Minc e Marina fortalecem Kátia para 2010

O radicalismo de Marina contaminou Minc que resultou na vitória de Kátia que aproveitou o racha dentro da própria coalizão governamentalAbreu jogou na divisão das forças governistas para marcar ponto da categoria social que representa, os capitalistas do campo que estão diante de enormes oportunidades em face da força brasileira para alimentar o mundo em meio à crise globalOs petistas ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, e a senadora e ex-ministra acreana Marina Silva, dançaram politicamente diante da charmosa liberal-conservadora senadora Kátia  Abreu(DEM-TO), que aproveitou a divisão dentro da coalizão governamental para conquistar decisivamente a categoria dos ruralistas ao conseguir aprovar a MP 548 que flexibiliza a ocupação territorial na Amazônia, conferindo, paulatinamente, as bases do capitalismo amazônico. Se o poder do capital estiver atrás de uma mulher para representá-lo nas urnas em 2010, pela oposição, ela pode ser uma opção. O PSDB, depois disso, corre atrás dos ruralistas, ou seja, dela.

Essas bases tentam assegurar o direito de regularização das terras por parte de empresas na área da Amazônia Legal e impedir que vigore o mandamento de que os ocupantes delas sejam apenas gente do município e não proprietários fincados em outras terras, nacionais e internacionais.  O capital não tem pátria.

Mantiveram as bases do capital interessado em explorar economicamente a Amazônia resistentes em seu espírito dominador do desbravamento territorial brasileiro. Foram historicamente favorecidas por cultura jurídica laxista e parcial no trato da relação do capital com a terra e com os que dela foram dessapossados por ele, desde o século 16, na Inglaterra, quando começa a industrialização inglesa. A tradição chegou ao Brasil no descobrimento com o dessapossamento dos índios e a proibição dos negros escravos de alcançarem a propriedade. Afinal eram escravos.

Os trabalhadores foram expulsos para as cidades para que em suas terras fossem cultivadas as ovelhas cuja lã seria a matéria prima essencial para a indústria textil, que colocaria a Inglaterra na dianteira capitalista global sob coordenação da libra esterlina e do sistema bancário utilitarista inglês. Nesse ambiente, a propriedade privada surge como expressão do seu contrário, o oculto não revelado, ou seja, da exclusão da propriedade privada. Consolidou-se desde então o direito de posse pela ocupação que a lei regulariza  normativamente. Configura-se, pela propriedade privada, igualdade jurídica que, contraditoriamente, contrasta com a desigualdade social, polos opostos de um mesmo processo dialético que se apresenta de forma fetichista, invertida.

Sob comando político de Kátia, os ruralistas lutam, evidentemente, pelo predomínio da cultura da posse dada pela ocupação que se regulariza juridicamente, como desde os tempos coloniais.  A luta política no Senado, portanto, teve por trás de si esse histórico econômico e social do desenvolvimento nacional estruturado na legalidade da ocupação pela posse. A aceleração do processo vem se intensificando desde a década de 1970, quando os militares decidiram ampliar as fronteiras nacionais para aumentar a oferta de alimentos, já que as terras cansadas das regiões sul e sudeste não dariam mais conta de garantir a oferta, submetendo a economia às violentas oscilações inflacionárias.

A articulação produzida por Kátia Abreu desarmou os arranjos políticos costurados entre as  lideranças do PT, na Câmara, com o deputado Henrique Fontana à frente, e a oposição. Os deputados tinham caminhado para um consenso, inclusive,  em face do ponto mais delicado, a regularização das terras pelas empresas privadas. Evidentemente, nesse campo, seriam envolvidos compromissos dos neoregulados em forma de pagamento de tributos em condições negociáveis, como ocorreu sempre. Mas, o radicalismo de Marina Silva entrou em cena.

 

Novo paradigma internacional

 

obma-silv-a

No Senado, não houve acordo. Marina Silva, com apoio de Carlos Minc, foram para o pau. A senadora enviou carta ao presidente dizendo que estava sendo legalizada a grilagem na Amazônia e o ministro , com a ministra, subiram em palanque em frente ao Congresso para taxar os ruralistas de vigaristas. Deram respostas emocionadas e irracionais às pressões advindas de suas bases eleitorais ambientalistas, que se preparam para fazer barulho, em dezembro, em Compenhague,  onde se realizará nova conferência mundial sob o clima, cenário no qual a participação brasileira, por causa da Amazônia, é decisiva, dado o ativo ambiental amazônico, maior bioma da terra.

O mea culpa do ministro para a senadora oposicionistas, chamando-a para um acordo, representa a rendição da sua espetaculosidade político eleitoral ao acordo fechado pelo deputado Henrique Fontana com a oposição. O jogo dele de esticar a corda até rebentar deu com burros nágua, ao sustentar exacerbamento emocional na questão ambiental  em tempo de antecipação da sucessão presidencial.

No plano do meio ambiente o jogo político eleitoral se revelou fiasco,  porque prevaleceu não a emoção, que dividiu, mas a razão, ancorada nos interesses do capital, que uniu. Minc se viu obrigado a ser profissional na negociação com o capital expresso em figura feminina no Senado.

O presidente Lula está diante do desafio de atender os ambientalistas, que desejam negar o direito de  empresa privada regularizar terras ocupadas na Amazônia Legal, só o permitindo para pessoas físicas que moram nos  municípios, bem como negar, também, a redução de 10 para 3 anos o prazo de venda de médias(400 a 1.500 hectares) e grandes propriedades(acima de 1.500 hectares), para não favorecer especuladores.

