Moratória americana à vista

A situação da economia mundial ficou tão crítica diante da evidência de que o sistema bancário americano está, totalmente, falido, que pode caminhar para um beco sem saída, levando o novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama,  a decretar moratória, como última alternativa capaz de remover os títulos podres que bloqueiam o crédito internacional e a sobrevivência do capitalismo, perdido no vendaval da especulação desenfreada, sem regras, estimulada pelo próprio governo. Os tombos seguidos da bolsa, depois da posse de Obama, sinalizaram o contexto explosivo.

 

A moratória, que já aconteceu outras vezes, na história americana, no século 19 – em 1971 a desvinculação do dólar do ouro foi um beiço fenomenal no mercado – , seria a troca de títulos públicos emitidos pelo tesouro por títulos hipotecários-derivativos, gerados pela bancarrota imobiliária, alongando prazos de resgates, quem sabe para além dos trinta anos. O negócio ficou tão feio no mercado financeiro que somente o Estado tem moral e poder capaz de desobstruir as artérias entupidas do crédito, sem o qual o sistema capitalista implodiria geral. Seria fundamental apoio político, o que não aconteceu, por exemplo, no Brasil, em 1986, com o ex-presidente José Sarney, primeiro presidente da Nova República.

Configura-se o que vários economistas, ao longo dos últimos anos, têm alertado: que o deficit americano, chegando perto dos 7% do PIB de 14 trilhões de dólares, alavancou dívidas, por meio do sistema bancário, desregulamentado, mais de 50 vezes superiores ao próprio deficit. Especialistas, como o economista Adriano Benayon, professor da Universidade de Hamburgo, autor de “Globalização versus Desenvolvimento”, dão conta de que o estoque de títulos de crédito, inclusive derivativos, ultrapassa 500 trilhões de dólares, incluídos os chamados “junk bonds”, títulos podres. 

Os ativos financeiros cresceram de 150% do PIB, em 1980, para 400% em 2005, nos países ricos do chamado G7, segundo David Roche, presidente da Corretora Independent Strategy, de Londres. Os ativos financeiros, no mundo, superavam 118 trilhões de dólares, em 2004, 10 vezes mais que o total registrado em 1980, representando 3 vezes o PIB mundial, segundo relatório do McKinsey Global Institute. 

A proliferação é muito maior, incluindo os derivativos, títulos podres imobiliários, estimados em 278 trilhões, calculados pelo BIS, o banco central dos bancos centrais. Ao lado disso, no mesmo contexto, o endividamento das famílias americanas é superior a 25 vezes a sua base salarial. A podridão creditícia fictícia implodiu geral  no mercado imobiliário.

 

Falência explícita

Os bancos americanos, detentores dos papeis, por eles mesmos emitidos, sem controle do Banco Central americano, repassaram-nos para frente, especialmente, aos banqueiros europeus e japoneses. Estão todos micados. Em tal situação, perderam a capacidade de fazer fluir a circulação capitalista, simplesmente, porque ninguém acredita em ninguém, sabendo que todos estão falidos e mentindo uns para os outros, batendo às portas do governo por socorro.

Somente o governo, como poder institucional que se sobrepõe, subjetivamente, sobre as categorias sociais em conflito pela renda que se perdeu na crise, seria capaz de reiniciar o jogo, distribuindo bolas para os agentes econômicos, enquanto, por pressão social, política e econômica, vai entrando, mediante emissão monetária, no capital dos bancos privados, a fim de reanimá-los.

Emerge situação qualitativamente diferente na gestão do Banco Central dos Estados Unidos, em face do avanço financeiro estatal no campo econômico, para reanimar o crédito. Antes, o tesouro americano emitia os títulos da dívida pública que os bancos privados compravam com o dólar emitido por eles. A emissão de dinheiro não é atributo do tesouro, mas dos banqueiros privados. Kennedy tentou reverter essa situação. Acabou assassinado. Lindon Johnson, ao assumir, reverter a medida Entretanto, com a crise atual, os banqueiros , perdidos na alavancagem exagerada da sua base de crédito, passam a depender do tesouro, que entra na circulação dos bancos privados, cobrando o pedágio expresso em maior participação acionária do Estado no capital privado.

Tal mecanismo, forjado pela crise, torna-se única forma capaz de permitir ao governo americano encaminhar solução para os créditos podres que impedem abertura de novos horizontes para o capitalismo americano e mundial. Como a absorção da montanha de dinheiro especulativo não poderá ser feita de uma vez só, pois implicaria em implosão inflacionária global do tesouro tanto americano como dos demais países capitalistas, a jogada seria flexibilizar no tempo a renegociação do papagaio financeiro. 

Renegociar – moratoriamente – é preciso. Adam Smtih, em “A riqueza das nações”, é claro: dívida pública não se paga, renegocia. A capacidade de o tesouro americano endividar-se, seguindo o remédio keynesiano, expresso no avanço dos gastos governamentasis, dependeria, fundamentalmente, da moratória. O que era problema, alardeado como calote, pelos analistas em geral, pode representar solução.

 

MacCaim emplaca proposta

A moratória tende a avançar, nas próximas semanas, como forma de impedir a expansão do desemprego. São 11 milhões de demitidos, nos Estados Unidos. No Brasil, somente, em dezembro, foram 650 mil para o olho da rua. Na Europa, a Alemanha prevê 2009 como pior do que 1949, no pós-guerra. No Chile, que depende da exportação de cobre, a miséria emergiu violentamente, com quebradeira impressionante no comércio. A China está em rítmo cada vez mais lento, sinalizando explosões sociais que implodiriam o sistema misto de socialismo-capitalismo-ditatorial etc. As negociações entre empresas e sindicatos tendem à explosão política ideológica.

A solução de renegociação geral, que se expressaria em ação governamental via moratória, foi, aliás, proposta, em campanha eleitoral, pelo adversário de Barack Obama, o republicano John MacCain. Ele perdeu a batalha eleitoral, mas pode ganhar a guerra. Disse que não haveria outra saída, senão o perdão da dívida dos mutuários que não poderão pagar. Sem condições para tal, os bancos que os financiaram ficaram na mesma situação, ou seja, com dinheiro no caixa que não tem nenhum valor porque a garantia, as casas, foi perdida com a violenta queda dos preços especulativos.

