Crise abala Lula e fortalece Serra

O presidente Lula e o governador José Serra emergiram como polos opostos na crise bancária mundial que ameaça a economia brasileira. Depois de a bancarrota financeira global detonar os pequenos e médios bancos, está levando para o abismo, também, as grandes e médias empresas, que estavam alavancadas na especulação.

Só não correm perigo, por enquanto, os grandes bancos, que estão sendo abastecidos pelos depósitos compulsórios, que utilizam, não para emprestar ao público, mas para comprar títulos do governo, sem contribuir para a formação da riqueza social.

Os tremendos tombos nos lucros especulativos dos empresários podem criar pânico no mercado brasileiro, se a situação internacional deterior-se, fortemente, como tudo indica que isso venha a acontecer, no compasso da primeira grande crise monetária do século 21, anunciando tempestades econômicas e políticas.

Nesse contexto, o governador de São Paulo, José Serra, sobressaiu atacando os juros altos e colocando-os em campanha eleitoral, enquanto o presidente ficou calado sobre o assunto, até agora, porque se tornou prisioneiro do custo elevado do dinheiro. 

Bancarrota empresarial e financeira à vista tenderia a abalar o presidente Lula, como está abalando os presidentes em geral, no espaço global. Já, Serra, livre atirador contra os juros altos, faturaria no cenário em que se instaurou o “Chaos”, rítmo jazzístico frenético de Wayner Shorter.

Grandes empresas como Sadia, Votorantim, Perdigão, Aracruz Celulose, na qual a Votorantim tem muitas ações, e muitas outras de expressão e peso na economia, com grande influência na saúde ou na doença da bolsa de Valores de São Paulo, concentrada numa totalidade não superior a 200 ações negociadas, certamente, nos próximos meses, baterão à porta do governo, pedindo socorro. Os clamores já estão percorrendo os corredores das federações de indústrias.

 

O hospital das grandes empresas nacionais entra em ação

 

 

O BNDES, velho hospital de empresas falidas, será chamado a exercer o seu eterno papel, de emprestar e perdoar, ao longo do capitalismo nacional, tocado pela concentração da renda, de forma abusiva, desde o desenvolvimentismo keynesiano-jusceliniano dos anos de 1950, seguindo com os militares, de 1964 até 1984, e paralisado, daí, em diante, durante a Nova República, detonada pelos efeitos da crise monetária dos anos de 1980, que instaurou o neoliberalismo jurista estagnante.

As empresas caíram na armadilha dos juros altos. Aplicavam uma parte dos seus resultados na especulação, para obter alta lucratividade, como forma de compensar a baixa lucratividade relativa na produção, afetada pelo jruo composto extorsivo.

Os lucros especulativos complementam os insuficientes lucros produtivos. Estes não sobrevivem sem aqueles.

Conseguiram as empresas, dessa forma, sustentar a taxa de lucro média em ascensão. Caso contrário, se ficassem só na produção, suportando no lombo o prolongado sacrifício, teriam sucumbido à concorrência internacional.

Como suportar tal competição, se na Europa, Ásia e Estados Unidos os juros estão caminhando para serem negativos, descontada a inflação?

 

Desequilíbro se instala na economia especulativa

O jogo de equilíbrio das empresas entre especulação e produção foi para o espaço com a emergência da crise bancária. 

Enquanto nas atividades produtivas, no ambiente da concorrência, a margem de lucro nunca supera a casa dos 10%, ficando na média de 7,5%, e olhe lá, nas atividades especulativas, o lucro se situa(va) no  invejável dos 25% ao 30%. Na média, entre especulação e produção, as empresas lucravam 15% a 20%.

Sem os lucros especulativos, poderão perder tudo.

O jogo da especulação foi, brutalmente, interrompido. Os empresários e os especuladores jogavam no dólar futuro para fazer lucro no presente, em real, multiplicado nos juros altos internos.

Estavam comprados no dólar barato que subiu violentamente de preço. Ficaram como o turista que se encheu de dívida no cartão de crédio no exterior com o dólar barato, que vira dólar caro com a desvalorização da moeda nacional repentina. Facada.

O grupo Votorantim, do grande empresário Antônio Ermírio de Moraes, histórico investidor na produção, não titubeou diante do jogo especulativo no tempo das vacas gordas. Abriu seu próprio banco. Foi participar do jogo do crediário em todas as direções, nos investimentos especulativos e no crédito direto ao consumidor. Alanvacou com Arquimedes, o grego. Os lucros bancários passaram a ganhar dimensão equivalente aos lucros obtidos pelo grupo na produção e comercialização oligopolizada do cimento.

Assim, como o grupo Votorantim, outras grandes empresas desenvolveram a bissexualidade empresarial brasileira: faturar prá frente, na especulação, e prá trás, na produção. E vice-versa. Uma equilibrando a outra.

O desastre financeiro global americano e europeu, que puxa o mundo para baixo, colocando os demais continentes em situação de total instabilidade, pegou os empresários comprados no futuro com expectativas de explosões financeiras iminentes no presente.

O exemplo da Sadia é sintomático. Desesperada diante dos prejuízos, a direção da empresa, que estava atuando de forma concessionária pelo presidente que havia se afastado, teve que apelar para a  volta imediata do verdadeiro chefe. O ex-ministro Luis Fernando Furlan, proprietário da empresa, foi obrigado a assumir seu próprio negócio, que estava sob comando de empregados. O olho do dono estava ausente?

Furlan pode já estar batendo às portas do BNDES.

 

Os próximos momentos são de angústia

Nas próximas semanas, com os possíveis agravamentos e rescaldos da grande crise monetária global, cujos prejuízos são calculados, até agora, em 14 trilhões de dólares, cinco brasis, a onda de desastres financeiros pode avançar em meio ao discurso desenvolvimentista do presidente Lula como arma para manter o otimismo nacional.

Os governos nacionais foram ultrapassados num mundo onde a economia passou a ser dominada pelos grandes oligopólios cujo poder impõe vontade aos próprios governos. O grupo dos sete grandes, convocados às pressas por W. Bush, nesse final de semana, em Washington, resolverá a parada? Difícil.  Com a crise, tanto os governos, como as grandes empresas, todos balançam e revelam suas fragilidades.

A balburdia estará instalada nesse sábado e domingo na capital americana, pois, junto com o grupo dos sete, estará, também, o grupo dos vinte. Certamente, pintarão propostas de todos os naipes, como, por exemplo, a de realizar, já, uma nova coordenação monetária global, porque o dólar teria sido ultrapassado em seu papel de equivalente monetário global por falta de gás financeiro do governo americano.

Essa situação, coloca o governo do presidente Lula diante da possibilidade de ser obrigado a salvar tanto os bancos como empresários, emergindo como super-empresário estatal no contexto desenvolvimentista nacional, dado pela crise bancária.

