Euro desbanca dólar

 

O governo inglês colocou o euro na vanguarda da nova estratégia monetária global para conquistar confiança dos mercados ao estatizar os bancos, botando dinheiro governamental na capitalização deles, tornando, ao mesmo tempo, seus sócios.

O velho capitalismo inglês se transformou num novo socialismo britânico. Socialismo fabiano?

O dólar perdeu a capacidade de exercer essa tarefa fundamental de forma absoluta. A moeda americana, em excesso na praça, graças à explosão especulativa com os dólares derivativos, deixou de ser referência, dada a desconfiança que levantou em sua saúde, perdendo preço, jogando o mercado na incerteza.

Com a falência dos bancos americanos, cheios de dólares derivativos podres empoçados, sem poder desovar, restou a necessidade de pintar nova representação monetária que subsituisse a moeda americana, desvalorizada, desacreditada, impulsionadora de desconfiança, cuja representação desgastou-se, no compasso dos deficits gêmeos americanos. Estes, ao longo dos anos, foram lançando dúvidas e temores na praça sobre a capacidade do tesouro dos Estados Unidos de continuar enxugando a liquidez monetária derivativa dolarizada apodrecida, para evitar explosão inflacionária.

O que os ingleses perceberam? Que se Tio Sam jogasse mais dinheiro na circulação, já excessivamente encharcada de dólar derivativo, derivodólar, poderia dar chabu. As três últimas semanas de terremoto financeiro apenas confirmaram a impossibilidade de ser mantido o poder absoluto da derivação monetária dolarizada. A moeda americana se tornou absolutamente relativa no papel de representar as mercadorias nas relaçoes de trocas globais, na escala capaz de sanear o mercado afetado por moedas podres.

O mercado vomitaria o excesso de dólar? Essa dúvida impediu o secretário de Estado Henry Paulson, dos Estados Unidos, de ser ousado. Ficou com pé atrás.

Teria credibilidade a máquina do tesouro de Tio Sam para fabricar 2,5 trilhões de dólares para subsituir 2,5 trilhões de dólares derivativos podres, se os papéis emitidos, na prática, não possuem lastro real, dado pela confiança?

 

Árabes começaram processo de fragilização

Tal possibilidade poderia, por outro lado, não acontecer com o euro, alvo do interesse , principalmente, dos árabes, donos do petróleo. Foram eles que iniciaram o movimento de saída do dólar para o euro, como forma de fugir da inflação em moeda americana.

Como o petróleo é cotado em dólar e como os árabes precisavam importar produtos cotados em euro, tiveram, consequentemente, de aumentar seus preços, como forma compensatória, a fim de manter constante sua margem de lucro. Caso contrário, dançaria nas trocas cambiais.

Fugiam da inflação em euro, mas, ao mesmo tempo, lançavam o germe da inflaçao em dólar, fragilizando esta e lançando, consequentemente, alternativas para criar, no espaço econômico global, possibilidades de emergência de novo equilavente monetário global.

Tal movimento detonou pressões inflacionárias globais, cujo resultado  produção desmoralização adicional do dólar. Ficou cada vez mais claro que a mercadoria petróleo, tão disputada no mercado global como o próprio dinheiro, passou a buscar referência no euro para fugir de perdas com a moeda americana. Detonaram, dessa forma, os árabes o movimento inflacionário especulativo global.

Se a grande mercadoria via sua nova representação no euro, moeda européia, por que as demais não se comportariam da mesma forma, estando por trás delas astúcias comerciais e financeiras de grandes investidores na praça internacional?

Nova correlação de forças do poder monetário global

A fuga do dólar para o euro gerou movimento especulativo com a moeda americana em todas as direções, sabendo o mercado que o excesso dela, proveniente das ações maquinadas pelos bancos de investimentos, por meio de engenharias financeiras reprodutivas-especulativas-monetárias, teria como resultado final o óbvio: o descrédito do dólar.

Agora, no auge da crise monetária, em que os europeus resistem em jogar dobradinha com o dólar, preferindo apostar na sua moeda, o jogo ficou bruto e cristalino.

O euro entrou em cena, de forma fulminante, com a jogada estratégica dos banqueiros ingleses, que decidiram , pela ação política do primeiro ministro Gordon Brown, impor nova correlação de forças no mercado monetário global.

A Europa, que havia perdido o poder monetário, depois da segunda guerra mundial, para os Estados Unidos, que, com o dólar, então forte, criou nova divisão internacional do trabalho e nova senhoriagem nas relações cambiais internacionais em favor dos americanos, volta a dar as cartas no mercado cambial internacional. Os americanos, depois de perderem o mercado de bens e serviços para outras praças, como a chinesa, perde, também, o mercado de dinheiro. Sua moeda, desacreditada, é ultrapassada pelo euro.

A relatividade do poder do dólar, em baixa, dá lugar à relatividade do euro, em ascensão.

Se o mercado poderia refugar uma jogada tão ousada como a inglesa, se fosse, primeiramente, tentada na praça america, com o dólar, sob descrédito, com o euro ocorreu o contrário. Um trilhão de euro deu aquele gás que o dinheiro americano perdeu, depois do processo doloroso das votações no Congresso sobre a proposta da Casa Branca de salvar a praça bombardeada pela enchente dos derivodólares apodrecidos.

Sabedoria financeira inglesa entrou em cena

Os ingleses, velhacos de guerra, entraram no vácuo deixado pelo dólar desacreditado e fizeram a grande experiência do século 21, no plano monetário, por enquanto. Isto é, colocam o euro como a nova representação monetária internacional, que tenderia a ser o novo equivalente geral das trocas internacionais, dando partida a uma nova concertação econômico-financeira global.

O dólar, sozinho, poderia não dar conta do recado, saindo de peito aberto na praça. O euro deu. Agora, o jogo, na mesma linha, realizado pelo tesouro americano, ou seja, destinando dinheiro para estatizar os bancos, estão não inovando, mas copiando a manobra inglesa.

Os europeus demonstram força para dar lastro ao euro com o seu grande mercado consumidor. Caso não pintasse a união da Europa, nesse momento crucial, não teria sido possível relançar o germe da confiança.

Com a estratégia européia, dada pela jogada política inglesa, de grande intensidade, com dinheiro especulativo, já que está por trás dele, apenas, a credibilidade e a crença dos 13 governos europeus, inicia-se novo cenário monetário internacional, no compasso da bancarrota financeira. O poder de representação da moeda americana ficou abalado e o do euro fortalecido.