A tarefa do governo Obama seria, fundamentalmente, restituir a interrompida confiança na relação creditícia entre vendedor e comprador, não porque as duas partes tenham entrado em conflito intransponível. Pelo contrário. A culpa não é deles, mas do sistema financeiro, que extrapolou às regras para fazer negócios fictícios, cuja durabilidade se extinguiu na derrocada do mercado imobiliário.

O presidente americano ficou numa sinuca de bico. Ou programa rapidamente a moratória, com a autoridade do Estado, tornando-se oligopólio financeiro, para tirar do atoleiro o oligopólio financeiro privado, limpando seus passivos entupidos pelos “junks bonds”, títulos podres, ou poderá enfrentar corrida bancária. A necessidade urgente de socorrer, há uma semana, o maior banco americano, o Citibank, de falência irremediável teria que ser repetida, sucessivamente, pois a banca privada, como destaca o economista americano Nouriel Roubini, está, literalmente, falida. Sobrevive como mera representação aparente sob amparo indispensável do governo.

Como o governo precisará, não apenas de desbloquear o crédito interrompido, mas, também, de elevar os gastos governamentais para puxar a demanda global, visto que o setor privado perdeu força para executar tal tarefa, se não remover os títulos podres, jogando seu resgate para as calendas, não teria a menor condições de cumprir o papel que a sociedade dele espera no momento de estresse total da crise mundial. 

A necessidade de continuar se endividando, como prega o economista Paul Krugman, prêmio nobel de economia 2008, significa , igualmente, a necessidade de ir esticando, não apenas o novo endividamento, mas, também, o antigo, expresso nos créditos podres, algo somente possível mediante moratória, expressa no avanço do poder financeiro estatal no capital dos bancos privados falidos.

A estatização bancária em marcha – o estado como sócio da banca privada, como emergência de uma grande parceria público privada financeira(PPP) – vai se transformando no maior acontecimento econômico do século 21.

 

Lula-Sarney, dobradinha na crise

O presidente Lula, que já percebeu que não haverá outra saída, senão essa, pois os grandes bancos privados, que ele convocou para ajudá-lo, na salvação dos bancos privados pequenos, fugiram da raia, agiu, durante a semana, ainda mais agressivamente. Injetou, ou seja, emitiu dinheiro, R$ 100 bilhões para engordar o caixa do BNDES, a alavanca da industrialização nacional. 

Ao mesmo tempo, passou a pressionar os bancos públicos a baixarem os juros, a fim de forçar os bancos privados a fazerem o mesmo,depois que levou o Banco Central a reduzir a selic de 13,75% para 12,75%. Oligopolização financeira estatal, igualmente, forçando a ação da oligopolização financeira privada no mesmo sentido.

Nesse rítmo, estariam em cogitações outras estatizações, como produto natural de um novo processo em marcha, no campo dos seguros, podendo, inclusive, reverter privatizações, casos as empresas privatizadas vêem bater à porta do governo para pedir socorro, como chegam as do setor privado. 

É o caso, ocorrido durante a semana, da fusão entre a Votorantim e a Aracruz Celulose, com dinheiro do BNDES, o hospital estatal-empresarial. 

O titular do Planalto não vive mais a bonança internacional que permitiu à economia brasileira, incrementada no mercado interno, graças aos investimentos sociais lulistas, registrar taxa de desemprego recorde de 6,8%, segundo o IBGE. Sem o Estado botando para quebrar nos gastos, o desemprego poderia subir para 20%, rapidamente. 

Ficaria impossível manter o PAC e a candidatura da ministra Dilma Rousseff. 

Lula poderia ficar, isso sim, prisioneiro do novo jogo político que vai se formando, com a emergência do PMDB, dominando totalmente, o Congresso, colocando, possivelmente, o ex-presidente José Sarney, na prática, como primeiro ministro, para compartilhar o poder com Lula, caso vença eleições no Senado. 

 

Ressurreição de Adam Smith

Vai ficando evidente que o jogo econômico global dependerá das soluções dadas por dois grandes economistas ingleses dos séculos 19 e 20. 

No século 19, Adam Smith, autor de “A riqueza das nações”, profetizou que dívida pública não se paga, renegocia. No século 20, John Maynards Keynes destacou que o livre mercado sendo incapaz de puxar a demanda global capitalista, necessitaria do endividamento público, como fator propulsionador do consumo, incapaz de ser mantido, apenas, pela ganância privada. 

A solução keynesiana foi adotada no século passado à larga, em maior escala pela maior economia – de guerra – do mundo, os Estados Unidos. O limite foi alcançado pelos déficits acumulados que geraram excessiva alavancagem financeira privada de forma totalmente desregulamentada. 

A contiuidade do remédio keynesiano, que virou veneno, somente seria possível com a ressurreição de Adam Smith. Sua recomendação seria a renegociação da dívida, para reiniciar o jogo capitalista, visto que a dívida pública, keynesiana, acumulada e transformada, atualmente, em créditos podres, em várias escalas, obstaculiza a continuidade da reprodução capitalista. 

Afinal, segundo ele, não se paga, renegocia, sempre, o débito público, esticando os prazos e flexibilizando as proporções entre dívida e PIB, para manter a moeda relativamente estável. 

Sem a solução smithiana, não poderia ocorrer a recomendação keynesiana de Paul Krugman. Sem o remédio de Adam Smith, a capacidade de sobrevivência dos governos capitalistas ocidentais ficaria seriamente comprometida. Obama perderia, rapidamente, seu capital político, se fosse atacado por uma corrida bancária, em meio à explosão do desemprego e da falta de expectativa dos agentes econômicos. 

 

 

 

 

 

 

 

 

Obama impedido de repetir Roosevelt

O sonho da economia global, nesse momento, é que Barack Obama, que promete mudar com o mundo que mudou, se transforme em Frank Delano Roosevelt.
 
