a ser os alvos dos fundos internacionais.

Se ocorrer corrida dos fundos, trazendo dólares ao país, ao mesmo tempo em que o BC sustenta juro favorável ao especulador nos títulos do tesouro, pintaria supervalorização cambial. Seria o claro sinal de que o Brasil – entre os emergentes – poderia se transformar em nova bolha global.

Serra politiza juros e desestabiliza Planalto

José Serra pegou o calcanhar de aquiles de Lula, os juros altos que o povo é obrigado a suportar por conta da prática de uma políticamonetária que visa elevar o valor do real , aumentar a dívida e desestruturar o parque produtivo, gerando milhares de desempregos, enquanto se privilegia os interesses do sistema financeiro

O governador José Serra, de São Paulo, descalçou as luvas com que estava tratando o governo Lula e sua candidata Dilma Rousseff e partiu para o pau. Deitou falação aberta na Fundação Getúlio Vargas, na capital paulista, sobre o absurdo dos juros vigentes no Brasil. O Banco Central, sob comando de orientação ultrapassada, para os novos tempos, disse, insiste em valorizar a moeda nacional, mantendo juro alto para atrair especuladores. Tudo em nome do falso combate à inflação, que já está nas cordas. O resultado , segundo o governador, seria aumento ainda maior da dívida pública interna, e consequente desindustrialização no ambiente acirrrado da competição protecionista mundial em meio à bancarrota financeira que paralisou o crédito.

O governador de São Paulo, velho crítico dos juros altos, entra no vácuo da fragilidade lulista. Parte com tudo: considera que a política monetarista do governo Lula é puro Charles Ponzi, o famoso especulador italiano , que, nos anos de 1920, enganou, nos Estados Unidos, milhares de pessoas por meio do velho, manjado e, eternamente, repetido jogo da Pirâmide. O BC seria adepto do charlesponzianismo, também, repetido, recentemente, pelo neo Ponzi, Bernard Madof. Maior ataque do que esse ainda não tinha sido dado ao governo, de representar a figura do assaltante à bolsa popular.

O titular do Bandeirantes partiu para o confronto, politizando a discussão. Está amparado por pesquisas da Fundação Getúlio Vargas que dão conta de que 46% dos eleitores e eleitoras consideram os juros fatores essenciais para a vida econômica e política nacional. Perde, apenas, para o desemprego, que mobiliza as preocupações  de 74% dos que votarão em 2010. Quanto mais o Banco Central continuar vendo falso perigo de inflação – que valoriza capital e prejudica salário – em meio à ascendente deflação – que destroi capital e salário – mais jogará o jogo de José Serra, em plena campanha, malhando o judas nacional: o juro excessivo que escraviza o povo por meio do capital.

O Planalto está sem o que responder a Serra, porque também está dividido relativamente à política econômica, amarrada aos velhos pressupostos do Consenso de Washington. Este morreu de morte decretada pelo primeiro ministro da Inglaterra, Gordon Brown, na reunião do G-20, mas, no Brasil, ele persiste, como cadáver insepulto,  na existência de dois orçamentos, no contexto da União, comandados por critérios políticos diferenciados que prejudicam a sociedade em nome do privilégio ao sistema financeiro.

Meirelles favorece PSDB

A crise pegou a política economica jurista do presidente do banco central no contrapé transformando-a em perigo potencial para o governo lula , descartando possibilidade de sucesso político sucessório se ela continuar fazendo estragos, impedindo investimentos e tensionando as contas públicas, sustentando juros altosO jogo especulativo de valorização da moeda determinado pelo juro altamente positivo praticado pelo Banco Central, cujos efeitos são redobradas incertezas que garantem juros extorsivos ao consumo e à produção, aprofunda as contradições nas relações politicamente explosivas do orçamento financeiro e do orçamento não-financeiro no contexto do orçamento da União. Tal divisão foi realizada pelo Consenso de Washington, depois da crise monetária dos anos de 1980, para estabelecer prioridades explícitas da política econômica.