Igual desafio será o de não atender as reivindicações dos ambientalistas, favorecendo os ruralistas. Fortaleceria a corrente política oposta ao novo paradigma mundial ancorado no discurso de Kyoto, a ser aprofundado na conferencia internacional, ou se posicionaria a favor da corrente ambientalista, à qual se rendeu o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama?

 

Sonho ou realidade?

 

fontana negociou politicamente com a oposição mas sua posição foi atropelada pelo radicalismo marinista avalizado por carlos mincSe tivesse prevalecido, no Senado, o acordo que a colização governamental(PT-PMDB) armou na Câmara, a tarefa do presidente Lula, agora diante do problema, ao qual tem que dar resposta em menos de três semanas, seria menos espinhosa. Ficou politicamente mais complicada depois que Carlos Minc embarcou no discurso incendiário de Marina Silva. Na prática, o governo não tem discurso formado. Pragmatismo é o nome do negócio.

A ida de Minc à senadora Kátia Abreu, para se desculpar, seria mea culpa pelo emocionalismo marinista ao qual se subordinou e adoção da postura do líder Henrique Fontana, que buscou equilíbrio entre o capital e os ambientalistas. Perdeu a oportunidade de posar de pacificador das tensões, preferindo vestir a camisa do atiçador de tensões, em obediência as suas bases políticas. Tentou cariocarizar o discurso ambiental, com pitadas de emocionalismo politico, mas, apenas, perdeu credibilidade de exercitar extrovertidamente seu prório discurso, de agora em diante.

Mangabeira, que pensa ser presidente da República um dia, prega capitalismo popular para a Amazônia em meio a um a economia dominada pelos oligopólios e oligopsôniosSe o presidente Lula foi obrigado a tirar Marina e colocar em seu lugar Minc, ao verificar que Minc é a representação exata de Marina à frente do Ministério do Meio Ambiente, cai na real de que Minc eterniza os problemas agudos que pensou ter removido quando colocou ele no lugar da senadora.

Agora , poderia estar de olho na racionalidade econômico desenvolvimentista do ministro Mangabeira Unger, que, mediante visão social trabalhista, dispõe  de projeto de desenvolvimento amazônico, ancorado na ampliação das oportunidades econômicas, a fim de configurar no cenário da Amazônia capitalismo popular?

Seria uma versão utópica, inversa daquela que rola na realidade, ou seja, o amplo domínio da oligopolização e oligopsonização da economia brasileira, na indústria e no campo. Sonho ou realidade?

 

 

 

 

 

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Expropriação do quintal de Tio Sam

Os Estados Unidos, na grande crise mundial, que abala o dólar , não tem mais força de ditar as regras na América do Sul como se ela fosse seu eterno quintal, dado pela lógica de arrogante perpetuação de uma situação favorável aos Estados Unidos, agora, detonada

A reintegração de Cuba à OEA é a derrota dos Estados Unidos na OEA. É,  também,  na prática , a expropriação do conceito político que ganhou forma com o imperialismo unilateralista americano estabelecido para a região depois do Acordo de Bretton Woods, em 1944, quando os americanos saíram vitoriosos na segunda guerra mundial, com o dólar ultra-fortalecido, para determinar, pela força e pelo dinheiro, a nova divisão internacional do trabalho no pós-guerra.
 
Quatro anos depois de Bretton Woods, Washingon estabeleceria  para a América Latina, via OEA – Organização dos Estados Americanos –  , a nova ordem sob domínio do dólar. Ou seja, regras econômicas adequadas à expansão da economia americana na América do Sul e em toda a perifieria capitalista e no ex-centro do capitalismo, Europa e Inglaterra, que deixariam para trás o reinado da libra esterlina.
 
As Américas teriam que estar abertas ao capital americano em troca da paz mundial garantida, contraditoriamente, pela corrida armamentista, a fim de proteger o capitalismo e a democracia liberal da ameaça do comunismo soviético. A OEA é a armação político-ideológica para ancorar a política econômica americana para o continente.
 
A América Latina, nessa conceituação geoestratégica global de Tio Sam, mediante dólar poderoso, ajoelhou-se. Os sul-americanos, até então, desde os descobrimentos à segunda guerrra mundial, tinham rendido tributo à Inglaterra, à libra, ao padrão ouro do século 19 inglês. A bancarrota da libra, depois da primeira guerra mundial, intensificando sua fragilidade  no entre guerras, 1919-1939, abriu espaço ao dólar, depois da guerra.
 
As elites sulamericanas, no novo contexto, viraram seus interesses para Washington, esquecendo Londres. Cumpriram e continuaram a cumprir o seu papel: promover o desenvolvimento interno sob coordenação dos empréstimos externos e suas determinações pelos credores. Seguiram o mandamento de Ruy Barbosa – cabeçudo entreguista, segundo Glauber Rocha, em Myzérya do lyberalysmo”. Passaram a ancorar o conceito de liberdade não por intermédio da revolução francesa, mas por meio da revolução americana. A Constituição republicana brasileira copia as lições de Washington, adaptando-as às determinações dos interesses do dólar forte na América do Sul.
 
O quintal sulamericano se transformou em insignificância política e os antagonomismos foram contidos à bala. As ditaduras se repetiam como se fossem algo dado pela natureza da história. O pensamento americano, ancorado no dólar, ajustou a diplomacia regional ao comando washingtoniano, que patrocina a diplomacia de guerra, como contrasenso explícito.
 
Os ditames econômicos deixaram de ancorar-se em Londres. Transferiram-se para Chicago. A América Latina vira, nesse novo ambiente da divisão internacional do trabalho sob domiínio do dolar, américa latrina. Bebia toda a descarga de Washington.
 