O presidente democrata , diante da crise de 1929, puxou a demanda global com gastos em programas sociais, entre 1933 e 1936, e em seguida, a partir de 1938/39, em guerra, para tirar o capitalismo do crash, à moda keynesiana. O déficit americano, em 1946, chegou a 144% do PIB.
 
A opção pela política monetária ativa em substituição ao velho padrão ouro do século 19, que fixava regras rígidas, para ditar o fluxo de moeda, a fim de controlar deficit de balanço de pagamento dos governos, colocou a economia americana na vanguarda do desenvolvimento econômico global, sob comando do dólar. A moeda americana já dava as cartas depois da primeira guerra mundial e tornou-se soberana depois da segunda grande guerra.
 
A esperança de que Obama faça a mesma jogada de Roosevelt, expandindo os gastos públicos – não necessariamente em guerras, mas em outras demandas estatais a serem descobertas, quem sabe jogar dinheiro pela janela ou ampliar os investimentos inflacionários no espaço etc, porque guerra virou opção incompatível com a nova pregação multilateral obamiana – , implicaria conjugá-la em dois momentos históricos distintos.
 
A distinção é matematicamente simples. Nos anos pós-guerra, a saúde da economia americana era uma, mais potente, viril. Não haveria déficit, mas superavit, além de ampla confiança na moeda. Agora, não há superavit, mas déficit, enquanto a confiança na moeda periclita. No início do século 21, depois de tantas guerras e desgastes, geradores de déficits, que levaram o capitalismo para a jogatina financeira suicida como fator de reprodução do capital, o fôlego não é mais o mesmo.
 

Tio Sam precisa de viagra

Se Roosevelt poderia fazer o que fez, sem precisar de viagra, porque eram mais que suficientes, para tanto, a juventude, a energia e a potência americana no pós-guerra, que estabeleceu a divisão internacional do trabalho sob controle do dólar, Obama, ao contrário, não estaria com essa bola toda.
Depois de tantos déficites acumulados ao longo de mais de sessenta anos, Tio Sam precisaria de uma injeção de potência cavalar. Poderia ser fatal , sabendo que estado do carro é precário, com lataria estourada em cima de pneus totalmente carecas. Essa é a diferença substancial entre Obama e Roosevelt.
 
Sob Roosevelt, Tio Sam, no pós-guerra, era a grande potencia mundial. Sob Obama, seis décadas depois, envelhecido, corcunda, adiposo, asmático, sexualmente baleado e enfartado – como se encontra nesse momento, no auge da crise capitalista – , o titio precisa de ajuda do Boston Medical Group.
 
Enfim, Roosevelt ergueu o que viria a ser o unilateralismo econômico americano ao longo do século 20. Obama não aguentaria essa barra. Terá que optar pelo multilateralismo, como anuncia Hillary Clinton, Secretária de Estado do novo governo. Os deficits acumulados criaram os limites expressos pela desconfiança do mercado na capacidade de endividamento do tesouro americano. 
 
 

Bancarrota à vista

Nas próximas semanas, podem quebrar mais bancos nos Estados Unidos. Haveria necessidade urgente de novos socorros estatais, levando a uma completa estatização bancária dos grandes segmentos de crédito. A era da dominação dos bancos privados dando orientação ao FED, banco central americano, como ocorre desde 1913, quando foi criado, pode estar chegando ao fim.
Pode fragilizar a posição dos bancos, no compasso da bancarrota, impulsionada pelos créditos podres, principalmente, se o fôlego do governo para absorvê-los não for suficiente, levando o mercado a uma corrida especulativa.
Os próximos anúncios de contabilidades bancárias atuarão como terremotos, mostrando o tamanho fenomenal dos créditos podres irresgatáveis. O governo estaria diante de dois pólos: de um lado, os bancos pedindo socorro; de outro , a população criticando os privilégios concedidos aos bancos por meio de emissão monetária estatal salvacionista com o suor da comunidade.
Opção radical nesse sentido baixaria imediatamente o capital político inicial de Barack Obama. Correria esse risco perigoso para salvar os especuladores, vistos criticamente pelo povo americano?
Se houver percepção aguda pela sociedade de que o buraco sem fundo exigirá empobrecimento social relativo para salvar os bancos, pode emergir pressão política contrária à continuidade de medidas salvacionistas no Congresso.
 
 

Teste para democracia americana

O debate democrático, no ambiente economicamente caótico, tenderia a chocar com os fatos contingentes que exigem pressa e põem pressão incensante, estressante, politicamente, explosiva.
A complexidade do novo contexto em que vive a economia exige decisões rápidas, mas as respostas, em ambiente democrático, não vêm com a velocidade requerida pela situação contingencialmente explosiva. Vem aos poucos, no compasso dos antagonismos sociais que permeiam o debate nacional a desembocar-se no Congresso.
Contradição em marcha que colocaria em teste a democracia americana. A marcha do processo deflacionário, mais ou menos intensa, seria o termômetro.
A agitação que a própria dinâmica produz implica representação econômica e política americana totalmente oposta àquela representação que vigorou no tempo de Frank Delano Roosevelt.
Sob Roosevelt, o capitalismo americano tinha futuro radioso pela frente; com Obama, a radiosidade futura é opacidade congestionante do presente que não deixa ver o horizonte com nitidez.
Os relatórios dos bancos centrais dando conta de crescimento entre zero e  1% dos EUA e Europa, em 2009, significa bola de neve.
 
Com Roosevelt, o dólar, que derrubava a libra e o capitalismo inglês, todo poderoso no século 19, tinha a confiança do mundo. Com Obama, o dólar torna-se a própria desconfiança do mundo.
Sem poder sacar contra o futuro, Obama, ao contrário de Roosevelt, que tinha o vigor e a juventude da moeda americana no pós guerra, tem que buscar aliados. O poder absoluto de Tio Sam se transformou em absolutamente relativo.
A relatividade cadente do poder americano inicia na Era Obama nova fase histórica mundial.
 