Os ajustes fiscais e monetários, até agora, têm sido feito, apenas, em cima do orçamento não-financeiro, alvo de contingenciamentos generalizados. Por isso, faltam recursos necessários para saúde, educação, segurança, cultura, infra-estrutura. cujos recursos orçamentários são intermitentemente contingenciados em nome de economia forçada para garantir a prioridade número um da política econômica em vigor: pagar os juros que colocam em dia as contas do orçamento financeiro, que diz respeito, exclusivamente, aos interesses dos credores. Este jamais pode ser contingenciado, conforme determina o artigo 166, parágrafo terceiro, item II, letra b, da Constituição. Os constituintes fizeram a festa dos banqueiros, demonstrando seu perfil de classe.

O orçamento não-financeiro e o orçamento financeiro foram separados para que o equilíbrio na relação dívida-PIB fosse realizado em cima do primeiro em favor do segundo, segundo regras fixadas pelo Consenso de Washington. Quem descumprisse tais regras estaria violando a Lei de Responsabilidade Fiscal(LRF). A verdade eterna, estabelecida de fora para dentro,  subordinou os governos neorepublicanos às ordens da Casa Branca. Se a reação de dentro para fora emergisse seria irresponsabilidade fiscal.

A grande crise está demonstrando que a gritaria dos prefeitos e governadores, perdedores com a queda da arrecadação, proveniente da redução do nível de atividade econômica, demonstra, do ponto de vista do interesse nacional, em oposição ao interesse dos credores amparados pelo Consenso de Washington, que, na prática, a Lei de Responsabilidade Fiscal se transforma, simultaneamente, em seu contrário, em Lei de Irresponsabilidade Fiscal. Brevemente, prefeitos e governadores poderão estar aplaudindo Serra, fortalecendo sua cruzada anti-jurista.

Nova Carta aos Brasileiros

O ex-ministro Palocci negociou os termos da Carta aos Brasileiros que caducou inteiramente diante da emergência da crise que desestruturou as bases econômicas do capitalismo nacional, colocando os bancos em situação de privilégio insustentávelO presidente Lula busca reduzir os pagamentos dos juros, diminuindo economia para fazer superavit primário, mas o excessivo endividamento, na casa de R$ 1,3 trilhão, produz, em seu movimento vegetativo, uma despesa crônica, cujas consequências são as resistências dos grandes bancos em embarcarem na redução dos juros. A sucessão, em decorrência disso, já fixa hora e lugar do confronto entre o governo e o sistema financeiro.

Assim como prefeitos e governadores entraram em falência, no contexto da crise que desacelerou a produção , o consumo , a arrecadação e o consequente repasse de recursos da União aos estados e municípios, da mesma forma, no ritmo da desestrutução em marcha, o governo federal , também, terá que reprogramar seu endividamento, em função dos fatores contigentes irresistíveis.

Em 2002, o titular do Planalto assinou a Carta aos Brasileiros, na qual se comprometia em cumprir os compromissos financeiros entre governo e banca privada. Comprou o passe do sistema financeiro para jogar no time do governo lulista. Em troca , o presidente adquriu, também, o passe dos miseráveis ao assegurar que faria uma política fiscal expansionista para ampliar programas populares , a fim de cumprir com sua promessa de campanha, de garantir três pratos de comida a todos os pobres do Brasil, com o programa Bolsa Família. A sustentação dessa promessa, no entanto,  não cabe mais, no ambiente do juro alto, dentro da Carta aos Brasileiros.

De um lado, o presidente atendeu os banqueiros; de outro, o povão. A crise emergente bagunçou , completamente, o jogo armado por ele. Haveria, então, que rever as bases econômico-financeiras do contrato que tem de ser alterado em razão de correlações de forças políticas novas dadas pela grande crise capitalista.

Além do mais, o governo acumula insatisfações com o sistema financeiro que o deixou na mão na hora mais cruciante da crise. Pediu aos grandes bancos que ajudassem os bancos menores, ameaçados de falência. Nada. Pediu a eles que jogassem as reservas do depósito compulsório no crediário. Nada, preferiram aplicar nos titulos públicos. Para se fortalecerem, dois grandes bancos se juntaram, para resistirem, mais, às pressões governistas.

Não restou alternativa ao governo, sob pressão da falência de inúmeros setores, senão a de partir para uma estatização branca, bombando o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, BNDES, para apagar os incêndios e manter o barco, que, no entanto, está sem rumo.

O confronto entre Governo e banqueiros demonstra que a Carta aos Brasileiros de 2002 está rasgada. Não faz mais efeito, porque não há correspondência expressa em relações cooperativas entre as duas partes. Ao contrário, passaram a se morderem. O governo diz que cumpriu sua palavra, mas os bancos não fizeram o mesmo. Mantiveram e mantêm os juros ao povo como o assaltante diante da vítima indefesa.