EUA vendem UE e compram BRICs

 

A primeira grande crise monetária do século 21 coloca os BRICs – Brasil, Rússia, Índia e China – como principais alvos de desejo do neo-semi-falido Tio Sam, que abandona a neo-semi-falida Europa às traças financeiras destrutivas.

Numa nova concertação monetária poderia pintar a moeda BRICs, sigla inventada pelo banco Goldman Sachs, no estudo “Dreaming with BRICs: the path of 2050”, em que prevê, nos próximos 40 anos, a predominância desse novo grupo no cenário global, deslocando os outrora poderosos absolutos, Estados Unidos e Europa?

O Grupo dos 7 mais ricos(EUA, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Japão e Canadá), que se reuniu, na sexta e no sábado, em Washington, mostrou o óbvio: os ricos europeus não sacariam parte de suas reservas para salvar os Estados Unidos, baleados, na crise, fazendo dobradinha entre o Banco Central Europeu(BCE) e o Banco Central Americano(BCA), para resgatar títulos podres dos bancos falidos.

Resultado: fracasso da reuniâo. O Grupo dos 7 – são eles os patronos do unilateralismo e, não apenas, os americanos – esfarelou-se.

A Europa se recolhe para lamber feridas abertas

 

Os europeus, largados por Tio Sam, voltaram, correndo, para casa, partindo para ação emergencial conjunta – arrumar algo em torno de 2,3 trilhões de dólares(1 trilhão de euros), para irrigar o sistema financeiro europeu em bancarrota – , para não entrarem em crise política aguda.

Se estavam, inicialmente, tendentes a cada um ir para o seu canto, dentro da comunidade européia, depois do fracassado encontro de Washington, na tentativa de coordenação entre os ricos, para agirem conjuntamente, alarmaram-se diante da possibilidade de ficarem sós. No calor da crise, os líderes europeus sentiram a barra. Não haverá saída para eles, senão agirem, conjuntamente, CQC, custe o que custar.

Como, isoladamente, faliram, restaram-lhes, financeiramente, ampliar a união europeia, mesmo que a institucionalidade política do continente não tenha ainda vigando inteiramente. Ela se tornou imperativo categórico.

Do contrário, poderão pintar, nos países europeus, individualmente, tendências políticas nacionalistas variadas em seu conteúdo ideológico, como resposta radical da ira popular contra os governos irresponsáveis que levaram a economia ao desespero especulativo, suspendendo regras e regulamentações, cujo efeito é pobreza reltiva emergente.

Hitler surgiu depois da crise monetária de 1931, na Europa, começando pela Austria, espalhando, em seguida, por todo o continente, gerando tendências fascistas e nazistas irresistíveis.

Repetiriam os líderes europeus a dose hitlerista, como reação ao avanço do pensamento socialista, sintonizado com a pregação de Lenin de que as crises monetárias são parteiras do socialismo?

Se a União Europeia fracassasse, agora, novos hitleres poderiam botar a cabeça de fora. A Europa unida poderia impedir avanço do nazismo. Favoreceria o socialismo, de forma controlada, numa nova versão avançada da social-democracia, em versão avançada relativamente à moda chinesa?

 

W. Bush jogou os europeus a sua própria sorte

 

O presidente W. Bush, parece, jogou calculado. O que teria a ganhar, entrando no barco furado europeu, a menos que a Europa colocasse grana na praça americana, para ajudar Washington a pagar os pepinos da bancarrota do dólar derivativo?

O que tem a Europa a oferecer, se não tem mais grana? Petróleo? Alimentos? Metais? Só teria tecnologia e cultura. Esta, rica, única; aquela, avançada, porém, democratizada, patrimônio de todos, não apenas europeu.

Como o titular da Casa Branca percebeu que não tiraria mais carne do osso, correu, então, para os braços do Grupo dos 20. O semi-falido esfarrapado Tio Sam, no sábado, à noite, no meio dos emergentes foi histórico. Ficou entre os quatro mais ricos em ascensão, os BRICs – Brasil, Rússia, Índia e China. Somados, correspondem a quase 25% do PIB mundial. Tio Sam detesta pobre e adora rico.

Aos europeus, neo-semi-pobres, tchau; aos emergentes, neo-ricos, olá, gente!

W. Bush pontificou ao lado dos ministros dos países em desenvolvimento demonstrando que são eles a companhia que, realmente, interessa ser cultivada pelos Estados Unidos. O ministro Guido Mantega, da Fazenda, colocará o retrato na parede. Como presidente pró-tempore do G 20 ficou de peito cheio ao lado do falido Tio Sam. História.

A Europa ficou para trás. Perdeu serventia para os americanos. Afinal, os europeus não podem mais continuar bancando o financiamento de parte importante do deficit americano de 6% do PIB dos Estados Unidos, algo em torno de 800 bilhões de dólares de um total de 13 trilhões de dólares. Esse jogo foi possível de ser jogado desde Bretton Woods, em 1944, quando Washington, com o dólar todo podereso estabeleceu a nova divisão internacional do trabalho. O dólar de hoje é uma sombra daquele passado glorioso.

Se os governantes europeus, no contexto da destruição monetária, continuassem bancando o jogo de sustentar parte dos deficits americanos, adquirindo títulos da dívida pública lançados pelo tesouro dos Estados Unidos, tendo como lastro o dólar deslastreado, fictício, provocariam crises políticas agudas, dada a consciência política desenvolvida européia. Por que salvar os americanos, se os europeus estão em processo de autodestruição?

Por outro lado, para os europeus, não teria sentido continuarem financiando os déficits americanos, se não haverá possibilidade de a economia européia prosseguir acumulando superavits comerciais na praça americana, em processo de esfriamento no compasso da grande crise monetária.

Se o que está pela frente é a recessão, o mercado americano não absorverá as mercadorias européias na escala necessária para permitir que a Europa continue, como vinha fazendo desde o pós-guerra, financiando Washington.

Neo-divisão internacional do trabalho à vista

Os Estados Unidos, no pós-guerra, com o dólar forte, promoveram divisão internacional do trabalho cuja configuração ficou clara: a moeda americana passaria a ser o equivalente universal nas relações de troca, impondo deterioração nos termos destas em favor dos EUA.

A economia americana seria francamente importadora do mundo, gerando superavit comercial na Europa e na Ásia, para salvar o capitalismo europeu e asiático das garras do comunismo. O Plano Marshall foi isso.