A Casa Branca rejeitara Keynes e impusera sua moeda. O economista inglês, em Bretton Woods, queria driblar o poder do dólar. Em vez do dólar, pregou moeda global – o Bankor – para equilibrar o balanço de pagamento dos países nas relações de trocas internacionais por meio de um jogo de compensação geral. O equilibrismo conceitual keynesiano não vingou. Os interesses do dólar, vitorioso na guerra, falaram mais alto. A OEA sintoniza, sobretudo, com tais interesses, contra os quais Cuba se rebelou e foi expulsa do organismo.  A volta por cima de Cuba é a derrota da diplomacia do porrete.
 
 

 
Capitalismo x Comunismo
 
 
 

 

A OEA é produto da guerra fria que criou estrutura política e econômica ditatorial na América Latina para frear o avanço das forças produtivas em meio ao desenvolvimento das relações sociais da produção que excluia a maioria do consumo, fixando subconsumismo no capitalismo periférico

Os mandamentos básicos da OEA , contra os quais Cuba se rebelou, fincam-se nas determinações neoliberais anglo-saxonicos que impregnam o Acordo de Bretton Woods. Repudiam as orientações da esquerda , que tentou, desde o final do século 19, seguindo o 20 adentro, introduzir a dialética de Marx no lugar do mecanicismo econômico de Ricardo e dos economistas clássicos e neoclássicos ingleses, que criaram, no século 17, a economia política, a partir da qual dominaram o mundo com a libra esterlina.
 
Os soviéticos, que tentavam a transição entre capitalismo e socialismo, para chegar ao comunismo, conforme diz o programa básico de Lenin, fixado no XI Congresso do PCR, em 27 de março de 1922, seriam, aos olhos dos americanos, os inimigos a serem extirpados. Deveria acontecer com eles o que aconteceu com Zapata, no México. Extermínio.
 
A guerra fria é o mote diplomático guerreiro que justifica a criação da Organização dos Estados Americanos(OEA) – organização da ordem unida – , para difundir a democracia do capital norte-americano na América Latina. Cuba, em 1962, atravessara o samba de uma nota só americano neoliberal para a America do Sul via OEA. Tinha que cumprir o mandamento contra Zapata.
 
A expulsão de Cuba da OEA representou resposta americana aos que tentaram romper com as regras de Bretton Woods, para a política e para a economia, em combinações explosivas, na America Latina.
 
A expansão do capital americano na América do Sul voltou-se para orientações ditadas por Washington cujas características foram e continuam sendo a permanente concentração da renda, como estrutura básica dos modelos econômicos. As consequências das determinações de Bretton Woods foram polarizações políticas sinalizadoras de radicalismo. Este, por sua vez, emergiria como principal razão das elites conservadoras para resistirem às reformas políticas, tratando-as, apenas, no plano da abstração.
 
A criação da OEA coincide com a disposição de Washington de transplantar para a América do Sul, Africa do Sul, Ásia, Austrália e Nova Zelândia a indústria automobilística americana que entrara em crise em 1929, como destaca Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”.
 
O consagrado economista conservador Eugênio Guddin, em suas memórias, chegou a chamar o presidente Juscelino Kubistchek de playboy esbanjador das reservas financeiras, porque estava pagando a mais o que poderia pagar a menos, para trazer para o Brasil as industrias automobilísticas, sucateadas pela crise de 1929, mediante vantagens fiscais e creditícias excessivas.
 
Ou seja, conforme Guddin, o governo americano, nos anos de JK,  tinha pressa para se livrar de um abacaxi podre, como, EM 2009,  quer se livrar do excesso de dólar, que apodrece em derivativos tóxicos, na grande crise mundial. Em vez de pagar barato, nos anos de 1950, JK pagou caro, como pode pagar caro o governo Lula, se a política do Banco Central continuar sendo a de acumular dólares em vez de utilizar os dólares acumulados em desenvolvimento interno, como faz a China pelo mundo afora, a fim de livrar do acúmudo que dispõe de moeda americana.
 
Se hoje o dólar vira moeda candidata a podre, em 1929, o excesso de automóveis era a expressão das mercadorias podres que deixaram de ter consumidores, depois do crash. Naquele ano, os Estados Unidos produziam 5 milhões de automóveis, com uma frota nacional de 27 milhões. Com o crash, a produção caiu para 900 mil carros produzidos. Somente 14 anos depois, em 1943, diz Lauro em “A crise completa – Economia Política do Não(Boitempo,2002), foi possível retomar os níveis de produção de 1929.
 
A partir daí, porém, a indústria automobilística e a de bens duráveis em geral, movidas pelo crediário, não eram mais o centro da dinâmica da reprodução do capitalismo, mas a guerra, bancada pela moeda estatal inconversível. Em 1944, o deficit americana alcançara de 173% do PIB, bancando a expansão econômica americana, mediante economia de guerra, produção bélica e espacial.

Materializava-se o recado que Keynes, em 1936,  deu a Roosevelt: “Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala capaz de fazer valer minha tese – a do pleno emprego – , exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, aprenderão a conhecer sua força”.

Não deu outra. Enquanto isso, a sucata, a indústria automobilística, viria para o Brasil, Argentina, México etc, exigindo investimentos em estradas, energia, ou seja, juscelinismo sucateado, em meio a uma estrutura dependente de poupança externa, concentradora de renda e poupadora de mão de obra ,  cujo preço a  pagar representaria bancarrotas políticas que levariam o país à ditadura, financiada por Washington.