Tensões protecionistas balizarão dólar

As controvérsias levantadas pelo Congresso sobre a real capacidade financeira do tesouro para sustentar a demanda americana, que puxaria, por sua vez , a demanda global, evidenciam os limites da própria capacidade americana de exercer o velho papel de locomotiva econômica do mundo.
Um deficit gêmeo – fiscal e monetário  – da ordem de 6% do PIB, em meio à recessão global, representa barreira à ousadia monetária de Tio Sam. As palavras de Lawrence Summers, principal assessor econômico da Casa Branca, com Obama, são de alerta sobre a fragilidade e os limites das finanças americanas nesse momento. Tio Sam está baleado.
 
Por isso, as esperanças em Obama podem ser dissipadas, se predominar o comportamento protecionista da elite econômica americana que vigorou depois da primeira guerra mundial e da crise de 1929.
 
A novidade tende a ser a de que o livre comércio pode não ser mais totalmente interessante para a economia americana, se as grandes indústrias tentam recuperar mercado diante da avalanche de importações baratas, fortemente competitivas com a produção interna nos Estados Unidos.
O livre comércio era bancado pela capacidade infinita de endividamento do tesouro americano, para sustentar saldos comerciais positivos para os aliados e negativos para os EUA, sob o dólar-ouro.
A continuidade desse jogo, iniciado no pós guerra, está em questão. Para complicar, a emergência do desemprego eleva a taxa de nacionalismo econômico.
 
A rejeição relativa ao livre mercado, que deixaria de ser interessante para os Estados Unidos, financeiramente, falidos, sinalizaria, por sua vez, tensões cambiais a serem produzidas pelo acirramento da concorrência internacional, cuja expressão maior poderia ser desvalorizações aceleradas de moedas nas trocas comerciais globais, como fatores compensatórias.
Todos buscariam se salvar.

Construção abstrata, midiática

Todo o complexo econômico americano, sob o governo Obama, no ambiente da crise mundial em curso, desenha conjuntura qualitativamente oposta à que vigorou no tempo de Roosevelt, acrescentando dificuldades e não facilidades.
 
A força da economia americana em 2008, em termos de potencial de endividamento, mediante crença regeneradora do mercado financeiro, não é mais aquela do pós-segunda guerra mundial.
Não existe mais a ilimitada força propulsora de plena confiança dos aliados, que depositaram todas suas esperanças na economia americana para liderar o mundo.  
Um novo Bretton Woods, hoje, teria desfecho diametralmente oposto.
Em 1944, sob o dólar forte, inaugurava-se uma nova divisão internacional do trabalho, ditada pela força econômica dada pelos gastos governamentais em programas sociais e guerra. Em 2009, sob dólar fraco, ocorre o funeral daquela divisão, que abre discussão para novo modelo monetário global, enquanto Obama sinaliza diálogo pacífico.
O complexo industrial militar americano que Roosevelt ergueu depois do New Deal, para dinamizar a economia de guerra, como principal política anti-desemprego, vai berrar.
Ou seja, a aproximação tentada entre Obama e Roosevelt representa construção abstrata, midiática, salvacionista, que tem grandes chances de dar errado.
Tornaram-se estreitos os limites da capacidade de endividamento de Tio Sam e a confiança que ele desperta no mercado, estando abarrotado de dívidas, que levam o ativo americano – cercado de monumental quantia de créditos podres – a apresentar risco que assombra geral a economia mundial. 

Sapatada no Bradesco e na Febraban

 

 

“Cypriano brigou com o rei”. Caiu. O filósofo Petronius – sob Nero – disse que mais louco do que o rei é quem briga com o rei. Loucura cypriânica.

Nos bastidores empresariais e políticos a informação que rola é a de que a queda do presidente do Bradesco, Marcio Cypriano, substituido, no final de semana, às pressas, por Luiz Carlos Trabuco Cappi, decorreu do atrito havido entre Cypriano e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, na quarta-feira da semana passada, durante reunião entre governo, empresários e banqueiros. Em busca de solução para a taxa de juros, o presidente Lula determinou aos seus comandantes da economia alcançarem consenso entre agentes econômicos sobre o assunto, visto que se encontra apavorado com possível escalada do desemprego, cujas consequências são perturbações sociais e políticas insuportáveis.

O presidente do Bradesco e diretor da Febraban considerou, na ocasião, o BC culpado pelos juros altos. Meirelles contratacou destacando que culpados são os bancos, que cobram o spred mais alto do mundo – ou seja, o custo de intermediação bancária, influenciado pelo risco. Evidenciou lavagem de roupa suja, de forma espetacular. Sendo Meirelles a voz do presidente, Cypriano detonou o presidente, o rei. Dançou.

Por que os banqueiros entraram nessa, se são os que mais faturam? Têm lucro médio de 25% a 30%, ao longo dos últimos 20 anos, enquanto as atividades industriais asseguram 8% de rentabilidade e as comerciais, 15%, em média. Os juros engordam os lucros bancários e emagrecem os lucros da produção e do consumo.

A tentativa de culpar Meirelles/Lula demonstrou, no fundo, o insconsciente bancário: os banqueiros estão atacando Lula e sua política econômica. Cypriano vocalizou, inadvertidamente, esse inconsciente, que, na verdade, representa oposição à estratégia macro do presidente, econômica e políica, envolvendo, aí, naturalmente, a candidatura Dilma Rousseff, repaginada esteticamente para enfrentar em 2010 o PSDB, que já apela politicamente para o protecionismo, para garantir empregos, como faz, em desespero, o governador José Serra, de São Paulo, diante do recuo da produção industrial de 0,6% em novembro, relativamente, a outubro, e da greve dos trabalhadores da GM, protestando contra demissões. Clima tenso.

A escorregada feia de Cypriando revelou, ainda, o temor dos bancos diante da situação em que são colocados pela população, de maneira geral, como agiotas, que, agora, na crise, se negam a manter oferta de crédito, embora o governo tenha criado situação para favorecer essa possibilidade, irrigando o mercado de dinheiro público, elevando a dívida pública interna, sobre a qual faturam alto com a taxa selic.

Lançaram os homens do dinheiro culpa na sua própria representação, isto é, o BC, obediente aos interesses da banca, no momento em que o presidente Lula amplia o debate sobre a taxa de juro, envolvendo na discussão não apenas o Banco Central e os banqueiros, restritos no âmbito do Copom, mas, também, os agentes da produção, democratizando o debate.

