Dilma pode descolar real do dólar

Por que o real tem que ficar coladinho ao dólar , se a moeda americana apodrece a moeda brasileira? Por que, ao contrário, o real não poderia cotar as matérias primas brasileiras que se valorizam em relação ao dólar, em vez de deixar a Bolsa de Chicago fazer esse papel, favorecendo a moeda de Tio Sam? O dólar, na grande crise financeira internacional que abateu o peso relativo das grandes potências, não é mais aquela força. A presidente Dilma, que toma posse, nesse sábado, pode fazer como Roosevelt fez: diante da libra esterlina inglesa que se enfraquecia, logo depois da primeira guerra, fortaleceu o dólar por intermédio da aposta decisiva na força do mercado interno dos Estados Unidos. Aprofundaria a lição de Lula, claro, intensificando a melhor distribuição da renda, como arma estratégica. O mundo passara,no século 20, a cotar suas mercadorias pela moeda americana e não mais , apenas, pela moeda inglesa. O poder relativo do dólar começou a cotar as novas relações de trocas, dividindo a tarefa com a libra, até ultrapassá-la. A bancarrota financeira mundial em marcha destrona o dólar, enquanto fortalece o real, porque o Brasil dispõe das matérias primas das quais os produtores de manufaturados, que perdem preços na concorrência, dependem. Por que não aproveitar a lição da história, dada pelo nacionalismo americano, apostando no nacionalismo brasileiro e sul-americano?

O poder crescente dos países produtores de matérias primas, cujos preços se sobrevalorizam no compasso da grande crise econômica e financeira internacional, que detonou o poder relativo das grandes potências, como os Estados Unidos, a Europa e o Japão, produtores de manufaturados, cujos preços, expostos à concorrência brutal, se sobredesvalorizam, tenderia ser expresso, naturalmente, pelo valor de troca de suas moedas em relação aos concorrentes internacionais, pela lógica do poder econômico sob capitalismo.

Nesse sentido, o real brasileiro está se valorizando porque o Brasil detém a verdadeira moeda que se valoriza, ou seja, as matérias primas disponíveis – petróleo, alimentos, minerais, biodiversidade infinita, terra, sol, água, capazes de garantir até duas safras anuais, tudo em abundância, mais base industrial tocada por empresários e trabalhadores diligentes etc – frente às moedas dos países ricos, que se sobredesvalorizam, justamente, porque suas mercadorias, as manufaturas, caminham, no compasso da ciência e da tecnologia colocadas a serviço da produção e da produtividade exponencial, para quedas sucessivas de preços. O real, portanto, poderá, sob o comando da presidente Dilma Rousseff, falar mais grosso, em comparação ao dólar, nas novas correlações de forças econômicas e políticas internacionais, estabelecidas pela crise mundial.

Todos os países capitalistas desenvolvidos têm mercadorias manufaturadas para vencer, jogando, consequentemente, seus preços para baixo, mas somente poucos dispõem das matérias primas, ESCASSAS,  para fabricá-las, como é o caso brasileiro, cujas consequências são o oposto, ou seja, alta das cotações. Sendo a economia capitalista expressão da ciência da escassês, como produto necessário para elevar os preços em face de uma oferta menor relativamente à demanda, o jogo é isso aí. Se é essa a lógica que vai se firmando, por que a moeda que se sobredesvaloriza , como é o caso do dólar, por não dispor de lastro real, põe preço na moeda que se sobrevaloriza, justamente, por dispor de lastro verdadeiro, do qual todos dependem e para o qual todos se destinam em busca de novas e altas rentabilidades?

O jogo bruto da lógica capitalista em que a moeda forte , as mercadorias valorizadas, põe preço na moeda fraca, o dólar, que encharca a base monetária global, caindo de preço, sinaliza que , ao longo dos próximos anos, o real brasileiro, ancorado nas riquezas nacionais, tenderia a botar preço no dólar e não o contrário, como aconteceu até agora. Trata-se de afirmação do poder econômico nacional, potencializado pela bancarrota financeira internacional, que abateu a moeda americana em pleno vôo, a partir de setembro de 2009. Os cabelos bastos de Sansão foram, na crise, tosados por Dalila. Não tem mais aquela força milagrosa.

Nova correlação de forças


Grande produtor de commodities(alimentos, minérios, petróleo etc), ancoradas em base industrial, que alavanca moderno agronegócio que pode produzir 300 milhões de toneladas de grãos, nos próximos cinco anos, riqueza que dá lastro real à moeda nacional, garantindo-a frente às demais economias, o Brasil caminha para se libertar do domínio do dólar, que perde poder relativo em meio à bancarrota financeira dos Estados Unidos e Europa, produtores de manufaturados, carentes de matérias primas, submetidos ao perigo de permanente deflação. A nova correlação de forças favorece a América do Sul, em que o Brasil desponta para garantir a integração latino-americana, ao longo do século 21, como potencia internacional.