 
 
 

Decisão afeta EUA e a Cuba

 
 

Cuba e Estados Unidos estão condenados a subirem à mesa porque um negro americano não poderia deixar de negociar com os negros cubanos que sinalizam uma só especie humana que esteve marginalizada historicamente mas que os caminhos cruzam na história em contextos opostos e instigantesA OEA é, fundamentalmente, fruto dessa expansão econômica americana em nome do combate ao comunismo. O organismo expressa a arrogância americana, que, agora, 60 anos depois de Bretton Woods, rende-se aos fatos que determinam a fragilidade do dólar em meio aos déficits americanos que balançam as bolsas internacionais.
 
A cada da entrevista do presidente do Banco Central dos Estados Unidos, Ben Bernamke, o mundo financeiro vira de cabeça para baixo, demonstrando que o dólar deixa dúvida sobre sua capacidade de continuar sendo equivalente geral das trocas internacionais. Afetado pelos deficits americanos, que alcançam 15 trilhões de dólares, o alerta de Bernamke  traduz as limitações do poder financeiro de Tio Sam, que, outrora, determinou as regras no mundo, unilateralmente,.

Ben Bernamke, com seus alertas, é o anuncio antecipado de que novos abalos estão por vir onde os ícones do capitalismo desabam, como a GM. As bases de Bretton Woods apodreceram. Sendo filha de Bretton Woods, a OEA, igualmente, decompôs-se.

 A resistência de Cuba às políticas emanadas da OEA pelo dedo de Washington representou, sobretudo, resistência aos mandamentos do dólar nascidos em Bretton Woods, que, com a grande crise financeirra mundial em curso, 60 anos depois, deixa de ter utilidade.

Mas, a resistência cubana pode, a partir de agora, representar armadilha ao atual modelo cubano de centralização política do partido único – na clássica ditadura do proletariado leninista.
 
De um lado, a resistência de Cuba em retornar à OEA passa a ser a expressão da vitória cubana sobre os Estados Unidos. Significa passo inicial de rompimento diplomático da América Latina com o unilateralismo americano. De outro lado, porém, representa contradição para o regime de partido único a ordem multilateralista substituta da unilateralista que vigorava sob comando de Washington.
 
Ao detonarem os mandamentos da OEA, que inviabilizavam a união latino-americana, os integrantes do organismo detonaram, também, em grande parte, as razões que sustentaram em Cuba a ditadura do proletariado, onde sequer há parque industrial forte.
 
O partido único representa tese que gera a antítese, isto é, o fim da OEA. A síntese não seria, então, nem a tese, o partido único, nem a antítese, a OEA. Qual seria?
 
Se tanto a Unasul, como a Alba, como, também, a OEA passam a pregar o multilateralismo, não haveria como não discutir, dentro de Cuba, o multipartidarismo como produto dos antagonismos dentro do próprio regime.

Cuba, depois da ação da nova OEA, estará diante do seu maior desafio, tratar-se das suas próprias contradições, cuja superação emerge como energia, dialeticamente, arrebatadora.

A OEA impôs, na prática, mandamentos de mudanças tanto para os Estados Unidos como para Cuba, ao mesmo tempo em que se anula por falta de credibilidade histórica.

História: primeiro operário, primeira mulher

A história registraria com destaque a Era Lula e a Era Dilma , se ela for candidata vitoriosa, como o primeiro e a primeira a chegar lá, operário e mulher, simbolos dos oprimidos sob o modelo de desenvolvimento concentrador de renda e poupador de mão de obraPesquisas, pesquisas, pesquisas. Caso Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, chegue à presidência da República pelo PT e aliados, sob coalizão governamental, a história registraria que o Partido dos Trabalhadores conseguira  proeza de colocar no poder o primeiro presidente operário e a primeira presidente mulher do Brasil na primeira década do século 21. As duas últimas pesquisas, Data Folha e Sensus, sinalizam, claramente, essa possibilidade, detonando, para valer, a campanha eleitoral. Por elas, a ministra avança sobre o campo do governador tucano de São Paulo, José Serra, e deixa para trás o também tucano mineiro, governador Aécio Neves, ambos, aparentemente, acertados, mas, essencialmente, separados, dada a falta de democracia partidária para escolha do candidato, algo que, também, ocorre no PT, pois Dilma é uma imposição imperial lulista. O avanço dilmista dá, ao mesmo tempo, chega prá lá no ambíguo PMDB, partido mais forte da aliança governista, mas que mais parece gigante com pés de barro, como demonstra sua situação delicada frente à CPI da Petrobrás. Pode, na aparência, tudo, mas, também,  pode, na essência, perder tudo, porque tem rabo de palha, passível de pegar fogo no episódio da investigação sobre a estatal do petróleo.

Configuram-se reais as chances de mudança qualitativa no processo político e histórico nacional. Justificaria o PT sua existência renovadora , ao deslocar, paulatinamente, do centro de decisões a carcomida elite tradicional escravocrata-conservadora, aliada do capital externo desde o descobrimento. Abriria e ampliaria espaço para a mão de obra operária masculina e feminina, politicamente organizada, mais valia que sustenta o capitalismo brasileiro em perigo diante da China na concorrência global  oligopólica e oligopsônica em marcha inexorável em meio à bancarrota financeira internac ional.

Para além das idiossincrasias circunstanciais , que evoluem no cotidiano da política ao sabor da inveja, da ganância, da esperteza, do oportunismo, da vaidade, da corrupção e do roubo deslavado em meio a uma estrutura político partidária em que os partidos são ficção – semelhantes à moeda fictícia especulativa global que implodiu na crise do subprime imobiliário nos Estados Unidos , espalhando destruição econômico-financeira geral – os estudantes de história, no ano 3.000, se Dilma Rousseff  faturar em 2010, conheceriam o princípio da renovação do poder político brasileiro.