O cachimbo deixou a boca torta. Os banqueiros revelaram-se incapazes de perceber as nuances políticas que estão levando o governo a ampliar a estatização bancária, gerando o oligopólio financeiro estatal, porque o seu oposto, o oligopólio financeiro privado, na crise, se mostrra incapaz de enfrentar os desafios capitais, no sentido de assegurar a produção e o consumo, razoavelmente, em ação.

As notícias que encheram os jornais, dando conta da saída do ex-presidente e da entrada do novo, Trabuco, ganharam mais força no noticiário do que as informações da crise mundial. Tremenda encenação midiática. Freud disse que as palavras servem para esconder o pensamento.

A autoridade do governo foi colocada em jogo pelos banqueiros. E o troco veio. Cypriano e a Febraban, onde o espírito de animosidade da bancocracia relativamente ao governo extrapolou o inconsciente para ganhar o público, revelaram-se politicamente inexperientes, ao não perceberem que, no contexto da turbulência econômico-financeira, a política econômica está dando lugar à economia política. 

Resultado: Lula mandou uma sapatada no Bradesco e na Febraban.

 

 

Poder bancocrático sob crítica

As tensas relações entre os banqueiros e Meirelles, ou seja, entre os banqueiros e o presidente da República, no compasso das decisões governamentais que vão aumentando o poder financeiro estatal para ir abrindo espaço à ampliação da produção e do consumo obstaculizados pela escassez de crédito, tendem a se ampliar e a abrir discussões sobre a influência excessiva do pensamento bancário na condução da política econômica nacional há mais de 25 anos.

O poder bancocrático é tão poderoso que até a Constituição o trata de forma especial. O artigo 166, parágrafo terceiro, itém II, letra b, estabelece como causa pétrea o direito dos bancos de não terem contingenciados os recursos destinados ao pagamento dos serviços da dívida governamental. Tudo pode ser contingenciado orçamentariamente – educação, saúde, segurança, infra-estrutura, compras governamentais. Somente, os pagamentos de juros ficam a salvo. Contitucionalmente, garantidos. Bancocracia constitucional.

Os professores da Universidade de Brasilia, Adriano Benayon, economista, e Pedro Resende, cientista da computação, realizaram pesquisa sobre esse capítulo constitucional e revelaram a grande influência que o ministro da Defesa, Nelson Jobim, teve, quando deputado constituinte pelo PMDB, para materializar , na Constituição, o interesse dos banqueiros. Contribuiu, decisivamente, segundo os dois professores, para sedimentar o poder bancocrático no contexto dos poderes republicanos.

Durante a Nova República, refém do Consenso de Washington, erguido depois da crise monetária dos anos de 1980 – detonada pelos mesmos motivos que hoje detonam a crise financeira mundial, ou seja, excesso de dólares especulativos no mercado – , os banqueiros asseguraram condição privilegiada no comando da política econômica.

O prioritário, estabelecido pelo Consenso de Washington, era o que ficou estabelecido consitucionalmente. Ou seja, prioridade governamental para o pagamento dos juros, antes de dispor de recursos para os investimentos públicos, destinados a sustentar, equiibradamente, a demanda global da economia. Esta pagou o pato em favor do privilégio da bancocracia, expressão cunhada pelo senador Lauro Campos, na Era FHC.

Se Cypriano, na frente dos empresários e de outras fontes, comportou-se ousadamente na formulação de críticas a Meirelles pelo comportamento dos juros altos administrados pelo BC, imagine o que os banqueiros não falam entre quatro paredes aos diretores da instituição, que, na prática, tem sido indicado por eles, para orientar a política econômica? Já se disse que o BC é o clube dos banqueiros.

As relações entre Meirelles e o Bradesco e entre ele e a Febraban ficaram estremecidas, vale dizer, tudo que não é permitido para os interesses dos bancos, especialmente, em ambiente de instabilidade total.

As justificativas pela saída de Cypriano – teria atingido a idade limite de 65 anos pelo estatuto do banco, depois de permanecer durante dez anos à frente do Bradesco – falariam, exteriormente, aparentemente, ao fato, não interiormente, latentemente. Aparência versus essência.

Os banqueiros romperam com uma regra capital: a discrição. Sabem que a ausência de toda e qualquer contrariedade política explicita entre os bancos e a autoridade monetária, que concede aos banqueiros a concessão para a abertura do seu negócio, é o ideal. Romperam com ela?

 

O perigo de brigar com o rei

A retirada de Cypriano de cena mostra o desgaste que se formou nas relações entre bancos e governo.

O presidente do Bradesco, Lázaro Brandão, que luta para conquistar novos espaços para o banco no cenário nacional, depois de cair para terceiro lugar no ranking, em 2008, não poderia algurar sucesso, se tiver pela frente controvérsias políticas com o Palácio do Planalto. Essa possibilidade seria fatal, especialmente, ao longo dos próximos dois anos, em que Lula se empenha em manter a economia funcionando, para garantir sua sucessão.

Brigar com o rei? Os bancos atuam mediante concessões do Estado. São inúmeros os exemplos históricos de governantes que tiveram atritos com banqueiros e modificaram suas preferências, erigindo novos eleitos e condenando velhos aliados, na tarefa de manter a relação umbilical entre estado e banca, que o financia, historicamente.

Banqueiros não têm partido político, não apitam, em público, em política, apenas enfiam a mão no bolso para financiar o estado, tendo como garantia as letras do tesouro, além da possibilidade de comercializar dinheiro, de diversas formas, no mercado monetário, à moda oligopolizada, em escala crescente. 

As tensões entre bancos e o governo – como se evidenciou no episódio Cypriano-Meirelles – , em meio a uma conjuntura cujos desdobramentos destrutivos e potencialmente explosivos, politicamente, são coqueteis molotov, representariam um epílogo extraordinário no governo Lula, dando outro colorido político à Nova República.

O pavio acendido por Cypriano teria pecado pela desconhecimento do time certo para agir? Denunciou potencial conspiração que deixou o poder lulista de barbas de molho.