O preço a pagar pelos aliados seria o financiamento dos déficits americanos com o dinheiro adquirido com os superavits comerciais europeus e asiáticos. Jogo de duas mãos.

Tal preço representava a garantia de o capitalismo, super-armado com bombas atômicas e nucleares, ganhar a parada política, econômica e militar da URSS, enquanto era sustetanda a guerra fria e as demais guerras que viriam pela frente como a do Vietnam etc.

Quando os americanos, em 1979, diante a moeda ameaçada pela inflação decorrente do excesso dólares, eurodólares, nipodólares e petrodólares, petrodóalres, nipodóares, na praça global, subiram a taxa de juros de 5% para 17%, quebrando a periferia capitalista, para dar sustentação e confiança à moeda equivalente geral nas trocas comerciais globais, o ex-ministro Delfim Netto, no governo Figueiredo, entendeu o jogo: “É o preço que os Estados Unidos cobram para sustentar a democracia representativa e a segurança do mundo contra os comunistas”.

E agora?

A nova ordem relativa do poder estabelecido

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A bancarrota financeira global atual mostra quadro inverso. Os Estados Unidos, exaustos de tantos déficits gêmeos, como custo de sustentação do capitalismo global, gastando em consumo e armamentos, à moda keynesiana, abriram o bico.

Não têm mais gás para bancar, com rítmo acelerado, a economia de guerra.

Se a Casa Branca está gastando o que não pode para comprar títulos podres na praça americana, a fim de evitar quebradeira geral não apenas dos bancos, mas dos contribuintes, como continuar financiando guerras caras, como a do Iraque, que já consumiu mais de 2 trilhões de dólares, como destacou Josef Stiglitz, premio nobel de economia? 

Por não poder mais suportar elevados deficits, na escala necessária, capaz de puxar a demanda global, a partir da economia de guerra keynesiana, é de se prever que uma nova geopolítica-estratégica econômica e militar emerja no Oriente Médio, com o Iraque, fragilizado, sendo atraído para o Irã, enquanto Israel terá dificuldades de continuar se financiando no tesouro americano, preocupado com a guerra maior, interna, desatada pela bancarrota financeira. 

Sairia mais facilmente o Estado palestino? Tudo está virando de ponta cabeça.  

A Europa e a Ásia –  Japão, antes, e China, depois – poderão dizer não à continuidade do processo do pós-guerra. Ganharão o que, se o mercado americano vai dar uma esfriada legal?

Teriam que retirar das suas reservas acumuladas para financiar o tesouro americano. Sem capital de giro, enfiarão a mão no bolso?

As posições, de lado a lado, dos Estados Unidos e da Europa, ficaram rígidas. Os europeus, entregues à sua falta de segurança na ausência do mercado americano, em baixa, e resistentes a sacarem suas poupanças, que viraram pó, na crise, perceberam a necessidade de correrem do jogo proposto por Washington.

 

Chavez pode ir à Casa Branca baleada pela crise

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Casa Branca lavou as mãos e correu para conquistar os novos aliados, emergentes, que serão, também, alvos do interesse europeu. Os BRICs e a América do Sul têm muito mais a oferecer a eles do que eles aos BRICs e aos sul-americanos.

Surgem nova correlação de forças políticas e econômicas no cenário das trocas comerciais.

Os preços das matérias primas, das quais toda a manufatura global depende, tendem a aumentar, por serem, relativamente, escassos. Já os preços das manufaturas, por serem fartas, dado o aumento exponencial da produtividade, impulsionada pela ciência e tecnologia, colocadas a serviço da produção, tenderão a cair, relativamente.

Ou seja, os pesos relativos das matérias primas, de um lado, e os preços relativos das manufaturas, de outro, serão alterados em favor dos primeiros e em prejuízos dos segundos, como destacou o ex-presidente FHC em recente reunião com os tucanos em Brasília.

Nesse ambiente, os Estados Unidos se interessarão por uma nova ALCA, não com a cara que antes pretendia imprimir, ou seja, preponderância do discurso de Tio Sam sobre o quintal de sua suposta propriedade, a América do Sul, historicamente,  mas com a fisionomia nova, que os neo-aliados emergentes estabelecerem, na base do consenso.

A ira de Hugo Chavez contra Tio Sam pode dar lugar a uma flexibilidade na era pós-Bush. Da mesma forma, Tio Sam não terá mais vigor para impor a Cuba eterna discriminação, porque os aliados de Cuba, no continente, colocarão, na mesa, a exigência de supressão do bloqueio comercial contra a resitente e brava Ilha caribenha socialista fidelista.

América do Sul e Caribe, cujos ministros da economia, recentemente, se reuniram pela primeira vez, na história – conforme disse o ministro Celso Amorim ao repórter Roberto D’Avila – estão diante de novas possibilidades, prontas a sairam da condição de subordinação para a de coordenação dos seus interesses, fora das influências externas, a partir de um conjunto de interesses convergentes sul-americano-caribenho?

Nova configuração geoestratégica, portanto, coloca os Estados Unidos, não mais como aqueles que vê a América do Sul, a Ásia e a África, como dependentes de Washingotn, aliados menores, mas, maiores, isto é, caminhando para serem independentes de Tio Sam.

Tempo de subordinação abre para o de coordenação

A Casa Branca, como demonstrou W. Bush, na reunião do G20, quer ficar perto dos que têm a oferecer vantagens. Que vantagens a Europa oferece ao capitalismo americano? Os bancos europeus faliram. O mercado consumidor da Europa, para as mercadorias americanas, é insuficiente. Insumos básicos, nada. Enfim, mala sem alça. Igualmente, Tio Sam, para os europeus, virou  avião jumbo sem asas.

Otelo destesta Iago e Iago não tolera Otelo.

Já a America do Sul possui tudo o que os americanos desejam. O que vai ser mais vantajoso, de agora em diante, para a economia americana? A aproximação com quem tem bala ou a com quem está desarmado e falido, querendo comprar fiado?

Como vão precisar de energia em escala crescente, a fim de se livrarem da dependência do petróleo, que exige guerras, cujos custos não podem pagar, na escala em que sustentaram até agora, os Estados Unidos, como alternativa, ampliarão suas alianças com a America do Sul. Os BRICs são sua salvação.

Pode pintar, inclusive, como destacou Delfim Netto ao jornalista William Waack, a necessidade de o governo brasileiro impor uma tarifa de exportação sobre o álcool para evitar que toda a produção, nos próximos tempos, se destine ao mercado americano, colocando pressões inflacionárias sobre o mercado brasileiro de etanol.