Nesse princípio, o PT , evidentemente, não estaria livre das acusações piores possíveis no campo da anti-ética – dado que se desmoralizou completamente no episódio do mensalão – , mas teria, de forma incontestável, impulsionado mudanças nas correlações de forças políticas na sociedade brasileira sob bastão de uma Constituição que elevou o grau da conquista dos direitos humanos e da cidadania, embora, contraditoriamente, o próprio PT tenha negado a assiná-la em 1988.

O talento político de Lula pode estar aí. Ser o primeiro presidente operário deu-lhe o sabor dessa primazia. Sua insistência em Dilma talvez represente sua grande sensibilidade política de que a ministra está condenada pela história a experimentar tal sabor como missão do seu partido, como produto da força dos novos tempos, caso ela chegue lá.  As pesquisas Data Folha e Sensus sinalizam esse objetivo estratégico presidencial ao qual os petistas se alinham, sob a orientação tática do ex-deputado José Dirceu, de garantir o poder central e o controle do Congresso em troca dos poderes estaduais e municipais para os aliados. Combinaria  ação política realmente transformadora das instituições brasileiras , capazes de assegurar justa distribuição da renda nacional?

 

Voz majoritária

 

A força feminina ganha espaço em meio à crise global porque elas também estão sendo demitidas no calor da crise financeira global, engrossando críticas ao capitalismo financeiro neoliberal que dá seus últimos suspiros

Conta Dilma Rousseff, indiscutivelmente, com a vantagem de que o eleitorado feminino brasileiro corresponde a 51% do total. A consciência política feminina, em meio à crise global, que lança as mulheres no desemprego, como antes acontecia com os homens, tenderia a avançar mais rapidamente em busca de organização política para defender melhor distribuição da renda em termos sociais e espaciais no cenário político e territorial nacional.

Sensibiliza o eleitorado, ainda, a situação atual da ministra, em luta contra o câncer, como sensibiliza, também, o vice presidente canceroso José Alencar Gomes da Silva. Sua condição de cancerígena não apenas sensibiliza, mas, também, atrai solidariedade, algo que envolve a figura do vice em sua grande batalha pela vida. Na primeira declaração que fez depois dos exames das dores nas pernas como produto do efeito colateral da quimioterapia agradeceu a solidariedade nacional. Emocionou.

Somando o útil – a condição de ser feminina e de poder ser a primeira mulher presidente do B rasil – ao desagradável – o câncer linfático – , mas que gera atração emocional, que dá força espiritual e energética incomuns, em meio a uma sociedade altamente mística , Dilma Rousseff, caso as notícias positivas do seu tratamento evoluam – uma torcida de todos – , tenderia a empolgar um eleitorado tocado pela emoção da garra feminina. O negócio poderia ganhar tons de partida de futebol ou de uma maratona, com torcidas empolgantes na reta final, como aconteceu com a brasiliense Marizete dos Santos. Menina pobre da Ceilândia que brilhou na pista da sexta maior cidade do mundo, levantando a massa num belo domingo de sol e chuva.

O fecho das c ircunstâncias positivas, caso sejam formadas em torno da ministra, nos próximos meses, ganharia ainda mais importância pelo fato de que Dilma Rousseff comanda com energia de ferro e determinação o principal programa de investimentos do governo, que tem muita propaganda mas pouca realização até agora. Antes mesmo da crise, as previsões dos investimentos já contrastavam com os parcos resultados, como destacam os políticos, tanto da base aliada govenista, como os da oposição. A situação piorou consideravelmente depois de outubro de 2008, quando a bancarrota financeira emergiu para valer nos Estados Unidos.

O rítmo de banho maria do PAC – concluídas, apenas, 3% das 10.914 obras previstas -, comandado pela ministra, seria o grande teste dela para as urnas, vindo a ser a candidata da aliança governista. A CPI da Petrobrás, empresa responsável por mais de 40% dos investimentos contidos no PAC, responsável por puxar o grosso da demanda industrial brasilera, surge como empecilho. O falatório internacional contra a empresa começou semana passada depois de matéria publicada sobre o assunto no New York Times. Os negócios podres dentro da estatal pipocarão nos próximos dias. Diretores dela colocados por injunções políticas petistas e peemedebistas estão na corda bamba por conta de indícios de corrupção. A imagem da coalizão pode balançar negativamente.  Restaria a guerra entre as duas forças em conflito. Os podres da Era FHC, dentro da empresa, viriam, igualmente, à tona.

 

CPI anula governo e oposição

 

Ciro correu para os Estados Unidos para estudar melhor a situação mundial, a fim de afinar seu discurso para 2010. O discurso radical anti-capitalista teria chegado a sua hora com Heloísa Helena em 2010, na onda das mudanças internacionais em meio a crise global?Minas, o símbolo da síntese mineira, na figura de Aécio, fora do PSDB, seria o chamamento da unidade esgarçada pela crise, em meio à eventual bancarrota política do PSDB e PT-PMDB no cenário de implosão na CPI da Petrobrás?governador de São Paulo e a ministra da casa civil podem sofrer revezes na CPI da Petrobrás

 

 

 

 

Tanto o governo como a oposição, ou seja, tanto Dilma Rousseff como José Serra, se candidato tucano, afastando Aécio, poderiam sair chamuscados, abrindo espaço a um a discurso político radical. Este, na prática, está sendo germinado pelas categorias sociais altamente preocupadas com os efeitos da crise em forma de desemprego e desestabilização geral, especialmente, em meio ao real sobrevalorizado. Ou seja, instabilidade geral que detona as empresas exportadoras ao mesmo tempo em que abre as portas para o oligopólio e oligopsônio econômico e financeiro chinês movido pelos trilhões de dólares desvalorizados na carteira de portfólio da China que está chegando na América do Sul sobrevalorizando as moedas e sucateando as indústrias afetadas pela estratégia chinesa de trabalhar com moeda sobredesvalorizada.