O conservadorismo de Brandão entrou em campo, rapidamente, mas deixou uma ponta do rabo de fora, expondo astúcia e insatisfação bancocrática com o andar da carruagem de um estado financista oligopolizado em ascenção a ser colocado a serviço da candidatura da ministra Dilma Rousseff.

 

 

Remoção imediata do problema

A pronta substituição de  Cypriano por Trabuco conjuga controvertidamente com as previsões feitas pelo próprio presidente Lula de que a crise mundial, detonada pelo empoçamento do crédito ao consumidor, sinaliza explosão social em decorrência da expansão do desemprego.

A briga entre Cypriano e Meirelles representou cortina de fumaça desse pano de fundo, dando claridade à oposição entre as duas partes, visto que o oligopólio financeiro estatal avança porque o oligopólio financeiro privado não atende o interesse público no compasso da crise mundial.

Como possível avanço de demissões de trabalhadores vai deixando o ambiente politicamente delicado, tornou-se inconveniente aos banqueiros cutucar a onça com vara curta. O Copom, por exemplo, onde a influência dos bancos privados era amplamente predominante, pode, de agora em diante, ser politicamente relativizado pelo avanço da economia política frente à política econômica, de forma dialética, no compasso da crise.

A lavagem de roupa suja Cypriano-Meirelles demonstrou claramente a possib ilidade de atritos cujas consequências, para os bancos, represetariam dissabores. O novo presidente do Bradesco, Trabuco, chega para ficar calado.

Fatos políticos novos e inquietantes passam a conduzir as ações governamentais que necessitam de ambiente econômico financeiro concorde com sua estratégia de enfrentamento da crise.

Não haveria tal concordância se continuar tensa relação Planalto-Febraban-Bradesco. Cypriano espirrou como a concha entre a onda e o rochedo, levando tremenda sapatada.

Unasul silencia sobre massacre de Gaza

Uma das características positivas das grandes potências, no plano diplomático, é que elas agem proativa e prontamente com suas cabeças soberanas  diante dos acontecimentos capitais. Expressão do poder do dinheiro.

Os líderes europeus se mobilizaram rapidamente para manifestar-se sobre o massacre judeu em cima dos palestinos – a mais desproporcional de todas as lutas da história humana. Reconhecem o direito de Israel, condenam o que consideram terrorismo do Hamas, mas querem diálogo em vez de guerra.

A América do Sul, cuja pretensão é ser politicamente unida, por meio da Unasul – União das Nações Sul-Americanas – , que não pensa com sua própria cabeça, ficou sem falar nada, até agora. 

Revelou fraqueza política estratégica, por pensar ideologicamente com a cabeça feita pelos interesses do capitalismo cêntrico, essencialmente, divergentes dos interesses do capitalismo periférico. Elo mais fraco da cadeia capitalista, os interesses periféricos, manipulados por elites conservadoras, mantidas por sistemas políticos reacionários, ajustam-se, incondicionamente, aos interesses externos dominantes. Esperam pelo que vai fazer o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama. São reativos, não proativos. Pior, confusos, com disputas de espaços de poder no cenário latino-americano à moda populista, quase sempre, em meio a uma democracia ajustada aos limites de uma superestrutura jurídica a serviço da reprodução do capital.

 

Democracia de massa contra guerra 

Já a mobilização dos líderes europeus mobiliza, por sua vez, a população, e vice-versa, no contexto da democracia de massa, que se ergue como resposta ao poder das armas exposto por Israel como instrumento ditatorial, supressor da política. O apoio popular a tal mobilização, certamente, será o termômentro de Obama. Os judeus correm perigo sob o movimento democrátrico massivo mundial ao perderem apoio por excessiva exibição de força.

Condicionados por evoluções políticas históricas do povo europeu, expiado por duas guerras mundiais, os líderes se obrigam a agir pelo consenso democrático de massa, o neo-poder global em jogo contra a guerra.

Por isso, ao mesmo tempo em que se condicionam a movimentação da massa, os líderes a agitam, para melhor se posicionarem no plano politico social, dominado pelo repúdio mundial ao massacre.

O pacifismo ativista entrou em campo. No domingo, as manifestações estiveram nas grandes capitais do mundo. Em São Paulo, 5 mil manifestantes. Mais um pouco, um milhão estarão nas ruas, competindo para ver quem bota mais gente para gritar contra o massacre. Israel ganha a disputa desproporcional contra o Hamas, mas perde de goleada a disputa no poder midiático.

As ruas, cheias de manifestantes, anti- massacre impõe a democracia de massa contra a guerra?

Os líderes sul-americanos, que, com a Unasul, pretenderiam ganhar status semelhante à União Européia, demonstram descordenação total nessa hora. Predomina o individualismo do presidente Hugo Chavez, da Venezuela, em expulsar o embaixador de Israel, e o do presidente Lula, que envia o chanceler Celso Amorim para fazer um desabafo isolado. Parecem os foguetes Qaasan detonados pelo Hamas contra Israel, que contra-ataca com a mais espetacular tecnologia da guerra, destruindo alvos e gente às pencas, como num jogo dirigido de video-game brutal.

Não buscam os líderes da América do Sul a construção do pensamento sul-americano dado pelas condições objetivas, em meio ao caos capitalista, cujas consequências viram o mundo de cabeça para baixo, alterando as correlações de forças políticas. Não estão, ainda, sob pressão da democracia de massa nas ruas.

Já os líderes europeus… O presidente da França, que depende do equilíbrio social entre árabes e judeus, dentro do território francês, se mandou, rapidamente, para o Oriente Médio. Mobilizou forças européias para construir com o Egito a proposta do cessar-fogo como primeiro passo para concialiação.

 

Europa teme expansão islamita

Na verdade, a Europa e os Estados Unidos temem a expansão islamita no Oriente Médio. O combustível para sua expansão é a continuidade dos massacres. O sentimento islamita, que o ocidente diz carregar, intrinsecamente, potencial terrorista, emerge como o único capaz de fortalecer a idéia para lutar contra as armas.