A América do Sul estará preparada para viver novos contextos políticos altamente transformadores da mentalidade subordinativa histórica que as liderança sul-americanas, ancoradas nos velhos coroneis e em políticas industriais semi-integradas, dependentes, para incorporar-se do oposto, isto é, de mentalidade coordenativa, em torno da União das Nações Sul-Americanas?

Nova lider sul-americana diante de grandes desafios

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por que Michelle Bachelet, presidente do Chile e pró-tempore da Unasul, ainda não reuniu os líderes sul-americanos, para esse debate, depois de três semanas de terremotos financeiros globais, lançando novas sementes da ordem internacional?

A Unasul, que mostrou sua efetividade na superação parcial da crise boliviana, evitando destruição fascita do governo de Evo Morales, por uma oposição separatista disposta a ir ao extremo da radicalidade, terá pela frente a tarefa de coordenar a América do Sul no novo cenário global.

Trata-se de alcançar os propósitos sul-americanos maiores:  moeda sul-americana, banco sul-americano, segurança sul-americana, tribunal su-americano, parlamento sul-americano, que originarão pensamento sul-americano.

 Qual o lastro real sul-americano, no compasso da crise? A riqueza real sul-americana: biodiversidade infinita, petroleo – renovável e não-renovável – , metais, alimentos, terra, água e sol que garantem até três safra anuais etc. Ou seja, moeda que se sobrevaloriza diante da moeda equivalente internacional, o apodrecido dólar derivativo, que se sobredesvaloriza, pois seu lastro é, tão somente, ficção.

Crise abala Lula e fortalece Serra

O presidente Lula e o governador José Serra emergiram como polos opostos na crise bancária mundial que ameaça a economia brasileira. Depois de a bancarrota financeira global detonar os pequenos e médios bancos, está levando para o abismo, também, as grandes e médias empresas, que estavam alavancadas na especulação.

Só não correm perigo, por enquanto, os grandes bancos, que estão sendo abastecidos pelos depósitos compulsórios, que utilizam, não para emprestar ao público, mas para comprar títulos do governo, sem contribuir para a formação da riqueza social.

Os tremendos tombos nos lucros especulativos dos empresários podem criar pânico no mercado brasileiro, se a situação internacional deterior-se, fortemente, como tudo indica que isso venha a acontecer, no compasso da primeira grande crise monetária do século 21, anunciando tempestades econômicas e políticas.

Nesse contexto, o governador de São Paulo, José Serra, sobressaiu atacando os juros altos e colocando-os em campanha eleitoral, enquanto o presidente ficou calado sobre o assunto, até agora, porque se tornou prisioneiro do custo elevado do dinheiro. 

Bancarrota empresarial e financeira à vista tenderia a abalar o presidente Lula, como está abalando os presidentes em geral, no espaço global. Já, Serra, livre atirador contra os juros altos, faturaria no cenário em que se instaurou o “Chaos”, rítmo jazzístico frenético de Wayner Shorter.

Grandes empresas como Sadia, Votorantim, Perdigão, Aracruz Celulose, na qual a Votorantim tem muitas ações, e muitas outras de expressão e peso na economia, com grande influência na saúde ou na doença da bolsa de Valores de São Paulo, concentrada numa totalidade não superior a 200 ações negociadas, certamente, nos próximos meses, baterão à porta do governo, pedindo socorro. Os clamores já estão percorrendo os corredores das federações de indústrias.

 

O hospital das grandes empresas nacionais entra em ação

 

 

O BNDES, velho hospital de empresas falidas, será chamado a exercer o seu eterno papel, de emprestar e perdoar, ao longo do capitalismo nacional, tocado pela concentração da renda, de forma abusiva, desde o desenvolvimentismo keynesiano-jusceliniano dos anos de 1950, seguindo com os militares, de 1964 até 1984, e paralisado, daí, em diante, durante a Nova República, detonada pelos efeitos da crise monetária dos anos de 1980, que instaurou o neoliberalismo jurista estagnante.

As empresas caíram na armadilha dos juros altos. Aplicavam uma parte dos seus resultados na especulação, para obter alta lucratividade, como forma de compensar a baixa lucratividade relativa na produção, afetada pelo jruo composto extorsivo.

Os lucros especulativos complementam os insuficientes lucros produtivos. Estes não sobrevivem sem aqueles.

Conseguiram as empresas, dessa forma, sustentar a taxa de lucro média em ascensão. Caso contrário, se ficassem só na produção, suportando no lombo o prolongado sacrifício, teriam sucumbido à concorrência internacional.

Como suportar tal competição, se na Europa, Ásia e Estados Unidos os juros estão caminhando para serem negativos, descontada a inflação?

 

Desequilíbro se instala na economia especulativa

O jogo de equilíbrio das empresas entre especulação e produção foi para o espaço com a emergência da crise bancária. 

Enquanto nas atividades produtivas, no ambiente da concorrência, a margem de lucro nunca supera a casa dos 10%, ficando na média de 7,5%, e olhe lá, nas atividades especulativas, o lucro se situa(va) no  invejável dos 25% ao 30%. Na média, entre especulação e produção, as empresas lucravam 15% a 20%.

Sem os lucros especulativos, poderão perder tudo.

O jogo da especulação foi, brutalmente, interrompido. Os empresários e os especuladores jogavam no dólar futuro para fazer lucro no presente, em real, multiplicado nos juros altos internos.

Estavam comprados no dólar barato que subiu violentamente de preço. Ficaram como o turista que se encheu de dívida no cartão de crédio no exterior com o dólar barato, que vira dólar caro com a desvalorização da moeda nacional repentina. Facada.

O grupo Votorantim, do grande empresário Antônio Ermírio de Moraes, histórico investidor na produção, não titubeou diante do jogo especulativo no tempo das vacas gordas. Abriu seu próprio banco. Foi participar do jogo do crediário em todas as direções, nos investimentos especulativos e no crédito direto ao consumidor. Alanvacou com Arquimedes, o grego. Os lucros bancários passaram a ganhar dimensão equivalente aos lucros obtidos pelo grupo na produção e comercialização oligopolizada do cimento.

Assim, como o grupo Votorantim, outras grandes empresas desenvolveram a bissexualidade empresarial brasileira: faturar prá frente, na especulação, e prá trás, na produção. E vice-versa. Uma equilibrando a outra.