Os bancos privados grandes fugiram do compromisso de salvarem os bancos privados pequenos, mesmo com dinheiro subsidiado do governo. O impulso nacionalista governista vai se tornando irresistível, no rastro do processo de bancarrota privada.

O governo está tendo que assumir as contas do desastre, claro, com dinheiro do consumidor, jogando as reservas cambiais no fogo. Os repórteres de O Valor, Cristiano Romero e Cláudia Safatle, informam que serão sacados pelo menos 20 bilhões do total de 207 bilhões de dólares acumulados, para salvar bancos, empresas e garantir investimentos em infra-estrutura.

O perigo de o dinheiro ser torrado pode ser grande, principalmente, se a onda especulativa com o dólar , no país, onde seu valor sobe, proporcionalmente, mais do que em outras praças, se os juros internos continuarem elevados, estimulando novas ondas especulativas com a moeda nacional, num segundo momento da crise.

teve que assumir pepino, emitindo medida provisória salvacionista, que poderá ser ampliada. Não seria, apenas, suficiente salvar os bancos pequenos. Os representantes dos setores produtivos, também, são candidatos ao socorro governamental.

Os efeitos da grande crise tenderão a desatar consequências cujos elos se estendem em todas as direções do sistema econômico. Nesse contexto, ganha dimensão politica a discussão sobre a taxa de juros brasileira, a mais alta do país.

 

José Serra-José Alencar, novo fato político

 

Nesse sentido, saiu na frente o governador José Serra, de São Paulo. Na quarta, 09, depois de encontrar-se com o presidente Lula e a ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, preferida pelo titular do Planalto para sucedê-lo, conforme disse o ministro da Justiça, Tarso Genro, ele abriu fogo contra a política monetária comandada pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

Politizou o assunto, para ajudar, não apenas a campanha eleitoral do prefeito Gilberto Kassab, do Democrata, 17 pontos à frente de Marta Suplicy, do PT, no DataFolha. Sobretudo, com o discurso de tiro ao juro, Serra alavanca sua própria candidatura presidencial para 2010, pelo PSDB.

O governador paulista fechou sua posição com o discurso do vice-presidente da República, José Alencar Gomes da Silva. Racha, dessa maneira, o próprio governo.

Qual o novo discurso de Marta Suplicy e de Dilma Roussef diante do de José Serra? Falarão a favor dos juros altos, quando trabalhadores e empresários buscam, justamente, o contrário, para sobreviver?

Os juros altos, no estouro da crise bancária, que destroi riquezas especulativas, deixaram de ser solução para os especuladores, para se transforarem em problemas altamente explosivos. Não trabalham mais para produzir riqueza especulativa, mas para produzir destruição de riqueza na especulação.

O PMDB, maior vencedor das eleições municipais, comprará o discurso do juro alto ou do juro baixo proposto pelo governador de São Paulo, como alternativa para a sobrevivência da economia, que detonou, na crise, o esquema de reprodução do capital na especulação?

Serra assumiu a vanguarda do novo discurso, com o qual pode atrair aliados à direta, à esquerda e ao centro.

O presidente Lula, que estava com o tempo trabalhando a favor dele, está sendo obrigado, agora, a correr contra o tempo. Sem outra alternativa, teve que assumir o pepino neoliberal com dinheiro do contribuinte.

Se não salvasse os pequenos bancos e se não salvar grandes, médias e pequenas empresas, certamente, a Era Lula estará encerrada, politicamente.

José Serra colocou o presidente da República em uma armadilha. Por ter tocado na ferida, o titular do Palácio dos Bandeirantes deixou o titular do Planalto entre apoiar os juros altos e perder prestígio ou conter os juros altos e seguir a orientação do próprio Serra.

Estrategicamente, Serra passaria a ser o mentor de nova política econômica em que a intervenção do Estado na taxa de juro se faz necessária para evitar que tanto o capital como o trabalho sejam destruídos.

Bancarrota põe juros na campanha eleitoral

A economia brasileira, ameaçada pelo juro alto, entra de cabeça na política e na campanha eleitoral. A crise bancária internacional, que paralisará a economia mundial, pelo menos, nos próximos doze meses, ou mais, coloca em pauta, urgente, para a classe política e econômica, no Brasil, a questão da taxa de juro, a mais alta do planeta terra.

Ficou incompatível a situação brasileira. Aqui, vigoram os juros mais altos do mundo. Lá fora, coordenadamente, os governos cortam os juros para evitar a recessão. Por que? Manter os juros altos seria mais inteligente, ou o pessoal, nos países ricos, está errado?

Lula não deu um pio até agora sobre o problema candente da economia nacional. O governador de São Paulo, José Serra, percebeu o vácuo político dos juros e entrou de corpo inteiro na oportunidade eleitoral aberta por eles. Criticou a políica monetária praticada pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e ressaltou que ela é a responsável pelo desajuste da taxa de câmbio que bloqueia as exportações e aumenta, perigosamente, o deficit em contas correntes do balanço de pagamento, que fragiliza, adicionalmente, a moeda.

Não apenas a Fiesp, mas, também, os trabalhadores tenderiam a fechar com Serra nessa estratégia que lançou, depois de se encontrar, no Planalto, na quarta, 08, com o presidente Lula e sua possível candidata a sucessão presidencial, Dilma Roussef, da Casa Civil. Botou os juros na dança da campanha eleitoral. 

O titular dos Bandeirantes joga nesse rumo, não apenas para tentar levar à vitória seu candidato, prefeito Gilberto Kassab, poste serrista, bombado 17 pontos à frente da concorrente do PT, Marta Suplcy, segundo pesquisa DataFolha, mas, também, porque já se coloca como eventual candidato oposicionista à presidência da República em 2010.

Sua bandeira emergiu: tiro ao juro alto.

Que dirá Marta Suplicy, para responder ao ataque de Serra aos juros altos que faz avançar a candidatura de Kassab em cima da dela, tentativa petista de voltar ao poder na cidade mais poderosa da América do Sul?

Defenderá os juros altos, que, na crise desatada pela bancarrota financeira americana e européia,  ameaçam empresas e trabalhadores?

Dobradinha surpreendente: José Serra-José Alencar

Na prática, José Serra adota o discurso do vice-presidente da República, José Alencar Gomes da Silva, no momento, em que as tensões máximas nos agentes econômicos se voltam para os desastres financeiros que se agravam ainda mais diante de juros excessivamente altos, como o brasileiro.

Ou Lula, agora, adota o discurso do seu vice-presidente, sintonizado com as reivindicações urgentes dos setores produtivos, afetados pela conjugação de demanda cadente com juro ascendente, ou poderá trabalhar contra a candidatura de Marta Suplicy e de sua preferida, ministra Dilma Roussef, para 2010.