Por que, então, o real teria que ficar amarrado ao dólar, se as vantagens que a moeda americana antes proporcionava, por meio da sustentação de cãmbio valorizado, para realizar as exportações brasileiras e mundiais, como aconteceu depois da segunda guerra mundial, não podem mais existir, no contexto em que os Estados Unidos, excessivamente, endividados, sobredesvalorizam o dólar, enquanto pratica juro negativo, para cancelarem dívida, tentando exportar prejuízos para os outros?

O não cumprimento da meta fiscal pelo governo brasileiro em 2010, nesse sentido, já obedece a lógica imposta pela sobrevalorização do real frente à moeda de Tio Sam. Por que o Brasil teria que elevar sua dívida interna, que impõe juros mais altos e necessidade de superavits primários(receitas menos despesas, excluindo pagamento de juros), igualmente, crescentes, traduzidos em sacrifícios internos em forma de corte de gastos públicos, responsáveis por restringir as atividades internas, em vez de botar preços nas suas mercadorias em reais e não em dólar, na medida em que sua mercadoria valorizada, as matérias primas, sobrevaloriza a  moeda nacional, atraindo moeda desvalorizada, interessada nos ativos brasileiros?

Chegou a hora de o real descolar-se das determinações de Chicago, que, com o dólar abalado, tenta manter as correlações de forças nas relações de trocas, sem dispor mais dessa força em forma de moeda forte. Ou não? Certo, portanto, está o empresário Eike Batista, que, consciente da nova correlação de forças, imposta pela crise, fragilizando o dólar e elevando o preço relativo da moeda brasileira, aumentou os preços em real de suas mercadorias, os minerais. Deixou os consumidores delas chiarem. Como viram que essa é a nova lógica, voltaram para pagar o preço colocado pela nova realidade.

Dilma, no comando do nacionalismo econômico brasileiro e sul-americano, estará com a faca e o queijo nas mãos. Se a China eleva os juros, para conter o mercado interno, a fim de combater a inflação, impulsionada pelo aumento dos preços das matérias primas, que o Brasil detém, pode , muito bem, dobrar as apostas no lulismo-dilmismo econômico, impulsionando o mercado interno, distribuindo melhor a renda. Elevaria a oferta, investindo na infraestrutura, que reduz os preços, enquanto alavanca o poder relativo do real, que passará a cotar as mercadorias nacionais, descoladas de Chicago. Trata-se de seguir a nova realidade mundial em marcha, que dá maior peso relativo aos países detentores das mercadorias das quais todos os demais dependem.

Novo rumo da história

Hobson(1858-1940), autor de "Imperialismo" e "A evolução do capitalismo moderno", que fez a cabeça tanto a esquerda(Lenin), como a direita(Keynes), demonstra, numa panorâmica espetacular, a sequência dialética de dominação capitalista, no século 19, até a derrocada, no crash, no século 20, comprovando a evolução do domínio da moeda forte sobre a moeda fraca, impondo a primeira sobre a segunda senhoriagem nas relações de troca, ao longo do processo concreto , real, em movimento do capital. A moeda, para ele, não seria nada mais do que a expressão da riqueza do país, expressa na produção de suas mercadorias, das quais todos dependem. Os manufaturados impuseram seus preços sobre as matérias primas. Mas, na revolução da ciência e da tecnologia, as manufaturas, que abundam e caem de preço, perdem valor relativo para as matérias primas , que, escassas, têm suas cotações elevadas, impondo a reversão do processo de deterioração nos termos de troca. As matérias primas que o Brasil dispõe somadas ao seu parque industrial, que tende a ser competitivo, criam as duas condições essenciais que podem fazer do REAL a nova moeda forte no cenário global, algo, aliás, já cantado pelos investidores nas praças internacionais.

A moeda não é, meramente, medida de valor, instrumento neutro de trocas comerciais, assim como a inflação, igualmente, não é, apenas, um fenômeno monetário, como gostam de destacar os neoliberais, nas suas teorizações esquizofrênicas. É muito mais que isso, como já destacava  Colbert, ministro do Luiz XVI, que detonou guerras monetárias contras diversos países europeus, ganhando-as e elevando o poder relativo da França no cenário internacional. Trata-se poder.

O dólar, na década de 1920, começou a ultrapassar a libra esterlina inglesa, justamente, porque o poder imperial da Inglaterra, especialmente, depois da primeira guerra mundial, começou a bater biela. O que está por trás da moeda é a força nacional. Quando Roosevelt, depois da crise de 1929, partiu para elevar o deficit americano, de modo a tirar a economia do atoleiro do crash, que havia paralisado as atividades produtivas, lançou mão da força do dólar, que avançava no rastro da fragilidade da libra esterlina. O poder monetário inglês, ao final, mostrava-se impotente para sustentar o padrão de dominação internacional, vigente no século 19, quando dinamizava a economia global por meio da produção de ferrovias, financiadas pelos bancos ingleses junto aos países devedores em geral.