O desastre financeiro global americano e europeu, que puxa o mundo para baixo, colocando os demais continentes em situação de total instabilidade, pegou os empresários comprados no futuro com expectativas de explosões financeiras iminentes no presente.

O exemplo da Sadia é sintomático. Desesperada diante dos prejuízos, a direção da empresa, que estava atuando de forma concessionária pelo presidente que havia se afastado, teve que apelar para a  volta imediata do verdadeiro chefe. O ex-ministro Luis Fernando Furlan, proprietário da empresa, foi obrigado a assumir seu próprio negócio, que estava sob comando de empregados. O olho do dono estava ausente?

Furlan pode já estar batendo às portas do BNDES.

 

Os próximos momentos são de angústia

Nas próximas semanas, com os possíveis agravamentos e rescaldos da grande crise monetária global, cujos prejuízos são calculados, até agora, em 14 trilhões de dólares, cinco brasis, a onda de desastres financeiros pode avançar em meio ao discurso desenvolvimentista do presidente Lula como arma para manter o otimismo nacional.

Os governos nacionais foram ultrapassados num mundo onde a economia passou a ser dominada pelos grandes oligopólios cujo poder impõe vontade aos próprios governos. O grupo dos sete grandes, convocados às pressas por W. Bush, nesse final de semana, em Washington, resolverá a parada? Difícil.  Com a crise, tanto os governos, como as grandes empresas, todos balançam e revelam suas fragilidades.

A balburdia estará instalada nesse sábado e domingo na capital americana, pois, junto com o grupo dos sete, estará, também, o grupo dos vinte. Certamente, pintarão propostas de todos os naipes, como, por exemplo, a de realizar, já, uma nova coordenação monetária global, porque o dólar teria sido ultrapassado em seu papel de equivalente monetário global por falta de gás financeiro do governo americano.

Essa situação, coloca o governo do presidente Lula diante da possibilidade de ser obrigado a salvar tanto os bancos como empresários, emergindo como super-empresário estatal no contexto desenvolvimentista nacional, dado pela crise bancária.

Os bancos privados grandes fugiram do compromisso de salvarem os bancos privados pequenos, mesmo com dinheiro subsidiado do governo. O impulso nacionalista governista vai se tornando irresistível, no rastro do processo de bancarrota privada.

O governo está tendo que assumir as contas do desastre, claro, com dinheiro do consumidor, jogando as reservas cambiais no fogo. Os repórteres de O Valor, Cristiano Romero e Cláudia Safatle, informam que serão sacados pelo menos 20 bilhões do total de 207 bilhões de dólares acumulados, para salvar bancos, empresas e garantir investimentos em infra-estrutura.

O perigo de o dinheiro ser torrado pode ser grande, principalmente, se a onda especulativa com o dólar , no país, onde seu valor sobe, proporcionalmente, mais do que em outras praças, se os juros internos continuarem elevados, estimulando novas ondas especulativas com a moeda nacional, num segundo momento da crise.

teve que assumir pepino, emitindo medida provisória salvacionista, que poderá ser ampliada. Não seria, apenas, suficiente salvar os bancos pequenos. Os representantes dos setores produtivos, também, são candidatos ao socorro governamental.

Os efeitos da grande crise tenderão a desatar consequências cujos elos se estendem em todas as direções do sistema econômico. Nesse contexto, ganha dimensão politica a discussão sobre a taxa de juros brasileira, a mais alta do país.

 

José Serra-José Alencar, novo fato político

 

Nesse sentido, saiu na frente o governador José Serra, de São Paulo. Na quarta, 09, depois de encontrar-se com o presidente Lula e a ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, preferida pelo titular do Planalto para sucedê-lo, conforme disse o ministro da Justiça, Tarso Genro, ele abriu fogo contra a política monetária comandada pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

Politizou o assunto, para ajudar, não apenas a campanha eleitoral do prefeito Gilberto Kassab, do Democrata, 17 pontos à frente de Marta Suplicy, do PT, no DataFolha. Sobretudo, com o discurso de tiro ao juro, Serra alavanca sua própria candidatura presidencial para 2010, pelo PSDB.

O governador paulista fechou sua posição com o discurso do vice-presidente da República, José Alencar Gomes da Silva. Racha, dessa maneira, o próprio governo.

Qual o novo discurso de Marta Suplicy e de Dilma Roussef diante do de José Serra? Falarão a favor dos juros altos, quando trabalhadores e empresários buscam, justamente, o contrário, para sobreviver?

Os juros altos, no estouro da crise bancária, que destroi riquezas especulativas, deixaram de ser solução para os especuladores, para se transforarem em problemas altamente explosivos. Não trabalham mais para produzir riqueza especulativa, mas para produzir destruição de riqueza na especulação.

O PMDB, maior vencedor das eleições municipais, comprará o discurso do juro alto ou do juro baixo proposto pelo governador de São Paulo, como alternativa para a sobrevivência da economia, que detonou, na crise, o esquema de reprodução do capital na especulação?

Serra assumiu a vanguarda do novo discurso, com o qual pode atrair aliados à direta, à esquerda e ao centro.

O presidente Lula, que estava com o tempo trabalhando a favor dele, está sendo obrigado, agora, a correr contra o tempo. Sem outra alternativa, teve que assumir o pepino neoliberal com dinheiro do contribuinte.

Se não salvasse os pequenos bancos e se não salvar grandes, médias e pequenas empresas, certamente, a Era Lula estará encerrada, politicamente.

José Serra colocou o presidente da República em uma armadilha. Por ter tocado na ferida, o titular do Palácio dos Bandeirantes deixou o titular do Planalto entre apoiar os juros altos e perder prestígio ou conter os juros altos e seguir a orientação do próprio Serra.

Estrategicamente, Serra passaria a ser o mentor de nova política econômica em que a intervenção do Estado na taxa de juro se faz necessária para evitar que tanto o capital como o trabalho sejam destruídos.

Bancarrota põe juros na campanha eleitoral

A economia brasileira, ameaçada pelo juro alto, entra de cabeça na política e na campanha eleitoral. A crise bancária internacional, que paralisará a economia mundial, pelo menos, nos próximos doze meses, ou mais, coloca em pauta, urgente, para a classe política e econômica, no Brasil, a questão da taxa de juro, a mais alta do planeta terra.