Sofreria revezes se a situação das empresas se deteriorarem, algo que a crise bancária abriu para importantes grupos econômicos nacionais, afetados pelo terremoto.

Pragamenticamente, José Serra abriu discussão relativamente à condução da política monetária pelo Banco Central, de complacência com os especuladores e de elevado perigo para a saúde da economia, exposta ao excessivo endividamento em clima de desaceleração da produção.

O monetarismo do Banco Central entra em choque com o discurso político de José Serra, que bombardeia a contradição petista: joga no social, mas privilegia a especulação.

Os tucanos adotam o discurso oposicionista econômico, invertendo sua posição. De privatistas, na Era FHC, poderão, com Serra, jogar como intervencionistas. O discurso de Serra é de intervenção. Tucanos, quem diria.

O Banco Central está, politicamente, na berlinda, quanto mais a crise leva Lula a abdicar-se do poder real, para ficar, apenas, com a figuração. Enquanto, na Europa, os governantes mandam os bancos centrais desarmarem os juros, no Brasil, o governo manda o BC continuar super-armado com os juros altos.

 

Ataque ao paraíso dos especuladores

 

Se por um lado melhoraram os controles e fiscalizações sobre regras bancárias, por outro lado, adotou-se política monetária que colocou a economia sob intensa especulação financeira em cima da dívida pública. Crítico dessa estratégia neoliberal desde quando participava do governo neoliberal de FHC, José Serra, na crise bancária, renova o seu ataque, com as condições históricas, agora, jogando a favor do seu discurso. Coloca Dilma Roussef na defensiva e toda a coligação governamental. O PMDB, que sai forte das eleições, jogaria contra a proposta de Serra?

Serra sintoniza seu discurso com a tendência mundial. Os bancos centrais, sob orientação dos governos, estão fazendo intervenções maciças na economia, para coordenar política monetária propício ao fortalecimento da produção.

Serra ataca, com seu discurso de campanha, o paraíso dos especuladores. A crise bancária coloca em xeque a continuidade desse processo, pois ela tenderia, ao rítmo atual, enforcar geral o setor produtivo, tanto as empresas, como os consumidores. Lula pode estar sendo obrigado a jogar contra o tempo, o mais rápido possível, porque a campanha eleitoral para 2010 entrou na rua com o discurso anti-juro alto de José Serra, com o bumbo tucano tocando atrás a música que em tempos passados era do PT.

A estratégia de Serra, no novo contexto, tenderia a ser bem absorvida pelo sentimento popular de pânico que a crise detonou nos países cêntricos enquanto nos países periféricos, como Brasil, o sentido de gravidade já se encontra em processo de expansão, invertendo expectativas. Os empresários já informam disposição para desacelerar investimentos, cujos efeitos são desemprego e redução da renda disponível para o consumo. Atrás disso, vem redução da arrecadação, crise na Previdência Social, agitação no Congresso etc e tal. 

O pavor dos juros altos joga a favor de Serra

Na desaceleração global, que afeta o Brasil, os consumidores, endividados, são candidatos a serem sacrificados no altar dos juros compostos. Alberto Einstein, indagado sobre o que seria mais veloz no movimento da natureza, não teve dúvida. Os juros compostos, respondeu. José Serra entra na lógica política-crítica einsteiniana, aberta pela primeira grande crise monetária do século 21. 

Os eleitores estão de cabelo em pé diante do que pode vir por ai. O medo, claro, não é da redução do consumo ou do aumento do endividamento com o juro alto, mas do desemprego. Serra absorve essa expectativa pessimista do eleitor e trabalha ela políticamente em forma de crítica aos juros compostos no rítmo frenético comandado pelo Banco Central.

O titular dos Bandeirantes politiza, dessa forma, o debate sobre os juros, seguindo a lógica desatacada pela crise bancária neoliberal que colocou em xeque a estratégia econômica que impõe juro alto, contra o qual todos buscam fugir, menos o governo brasileiro, escravo dos juros altos.

Com o discurso de José Alencar a tiracolo, que fortalece, no plano do poder federal, o vice e cria rachaduras dentro do poder da aliança governista, Serra entra em campanha contra a política monetarista, sintonizando-se com tendência nova no cenário econômico global, que impõe maior presença do Estado para organizar a economia, cuja condução, pelo mercado, levou à bancarrota financeira, que ameaça a todos.

 

O jogo da ambiguidade entrou em crise

Lula, como FHC, fez o jogo dos bancos o tempo inteiro, enquanto promoveu política social para alavancar mercado interno. Este, agora, diante da crise bancária, somente, terá fôlego, se o custo do dinheiro cair.

Perdeu utilidade política a ação governamental de patrocinar dobradinha financeira-social na economia. De um lado, privilégio excessivo para os bancos; de outro, politica social para dinamizar o mercado interno, enquanto sobra, para o setor produtivo juros altos e carga tributária extorsiva.

O contrapé desse processo não teve a fiscalização necessária do governo expressa em ação capaz de evitar a especulação jurista desenfreada. Serra bombardeia essa estratégia.

Dilma teria que sair a campo para fazer o contraponto. Seria a favor dos juros altos, com Lula e Meirelles, ou dos juros baixos, com Alencar e Serra?

Nos próximos meses, com redução da demanda interna, ampliação das dificuldades dos devedores em quitarem suas dívidas mediante o juro escravocrata, bancando crediário, agora, detonado, o discurso de José Serra ganharia espaço? Se Kassab continuar bombando significa que seu discurso estará batendo bem na mente popular.

José Serra pega o presidente Lula no contrapé da crise. O apelo popular que o discurso serrista alcançaria pode representar uma onda favorável a sua candidatura e a necessidade de o governo em precipitar medidas econômicas nacionalistas na linha proposta por Serra. Ou seja, Serra seria o protagonista de nova política econômica nacionalista, a partir da pregação do juro baixo.

Subprime no Brasil é especulação no mercado futuro

O discurso de José Serra pode detonar os mecanismos da especulação desenfreada que caracteriza a espécime de subprime brasileiro cujos efeitos, agora, na crise, são falências e expressivos prejuízos para grandes empresas.

Os empresários corriam – e ainda correm – para especular com o dólar futuro. Estavam trocando dólar barato por juro alto. Com a corrida bancária, o dólar encareceu e as empresas dançaram feio.

A Sadia, a Perdigão, a Votorantim, Vale do Rio Doce, os que mandam no mercado especulativo, incluindo Petrobrás, peixes grandões, estão amargando prejuízos imensos. Só eles? Pode ser um carrilhão de gente. Os balanços dirão, ou serão manipulados?