Corda para enforcado

Os tomadores de dinheiro para o consumo popular podem se ver enforcados se se endividarem em face de uma situação de desemprego iminente e falta de garantia de trabalho que assegure dignidade à pessoa humana em meio à bancarrota financeira especulativa que empoçou o crédito

Os bancos brasileiros, que atuam, no juro, na base do oligopólio, sustentam crédito à produção a 4% ao mês, girando duplicatas, e ao consumo a 10%, esfolando o comprador no crédito pessoal. Um absurdo. O Banco Itaucred financeira, por exemplo, cobra, conforme informações do Banco Central, 13,84% ao mês para crédito à compra de bens. O presidente Lula está estimulando o Banco do Brasil a financiar compras de geladeiras no crediário, para tentar forçar queda dos juros. Terá , em primeiro lugar, que abrir concursos para contratar funcionários. As agências do BB, pelo país afora, especialmente, no interior, apresentam atendimento insatisfatório. Imagine o povo entrando no banco pelas portas eletrônicas para pegar crédito rápido para trocar sua brastemp! Atendido esse pré-requisito, pois, caso contrário, se mal atendido o cliente falará mal do governo e votará contra ele em 2010, as autoridades econômicas teriam que acelerar queda do juro para combater perigo de inadimplência, principalmente, se o tomador perder o emprego.

Dada a insegurança espalhada como brasa pela crise, que suspendeu os investimentos e o crédito em geral, aumentou a intranquilidade do tomador de crédito ameaçado pelo desemprego. Seria desmerecer a inteligência do trabalhor dizer que ele não está de olho no custo do juro mas no preço da prestação, apenas, quanto mais avançam os sinais de crise que elimina qualquer garantia de emprego, na volatilidade global. Esse cliente desesperado tenderia a ver os juros, no ambiente de perigo de desemprego, o bandido que atua livremente porque não tem o mocinho para derrotá-lo.

Os juros nos bancos públicos precisarão cair, para que o endividado no crédito, candidato ao desemprego, não identifique neles a sua ruina, de agora em diante. Desse perigo, os bancos privados estão se livrando. Não ajudaram os grandes bancos a salvarem os bancos pequenos, sob recomendação do governo, pois tiveram medo do risco e da inadimplência; não jogaram os depósitos compulsórios liberados pelo Banco Central no crediário, preferindo aplicá-los nos títulos da dívida pública, por, igualmente, temeram riscos e inadimplência. E, agora, resistem, em nome do santo risco e da santa inadimplência, ao jogo governamental de levar o Banco do Brasil a adquirir perfil popular, tornando-o campeão do crediário para compra de bens duráveis, porque temem a inadimplência e o risco, se houver aumento do desemprego.

Conspiram a favor dos banqueiros a própria crise. Pesquisa do Dieese mostra que, em março, 254 mil pessoas perderam o emprego em todo o país, sendo 28 mil só no Distrito Federal. O índice nacional de desemprego, 15,1%, é o maior registrado nos últimos onze anos. Desastre para as pretensões continuistas de executivos, federal e estaduais, para as eleições em 2010.

Diante desse quadro, a política econômica do governo, amarrada a regras econômicas que estão sendo consideradas ultrapassadas no mundo inteiro, entra em parafuso. O presidente Lula tenta romper os obstáculos de velhas regras que ainda vigoram como herança das ordens do Consenso de Washington, operadas pelo FMI durante toda a Nova República, herdeira da ditadura militar.

Predomina, como cadáver insepulto, como parte dessa herança a existência, no contexto orçamentário da União, de dois orçamentos que merecem tratamentos políticos distintos, cujas consequências novas dadas pela grande crise mundial impõem novas mudanças que mexem com as correlações das forças políticas no ambiente da sucessão.