Ficou incompatível a situação brasileira. Aqui, vigoram os juros mais altos do mundo. Lá fora, coordenadamente, os governos cortam os juros para evitar a recessão. Por que? Manter os juros altos seria mais inteligente, ou o pessoal, nos países ricos, está errado?

Lula não deu um pio até agora sobre o problema candente da economia nacional. O governador de São Paulo, José Serra, percebeu o vácuo político dos juros e entrou de corpo inteiro na oportunidade eleitoral aberta por eles. Criticou a políica monetária praticada pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e ressaltou que ela é a responsável pelo desajuste da taxa de câmbio que bloqueia as exportações e aumenta, perigosamente, o deficit em contas correntes do balanço de pagamento, que fragiliza, adicionalmente, a moeda.

Não apenas a Fiesp, mas, também, os trabalhadores tenderiam a fechar com Serra nessa estratégia que lançou, depois de se encontrar, no Planalto, na quarta, 08, com o presidente Lula e sua possível candidata a sucessão presidencial, Dilma Roussef, da Casa Civil. Botou os juros na dança da campanha eleitoral. 

O titular dos Bandeirantes joga nesse rumo, não apenas para tentar levar à vitória seu candidato, prefeito Gilberto Kassab, poste serrista, bombado 17 pontos à frente da concorrente do PT, Marta Suplcy, segundo pesquisa DataFolha, mas, também, porque já se coloca como eventual candidato oposicionista à presidência da República em 2010.

Sua bandeira emergiu: tiro ao juro alto.

Que dirá Marta Suplicy, para responder ao ataque de Serra aos juros altos que faz avançar a candidatura de Kassab em cima da dela, tentativa petista de voltar ao poder na cidade mais poderosa da América do Sul?

Defenderá os juros altos, que, na crise desatada pela bancarrota financeira americana e européia,  ameaçam empresas e trabalhadores?

Dobradinha surpreendente: José Serra-José Alencar

Na prática, José Serra adota o discurso do vice-presidente da República, José Alencar Gomes da Silva, no momento, em que as tensões máximas nos agentes econômicos se voltam para os desastres financeiros que se agravam ainda mais diante de juros excessivamente altos, como o brasileiro.

Ou Lula, agora, adota o discurso do seu vice-presidente, sintonizado com as reivindicações urgentes dos setores produtivos, afetados pela conjugação de demanda cadente com juro ascendente, ou poderá trabalhar contra a candidatura de Marta Suplicy e de sua preferida, ministra Dilma Roussef, para 2010.

Sofreria revezes se a situação das empresas se deteriorarem, algo que a crise bancária abriu para importantes grupos econômicos nacionais, afetados pelo terremoto.

Pragamenticamente, José Serra abriu discussão relativamente à condução da política monetária pelo Banco Central, de complacência com os especuladores e de elevado perigo para a saúde da economia, exposta ao excessivo endividamento em clima de desaceleração da produção.

O monetarismo do Banco Central entra em choque com o discurso político de José Serra, que bombardeia a contradição petista: joga no social, mas privilegia a especulação.

Os tucanos adotam o discurso oposicionista econômico, invertendo sua posição. De privatistas, na Era FHC, poderão, com Serra, jogar como intervencionistas. O discurso de Serra é de intervenção. Tucanos, quem diria.

O Banco Central está, politicamente, na berlinda, quanto mais a crise leva Lula a abdicar-se do poder real, para ficar, apenas, com a figuração. Enquanto, na Europa, os governantes mandam os bancos centrais desarmarem os juros, no Brasil, o governo manda o BC continuar super-armado com os juros altos.

 

Ataque ao paraíso dos especuladores

 

Se por um lado melhoraram os controles e fiscalizações sobre regras bancárias, por outro lado, adotou-se política monetária que colocou a economia sob intensa especulação financeira em cima da dívida pública. Crítico dessa estratégia neoliberal desde quando participava do governo neoliberal de FHC, José Serra, na crise bancária, renova o seu ataque, com as condições históricas, agora, jogando a favor do seu discurso. Coloca Dilma Roussef na defensiva e toda a coligação governamental. O PMDB, que sai forte das eleições, jogaria contra a proposta de Serra?

Serra sintoniza seu discurso com a tendência mundial. Os bancos centrais, sob orientação dos governos, estão fazendo intervenções maciças na economia, para coordenar política monetária propício ao fortalecimento da produção.

Serra ataca, com seu discurso de campanha, o paraíso dos especuladores. A crise bancária coloca em xeque a continuidade desse processo, pois ela tenderia, ao rítmo atual, enforcar geral o setor produtivo, tanto as empresas, como os consumidores. Lula pode estar sendo obrigado a jogar contra o tempo, o mais rápido possível, porque a campanha eleitoral para 2010 entrou na rua com o discurso anti-juro alto de José Serra, com o bumbo tucano tocando atrás a música que em tempos passados era do PT.

A estratégia de Serra, no novo contexto, tenderia a ser bem absorvida pelo sentimento popular de pânico que a crise detonou nos países cêntricos enquanto nos países periféricos, como Brasil, o sentido de gravidade já se encontra em processo de expansão, invertendo expectativas. Os empresários já informam disposição para desacelerar investimentos, cujos efeitos são desemprego e redução da renda disponível para o consumo. Atrás disso, vem redução da arrecadação, crise na Previdência Social, agitação no Congresso etc e tal. 

O pavor dos juros altos joga a favor de Serra

Na desaceleração global, que afeta o Brasil, os consumidores, endividados, são candidatos a serem sacrificados no altar dos juros compostos. Alberto Einstein, indagado sobre o que seria mais veloz no movimento da natureza, não teve dúvida. Os juros compostos, respondeu. José Serra entra na lógica política-crítica einsteiniana, aberta pela primeira grande crise monetária do século 21. 

Os eleitores estão de cabelo em pé diante do que pode vir por ai. O medo, claro, não é da redução do consumo ou do aumento do endividamento com o juro alto, mas do desemprego. Serra absorve essa expectativa pessimista do eleitor e trabalha ela políticamente em forma de crítica aos juros compostos no rítmo frenético comandado pelo Banco Central.

O titular dos Bandeirantes politiza, dessa forma, o debate sobre os juros, seguindo a lógica desatacada pela crise bancária neoliberal que colocou em xeque a estratégia econômica que impõe juro alto, contra o qual todos buscam fugir, menos o governo brasileiro, escravo dos juros altos.