O islã – política e religião interligados –  tende a se tornar o liame capaz de ligar emoções em todo o Oriente Médio contra o imperialismo neo-sionismo israelita exterminador, cujas raízes são européias. A Europa se mobiliza para por freio às determinações do seu próprio filho ideológico transformado em estado de Israel.

O sionismo, como movimento nacionalista histórico dos judeus, é velho conhecido da Europa, porque se trata de movimento, tipicamente, europeu, apoiado pelas potências européias, que dividiram a Palestina, a partir de 1948.

O contrapolo do sionismo é o islamismo. Os resquícios do pensamento ocidental no Oriente Médio tenderiam a ser suprimidos, radicalizando a luta política, caso não seja criado o estado palestino, com fronteiras estabelecidas pela ONU.

Ou seja, os europeus sabem qual o potencial de fogo do conflito no Oriente Médio, onde o Islamismo pode espalhar-se e tornar-se ideologia fundamental dos estados árabes, fugindo, portanto, do controle ideológico utilitarista capitalista ocidental.

A indústria de guerra bate palma. Mercado garantido para as novas tecnologias da morte.

A diplomacia européia, em razão dessa circunstancia história indisfarsável, é ágil, proativa, sobretudo, agressiva, jogando sempre no ataque, estando em jogo interesses da Europa.

Sabem os líderes europeus que  a causa palestina pode radicalizar o jogo político na Europa nas próximas eleições. Somando-se os massacres de Gaza com os efeitos destrutivos da crise deflacionária global, que põe o capitalismo de joelhos, haveria grandes chances de pintar contexto totalmente surpreendente, de agora em diante.

Os europeus, curtidos na pele pelo mandamento de que é do sofrimento que nascem ideologias radicais, se cuidam. A Europa , nesse ambiente, pensa e age formulando ações e agitando o ambiente internacional em favor de acordo, porque o desacordo incendiaria politicamente a própria Europa.

 

Colonização mental

Na América do Sul, ocorre, justamente, o contrário. As lideranças sul-americanas, reativas, aguardam Barack Obama. Mente colonizada.

A Unasul mostra que não pensa com a cabeça sul-americana. Se pensasse, a presidente do Chile e pro-tempore da Unasul, Michelle Bachelet, teria, em nome dos 12 presidentes sul-americanos, ido a Israel e à Palestina, como fez Sarkozy. Imporia o jogo sul-americano, do qual dependerá, em grande parte, Obama. A próxima política energética obamista – 200 bilhões de dólares em investimentos – terá o Brasil como ponto estratégico.

A diplomacia sul-americana, historicamente, é um caos político, porque age mais no abstrato que no concreto, dada a baixa conscientização política social sul-americana, se comparada com a européia, por exemplo. Os fatos são eloquentes. O povo está na rua na Europa e nos Estados Unidos. No América do Sul, dispersão total, compatível com os interesses da elite, que não deseja agitação política, por hora, no compasso do calvário capitalista ocidental especulativo.

Temem, certamente, a liberação da força popular política sul-americana, impulsionada por posicionamentos mais fortes das lideranças, criando correlações de forças políticas sobre as quais perderiam controle.

O populismo sul-americano ainda reserva para si a predominância do mandonismo, mesmo sob a representação democrática. Basta olhar o Congresso brasileiro, regado pelo assistencialismo político escandaloso.

Estatização bancária detona Copom

Simbolicamente, a crise econômica em curso que desacelera a economia, de forma perigosa, impulsionando o desemprego e a radicalização política consequente, detonou o Conselho de Política Monetária(Copom), que, na próxima reunião, em 21.01, terá que reduzir os juros, como última alternativa para reanimar, mais fortemente, a produção e o consumo, semi-paralisados pela falta de crédito. Ao mesmo tempo, o governo, via Banco do Brasil,  ampliou a estatização bancária, comprando metade do Banco Votorantim, por R$ 4,2 bilhões, a fim de sustentar o mercado de automóveis, bloqueado por falta de financiamentos. Juros mais baixos e estatização financeira comungam para determinar nova correlação de forças na economia. Talvez ocorra até antecipação da reunião do Copom para a próxima semana, como resposta rápida para tentar minimizar as demissões, que já jogam trabalhadores nas ruas, junto com suas famílias, para protestarem contra a situação, como aconteceu em Itabira, Minas Gerasis, onde a Vale do Rio Doce demite em massa.

O abalo no Copom ocorreu na prática com a decisão do presidente Lula de convocar, emergencialmente,  os ministros Guido Mantega, da Fazenda, e Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, para, na quarta, 08, conversarem com os empresários e banqueiros sobre como ajustar a oferta e o custo do dinheiro, para a economia não parar. Seria desastre político para o presidente e adeus à candidatura da ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, à presidência em 2010.

Sob pressão da queda da indústria de 5,2% em novembro em relação a outubro, sinalizando encolhimento do PIB em 1% no quarto trimestre de 2008,  projetando desastres e consequente crescimento da oposição para disputar sua sucessão em 2010, o titular do Planalto, empenhado em sustentar a economia, para viabilizar a candidatura Dilma Roussef,  politizou o comando da economia. Equalizou opiniões de empresários e banqueiros, junto com o governo, para dar novo ritmo ao processo produtivo. Economia política preponderando sobre a política econômica.

A taxa de juro, portanto, de acordo com a estratégia de economia política, posta em prática pelo presidente, deixaria de ser formada, apenas, pela voz do BC , influenciada, diretamente, pelos banqueiros. Os empresários do comércio, da indústria e dos serviços foram chamados pelo presidente para sentarem à mesa, a fim de darem as cartas, também, em forma de opiniões e propostas decisivas.

Democratização em marcha da discussão sobre a formação dos custos de produção no país, para determinar o custo médio do dinheiro, a partir de janeiro, na tentativa, em meio à desestabilização global, de compatibilizar produção e consumo, de modo a estabilizar a taxa de emprego.

A pá de cal em cima do Copom, conforme se encontra, atualmente, estruturado, com viés  bancocrático privado, ficou explicita, quando, ao final da reunião histórica, o presidente do BC destacou, visivelmente, encismesmado diante das pressões, que reuniões como a exigida pelo presidente da República deverão se repetir todos os meses, por unir pontos de vistas comuns em busca de objetivo consensual. Politização da economia em marcha.