A Inglaterra, como destaca John A. Hobson, em “A evolução do capitalismo moderno”, chegou a produzir trilhos de ferros que seriam suficientes para dar volta ao mundo quatro vezes, financiada pela libra, especulativamente. A especulação decorrente da produção das ferrovias, no compasso da moeda da raínha, era a mesma que contaminou os derivativos tóxicos que alcançariam o dólar, na grande crise de setembro de 2009. A Casa Baring, na Argentina, em 1894, quebrou e arrastou o mundo. Quatro anos depois, em 1898, no Brasil, sob governo Campos Sales, repetiu a mesma coisa. Na Índia, Austrália, África do Sul, Ásia, América do Sul, idem. Os banqueiros ingleses, emissores de moeda, que financiavam os governos na compra das ferrovias – já que ainda não existiam os carros individuais para serem financiados no crédito direto ao consumidor, que fariam a potência americana no século 20 – entraram em estresse financeiro.

A libra, como a moeda de Tio Sam, agora, balançou. Abria-se espaço para a economia americana, com o dólar, que impulsionando o crescimento interno dos Estados Unidos, em meio a um mundo que havia se estressado econômica e financeiramente na primeira guerra mundial, ultrapassou a libra esterlina, impondo nova correlação de forças monetária na cena global. A primeira vítima do dólar em ascensão foi, naturalmente, o padrão ouro. A economia clássica equilibrista governada pelas emissões monetárias ancoradas nas reservas do bimetalismo econômico- ouro e prata – que ganhou dimensão extraordinária na segunda metade do século 19, ficaria com sua bitola estreita em meio às crises deflacionárias recorrentes do capitalismo europeu, intensificadas depois do primeiro grande conflito bélico , no início do século 20.

Com o dólar emitido pelo governo americano para dinamizar, nos anos de 1920, a produção de bens duráveis, que transformaria os Estados Unidos, graças ao avanço do crediário tentação, na nova potência econômica mundial, no século passado, a especulação com os preços ganharia dimensão fantástica , até implodir tudo na grande crise, quando os preços despencaram. A produção de 5,6 milhões de automóveis caiu para 900 mil entre 1929 e 1933. Somente 14 anos depois, em 1943, o nível de produção voltaria a ser o de 1929, mas aí a produção de duráveis não era mais a dinamizadora da reprodução capitalista. A economia de guerra entrara em cena, impulsionada pelos deficits, que a força do dólar, então, poderia sustentar, o que não é mais o caso, em 2010.

A saída fora o dólar pular fora do padrão ouro, com o governo intensificando a emissão para permtir aumento dos gastos do governo sem limites orçamentários, partindo para produção bélica e espacial, que se transformaria na nova dinâmica da acumulação capitalista. Em 1944, o deficit alcançou 144% do PIB. A moeda papel tinha por trás de si a potência militar em ascensão e não mais o padrão ouro que, como Keynes destacou, transformar-se-ia em “relíquia bárbara”.

Dialética monetária global


A superespeculação financeira que precedeu ao grande crash de setembro de 2009 foi uma novela com fim prenunciado: os americanos inundaram a Europa de derivativos tóxicos, os bancos europeus repassaram para os governos que os converteu em euros baratos para alavancar a renovação econômica dos países mais fracos(Espanha, Portugal, Irlanda, Grécia, Itália etc). Expandiu-se o consumismo, o excesso de dívidas, até que tudo implodiu, levando as duas moedas poderosas, americana e européia, para o buraco da deflação, sob governos endividados . Estes não podem mais manejar a base monetária, já que a função da taxa de juro, nesse contexto, deixou de funcionar, porque se tornar positiva, quebra os dois continentes, amarrados no destino deflacionário. Abriu-se, na sequência, espaço aos emergentes, numa nova divisão internacional do trabalho, configurando poder para uma cesta de moeda no ambiente monetário global em mudança dialética.

O poder do dólar continuaria forte até 1974, quando os deficits americanos sinalizaram perigo para a moeda de Tio Sam. O padrão ouro virara cortina de fumaça. Richard Nixon, presidente americano, diante da tentativa de Willy Brand, primeiro ministro da Alemanha, de resgatar 10 bilhões de dólares em barras de ouro, no Fort Knox, nos Estados Unidos, receosa dos deficits detonados pela Guerra Fria e pela Guerra do Vietnan, descolou o dólar do ouro, como poderá Dilma descolar o real do dólar. Deixou a moeda de Tio Sam flutuar. O descolamento do dólar do ouro produziu a flutuação monetária. A moeda americana desvalorizou-se e quem devia em dólar, como era o caso dos próprios Estados Unidos, se deram bem.