Com o discurso de José Alencar a tiracolo, que fortalece, no plano do poder federal, o vice e cria rachaduras dentro do poder da aliança governista, Serra entra em campanha contra a política monetarista, sintonizando-se com tendência nova no cenário econômico global, que impõe maior presença do Estado para organizar a economia, cuja condução, pelo mercado, levou à bancarrota financeira, que ameaça a todos.

 

O jogo da ambiguidade entrou em crise

Lula, como FHC, fez o jogo dos bancos o tempo inteiro, enquanto promoveu política social para alavancar mercado interno. Este, agora, diante da crise bancária, somente, terá fôlego, se o custo do dinheiro cair.

Perdeu utilidade política a ação governamental de patrocinar dobradinha financeira-social na economia. De um lado, privilégio excessivo para os bancos; de outro, politica social para dinamizar o mercado interno, enquanto sobra, para o setor produtivo juros altos e carga tributária extorsiva.

O contrapé desse processo não teve a fiscalização necessária do governo expressa em ação capaz de evitar a especulação jurista desenfreada. Serra bombardeia essa estratégia.

Dilma teria que sair a campo para fazer o contraponto. Seria a favor dos juros altos, com Lula e Meirelles, ou dos juros baixos, com Alencar e Serra?

Nos próximos meses, com redução da demanda interna, ampliação das dificuldades dos devedores em quitarem suas dívidas mediante o juro escravocrata, bancando crediário, agora, detonado, o discurso de José Serra ganharia espaço? Se Kassab continuar bombando significa que seu discurso estará batendo bem na mente popular.

José Serra pega o presidente Lula no contrapé da crise. O apelo popular que o discurso serrista alcançaria pode representar uma onda favorável a sua candidatura e a necessidade de o governo em precipitar medidas econômicas nacionalistas na linha proposta por Serra. Ou seja, Serra seria o protagonista de nova política econômica nacionalista, a partir da pregação do juro baixo.

Subprime no Brasil é especulação no mercado futuro

O discurso de José Serra pode detonar os mecanismos da especulação desenfreada que caracteriza a espécime de subprime brasileiro cujos efeitos, agora, na crise, são falências e expressivos prejuízos para grandes empresas.

Os empresários corriam – e ainda correm – para especular com o dólar futuro. Estavam trocando dólar barato por juro alto. Com a corrida bancária, o dólar encareceu e as empresas dançaram feio.

A Sadia, a Perdigão, a Votorantim, Vale do Rio Doce, os que mandam no mercado especulativo, incluindo Petrobrás, peixes grandões, estão amargando prejuízos imensos. Só eles? Pode ser um carrilhão de gente. Os balanços dirão, ou serão manipulados?

A aparência de normalidade da economia, do seu vigor, tenderia a esconder o seu oposto, a anormalidade perigosa, em forma de fragilidades, dadas as jogadas especulativas que explodiram em prejuízos para os empresários e especuladores, nacionais e internacionais, que transformaram o mercado futuro em fonte de renda para o presente, especulativamente. O subprime brasileiro baixou seu santo no mercado futuro, todo bichado, nesse momento.

José Serra, depois de visitar o presidente Lula e a ministra Dilma Roussef, criou o novo fato político no cenário econõmico nacional.

O discurso de Serra coloca o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, na zona de tiro dos oposicionistas. O governador paulista já começou a puxar o gatilho.

Os empresários e os devedores das prestações no crediário serão os avalistas do discurso serrista. As expectativas do alto endividamento das empresas e dos consumidores diante dos juros altos criam ambiente de tensão contra a política monetária que se transforma em objeto de ataque do tucanato.

Meirelles na mira do PT

O PT vai segurar Meirelles? Ou vai pedir ao presidente Lula providências, diante do perigo de os juros altos levar à falência significativa parte do sistema econômico?

Os grandes especuladores estão tombando. Quem são eles? Parte importante representa o próprio segmento empresarial. As empresas, diante dos juros altos, aplicavam uma parte na produção, outra nos juros. Como estes são extorsivos, maior parte do lucro empreserial advinha das jogadas financeiras. Só que estas se transformaram em desastres iminentes na emergência da crise bancária global.

A direção da Sadia trouxe de volta, aceleradamente, Luís Fernando Furlan, ex-ministro da Indústria e do Comércio Exterior, durante primeiro mandato do presidente Lula. Ao assumir, disse que a empresa está saudável, economicamente, mas financeiramente, baleada.

Ou seja, vítima da bancarrota financeira global. Se não houver um socorro, pode ir para o sal. Qual seria o papel de Furlan como ex-ministro, convocado às pressas pelo grupo empresarial, cuja influência levou o próprio Furlan a ser ministro? Muito, provavelmente, o de salvar a empresa da bancarrota.

O presidente Lula deixaria a grande empresa ir para o abismo ou vai salvá-la, se necessário for, diante de pedido de socorro de Furlan, repetindo esforço que os governos nos países ricos realizam, para salvar o sistema bancário e empresas  e empregos, todos ameaçados pelo terremoto financeiro global?

O jogo dos bancos centrais, sob orientações dos governos do capitalismo cêntrico, de optar pela inflação como solução para a grande crise deixa o governo Lula numa saia justa.

A ação coordenada dos governos centrais do capitalismo  para reduzir os juros representa relaxamento na política fiscal, a fim aumentar os gastos governamentais na infra-estrutura e retomar o crédito direto ao consumidor, de modo a permitir reativação econômica nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia e, consequentemente, no resto do mundo.

Relaxar e gozar é a jogada dos governos .

Relaxar e gozar(com a inflação), máxima de Marta Suplicy, candidata do PT à prefeitura de São Paulo, pode estar ser o jogo determinante para evitar a recessão e a quebradeira.

Os governos centrais estão preocupados não apenas em restaurar confiança nos bancos, injetando recursos neles, mas, sobretudo, em criar espaço para ampliação do consumo, pois sem consumo não há produção, sem produção não há emprego, sem emprego, o sistema democrático desaba, para abrir espaço ao imponderável.

O governo eleva seus gastos e reduz, com o aumento da oferta de dinheiro, a taxa de juro, para dinamizar, à moda keynesiana, mesmo que o remédio de Keynes, ou seja, a estratégia econõmica de guerra americana, esteja batendo biela.

As empresas precisam, desesperadamente, não apenas de dinheiro mais barato para produzir, mas, igualmente, de consumidores, cujos financiamentos nos bancos foram suspensos. O governo estatiza os bancos para reduzir os juros, pois , na crise, os bancos, sob orientação privada, sobem, em vez de diminuir o custo do dinheiro.