Banqueiros abalam Meirelles


O titular do BC, encurralado pelos bancos, abriu guerra contra os banqueiros. O presidente do Bradesco e diretor da Febraban, Marcio Cypriano, culpou o BC pelos juros altos. O presidente do BC devolveu o ataque na mesma proporção, ao destacar que os custos de intermediação bancária(spreds) no país são os reponsáveis pelo custo elevado do dinheiro. Ganha espaço a proposta do presidente da CNI, deputado Armando Monteiro Netto(PTB-PE), que , na Câmara, defende e presidente subcomissão de finanças dedicada à discussão dos spreds exorbitantemente altos.
Rachou-se o próprio poder bancocrático. Os donos do dinheiro acusaram a sua própria representação, ou seja, o BC, de culpada. Lavação de roupa suja. Acusações mútuas de responsabilidades ultrajadas. Meirelles se enfraqueceu, sensivalmente, porque o poder do BC foi colocado em dúvida.
Bancarrota da política economia, emergência da economia política.

Ficou evidente a impossibilidade de ser mantida a estrutura formal do Conselho de Política Monetária(Copom), constituído, apenas, de governo e banqueiros privados, para discutir a mercadoria mais importante da economia, a moeda.

Administrada, sem a participação dos agentes produtivos, comércio, indústria e trabalhadores, orientada tão somente do ponto de vista bancário, a moeda, da qual depende a produção e o consumo, de modo a produzir estabilidade econômica e política, submete-se a nova correlação de forças políticas dentro do governo de coalizão, em meio ao aprofundamento da crise mundial.

As decisões do Copom, de agora em diante, subordinam-se a uma discussão prévia, como a de quarta feira, em comitê mais amplo, englobando BC, banqueiros e agentes da produção. 

Faltou o representante  dos trabalhadores, que, certamente, reivindicarão presença nesse novo contexto da discussão econômica nacional, cuja expressão seria pacto social.

A autonomia do Banco Central, conforme a estratégia presidencial, deixa, pragmaticamente, de existir como algo absoluto, tornando, absolutamente, relativo.


Lula resgata Delfim e militares

Restabelece-se, pragmaticamente, com a decisão lulista, de clara interferência indireta, na autonomia do Banco Central, o antigo perfil do Conselho Monetário Nacional – CNM – , criado pelos governos militares, do qual participavam não apenas banqueiros, como hoje, mas, também, os representantes do comércio e da indústria. Com peso significativo da Federação das Indústrias de São Paulo – FIESP – , adquirido no tempo do milagre econômico delfiniano, quando a economia, puxada pela indústria, crescia 10% ao ano, nos anos de 1970, o CNM era o real poder econômico-financeiro da ditadura.

Os números da economia eram discutidos pelas partes – excluídos os representantes dos trabalhadores , na ocasião ditatorial- , quando então o BC segurava a taxa de juros ou a soltava, balançando os fatores em discussão pelos agentes econômicos, sintonizadamente.

Na prática, embora houvesse tremenda centralização de poder no comando da economia, sob os governos militares – Delfim Netto era considera czar da economia – , o resultado, visto pelo ângulo do funcionamento da economia em seu conjunto de fatores fiscais e monetários, agregados, soava mais democrático, inverso ao que passou a vigorar nos governos da Nova República.

Sob impacto da crise monetária dos anos de 1980, desencadeada pelo aumento de 5% para 17% da taxa de juro americana, em nome do combate à inflação, que desvalorizava o dólar, os governos neorepublicanos, bem como os governos da periferia capitalista, implodiram economicamente. A fuga de capitais impôs desvalorização braba das moedas capitalistas periféricas, cujo resultado foi inflação galopante, imposta de fora para dentro. 

As cartas da economia passaram a ser dadas não mais pelo Conselho Monetário Nacional, dos governos militares, mas pelo Consenso de Washington, informalmente um comitê de bancos privados internacionais, para enquadrar os países devedores, sob rígida ortodoxia monetária. 

Homeopatia econômica

O novo contexto ajustou-se aos interesses externos: abertura forçada da economia,  privatização de empresas estatais e bancos estaduais, restrição monetária via depósitos compulsórios elevados, política fiscal arrochada e juros altos para combater a inflação. Tudo em nome da formação de elevados superavit primários – receitas menos despesas, excluindo os juros – para garantir em dia o pagamento dos serviços da dívida interna e externa.

Internamente, os banqueiros se transformaram em gerentes da economia, garantidos seus resultados financeiros na Constituição. O artigo 166, parágrafo terceiro, ítem II, letra b, estabeleceu como causa pétrea a garantia do pagamento dos juros ao proibir que haja contingenciamento de recursos públicos destinados ao serviço da dívida. Neo-república bancocrática plena. Constituição bancocrática.

A crise mundial, que bloqueou o crédito internacional e secou as fontes de financiamento do desenvolvimento nacional, dependente, historicamente, da poupança externa, desde os anos desenvolvimentistas das décadas de 1940 em diante, obrigou o presidente Lula a uma reação anti-bancocrática, como necessidade de sobrevivência econômica e política.

Na semana passada, ele mandou para os ares os controles orçamentários, para fixar a capitalização do Fundo Soberano Brasileiro, aprovado pelo Congresso, que fixou limites para sua atuação. Diante dos empecilhos congressuais, decidiu capitalizar o fundo lançando títulos da dívida pública interna, a fim de fazer dinheiro  imediato. Ditadura estatal financeira oligopolizada contra a ditadura privada financeira igualmente oligopolizada.

Uma semana depois, ao mandar juntar todos os agentes econômicos para discutir os juros, o presidente faz nova intervenção na economia, à moda militar. 

Controvertidamente, tal intervenção pode se mostrar mais democrática do que a prática seguida até agora pelo BC, sob a cultura ortodoxa monetarista neorepublicana, fechada, anti-democrática. 

Paradoxo total: intervenção autoritária para abrir o debate fechado e autoritário conduzido apenas pelo  BC e banqueiros. Veneno de cobra contra veneno de cobra. Homeopatia econômica.