A aparência de normalidade da economia, do seu vigor, tenderia a esconder o seu oposto, a anormalidade perigosa, em forma de fragilidades, dadas as jogadas especulativas que explodiram em prejuízos para os empresários e especuladores, nacionais e internacionais, que transformaram o mercado futuro em fonte de renda para o presente, especulativamente. O subprime brasileiro baixou seu santo no mercado futuro, todo bichado, nesse momento.

José Serra, depois de visitar o presidente Lula e a ministra Dilma Roussef, criou o novo fato político no cenário econõmico nacional.

O discurso de Serra coloca o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, na zona de tiro dos oposicionistas. O governador paulista já começou a puxar o gatilho.

Os empresários e os devedores das prestações no crediário serão os avalistas do discurso serrista. As expectativas do alto endividamento das empresas e dos consumidores diante dos juros altos criam ambiente de tensão contra a política monetária que se transforma em objeto de ataque do tucanato.

Meirelles na mira do PT

O PT vai segurar Meirelles? Ou vai pedir ao presidente Lula providências, diante do perigo de os juros altos levar à falência significativa parte do sistema econômico?

Os grandes especuladores estão tombando. Quem são eles? Parte importante representa o próprio segmento empresarial. As empresas, diante dos juros altos, aplicavam uma parte na produção, outra nos juros. Como estes são extorsivos, maior parte do lucro empreserial advinha das jogadas financeiras. Só que estas se transformaram em desastres iminentes na emergência da crise bancária global.

A direção da Sadia trouxe de volta, aceleradamente, Luís Fernando Furlan, ex-ministro da Indústria e do Comércio Exterior, durante primeiro mandato do presidente Lula. Ao assumir, disse que a empresa está saudável, economicamente, mas financeiramente, baleada.

Ou seja, vítima da bancarrota financeira global. Se não houver um socorro, pode ir para o sal. Qual seria o papel de Furlan como ex-ministro, convocado às pressas pelo grupo empresarial, cuja influência levou o próprio Furlan a ser ministro? Muito, provavelmente, o de salvar a empresa da bancarrota.

O presidente Lula deixaria a grande empresa ir para o abismo ou vai salvá-la, se necessário for, diante de pedido de socorro de Furlan, repetindo esforço que os governos nos países ricos realizam, para salvar o sistema bancário e empresas  e empregos, todos ameaçados pelo terremoto financeiro global?

O jogo dos bancos centrais, sob orientações dos governos do capitalismo cêntrico, de optar pela inflação como solução para a grande crise deixa o governo Lula numa saia justa.

A ação coordenada dos governos centrais do capitalismo  para reduzir os juros representa relaxamento na política fiscal, a fim aumentar os gastos governamentais na infra-estrutura e retomar o crédito direto ao consumidor, de modo a permitir reativação econômica nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia e, consequentemente, no resto do mundo.

Relaxar e gozar é a jogada dos governos .

Relaxar e gozar(com a inflação), máxima de Marta Suplicy, candidata do PT à prefeitura de São Paulo, pode estar ser o jogo determinante para evitar a recessão e a quebradeira.

Os governos centrais estão preocupados não apenas em restaurar confiança nos bancos, injetando recursos neles, mas, sobretudo, em criar espaço para ampliação do consumo, pois sem consumo não há produção, sem produção não há emprego, sem emprego, o sistema democrático desaba, para abrir espaço ao imponderável.

O governo eleva seus gastos e reduz, com o aumento da oferta de dinheiro, a taxa de juro, para dinamizar, à moda keynesiana, mesmo que o remédio de Keynes, ou seja, a estratégia econõmica de guerra americana, esteja batendo biela.

As empresas precisam, desesperadamente, não apenas de dinheiro mais barato para produzir, mas, igualmente, de consumidores, cujos financiamentos nos bancos foram suspensos. O governo estatiza os bancos para reduzir os juros, pois , na crise, os bancos, sob orientação privada, sobem, em vez de diminuir o custo do dinheiro.

A salvação do sistema depende da sobrevivência não apenas das empresas, mas dos consumidores. Por isso, os governos, coordenadamente, por meio dos bancos centrais cortaram os juros. Lula demorou, Serra emplacou.

Mais inflação à vista, que vai testar a capacidade de endividamento dos governos, abalados financeiramente. Até quando aguentarão bancar os créditos podres que a moeda estatal sem lastro produz, especulativamente?

Show de incompetência sul-americana

 

Os líderes sul-americanos estão perdendo tempo precioso.

Em vez de se unirem em torno da União das Nações Sul-Americanas, Unasul, para debater a grande crise monetária, urgentemente, perdem-se em suas idiossincrasis pessoais, dando espaço às intrigas internas, esquecendo o essencial.

As ações dos líderes europeus, americanos, japoneses e asiáticos demonstram que a política sobrepujou a economia. Não há mais política econômica, mas, sim, economia política. A realidade capitalista está sendo rasgada, com tintas de sangue espalhando-se por todo o lado, com o sistema pedindo socorro, depois dos desastres decorrentes das especulações exageradas.

A Europa, que, em torno da União Européia, com seu euro, relativamente, forte, se mostra apavorada, concluiu que, isoladamente, nenhum país conseguirá superar suas dificuldades. Coordenam os líderes europeus fundos de investimentos comuns, para atacar os problemas gigantescos que emergem incontrolavelmente. Os asiáticos, igualmente, buscam formar seus fundos financeiros, com o mesmo objetivo.

O banco central americano e o banco central europeu, depois de hesitações maiores, pois não sabiam o tamanho real do incêndio monetário, buscavam ações isoladas. Os europeus, num primeiro momento, pensaram poder, cada um por si, dar conta do recado. Debalde. O governo americano, idem. W. Bush, nas cordas, jogou a toalha. A crise é maior que os Estados Unidos. Estes não conseguirão sair do buraco sem a ajuda dos demais aliados.

Tremendo contraste com a posição americana arrogante até há pouco tempo, que pensava ser onipotente. A invasão do Iraque em 2002 foi feita por Tio Sam à revelia da ONU, que condenou a ação. Agora, quando a guerra interna, econômica, assola a economia americana, deixando as famílias desesperadas, o líder americano, fracassado, pede água.

 

O povo nas ruas, tensão ideológica à vista

 

O desespero deixou os asiaticos com os nervos à flor da pele, todos indo para as ruas, algo que apavora o sistema democrático, diante da turba revoltadaO grande perigo é o povão ir para a rua, pedir seu dinheiro de volta. Os asiáticos de Hong Kong já fazem isso com grande alarde. Dançaram os correntistas com sua grana depositada em bancos que estão indo para o espaço, incapazes de serem salvos por si mesmo.

A mobiliação popular, caso se globalize, na Europa, Estados Unidos, América do Sul, fará emergir processo político que tenderia a levar de roldão as social-democracias estabelecidas. Abriria espaço para outras alternativas, cujas consequências poderiam rebentar com a democracia.