Quem seria uma terceira voz, com discurso  diferenciado, a emergir na cena nacional, como síntese dos antagonismos em cena, expressos por situação e oposição sujas em uma mesma causa, a CPI da Petrobrás? Uma pregação mais radical, tipo Heloísa Helena, do P Sol, ou um Aécio Neves, como voz conciliadora mineira, desde que saia do ninho tucano? Ou ainda Ciro Gomes, do PS?

Na prática, excluídas abstrações, os candidatos se movimentam num contexto econômico nacional e internacional em que as chances brasileiras são reconhecidamente razoáveis, dado o potencial econômico nacional, de dispor de base industrial competente e matérias primas abundantes para abastecê-la. As vantagens comparativas brasileiras no ambiente em que mudou as relações e as deteriorações nos termos de trocas internacionais, evidenciam, cada vez mais, em favor do Brasil. Ou seja, condição requerida pelos capitais nacional e internacional, que se movimentam por meio de fundos de investimentos rumo à economia brasileira, gerando especulações esquizofrências, contra a qual alerta, inclusive, o presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles.

Se em meio a essa conjuntura, o governo Lula manobrar com inflação baixa e possível retomada do desenvolvimento que sinalize PIB, pelo menos positivo, esse ano, e promissor, no próximo, ano eleitoral, as chances de Dilma, se vencer o câncer, tenderiam a crescer. A estratégia de Lula e a tática de José Dirceu, que pensa o governo , embora esteja fora dele, teriam chances de emplacar, vindo a CPI da Petrobrás transformar-se em elemento neutro. Seria um dado necessário como condição adequada aos interesses tanto do governo como da oposição, no sentido de anulá-la. A ordem governista e oposicionista desembocaria na marchina carnavalesta: “Não faz marola, prá canoa não virar”.

Funeral do câmbio flutuante

A política macroeconomica pediu água. O tripé cambio flutuante, metas inflacionárias e superavit primário , em sua concepção monetarista neoliberal neorepublicana, não dinamiza a economia mais e a expõe ao sucateamento O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, tenta, infrutiferamente, fazer valer a ficção monetária segundo a qual o câmbio, no Brasil, é flutuante, enquanto, diariamente, intervém no mercado para tentar valorizar a moeda americana. O intervencionismo cambial nega o conceito de flutuação. Vigora, isso sim, o câmbio administrado. Se não houvesse a intervenção, o dólar estaria caminhando para valer R$ 1,50. Entra no país, desvalorizado, para comprar ativos valorizados.

Os movimentos de capital externo na economia, nas últimas semanas, revelam essa evidência, especialmente, por parte da China. Com excesso de dólares disponíveis em reservas cambiais, os chineses tentam comprar o petróleo brasileiro do pré-sal, ao mesmo tempo em que adquirem participações biolinárias nas empresas mineradoras do maior empresário brasileiro , Eike Batista. Outros investimentos vips estão na mira deles.

A sustentação, pelo Banco Central, da taxa de juro real mais alta do mundo torna-se atrativo irresistível para os capitais investidores que estão, depois da bancarrota financeira na Europa e nos Estados Unidos, sem opções de investimentos, salvo se deslocarem para a periferia capitalista, para serem trocados nas bolsas por ações de empresas com boas perspectivas, esquentando-as, enquanto sobrevalorizam as moedas locais, como ocorre, no momento, na economia nacional.

São esses os principais procedimentos adotados pelos fundos de investimentos no rastro das recomendações dos grandes investidores internacionais, como Warren Buffett. Aos acionistas do seu fundo de investimento de quase 200 bilhões de dólares passou a recomendar compra de ativos em outras fronteiras continentais, na América do Sul, na África e na China, visto que as possibilidades de ganhar dinheiro, na Europa e nos Estados Unidos, diz ele, esgotaram-se na vertente da financeirização especulativa ficticia global. A ilusão chegou ao fim e os rendimentos dos acionistas deverão ser retirados da produção e não mais da especulação, disse. 

 

Prestigio abalado

 

A moeda americana se transformou em fonte de preocupações generalizadas para os que a acumulam, como os chineses, que buscam desfazer dela, com prando ativos pelo mundo afora, desestabilizando as moedas nacionaisBrasil e a América Latina, detentores de matérias primas abundantes, necessárias à manufatura global, virqam atrativos irresistíveis aos capitais empoçados no juro negativo europeu e americano, sofrendo eutanásia do rentista. O deslocamento das ordens de compras dos fundos, que buscam serventia para o dólar sem expectativa de reprodução especulativa e produtiva nos nos países ricos transformou-se em bombeamento da valorização cambial artificial periférica.

O endividamento e a dificuldade competitiva dos países nos quais a moeda sobrevaloriza com tal movimento sinalizam perigos macroeconômicos que fazem implodir tensões políticas, especialmente, em face do avanço do desemprego.