A salvação do sistema depende da sobrevivência não apenas das empresas, mas dos consumidores. Por isso, os governos, coordenadamente, por meio dos bancos centrais cortaram os juros. Lula demorou, Serra emplacou.

Mais inflação à vista, que vai testar a capacidade de endividamento dos governos, abalados financeiramente. Até quando aguentarão bancar os créditos podres que a moeda estatal sem lastro produz, especulativamente?

Show de incompetência sul-americana

 

Os líderes sul-americanos estão perdendo tempo precioso.

Em vez de se unirem em torno da União das Nações Sul-Americanas, Unasul, para debater a grande crise monetária, urgentemente, perdem-se em suas idiossincrasis pessoais, dando espaço às intrigas internas, esquecendo o essencial.

As ações dos líderes europeus, americanos, japoneses e asiáticos demonstram que a política sobrepujou a economia. Não há mais política econômica, mas, sim, economia política. A realidade capitalista está sendo rasgada, com tintas de sangue espalhando-se por todo o lado, com o sistema pedindo socorro, depois dos desastres decorrentes das especulações exageradas.

A Europa, que, em torno da União Européia, com seu euro, relativamente, forte, se mostra apavorada, concluiu que, isoladamente, nenhum país conseguirá superar suas dificuldades. Coordenam os líderes europeus fundos de investimentos comuns, para atacar os problemas gigantescos que emergem incontrolavelmente. Os asiáticos, igualmente, buscam formar seus fundos financeiros, com o mesmo objetivo.

O banco central americano e o banco central europeu, depois de hesitações maiores, pois não sabiam o tamanho real do incêndio monetário, buscavam ações isoladas. Os europeus, num primeiro momento, pensaram poder, cada um por si, dar conta do recado. Debalde. O governo americano, idem. W. Bush, nas cordas, jogou a toalha. A crise é maior que os Estados Unidos. Estes não conseguirão sair do buraco sem a ajuda dos demais aliados.

Tremendo contraste com a posição americana arrogante até há pouco tempo, que pensava ser onipotente. A invasão do Iraque em 2002 foi feita por Tio Sam à revelia da ONU, que condenou a ação. Agora, quando a guerra interna, econômica, assola a economia americana, deixando as famílias desesperadas, o líder americano, fracassado, pede água.

 

O povo nas ruas, tensão ideológica à vista

 

O desespero deixou os asiaticos com os nervos à flor da pele, todos indo para as ruas, algo que apavora o sistema democrático, diante da turba revoltadaO grande perigo é o povão ir para a rua, pedir seu dinheiro de volta. Os asiáticos de Hong Kong já fazem isso com grande alarde. Dançaram os correntistas com sua grana depositada em bancos que estão indo para o espaço, incapazes de serem salvos por si mesmo.

A mobiliação popular, caso se globalize, na Europa, Estados Unidos, América do Sul, fará emergir processo político que tenderia a levar de roldão as social-democracias estabelecidas. Abriria espaço para outras alternativas, cujas consequências poderiam rebentar com a democracia.

Nesse ambiente, em que os líderes na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia se descabelam, correm para um lado e outro, onde ficam os líderes sul-americanos?

Eles, há pouco, criaram a União das Nações Sul-Americanas, a Unasul. O objetivo da instituição, como destacam, é o de unir o continente em torno de um parlamento, de uma moeda, de um banco central, de uma segurança, de um tribunal sul-americanos. 

A eficácia dessa proposta mostrou ser possível, recentemente, quando a presidente pro-tempore da Unasul, a líder do Chile, presidente Michele Bachelet, diante da crise boliviana, ameaçadora em rachar o país ideologicamente, convocou os líderes e amainou as tensões. Mostrou eficiência. Por que, até agora, ela e seus pares não se reuniram, em caráter emergencial, para discutir a grande crise monetária, que pode ser ameaça a todos eles.

 

Desentendimento Brasil e Equador divide America do Sul

 

Ao contrário, os presidentes sul-americanos, arrogantes, acham que podem tocar, cada qual seu país, sem ver o todo da crise. O presidente Lula, numa demonstração de falsa força, cuja materialidade tende a ser negada, demonstrando ser mera impulsividade, fala em sustentar o surto consumista, enquanto o momento sugere cautela. 

Na Argentina, da mesma forma, passadas duas semanas do tumulto monetário, somente, na terça, a presidente Cristina Kirchner resolveu criar um conselho de emergência. O país está caindo pelas tabelas, endividado e pressionado pela inflação. Não dá para sair do buraco sozinho. Na Venezuela, idem, o presidente Hugo Chavez, arroga-se, com sua presunção, em ação isolada.

No Equador, o presidente Rafael Correia, vitorioso em recente eleição, que elegeu nova constituição altamente democrática para o país, consolidando mentalidade socialista sobre o pensamento neoliberal falido pela grande crise, como Lula e Chavez, não falou em uma ação coordenada. Igualmente, o presidente Evo Morales, diante de um país dividido, à beira da revolução separatista, não apelou para a união continental.

Os três, Lula, Chavez, Correia e Morales, reuniram-se em Manaus, há poucos dias, e cada um saiu para o seu lado. Não tiraram uma nota conjunta, sequer convocaram a Unasul, para debater os problemas emergenciais, que superam as questões nacionais. Se os europeus, muito mais ricos que os sul-americanos, concluiram que, isoladamente, não são ninguém, sendo necessária ação conjunta indispensável e rápida, para salvar o continente do incêndio monetário, por que a América do Sul, empobrecida e sucateada pelo neoliberalismo, ao longo dos últimos vinte anos, não requereria ação política semelhante?

Encontro continental está previsto para dezembro! A OEA, que faliu, porque não cuidou da essência fundamental da união e integração latino-americana, tem programada reunião naquele mês, que está anos luz da crise atual, tamanha a velocidade dos acontecimentos. Tremenda incompetência sul-americana.

Está pintando, portanto, trementa incompetência política entre os líderes. Essa seria a hora de lançar o Banco do Sul, para formar um grande fundo sul-americano, ancorado em riquezas reais sul-americanas, que fortaleceriam a moeda sul-americana, capaz de credenciá-la na nova arquitetura monetária global, que nascerá do caos em que mergulhou o dólar.

Até quando ficarão parados, com a boca aberta, cheia de dentes, esperando a morte chegar, como destacou o poeta Raul Seixas?