Nesse ambiente, em que os líderes na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia se descabelam, correm para um lado e outro, onde ficam os líderes sul-americanos?

Eles, há pouco, criaram a União das Nações Sul-Americanas, a Unasul. O objetivo da instituição, como destacam, é o de unir o continente em torno de um parlamento, de uma moeda, de um banco central, de uma segurança, de um tribunal sul-americanos. 

A eficácia dessa proposta mostrou ser possível, recentemente, quando a presidente pro-tempore da Unasul, a líder do Chile, presidente Michele Bachelet, diante da crise boliviana, ameaçadora em rachar o país ideologicamente, convocou os líderes e amainou as tensões. Mostrou eficiência. Por que, até agora, ela e seus pares não se reuniram, em caráter emergencial, para discutir a grande crise monetária, que pode ser ameaça a todos eles.

 

Desentendimento Brasil e Equador divide America do Sul

 

Ao contrário, os presidentes sul-americanos, arrogantes, acham que podem tocar, cada qual seu país, sem ver o todo da crise. O presidente Lula, numa demonstração de falsa força, cuja materialidade tende a ser negada, demonstrando ser mera impulsividade, fala em sustentar o surto consumista, enquanto o momento sugere cautela. 

Na Argentina, da mesma forma, passadas duas semanas do tumulto monetário, somente, na terça, a presidente Cristina Kirchner resolveu criar um conselho de emergência. O país está caindo pelas tabelas, endividado e pressionado pela inflação. Não dá para sair do buraco sozinho. Na Venezuela, idem, o presidente Hugo Chavez, arroga-se, com sua presunção, em ação isolada.

No Equador, o presidente Rafael Correia, vitorioso em recente eleição, que elegeu nova constituição altamente democrática para o país, consolidando mentalidade socialista sobre o pensamento neoliberal falido pela grande crise, como Lula e Chavez, não falou em uma ação coordenada. Igualmente, o presidente Evo Morales, diante de um país dividido, à beira da revolução separatista, não apelou para a união continental.

Os três, Lula, Chavez, Correia e Morales, reuniram-se em Manaus, há poucos dias, e cada um saiu para o seu lado. Não tiraram uma nota conjunta, sequer convocaram a Unasul, para debater os problemas emergenciais, que superam as questões nacionais. Se os europeus, muito mais ricos que os sul-americanos, concluiram que, isoladamente, não são ninguém, sendo necessária ação conjunta indispensável e rápida, para salvar o continente do incêndio monetário, por que a América do Sul, empobrecida e sucateada pelo neoliberalismo, ao longo dos últimos vinte anos, não requereria ação política semelhante?

Encontro continental está previsto para dezembro! A OEA, que faliu, porque não cuidou da essência fundamental da união e integração latino-americana, tem programada reunião naquele mês, que está anos luz da crise atual, tamanha a velocidade dos acontecimentos. Tremenda incompetência sul-americana.

Está pintando, portanto, trementa incompetência política entre os líderes. Essa seria a hora de lançar o Banco do Sul, para formar um grande fundo sul-americano, ancorado em riquezas reais sul-americanas, que fortaleceriam a moeda sul-americana, capaz de credenciá-la na nova arquitetura monetária global, que nascerá do caos em que mergulhou o dólar.

Até quando ficarão parados, com a boca aberta, cheia de dentes, esperando a morte chegar, como destacou o poeta Raul Seixas?

Pânico nacionalista testa união européia

Os desentendimentos iniciais entre os líderes europeus relativamente a um consenso capaz de levá-los a tomarem medidas conjuntas para evitar que os países se afundem no vendaval da bancarrota financeira representam perigo para a União Européia.

Podem ativar neonacionalismos cujos conteúdos políticos descabem para fechamentos internos, protecionistas, salvacionistas, incapazes de contribuir para uma visão do todo destinada à ação conjunta no continente.

A arquitetura da união da Europa correria perigo, diante da corrida dos governos, como aconteceu com o da Irlanda, de garantir 100% dos depósitos aos correntistas. Atraiu, dessa forma, dinheiro de outros bancos, em diversos países, que não poderiam ter esse privilégio por parte dos governos. Haveria, consequentemente, uma competição doida entre as entidades bancárias, cujo resultado poderia ser o imponderável.

Num primeiro momento, os principais líderes europeus, da França, Alemanha, Itália e Inglaterra, pisaram no tomate. Acharam que falariam pelo resto da comunidade. Dançaram. As notícias da volatilidade bancária, decorrente da corrida dos correntistas para tirarem dinheiro depositados, fizeram-nos voltarem, correndo, atrás, apavorados. A crise demonstrou ser maior que os quatro poderosos países.

Tiveram os líderes, então, que convocar os 27 países integrantes da comunidade européia. Tal reunião teve como resultado algo mais racional, em termos de proteção da garantia dos depositantes, na medida em que nota conjunta dos governantes assegurou que não haverá quebra de bancos. É uma aposta.

Os poderes públicos, como destacaram os líderes, salvarão as instituições, estatizando-as, se necessário, para, em seguida, vendê-las, se for o caso. Não há segurança de nada.

Essa decisão conjunta das lideranças européias alivou a ação deletéria, unilateral, do governo da Irlanda, que, ao garantir 100% dos depósitos dos correntistas, dividiriam os interesses europeus, de forma perigosíssima.

A situação ficou contornada, aparentemente, pois as tensões explodiram com a desesperada decisão do governo da Islândia de entrar firme para salvar o maior banco do país, afetado por corrida bancária.

Tudo está extremamente volátil e inseguro, mas a postura política das lideranças européias tenta construir um paredão contra o tsunami monetário, que se expressaria numa desperada debandada pelo dinheiro depositado pelos correntistas.

Somente os próximos dias mostrarão se estará sendo eficaz e efetiva a ação conjunta.

A comunidade européia carece de maior efetividade e eficácia, porque a União Europeia ainda não está políticamente consolidada.

Cada país, dispondo de suas instituições e controles nacionalistas, que, na presente crise, se afirmam autonomamente, na base do pensamento protecionista, mostra-se, contraditoriamente, impotente. Ainda bem.

A velocidade dos acontecimentos vai impondo sua própria lógica: não é mais possível ações individualizadas.

O Banco Central Europeu, que tem por objetivo, dar crediblidade à moeda europeia, o euro, coordenado política monetária capaz de assegurar o poder de compra dele, combinando ações estratégicas pautadas pelo Tratado de Maastrich, que fixa limites para a expansão orçamentária, tenta dar conta do recado, mesmo sem haver, ainda, historicamente, a união política no continente.

Nesse sentido, a decisão dos líderes, de garantir a sobrevivência dos bancos, levando o BCE a interferir, sempre que for necessário, dá novo caráter proativo à União Européia.