De 1974 em diante, com a elevação contínua dos deficits americanos, a instabilidade monetária continuou e o padrão de reprodução ampliada do capital passou a ser dado pela especulação financeira, marcando as crises que se acumulariam até 2009, quando tudo foi para os ares. O dólar, agora, não é mais aquela brastemp. Deixa, crescentemente, de ser a segurança da referência para a equivalência geral das trocas internacionais em face da perda de credibilidade no mercado financeiro. No compasso da sua sobredesvalorização, para cancelar parte da dívida americana, impulsionada por juro negativo, os reflexos decorrentes da estratégia monetária americana disseminam não mais a segurança mas, sim, a insegurança, expressa em tensões inflacionárias.

Nesse contexto, a moeda americana vai deixando de ser ativo seguro ao qual se lançam os especuladores. Pelo contrário, estes fogem dele, porque , expressando-se em seu contrário, ou seja, em ativo inseguro, sem lastro forte, buscam outra referência. As relações de trocas internacionais, consequentemente, mudam qualitativamente. Se antes, a moeda de Tio Sam impunha deterioração nos termos de troca relativamente às mercadorias importadas, especialmente, as matérias primas, agora, na crise, rola o oposto.

Os investidores buscam outras alternativas. Que alternativas são estas? Basta ver o comportamento dos chineses com o excesso de dólares que acumularam. Adquirem ativos fortes. Compraram participação nas empresas estatais de petróleo no Equador, deslocando a Petrobrás. Agora, compraram, também, com os dólares de suas reservas, 40% da Repsol, e por aí vão. Por que o Brasil não pode fazer o mesmo com as suas reservas que rendem nada e pagam juros mais altos do mundo, impondo prejuízos ao tesouro nacional, que, em troca, precisa fazer superavit elevado, para saciar a fome da bancocracia escravocrata? Não seria o caso de fazer o inverso: desfazer das reservas e diminuir, ou zerar, o superavit?

A atração irresistível que as matérias primas exercem sobre os chineses e, igualmente, os especuladores americanos, europeus e japoneses, dizem tudo: são elas que impõem em vez de sofrer, como antes, a deterioração nos termos de troca. Mudaram as correlações de forças nas trocas comerciais. Se mudaram, por que os detentores de matérias primas, que valorizam as moedas dos países onde são produzidas, teriam que cotá-las pelo preço da moeda que se sobredesvaloriza, como é o caso do dólar, e não no preço da que se sobrevaloriza, como é o caso do real brasileiro? Acorda, Brasil!

Lula inspira Obama para reeleição

Obama, sob pressão interna, porque bobeou no inicio da crise, salvando primeiro os bancos e deixando o povo de lado, ficando sem consumo, sem arrecadação, sem investimento, busca compensar dinamizando política social distributiva, na linha lulista. Seria a forma de tentar ganhar mais um mandato presidencial, revertendo os acontecimentos negativos, expressos na perda de maioria no Congresso. Jogando no social, repete os republicanos, mas aprofunda o conceito de desoneração, conferindo-se perfil redistributivista, para ganhar espaço na classe média, falida, com os cartões de crédito estourados. Botando poder de compra nesses cartões, como Lula botou poder de compra nos cartões de compra do programa Bolsa Família, Obama faz o jogo do lulismo econômico para tentar reeleger-se. O titular da Casa Branca segue os passos do CARA.

A Era Lula, que desmoraliza a teoria neoliberal de que o governo deve poupar para liberar o setor privado para investir, de forma sustentável, comprovando que o certo é o oposto, ou seja, que o governo tem que despoupar, praticando política social, para elevar a poupança do setor privado, do emprego, do consumo, da arrecadação e do investimento, passou a influenciar decisões políticas de líderes mundiais.

O presidente americano, Barack Obama, e o primeiro ministro chinês, Hu Jintao, passaram a caminhar na linha do lulismo econômico, ou seja, prestigiando o poder de compra do pobre para fazer o nobre, já que é impossível ao nobre fazer o pobre. Afinal, não é essa a sua natureza, contrária à visão que Lula, filho da pobreza, desenvolveu em oito anos de poder.

Obama acaba de fazer uma minirreforma capitalista que privilegia o consumo interno por meio de subsídios estatais em forma de renúncia de receitas, para fortalecer o poder de compra da classe média, que determina o padrão de sustentabilidade econômica e política no país.

O presidente democrata adota uma linha de ação aparentemente semelhante às adotadas, historicamente, pelos governantes do partido republicano: promove desoneração tributária de ampla massa da população.

Os republicanos, ao contrário, desoneravam as classes ricas e argumentavam que essa estratégia produzia uma benemerência econômica e social lógica em cascata, beneficiando, proporcionalmente, todas as classes sociais, essencialmente, antagônicas entre si.