O governo Lula passou a sofrer pressões irresistíveis dos exportadores, como aconteceu com o governo Getúlio Vargas, na crise de 1929. Os exportadores de café, em 1930, no auge da depressão, conseguiram que o governo comprassem safras para serem destruídas, a fim de evitar depressão dos preços. Cresceu a demanda interna dos capitais agrícolas, dando partida à industrialização nacional.

Agora, os empresários, com a depressão externa, correm para o mesmo objetivo, solicitando favores governamentais. Estes virão ou em forma de subsídios aos exportadores, ou de promoção do consumo interno via aumentos dos gastos estatais ou de mexidas no câmbio, para evitar a entrada excessiva de moeda americana. Seria fechada a porteira para os capitais especulativos?

O presidente do BC assegura, apenas, no discurso, que não mexerá no câmbio, mantendo o conceito de flutuação, mas, na prática, faz o inverso, ou seja, coloca o BC para comprar dólar. Trata-se de virar pelo avesso a explicação dele, porque a aparência não é a essência.

 

Abstração se desfaz na crise

 

O capitalismo de desastre que leva às bolhas busca valorizar as moedas da periferia capitalista para fugir do excesso de dólares candidatos à desvalorização, para transforma-lo em ativo viávelConcretamente, o câmbio flutuante é uma abstração, como abstratos, também, estão se transformando os dois outros pés do tripé macroeconõmico neoliberal na Era Lula: a sustentação de elevados superavits primários e a meta inflacionária.

O colapso do mercado externo, convivendo com moeda nacional sobreavalorizada, dispensa a meta de inflação, porque os preços, em face da oferta interna maior que a demanda, afetada pela queda das exportações, caem mais rapidamente ainda. A meta inflacionária torna-se dispensável.

O x da questão não seria mais optar por incrementar os investimentos, estimulando compras de máquinas novas, para serem colocadas no lugar das que se encontram paradas, mas focar o incremendo do consumo, como fazem os governos asiáticos, distribuindo dinheiro para os consumidores. Dessa forma, girando o mercado interno, conseguem elevar a arrecadação tributária, para fazer frente aos compromissos sociais, indispensáveis à sustentação do poder democrático.

No ambiente da crise, não está sendo mais a produção a fonte da arrecadação tributária, como tem sido a regra. Ao contrário, no ambiente, altamente, competitivo na economia global, crescem as pressões dos produtores, tanto em favor da redução dos juros como dos impostos, para conquistarem mercados.

A saída seria, então, bombar o consumo. Os cofres governamentais encheriam para  construir as obras de infra-estrutura e ofertar os serviços públicos básicos como educação, saúde, segurança, etc.

Por isso, a disposição governamental de distribuir mais 6 milhões de cartões de consumo popular para o Programa Bolsa Família visa, fundamentalmente, aumentar a arrecadação , antes de visar assistencialismo. O assistencialismo do Bolsa Família, na prática, é jogada econômica fundamental para aumentar os ingressos tributários, que não serão realizados, na produção, em meio à redução geral do crédito, acompanhada da manutenção dos juros altos.

 

Simbolismo fúnebre

 

As flores do funeral neoliberal que sustenta abstracionismo econômico brilham no cenário da ficção monetária que entrou em parafuso totalA continuidade da valorização cambial implicaria pois em aumento do desemprego e do endividamento governamental, bloqueando a capacidade governamental de atuar como fator econômico anti-cíclico no cenário da bancarrota financ eira global.

O Banco Central estaria entre dois fogos: ou acelerar a queda da taxa de juro, para desestimular entrada de dólares especulativos em busca de ativos seguros, seja no campo empresarial, seja na especulação com a dívida pública interna; ou fechar as porteiras de entrada da especulação financeira que passou a ver o Brasil como a salvação do dólar em escalada desvalorizativa.

Sem opções de investimentos nas economias dos países ricos, correriam os dólares sobreacumulados na praça global para as economias dos países pobres como saída para sustentação da taxa de lucro cadente. Sobretudo, com a grande crise mundial vai-se aos ares o discurso abstrato das metas inflacionárias, dos elevados superavits primários e do câmbio flutuante.

A sustentação de tal discurso, para evitar intervencionismo salvacionista estatal, representaria a implosão da estrutura produtiva e ocupacional, em cenário de exacerbação da concorrência internacional, que desata , por sua vez, protecionismos, cujos efeitos seriam explosões de tensões sociais que condenarima a Era Lulista a um final altamente instável.

O tripé da macroeconomia – cãmbio flutuante, metas inflacionárias e superavit primário – , montado pelos credores e sustentado pelo Consenso de Washington, ao longo da neorepublica neoliberal brasileira, depois da crise monetária dos anos de 1980, está caindo por terra, com a excessiva valorização do real, somente atenuada pela ação intervencionista do BC.

O presidente Henrique Meirelles carrega o câmbio flutuante como o cavalo leva El Cid morto em cima dele como representação da resistência de um defunto para enfrentar batalha. O símbolo neoliberal, que se expressa na posição do titular do BC, se consome no seu próprio funeral.

CPI esvazia PMDB na Petrobrás

Lula e Sarney, PMDB e PT, são aliados cujas lealdades recíprocas variam ao sabor dos interesses dos grupos que se formam no entorno de ambos, na maioria das vezes conflitantes,
O tiro pode ter saído pela culatra. O corpo mole dos peemedebistas em permitir o desgaste do Planalto, ao facilitar a instalação da CPI da Petrobrás, constituindo tal ação represália por contrariedades puramente corporativas, representou ação política exorbitante, que pode gerar seu oposto aos olhos planaltinos. Contrariados pela política anti-corporativa adotada na empresa estatal Infraero pelo Ministério da Defesa, responsável por desalojar apaniguados de poderosos líderes do PMDB , como os do senador Romero Jucá, padrinho de irmão que trabalha na empresa com salário de assessoria especial, livre de concurso, os peemedebistas, em sua reação corporativa, colocaram a coalisão governamental em cenário de total incerteza.
 