Os acontecimentos dramáticos forçam, em meio às novas circunstâncias, instâncias mais fortes de ação política sobre a realidade em convulsão econômico-financeira.

O velho nacionalismo europeu, que não morreu de todo com a emergência da União Europeia, tentou, na crise presente, colocar a cabeça para fora, em termos de ação unilateral. Não vingou, por enquanto.

O pânico ameaçou – e continua ameaçando – ações protecionistas, que, ainda, não são possíveis de serem removidas, mas a sabedoria européia, dada pela conquista história da sua própria unidade, está sendo aperfeiçoada na ação política como antídoto à crise econômica.

A economia política supera a política econômica.

Caso contrário, soluções radicais emergiriam, levando ao desconhecido em comparação ao vigente, ou seja, o regime social-democrata.

A unidade da União Européia representaria possibilidade de se caminhar para uma instância econômica mais ampla, já que os continentes, isoladamente, não dariam conta de conter a onda braba detonada pela bancarrota financeira americana?

 

Incertezas podem detonar radicalismos políticos 

A insegurança econômica generalizada traz perigos: detona radicalismos políticos, quanto mais o contribuinte percebe redução viva do poder de compra da moeda nacional, algo que representa, objetivamente, empobrecimento crescente e incontrolável. Lenin, diante das instabilidades monetárias européias no pós-guerra, cujos efeitos políticos representaram foralecimento dos nacionaismos fascistas e nazistas, destacou que tal ambiente significa propaganda efetiva para desenvolver o pensamento socialista internacional.

A social-democracia européia, diante da crise bancária, pode balançar ideologicamente. A onda nacionalista, protecionista, tende a produzir pensamentos ideológicos autoritários, como resposta à irritação social diante de perdas no poder de compra das moedas, empobrecedoras da comunidade. Não é à toa que volta a ser notícia, na Europa, os fatores que levaram Hitler ao poder. Tudo pode precipitar quando se percebe, por exemplo, manobras como a do secretário de Tesouro americano, Henry Paulson, que escolhe duas ou três corretores privadas de Wall Street, para gerenciar a distribuição dos recursos do grande pacote salvacionista do sistema frente à bancarrota. Revolta social a tamanho descaramento não estaria descartada.

Pintaria uma onda socialista, que tenderia a expandir, no rastro da decadência possível da social democracia em meio à bancarrota financeira?

Sobretudo, a grande questão que vai se levantando, forte, é: terão os estados nacionais, isoladamente, força para conter a onda destruidora de riquezas, com suas respectivas moedas, ou o estado nacional será ultrapassado pela necessidade de união de regiões que guardam interesses comuns, no cenário global, buscarem saídas solidárias e não individualizadas?

Interatividade no contexto globalizado

A quimera de uma solução mundial, coordenada, no contexto em que amplia o pensamento nacionalista, fruto do medo da crise, estaria descartada? Talvez o caos seja inevitável, para que da lama saia alguma coisa.

Nesse momento em que o vendaval das compras e vendas de dólares, para liquidar posições, servem para valorizar a moeda americana, especialmente, na periferia capitalista, dada sua condição de equivalente geral nas relações de troca – até quando ninguém sabe – , o panorama pode superdimensionar a aparência e obscurecer a essência. Depois que as posiçõese estiverem liquidadas, para frente e para trás, no mercado, presente e futuro, chegará a hora da onça beber água, relativamente à capacidade da moeda americana de continuar sendo o equivalente monetário global.

Os dólares derivativos disponíveis, depois das liquidações de posições na louca corrida dos agentes econômicos nesse momento, irão para onde, se correrão o perigo de virarem papel de parede, caso continuem empoçados pela paralisia do crédito internacional?

O potencial de insegurança política que tal situação provoca na alma popular dos povos europeus que já viveram destruições de riquezas semelhantes, no rastro das quais surgiram ditadores e regimes de força, poderá ser o rescaldo forte dos tempos presentes nas próximas eleições européias. Imagine se Ângela Merkel deixa a peteca cair, agora. Seria excomungada. Abriria espaço para os socialistas e comunistas, já que a pregação do fortalecimento do estado, num ambiente de fragilidade total do pensamento e práticas neoliberais, ganharia corações e mentes mediante discursos inflamados para aplacar desesperos populares.

Lideranças sul-americanas dormem no ponto

 

A América do Sul, nesse contexto, está andando devagar.  Tentarão enfrentar a crise, isoladamente, com base nas moedas nacionais, que, no momento da grande crise, deixa de ser representativas?

O teste sobre a união européia é sintoma de que o destino da América do Sul está em jogo. Se as incertezas rondam os países que se uniram em passado recente, imagine-se as que tomam conta dos países mais pobres sul-americanos.

Cada um pode estar potencialmente sob riscos muito mais sérios do que os países ricos, porque o estado nacional, em face da nova conjuntura, tem poder limitado. O exemplo patente é a reação americana.

O governo agiu descordenadamente no plano internacional, pensando que a Casa Branca e o Congresso, isoladamente, poderiam resolver a parada, e o resultado, nessa semana, demonstra o oposto. A ação congressual americana, sem coordenação com os demais países ricos, tornou-se inútil diante da voracidade do terremoto financeiro global.

Os líderes sul-americanos, em torno da União das Nações Sul-Americanas, Unasul, estão diante de grandes desafios. Por que atrasar a discussão da criação do Banco Sul Americano que teria papel coordenador do poder monetário sul-americano, mediante moeda sul-americana, no cenário internacional, que se prepara para uma nova arquitetura monetária, dada a impossibilidade de a moeda americana continuar dando conta do recado.

Os presidentes Lula, do Brasil, Rafael Correia, do Equador, Hugo Chavez, da Venezuela, e Evo Morales, da Bolívia, se reuniram na semana passada, em Manaus, mas esqueceram o principal.

No auge da crise global, em vez de lançarem uma nota conjunta sul-americana, de união do continente como pressuposto básico para enfrentar os problemas que emergem, deram enfase às suas respectivas ações isoladas. Ficaram sem conteúdo. Até quando?

Ficção e realidade no colapso capitalista

Os repórteres e analistas em geral estão insistindo, catolicamente, em separar a economia real da economia irreal, a ficção da realidade.

Primeiro, a economia real, diziam, estava imune à economia irreal, que está implodindo na crise bancária americana e européia. Agora, também, ela, a real, entrou na dança. Se entrou, é porque está ligada à outra. Seria possível uma sem a outra?

Essa é uma discussão que não foi feita ainda, com profundidade, pela imprensa brasileira, simplesmente, porque a interatividade dialética entre ambas, realidadade e ficção, paira além da visão mecanicista que frequenta as redações.