Coleira colonialista limita cobertura econômica

O Brasil foi o último a decretar a abolição da escratura. Está sendo o último a decretar a abolição dos juros, a nova escravidão

Hoje é mais um dia decisivo para a economia brasileira que está dançando um ritmo frenético de decadencia de reputações gerais, espraiada pela grande crise internacional que virou o capitalismo de cabeça para baixo. A reunião do Copom, que deve decidir mais uma redução conservadora da taxa de juro, evidencia estar o Brasil, externamente,  despontando como esperança para os investidores do mundo, mas, internamente,  como perigo sempre presente para as previsões dos banqueiros e economistas que trabalham para eles que obedecem a leis que estão sendo superadas pelos fatos. As coleiras da escravidão ideológica persistem sob o juro alto no capitalismo brasileiro periférico. Os jornalistas de economia brasileiros estão diante de desafio histórico. A cabeça deles , no contexto da cobertura do dia a dia nos últimos vinte e cinco anos de desajustes fiscais e monetários em que o país sobrevive, como consequência da crise monetária dos anos de 1980, foi feita pelos pressupostos macroeconômicos estabelecidos pelo Consenso de Washington, ainda vigentes, no ambiente orçamentário da União, embora os que criaram o Consenso tenham declarado a sua morte, como foi o caso do primeiro ministro inglês Gordon Brown na reunião do G-20 em Londres. Mais uma vez a Inglaterra anuncia o fim da escravidão para as elites escravocratas resistentes ao abandono dos velhos hábitos de exploração colonialista.

Orientado pelos banqueiros, operado pelo FMI e supervisionado pela Casa Branca, o Consenso de Washington, depois que os Estados Unidos, em 1979, elevaram de 5% para 15% a taxa de juros, para enxugar excesso de dólares, eurodólares, nipodólares e petrodólares,  na praça mundial e evitar inflação, entrou em campo para administrar a falência, estabelecendo o jogo capaz de combinar crescimento, baixo, com o pagamento de juros, alto, fixando, assim, o que denominou de equilibrio da relação dívida/PIB, sustentado em crescentes superavits primários.

Esse jogo de equilíbrio construido em laboratório, amplamente, apoiado pelo poder midiático, seria, aos olhos e ouvidos dos banqueiros, necessário para evitar pressões inflacionárias, cujas consequências, obviamente, seriam juros altos em respostas aos riscos contingentes. Como o equilíbrio jamais existiu porque representou ficção inalcançável em país pobre e dependente de capital externo, o risco Brasil manteve-se alto para que o juro, igualmente, ficasse permanentemente nas alturas. Os lucros médios dos bancos, nos últimos vinte anos, ficaram na casa dos 25% ao ano, enquanto os demais setores não ultrapassaram a média dos 10%.

O jogo de laboratário macroeconômico elaborado pelo Consenso de Washington-FMI-Casa Branca dividiu o orçamento da União em dois: o orçamento financeiro, que diz respeito aos interesses diretos dos bancos credores da dívida pública rolada a juros escorchantes, e o orçamento não-financeiro, que representa o povo em sua totalidade, dependente dos serviços públicos prestados pela União com dinheiro do contribuinte nas áreas de saúde, educação, segurança, cultura, infra-estrutura etc.

Ao estabelecer os dois orçamentos, imediatamente, os articuladores do Consenso de Washington, nos inícios da Nova República, buscaram influir os constituintes para se garantirem na Constituição. Conseguiram a proeza de emplacar no texto constitucional o artigo 166, parágrafo terceiro, ítem II, letra b, que fixa como cláusula pétrea proibição relativa a contingenciamento dos recursos orçamentários destinados aos serviços da dívida pública.

Criou-se jurisprudência, que se constituiu espinha dorsal do direito brasileiro na Nova República. Levou, consequentemente, o Judiciário, sob governos neorepublicanos, à crise moral atual onde se expressa espasmodicamente em vergonhoso bate-boca de ministros na mais alta corte de justiça nacional.

Ou seja, o orçamento financeiro, ditado pelo Consenso de Washington,  jamais poderia merecer ajustes fiscais e monetários. Já o orçamento não-financeiro, esse, coitado, virou pau para toda a obra. Dia sim, dia não, intermitentemente, as autoridades econômicas, atentas aos pressupostos do Consenso, decretado morto, mas, ainda, vivo no Brasil, fisgam nacos de carne do coração dos brasileiros, para satisfazer um eterno voraz Shilock shakespeareano.