O primeiro presidente negro americano democrata amplia o conceito republicano democratizando-o, em busca do objetivo maior de aumentar o poder de compra interno, a fim de garantir maior arrecadação tributária, para assegurar os investimentos. Confirma a máxima de que o nacionalismo econômico americano obedece às necessidades do setor produtivo americano.

Obama, guiado politicamente pela visão redistributiva, para garantir consumo, ao mesmo tempo, desvaloriza o dólar e joga o produto americano mais competitivo na cena internacional, disputando o mercado mundial com a China cuja moeda, yuan, está amarrada ao dólar.

De olho na reeleição presidencial, o titular da Casa Branca, na crise, copia o jogo que Lula praticou. Trata-se de apostar no mercado interno, subsidiando o consumidor da classe média, da mesma forma que Lula subsidiou as classes C, D e E, para puxar a demanda global na economia brasileira depois do estouro financeiro mundial, em setembro de 2008.

A novidade política obamista, para o contexto americano, é ser percebida como avanço do partido democrata mais à esquerda.

A direita, que está apavorada, porque o Estado falido não pode, com o dólar sobredesvalorizado, sustentar o estado industrial militar, tenta, contraditoriamente, opor-se à prática republicana copiada por Obama, alargando seu escopo. Mas, tem dificuldade para contestar seu próprio princípio. Entraria em confronto com os eleitores.

Obama joga nesse vácuo. Tenta, no plano interno, aprofundar a distribuição da renda por meio de politica social feita com dinheiro do tesouro nacional, e, no plano externo, valorizando as moedas dos outros por meio da sobredesvalorizado do dólar para deslocar os concorrentes.

O fato, no entanto, é que no plano interno, onde busca a garantia do apoio popular, para reeleger-se, qualquer semelhança da atuação de Obama com a estratégia do lulismo econômico não seria mera coincidência.

Chineses embarcam no lulismo

Preocupados com as pressões inflacionárias detonadas pelo dólar sobredesvalorizado impulsionado pelo juro negativo que corroi a montanha de moeda americana disponível no cofre, os chineses buscam o mercado interno por meio de programas sociais economicamente redistributivista, na linha do lulismo econômico. Alavacam consumo e a arrecadação tributária para dinamizar a economia sob capitalismo dirigido, já que o de livre mercado faliu.

O jogo de Obama de copiar economicamente Lula, apostando no social, a fim de tentar se reeleger, espraia-se, também, na China. Os chineses, no compasso da guerra cambial em curso, começam a ficar inseguros quanto ao destino do dólar.  Afinal, são os maiores detentores de moeda e títulos americanos. Não teriam nenhum interesse na derrocada da moeda americana. Seria, igualmente, a derrocada chinesa.

Nesse contexto de fragilidade do poder monetário predominante, ancorado no dólar, que encharca a base monetária mundial, provocando inflação, o que resta aos chineses, como alternativa, é fortalecer o mercado interno, elevando o poder de compra da população mais pobre, transformando-a em consumidora. Geraria a arrecadação governamental, indispensável aos novos investimentos, ou seja, o princípio econômico lulista praticado nos últimos dois anos com sucesso político, econômico e eleitoral. O presidente sai com 83% de popularidade!

O governo da China, mirando Lula, “O cara”, segundo Obama, intensifica políticas sociais distributivas. Há um incentivo interno para os agricultores venderem suas terras e irem morar nas cidades para serem transformados em consumidores mediante subsídios governamentais. A produtividade da terra passaria a ser dada pelos macros-investimentos agroindustriais, capazes de potencializar a oferta exponencialmente, competitivamente. Nesse sentido, a China está sugerindo à esquerda que o jogo da reforma agrária é aposentar os trabalhadores agrícolas, levando-os para a cidade como consumidores, livrando-os do desemprego tecnológico crônico.

A visão social com viés na ampliação do consumo como bombeador de renda tributável pelo Estado, para continuar na linha do dirigismo econômico chinês, representa lógica geopolítica estatal que marca o perfil do lulismo econômico, desenvolvido depois da crise mundial de setembro de 2009.

A lógica lulista, de que dar consumo é ganhar arrecadação, para fazer os investimentos, contamina a cúpula do poder chinês, preocupada com as pressões inflacionárias que a desvalorização do dólar provoca.

Evidentemente, a visão de que dar ao pobre é garantir a vida do nobre não poderia sair da nobreza. Precisou que o pernambucano de Garanhuns, filho de Dona Lindu, que comeu o pão que o diabo amassou, trouxesse a solidariedade do pobre para o contexto das relações políticas, na gestão do poder nacional.

Tal estratégia promoveu mudança qualitativa no capitalismo brasileiro cuja lei maior era a da predominância do conceito de que o governo tem que poupar para que o setor privado faça o desenvolvimento. Essa lei artificial dada pelo costume imposto pela força do capital entrou em crise.