A colônia, escravizada pelos juros, copia a metrópole. Não pensa com sua própria cabeça. Fica no idealismo imaginado nos laboratórios dos neoliberais e suas caixas de ferramentas salvacionistas.

Como diz Mário Juruna, no filme de Armando Lacerda, “Jururã, o espírito da floresta”, brasileiro pensa pequeno com cabeça de estrangeiro!”.

 

Com a cabeça no século 19

A economia capitalista, no século 20, continuou sendo interpretada pelos neoliberais , juristas, da periferia capitalista, com a cabeça do século 19. Chega-se, agora, ao século 21 sequer com a cabeça do século passado, mas do retrazado.

O pensamento econõmico crítico não frequenta as redações. Prevalece dentro delas, o pensamento marginalista, equilibrista, do tempo do padrão ouro, neoclássico, quando a moeda era ainda, como Ricardo denominava, valorímetro, meio de troca, falsamente, neutra, como se pairasse, incólume, acima das classes sociais. Ou seja, produto da imaginação esquizofrênica.

Marx, professor indispensável, para entender o capitalismo, como destaca Delfim Netto, já tinha mostrado que a realidade iria derrotar o capitalismo e a ficção seria chamada em seu socorro.

A totalidade do valor recebido pelos trabalhadores em forma de salário, disse, não consegue comprar a totalidade do valor correspondente às mercadorias produzidas. Há uma disparidade entre o valor-capital que se acumula e o valor-salário que se desvaloriza.

Pinta uma crônica insuficiência de consumo global. É o preço cobrado pelo investidor capitalista, que visa o lucro e não a satisfação do consumidor, como prioridade fundamental.

O real não suporta as suas próprias dores. Precisa do irreal. A insuficiência consumista produz um estoque crônico cuja lógica reduz os preços e destroi o capital e os salários, na deflação.

O que fazer com o estoque?

Imaginaram os neoliberais que a saida seria o comercio internacional. Se não há mercado interno, massacrado pelo subconsumismo, exportar é a solução.

Mas, se todo mundo exporta… a contradição final do sistema explode, disse, no mercado mundial interligado, globalizado.

 

O nascimento da ficção

Marx detonou o pensamento neoliberal do século 19. Analisou que o capitalismo, nesse período, se baseia em dois setores, o departamento I (D1), produtor de bens de produção, bens de capital, e o departamento II (D2), produtor de bens de consumo.

Concluiu que a contradição entre ambos, entre produção e consumo, D! e D2, isto é, entre mercadoria e dinheiro, levaria o sistema à crônica insuficiência de demanda global, dado seu caráter intrínseco de marchar, dialeticamente, para a sobreacumulação.

De um lado, sobreacumulação; de outro, subconsumismo. Resultado: sobreacumulação e crise sob a moeda falsamente neutra. 

D1 + D2 se autoanulariam, no limite da contradição, o que exigiria sua superação em D3, departamento III, que representaria o Estado, conforme prevê o autor de O Capital.

O que é D3? A ficção que surge para ressuscitar o real, D1+D2, com a moeda estatal. A moeda ouro, no padrão ouro, transformara-se, dessa forma, como reconheceu Keynes, em relíquia bárbara.

Grande Malthus

Essa formulação de Marx em O Capital repetiu o que Malthus já havia dito nos anos de 1850. A eficiencia do capitalismo, impulsionado pela ciência e tecnologia, gera oferta maior que demanda cujo resultado é queda de preços.

É necessário, frisou, que nasça o oposto da eficiência, isto é, a ineficiência. Se o setor privado é eficiente e produz tanto que leva o sistema à crise, se o Estado repetir tal eficiência, igualando-a ou superando-a, para gerar, como o mercado privado, insuficiência de demanda global, para que o Estado? Agravaria a situação em vez de resolvê-la.

Malthus falou a verdade e, por isso, foi excomungado.

A ineficiência estatal, que assusta tanto os analistas econômicos, como se estivessem frente ao próprio diabo, é a solução, já que o capitalismo não suporta o desenvolvimento das forças produtivas em sua potência máxima deixada ao livre jogo dos mercados. Olha o caos aí no mercado imobiliário. Precisa mais prova?

Apenas reduzir salários, para elevar a lucratividade na exploração da mais valia, não asseguraria a sobrevivência do capital. Seria necessária, disse, uma demanda suplementar. Qual? O Estado, D3.

Os liberais e os neoliberais desdenham a formulação macroeconômica malthusiana-keynesiana, analisada criticamente por Marx, porque vêem a moeda como fator que fica no exterior da realidade, como fator neutro, acima das classes sociais antagônicas, no processo de acumulação capitalista.

A demanda complementar proporcionada pelo Estado, com moeda estatal sem lastro, expressão maior de D3, não encaixa na formulação neoliberal, porque os neoliberais não entendem ser válido que a moeda, sob o comando do Estado, constitua em fator econômico decisivo, já que, essencialmente, pela visão neoliberalizante, parcial, e, apenas, meio de troca.

Essa fase dezenovecentista da cabeça neoliberal separou o Estado da produção privada, quando a produção privada, no século 20, somente conseguiu sobreviver , depois da crise de 1929, mediante intermediação da moeda estatal. Esta entra em cena na circulação para dinamizar os setores que haviam perdido gás na grande crise.

Visão anti-histórica da realidade

Essa visão neoliberal do Estado de que os gastos do governo criam desajustes no setor privado de modo que é preciso que haja enxugamento forte da demanda estatal para que a economia capitalista seja sustentavelmente suficiente e eficiente é, tão somente, sonho de noite de verão. Completamente anti-histórico.

A moeda estatal que Marx previu mas não viveu para vê-la em ação é a expressão de D3, sua representação essencial em forma de moeda estatal sem lastro, fictícia. O valor da moeda passa a ser o que dissera Hegel, sopro do Estado num pedaço de papel.

Ao contrário da moeda que ainda vigora no imaginário da cobertura econômica, com seu caráter de neutralidade, pairando acima das classes sociais antagônicas, como se o século 21 estivesse no século 19, a nova moeda, no século 20, não tem nada de neutra. 

O Estado, entidade política, emite sua moeda política, para tentar organizar e dinamizar aquilo que tinha sido paralisado pelas contradições do livre mercado.

O cenário da crise bancária atual é comprovação histórica desse caráter básico da economia monetária, fetiche monetário, predominante no século passado que entra em colpaso.

A ficção movimenta o real, que havia sido destruído pela crise de 1929. O irreal nasce para ressuscitar o real. Não há, do ponto de vista macroeconômico marxista, no seu processo de análise das contradições, divisão entre o real e o irreal.

O autor de O Capital disse que o sistema, contraditoriamente, desenvolveria ao máximo as forças produtivas, entraria em senilidade e passaria a desenvolver as forças destrtivas , na guerra.