Tsunamis destroem arranjos ideológicos

A cabeça ornamentada da economia brasileira está sendo toda desarrumada pelos ventos fortes da grande bancarrota capialista financeira responsavel por desarrumar conceitos que foram feitos em tempos passados cujas estacas foram arrancadas pelo vendaval tornando-se leves como o ar totalmente volátilA inexistência de equidade de tratamento estabelecido pelo Congresso, no artigo 166, parágrafo terceiro, ítem II, letra b, demonstrou que a prioridade nacional, na Nova República, seria o pagamento dos juros. Estes, constitucionalmente, estariam protegidos; o povo, ao contrário, ficaria exposto, constitucionalmente, às chuvas e trovoadas.

O argumento ideológico vendido pelos arquitetos da construção dos orçamentos financeiro e não-financeiro, de modo que este se lasca, na tarefa de ser constantemente ajustado, para gerar àquele crescentes superavit primários ao pagamento dos juros, foi sempre uma churumela mecanicista. O ajuste permanente no orçamento não-financeiro, excluído o orçamento financeiro,  equilibraria as finanças e seguraria as taxas de juros. Mentira pura.

O orçamento financeiro ficaria, sempre, livre de qualquer lipoaspiração; ao contrário, o orçamento não-financeiro estaria sendo permanentemente lipoaspirado, com a benção do Congresso, vendido por prato de lentilha, sob governabilidade eternamente provisória, e aplauso ideológico da grande mídia.

Podres poderes neorepublicanos construidos no lastro da garantia constitucional neorepublicana neoliberal de conferir privilégio ao sistema financeiro em detrimento da maioria do povo. A grande mídia encampou, amplamente, a armação institucional do Consenso de Washington e o esqueceu como motivo de pauta permanente.

Baseado no pretenso equilibrismo laboratorial macroeconômico, o Consenso-FMI-Casa Branca engessou a economia, para que houvesse equilibrio na relação dívida/PIB. O país não poderia registrar crescimento do PIB superior a 3,5%, para não gerar pressões inflacionárias que trariam juros altos. E tome churumela ideológica, verdadeira lavagem cerebral.

A mentira foi amplamente consumida pelo poder midiático. Até outubro do ano passado, o PIB estava crescendo a 6,8% com inflação cadente na casa dos 4,5% em 12 meses.  O inverso da pregação bancária mecanicista. A realidade desarticulou a teoria de laboratório do Consenso de Washington, presente , ideologicamente, na cabeça dos jornalistas de economia, salv o honrosas exceções.

Desarticulação federativa neoliberal

O pensamento petrificado do neoliberalismo está indo aos ares em suas verdades absolutas abrindo campo para o novo que não está em cogitação na discussão da grande mídia que tem medo do temaA prioridade ao pagamento dos juros fez com que os governos neorepublicanos neoliberais, sob o Consenso, rendessem ao aperto fiscal washingtoniano, expresso na criação das contribuições sociais, para dar início à centralização tributária no país em detrimento das unidades federativas. Pela Constituição, as arrecadações dos impostos de renda e sobre produtos industrializados são obrigatoriamente distribuidas entre união, estados e municípios. Com as contribuições sociais, não. Toda a arrecadação delas vai para o tesouro nacional. Haveria maior volume de recursos para cumprir com o pagamento dos juros , mediante fixação de superavits elevados, que chegaram ao limite de 6,5% do PIB! Era e continua sendo, até agora, necessário continuar cumprindo o mandamento constitucional neorepublicano de privilegiar a categoria financeira em prejuizo das demais categorias sociais.

Jamais a mídia realizou grandes coberturas sobre as razões das distinções de tratamento em relação aos dois orçamentos fixados pela lógica do interesse dos credores e seu substrato epistemológico em forma de influência em toda a cadeia produtiva da superestrutura juridica e macroeconômica nacional, construindo ideologia para consumo do populacho sobre o que é e o que não é prioridade.

A explicações sempre foram invariáveis, mecânicas. Os superavits primários, dizem os comentaristas, eram e são necessários porque representariam equilíbrio permanente da relação dívida/PIB. O jornalista Carlos Alberto Sardemberg, por exemplo, no Jornal das Dez, na Globonews, previu, mecanicamente, que a redução de 3,8% para 2,5% do superavit primário, decretado pelo presidente Lula, como fator anticíclico para enfrentar a crise, vai alterar a relação dívida/PIB e levar a juro mais alto etc. Manual que nem o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, está adotando, mais, pois passou a pregar juro mais baixo no mundo em que o juro está negativo.