Na crise, o lulismo econômico demonstrou que para ganhar o jogo não se pode fazer como o Dunga fez na Copa do Mundo, na África, jogar na retranca. O real brasileiro, por conta da decisão do lulismo econômico de jogar no ataque, vai se transformando em alvo dos especuladores com moedas em Nova York.

Guerra cambial exige expurgo inflacionário para derrubar juro e evitar sobrevalorização do real

A senadora Kátia Abreu(DEM-TO), que os empresários agrícolas goianos defenderam, nessa segunda feia, como nome para o ministério Dilma, numa parceria com o DEM, que está, politicamente, destroçado, pregou maior participação dos empresários na formulação da política econômica, no âmbito do Conselho Monetário Nacional, a fim de que a macroeconomia brasileira esteja sintonzada com a onda internacional do juro cadente, de modo a permtir ampliação da produção agrícola brasileira, para ela ganhar a ponta da competitividade global. Seria, na sua opinião, a forma de reduzir as pressões inflacionárias advindas dos aumentos especulativos dos preços dos alimentos na esfera global.

As variáveis sazonais e circunstanciais que estão comandando as pressões inflacionárias, com a elevação dos preços dos alimentos, das commodities e dos combustíveis, demonstram ser fatores decorrentes de circunstâncias externas produzidas, em grande parte, pela guerra cambial em que se transformou a política monetária americana, extremamente frouxa, conduzida pelo Banco Central dos Estados Unidos, para inundar o mercado de dinheiro, baixando a taxa de juro e, consequentemente, cancelando parte crescente da dívida pública americana, responsável por bloquear a reprodução ampliada capitalista global, depois do estouro financeiro em outubro de 2009.

Para piorar, o Banco Central Europeu resolveu, desde a semana passada, em face da pré-falência financeira de Portugal, Espanha. Grécia, Irlanda, Itália etc,  adotar política idêntica, de modo a desvalorizar, também, o euro, jogando os juros no chão. Diminui, da mesma forma, drasticamente, a dívida pública dos países europeus, como alternativa capaz de promover a retomada da economia no velho continente, enquanto adota laxismo fiscal, já que se encontra ameaçado de ver rompida a união monetária européia.

Ora, se essas circunstâncias externas estão elevando os preços das commodities, dos alimentos e dos combustíveis, como reação geral dos mercados  à desvalorização crescente das moedas americana e européia, as que ainda mandam no mundo, para evitar deterioração nas relações de troca internacionais, por que a economia brasileira teria que absorver, necessariamente, esses prejuízos, em vez de livrar-se deles, expurgando seu peso no cálculo da inflação? Não evitaria, desse modo, consequências destrutivas que se expressam em novas altas das taxas de juros, defendidas pelo mercado financeiro?

Os efeitos negativos das pressões inflacionárias decorrentes das altas das commodities, dos alimentos e dos combustíveis, se expurgados, tenderiam a evitar aumento dos juros internos, pressões sobre o endividamento governamental, diminuindo a relação dívida-PIB, que, por sua vez, aliviaria tensões por mais juros, que se traduzem, evidentemente, em mais pressões inflacionárias, eternizando ciclo vicioso, capaz de impedir a continuidade do desenvolvimento por meio da melhor distribuição da renda, que tem sustentado dinamismo do mercado interno, elevação da arrecadação e dos investimentos no Programa de Aceleração do Crescimento(PAC). Sobretudo, tal movimento expurgatório dos fatores externos sobre a inflação interna, refletindo-se na queda dos juros, contribuiria, para diminuir a sobrevalorização cambial, já que mantidos os juros altos, maior volume de dólares sobredesvalorizados pela política monetária americana entraria nas fronteiras nacionais, atazanando a vida dos exportadores e condenando a economia à desindustrialização. Ou não?

Correção de rumo

José Mario Schreiner, reeleito presidente da Federação da Agricultura do Estado de Goiás, sendo homenageado pelo senador Marconi Perilo(PSDB-go), eleito governador goiano, destacou que os empresáros agrícolas brasileiros não podem pagar o pato pela guerra cambial detonada pelos Estados Unidos e seguida pela União Européia, elevando as tensões inflacionárias, que penalizam os preços dos insumos para a produção, ao mesmo tempo em que prejudicam a competitividade do produto nacional em função da sobrevalorização do real. Os empresários, disse, pregando apoio a Kátia para o Ministério Dilma, são, com os trabalhadores, os consttutores do Brasil e chegou a hora deles serem ouvidos dentro do Conselho Monetário Nacional, para ajudarem a formular o pensamento econômico nacionalista.

A decisão do Banco Central, na última reunião do Copom, de manter a atual taxa básica, pegou de surpresa o mercado financeiro, defensor da velha ortodoxia jurista altista, porque vai se verificando que o governo Lula-Dilma mudou de tática para conter a inflação, na medida em que vai ficando claro que não são as pressões internas de demanda as responsáveis pelas altas dos preços, mas, sim, as externas.