O prêmio nobel de economia, Josef Stglitz, reconhece que a guerra do Iraque, com custo superior a 2 trilhões de dólares, é a própria dinamização do capitalismo americano, na guerra.

 

O mundo das não-mercadorias

Com a moeda estatal, não-moeda sem lastro, o governo compra não a mercadoria que dinamizava o capitalismo anterior a 1929. A mercadoria que passa a adquirir é o oposto, uma não-mercadoria, conceito desenvolvido por Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”(Campus, 1980).

Vale dizer, a economia capitalista pós-29 é dinamizada pela não-moeda que viabiliza a não-mercadoria consumida pelo governo que vai tirar da crise a economia das mercadorias de consumo social que havia explodia no crash.

O capitalismo bi-setorial, D1+D2, rígido, mecânico, apoiado no padrão ouro dezenovecentista, fora superado pelo capitalismo tri-setorial, D1+D2+D3.

O Estado, D3, com a não-moeda compra não-mercadoria que destroi, para gerar renda e consumo de bens duráveis que deixaram, depois do crash, de serem o carro-chefe da reprodução capitalista, dando lugar ao novo carro-chefe, D3, os gastos do governo.

Para a cabeça mecanicista é difícil entender que a não-moeda surge, dialeticamente, para aumentar o consumo sem aumentar a oferta.

Separar os gastos do governo dos gastos do setor privado que busca reprodução lucrativa é querer tirar a corcunda do sujeito porque ela o deformou. Mata o caboclo.

Somente o Estado pode consumir não mercadorias – produtos bélicos e espaciais, gastos acima da receita, desperdícios necessarios, para dar via à ciência econômica capitalista, segundo Malthus, uma ciência lúgubre, dada seu caráter autodestrutivo.

O espírito crítico da grande mídia, dominado pelo pensamento bi-setorial, rígido, mecânico, nada orgânico, evoluiu muito pouco.

Teria evoluído bastante, se essa visão da moeda,  no conceito de Marx, de Maltus, Keynes, tivesse sido mais debatida, sem preconceitos, criticamente.

 

Preconceito ideológico impediu consciência

A não percepção clara sobre a gênese da moeda capitalista no século 20 ficou ainda mais obscura e acrítica, no plano da cobertura econômica, depois da crise monetária dos anos de 1980, provocada por excessiva oferta mundial de dólares, que levou o governo americano a aumentar brutalmente os juros. Imperou, desde então,  escuridão, o mecanicismo total, vestido de princípio único detonador do fim da história.

D3, gastos do governo que movimentam a economia capitalista, foi eleito alvo preferencial a ser combatido, porque interferiria negativamente na vida privada. Se o governo gasta mais do que arrecadada…

Visão mecanicista, que deseja demonstrar que o ideal de um governo é aquele expresso pela dona de casa: não gastar além da renda familiar.

O que é valido, do ponto de vista da parte, não o é do ponto de vista do todo. Destruir o Estado passa a ser o objetivo do poder midiático alienado.

Na base da ignorância, os neoliberais – e seus oráculos na grande mídia – na periferia passaram a pregar, nada mais, nada menos que a destruição do próprio capital nacional, por desconhecerem, ou abafarem, o caráter não-neutro da moeda capitalista na fase pós-29 em que o Estado vira capital.

A neutralidade monetária era conveniente para os interesses dos bancos, cuja preocupação maior, depois da crise, foi a de receber, em dia, o pagamento dos juros.

Foi tão cega a visão acrítica que a grande mídia passou completamente batida na discussão do artigo 166, parágrafo terceiro, II, letra b, da Constituição que confere, no âmbito do orçamento, causa pétrea ao pagamento dos serviços da dívida. Os banqueiros ficaram imunes, constitucionalmente, a qualquer contingenciamento possível ou imaginável.

Já os gastos com  sáude, educação, investimentos em infra-estrutura etc, esses podiam ser amplamente contingenciados. Ao mesmo tempo, cerraram-se fileiras os neoliberais para destuirem, também, o art. 192 que fixava limite de 12% para a taxa de juro no país.

A Constituição, que acaba de fazer 20 anos, representa o domínio da bancocracia(Lauro Campos). 

Resultado: sucateamento do Estado e, claro, também, da iniciativa privada. Afinal, sob a economia monetária, o Estado, abstração, o irreal, e a iniciativa privada, o real, são dois lados de uma só moeda, unha e carne, mediados pela moeda estatal sem lastro, durante todo o século 20.

 

Novo Keynes ou o velho Adam Smith?

O fato novo, agora, com a crise americana, não é  a derrocada neoliberal, mas a keynesiana, expressa nos déficits americanos que desvalorizam o dólar e jogam a economia global, com a implosão do setor imobiliário, seguido de bancarrota financeira, no empoçamento geral do crédito.

O lubrificante, a moeda dominante, está deixando de lubricar as peças do sistema.

Keynes destacou que o sistema precisa fingir para si mesmo que o útil é verdadeiro. Se deixa de ser útil, deixa de ser verdade. Máxima ideológica utilitarista inglêsa cínica que cobra preço alto ao própro Keynes. Ele mesmo, com sua solução, está, na grande crise do governo keynesiano americano, indo para o buraco.

Novo Keynes, como clamam muitos, pode pintar, isto é, nova  ficção, novo D3? Seria americano ou mundial? Valeria se fosse apenas para bancar o capital em crise ou somente teria sucesso se o social, quem sabe um D4, surgisse para dividir prioridades com o econômico?

O grande economista inglês pregou, em Bretton Woods, em 1944, moeda mundial, o Bankor, que representaria caixa de conversão geral, para equilibrar os desequilíbrios decorrentes do domínio dos ricos sobre os pobres por intermédio da moeda, via deterioração nos termos de troca, impondo senhoriagem.

Sua proposta  não emplacou, porque os americanos sairam da guerrra com a força total, impondo o dólar como moeda mundial. 

Tio Sam, agora, na primeira grande crise monetária do século 21, parece, está entre tomar uma dose monstra de viagra, para ver se recupera a potência, para continuar dominando unilateralmente o cenário global, correndo risco de ter um infarto, ou partir para o conselho, não mais de Keynes, mas de Adam Smith.

Em “A riqueza das nações”, Smtih não deixa dúvidas: a dívida pública, os deficits, existem para não serem pagos, mas rolados, indefinidamente.

A ficção que entra na moeda com um sopro do estado pode desmanchar, igualmente, com outro sopro, para salvar o real?

O calote emergiria como solução. Seria engraçado a grande mídia bater palma para o calote global, logo ela, que, religiosamene, condenou os calotinhos brasileiro e argentino, depois da crise monetária dos anos 80, imposta pelos países ricos sobre os pobres, mediante Consenso de Washington e debaixo do chicote do capitaão do mato FMI.