Se tudo acontecesse como construíram ideologicamente os interesses bancários, consumidos pela mídia, haveria o tal equilíbrio expresso em juro civilizado. Embora os superavits fossem eternamente altos, os juros não cairam; ao contrário, continuaram subindo. E tome explicações acadêmicas relativamente às razões do porque do juro alto no Brasil, enquanto o Banco Central mantinha escassez da oferta de dinheiro, mediante compulsórios elevados, garantindo o lucro bancário extorsivo. O banqueiro adora escassez de oferta de dinheiro.


Bancarrota do pensamento mecanicista

Shopenhauer disse que o pensamento interno é mais poderoso que o externo e que este não pode determinar àquele porque está fora da realidade do sujeito porque é simples objeto. A grande mídia transformou-se em objeto de manipulação ideológica que invete a realidade, alienando o povoA conjuntura macroeconômica neorepublicana neoliberal é uma construção do pensamento mecanicista especulativo bancário construído no exterior da realidade como a grande crise financeira internac ional está demonstrando à larga.  Um repeteco em torno de falso dilema.

A partir de um mandamento constitucional que privilegia uma categoria social em determento das demais construiu-se uma ideologia para consumo interno ditada de fora para dentro. O conjunto formado pela lógica que ancora os interesses garantidos constitucionalmente ganhou um fecho moral com a aprovação pelo Congresso da Lei de Responsabilidade Fiscal, também, conduzida pelo Consenso de Washington.

Os pressupostos do equilbrio orçamentário, que traduzem os interesses dos credores, em primeiro lugar, enquanto os da sociedade são jogados para segundo, terceiro e quarto planos, teriam que subordinar-se à Lei de Responsabilidade Fiscal. Seria fiscalmente responsa´vel aquele que, evidentemente, se enquadrasse na ideologia equilibrista do Consenso de Washington, para cumprir a pregação bancária favorável aos crescentes superavits primários realizados em cima do orçamento não-financeiro, forma adequada de fazer transfusão de sangue quente para o orçamento financeiro vampirista.

Dez entre dez colunistas de economia jamais questionaram na grande mídia a injustiça de se adotar dois pesos e duas medidas no âmbito orçamentário. Ao contrário, quando a sociedade dava e dá sinais de reação ao equilíbrio potencial neoliberal estabelecido pelo Consenso, exigindo maior crescimento econômico, logo os colunistas entravam e entram em cena para dizer que poderia haver, se o país crescesse mais do que as regras fixadas pelos banqueiros, pressão inflacionária que, evidentemente, exigiria juro alto etc.

A bancarrota financeira internacional está fazendo o que a grande mídia não fez, ou seja, pedagogizar o rítmo do real concreto em movimento em oposição à ficação de labora´torio, expondo o ridículo jogo ideológico que ainda faz a cabeça dos coleguinhas em geral, cerceados na tarefa de pensar com liberdade , porque atendem a uma estrutura mental mecanicista ideológica que está indo aos ares.

Mais uma vez, o Brasil é o último a livrar da escravidão, mister Gordon Brown. O molde do Consenso demonstrou fadiga de material, mas suas idéias continuam ditando, no Brasil, a absurda crença na Lei de Responsabilidade Fiscal como pressuposto ético da condução dos gastos públicos dentro dos limites fixados de fora para dentro pelos credores, que se revelaram os responsáveis pela desarticulação econômica global com suas teses espalhadas para consumo da periferia colonizada.

O berreiro dos prefeitos e dos governadores, que cresce, de forma expressiva em todo o Brasil, no momento em que a crise se amplia, reduzindo arrecadação e transferência de recursos aos estados e municípios, não mereceu da grande mídia a interpretação correta de que estava sendo decretada , nas ruas, o fim do Consenso de Washington que norteia a condução do orçamento da União.

O mundo , na crise, está decretando o fim da escravidão humana imposta pelos juros, visto que se tornou necessário, o juro negativo, para animar a produção e o consumo estagnados. Mas, no Brasil, a escravidão continua. Coloca-se, ainda, na coleira no pescoço dos colonizados flores com cheiros sedutores e inebriantes para atenuar a dor, o incômodo e a humilhão, quando, na verdade, se trata de arrancá-la e enfiá-la no baú da história.

Salve o cadáver insepulto do Consenso de Washington, que a grande mídia conduz como El Cid morto em cima do seu cavalo de batalha como se estivesse vivo, para manter as aparências.