Se o governo, sob pressão da política monetária americana, agora, seguida pela idêntica política adotada pelos europeus, subiu o imposto sobre operações financeiras(IOF), como arma para conter a entrada exagerada de dólares sobredesvalorizados, a fim de evitar a sobrevalorização do real, responsável pelo fenômento crescente da desindustrialização, por que não poderia adotar medida equivalente relacionada à contenção dos efeitos inflacionários produzidos pela mesma política de sobredesvalorização monetária americana?

O povo brasileiro, que elegeu governo nacionalista, teria que suportar calado essa imposição imperialista ou o nacionalismo eleito teria que reagir em conseqüência à posição política adotada pelo povo?

Afinal, se a entrada excessiva de dólares sobrevaloriza a moeda nacional, do mesmo modo ela não pressionaria a inflação, já que provoca nos países produtores de commodities, de alimentos e de combustíveis energéticos reação altista dos seus preços como fator compensatório pela queda decorrente da sobredesvalorização das moedas americana e européia?

Tese, antítese e síntese

Mantega, Belchior e Tombini, o novo trio atacante da política econômico-monetária do governo Dilma trabalhará em torno do Conselho Monetário Nacional, como instância máxima de decisão da macroeconomia, para buscar a taxa de juro ideal ao desenvolvimento nacional que só poderá ser equivalente, nesse sentido, à taxa de juro internacional, cadente, para conter as dívidas dos governos. Caso contrário, explodirão, especulativamente, no rítmo da grande crise global. Do ponto de vista nacionalista, não tem porque as autoridades econômico financeiras absorverem, sem resistências, os prejuízos que as políticas monetárias e fiscais americana e européia estão provocando nos países emergentes, como o Brasil. Antes que isso ocorra, como são os casos das pressões inflacionárias, detonadas pela sobredesvalorização do dólar e do euro, faz-se necessário buscar a soberania econômica nacionalista para impedir que a sociedade brasileira pague pelos erros das políticas imperialistas, predispostas a manterem, no mundo, o colonialismo dos ricos, transferindo a inflação deles para a periferia emergente.

Tem-se , dessa forma, o jogo da tese, da antítese e da sintese dialética do comportamento dos preços. A tese seria a sobredesvalorização acentuada das moedas dos países ricos. Ela provoca a antítese expressa na alta dos preços das commodities, dos alimentos e dos combustíveis. Impulsiona, certamente, a síntese, que seria, no caso brasileiro, se prevalecer as pressões do mercado financeiro, a alta da taxa de juro. Ou, então, uma neo-síntese nacionalista. Nasceria, por meio de ação política governamental soberana, resistência nacionalista aos efeitos deletérios provocados por tais pressões inflacionárias em forma de expurgos delas do cálculo inflacionário.

Configurar-se-ia novo contexto para combater a inflação a fim de evitar a alta da taxa de juro?

A variável taxa de juro, portanto, passa a merecer, diante das políticas monetárias americana e européia, outro tratamento, porque, caso seja elevado o custo do dinheiro, para combater os efeitos inflacionários decorrentes da alta dos preços das commodities, dos combustíveis e dos alimentos, o resultado, inexoravelmente, será maior sobrevalorização do real, maior aumento da dívida pública interna, maior instabilidade macroeconômica etc.

Adicionalmente, haveria o risco de ampliação da inadimplência geral no crédito direto ao consumidor, que já sofre as conseequências altamente negativas dos custos extorsivos dos empréstimos, sacrificando as classes sociais mais pobres.

Lógica economicida

Com os juros altos bombados pela sobredesvalorização do dólar, responsável por elevar a dívida do governo e, consequentemente, a instabilidade macroeconômica, os produtores semeam e irrigam a tempestade que provocarão sua própria ruína, ressaltaram os empresários goianos, ao empossarem suas novas líderanças agrícolas. Prometeram lutar para fazer suas vozes serem ouvidas, junto com as dos empresários industriais, dentro do Conselho Monetário Nacional. Aqui, disse José Mário, deve ser taçado os novos rumos para a produção e a formação da riqueza com melhor distribuição da renda. Seria a forma para acumulação da poupança interna por meio do estímulo simultâneo ao mercado interno e internacional.

Subir os juros, para atender a lógica do pensamento bancocrático neoliberal, de combater a alta dos preços por meio do jurismo extorsivo militante, representaria puro economicídio em face das novas circunstâncias produzidas pela política monetária imperialista adotada tanto pelos europeus e americanos, jogando as economias emergentes num beco sem saída.

A presidente Dilma, que tenta dar independencia para o Banco Central atuar frente aos bancos privados, que sempre pregam autonomia para fazer valer os seus interesses de modo inverso, ou seja, um BC independente do governo, não teria condições de levar adiante a sua promessa de campanha eleitoral, a ser, certamente, firmada no seu discurso de posse, de eliminar, efetivamente, a miséria no Brasil.