Fortaleceram, consequentemente, a oposição e abriram aos oposicionistas espaços que estavam obstaculizados por falta de discurso. O PMDB teria, também, dando moleza à oposição, protestado, indiretamente, contra a resistência do presidente Lula em indicar nomes peemedebistas para ocupar cargos dentro da estatal do petróleo, e em abrir espaço privilegiado para o partido no núcleo de decisão presidencial, no Planalto, deslocando da coordenação política o ministro José Múcio Monteiro(PTB-PE). Tentarão faturar, como informou o Estadão, controle político para acompanhar a exploração das reservas do pré-sal. Mas, como, se , fazendo jogo duplo, se colocam contra os interesses da estatal?
 
A garganta profunda do PMDB foi decisiva para viabilizar a CPI, ao não ir à luta, para trabalhar pela resistência a sua instalação ao lado do PT. Como querer, agora, influir nos destinos da estatal? Se auto-inviabilizaram. Nesse contexto, os peemedebistas tentaram chegar ao objetivo por linhas tortas, mas, na prática, podem ter criado armadilha para si mesmos. Ficou , praticamente, impossível ao PMDB ter acesso à Petrobrás, influindo, decisivamente, na sua política, no momento em que viabilizou a instalação da CPI que se transforma em palanque da oposição.
 
O PMDB se ergue, na prática, como representação inimiga aos olhos da Petrobrás, do governo e do PT. “Diz-me com quem andas que te direis quem és”, desabou uma voz planaltina, ao apreciar o episódio em que o PMDB, melhor, uma parte do partido, joga na exorbitância para preservar os interesses corporativos, ao mesmo tempo em que divide suas preferências, tendo em questão a sucessão.
 
A conjuntura não está nada boa para os peemedebistas no comando do Congresso. O presidente José Sarney ainda não teve sossego depois que se elegeu comandante do Legislativo. A corrupção que permeia as contratações terceirizadas, palco de armações mafiosas entre parlamentares e altos funcionários teleguiados pela ambição, deixou Sarney exposto. Agora, a exposição sai de cena, mas entra outra, ou seja, aquela em que o velho político maranhense comanda  partido que, a propósito de resguardar interesses corporativos, viabiliza, via corpo mole, a CPI da Petrobrás. O interesse menor do PMDB detona o interesse maior do PMDB. Duplo desgaste.

Ninguém se dá bem

O presidente do PSDB, senador Sergio Guerra, e seus colegas da oposição, senador Aloisio Mercadante, líder do PT, e senadora Ideli Salvati, líder do governo, no Senado, poderão entrar em autofagia. Os tucanos têm bala contra os petistas e vice-versa
Enquanto fica de olho na evolução ou contenção do câncer linfático da ministra Dilma Rousseff, candidata do presidente Lula, imposta à coalisão governamental, busca, também, o PMDB se dar bem com o PSDB, no jogo do corpo mole, vislumbrando possível composição, com qualquer um dos dois importantes candidatos tucanos, seja José Serra, governador de São Paulo, seja Aécio Neves, governador de Minas Gerais.
 
O jogo, no entanto,  pode ter sido mal calculado pelos peemedebistas corporativistas tendentes ao tucanato, principalmente, se confirmar a euforia nas hostes do PT ancorada em pesquisa em realização pelo Ibope que confirmaria subida espetacular de Dilma.
Em face de possível arrancada dilmista, os peemedebistas ficariam mais contidos no jogo de pressão, que já tem cara de sucessão. Teriam seu cacife desvalorizado. Primeiro, perderam confiança do Planalto; segundo, colocaram-se como colaboradores indiretos dos tucanos e terceiro, ficaram, consequentemente, distantes da Petrobrás, onde , como maioria na coalisão governamental, buscam, infrutiferamente, influir. 
 
O ímpeto tucano, por sua vez, ficou arrefecido diante de disposição nacionalista para sair às ruas pelo “Petróleo é nosso”, de novo, fazendo pressão sobre o Congresso, justamente, no momento em que a empresa estatal é considerada modelo internacional pelas corretoras avaliadoras de perfomance empresarial, colocando-a como uma das cinco mais importantes no cenário global.
 
Assim, o PMDB, por ter exagerado na dose das pressões corportativas, e o PSDB, por poder passar, de agora em diante, a sofrer a pecha de anti-nacionalista, no ambiente de derrocada da ideologia neoliberal com a qual os tucanos se identificam, perderiam com a instalação da CPI.
O PT, no entanto, não se salvaria, porque viriam, certamente, a tona muitas informações passíveis de sugerir irregularidades no comportamento empresarial da empresa estatal, que abriga mujito nepotismo para atender as pressões da coalisão governamental, como no caso da Embraer.
 
O que aconteceria com a Petrobrás, vindo à tona fatores interativos positivos e negativos, no âmbito da CPI que promete ser politicamente rumorosa?
As valorizações das ações da estatal durante a semana, graças às especulações de alta nos preços do óleo, algo que poderia não se sustentar em face da desaceleração econômica mundial, demonstram que o mercado acredita na força da empresa, embora esteja se preparando para enfrentar o processo investigatório que começa a agitar a vida política, para o bem e para o mal, no compasso da sucessão, que mobiliza ambições.