Ao contrário, se a lógica bancocrática prevalecer o que ocorrerá será a eternização dessa mesma miséria, num ambiente em que o jogo imperialista das grandes potências, que se empobrecem, relativamente, em relação aos emergentes, por estarem afetadas, duramente, pela crise financeira global, que elas mesmas detonaram, estaria impondo aprofundamento crescente do impasse econômico internacional e a eterna colonização financeira do capitalismo periférico.

Dólar turismo para segurar classe média

Charme novayorquino exerce atração irresistível sobre a classe média tupiniquim que embalada pelo dólar barato se desloca para lá a fim de torrar suas economias, enquanto as indústrias e lojas brasileiras correm risco de sucumbirem diante da sobrevalorização cambial detonada pela moeda americana impulsionada por política monetária direcionada por juro negativo como nova forma imperialista para continuar dando as cartas no mundo globalizado. Influenciada por uma mídia rendida ao pensamento do centro para a periferia, que não percebe que os emergentes se destacam e podem virar o jogo das relações de troca com suas riquezas potenciais, acompanhadas de consciência política, a classe média embala seus sonhos consumistas na terra dos outros, sem preocupar-se com seu próprio quintal. Alienação total.

Classe média metida. É brincadeira! As mulheres neo-ricas, grávidas, fazem as malas e se deslocam para Miami, a fim de comprar enxoval do bebê. Pode? Claro que pode, cada um faz o que quer com o seu dinheiro, no mundo em que o espírito de propriedade privada é o Deus de cada um, ancorado nas suas estruturas do direito positivo. Mas, não seria o caso de o Governo Lula, que luta contra a enxurrada de dólares que entram na economia, sobrevalorizando o real, com o juro meirelliano, taxar não apenas a entrada, como já sugere o FMI, mas, igualmente, a saída dele, trocado pelas verdinhas encardidas? Trata-se de algo urgente, enquanto falta coragem nacionalista capaz de intensificar o movimento pela desvinculação do real do dólar. O jogo verdadeiro seria a criação do Banco Sul-Americano. Abriria espaço à moeda continental. Conferiria grandeza ao real valor da América do Sul, para a qual fogem as moedas sobredesvalorizadas, como a americana, impulsionada pelo juro negativo como nova arma imperialista. Quem sabe, como disse o poeta, faz a hora, não espera acontecer. Estão com medo de Tio Sam, falido e esfarrapado? Onde está a Unasul? Por que não um dólar, para quem for viajar aos Estados Unidos, a R$ 3,00, e para a Europa a R$ 4,5 o euro? Lá se vão os reais brasileiros emigrados para os comerciantes americanos e europeus, que estão matando cachorro a beliscão, depois da bancarrota financeira, em setembro de 2008. Ela interrompeu o circuito do crédito direto ao consumidor, nos Estados Unidos, abrindo era de opção pela poupança, que representa, ao mesmo tempo, bloqueio das atividades produtivas na economia mais rica do mundo. Agora é que os economistas neoliberais esquizofrênicos estão sentindo o sabor amargo de suas pregações fictícias de que faz-se necessário aumentar a poupança interna capaz de alavancar o desenvolvimento sustentável. Piada. Poupança, na crise, é mais crise, queda de arrecadação, oxigênio dos governos e ponto final nos investimentos públicos, que puxam a demanda global no capitalismo.

Fantasias imperialistas

Os super-herois da terra de Tio Sam exercem fascínio irrestível nas mentes colonizadas, graças a uma massiva divulgaçação por meio de uma mídia que cuida de valorizar essencialmente as determinações de roliúde para eternizar estilo de vida que busca homogeneização comportamental para universalizar consumismo cientificamente articulado nas estratégias de mrketing como forma de materializar escalada lucrativa consumista, cujas consequências, no entanto, levaram à bancarrota financeira. Há que se ter uma visão crítica, mas a colonização mental, ainda, fala mais alto, para atrair os trouxas a irem gastar suas economias onde se fabrica o charme de laboratório.

O freio ao consumo por parte das famílias americanas, superendividadas, que necessitam renegociar seus cartões de crédito, é o inferno do capital. Antes, o negócio era girar os cartões, renegociando as dívidas indefinidamente. Porém, veio a tormenta monetária. A vaca atolou no brejo. O que fazem elas agora? Guardam o dinheiro para as horas mais difíceis, visto que os banqueiros, em face da bancarrota, cortaram o crédito e passaram a viver, tão somente, da benesse estatal. Sobram dólares nos cofres dos bancos, mas eles, ao contrário do que faziam outrora, tão mãos abertas, fecharam o caixa. O medo da inadimplênca tornou-se absoluto. As mercadorias estocadas caem de preço, na era da poupança. Poupar é destruir. Avança a deflação, numa economia em que a inflação, disfarçada de dívida pública interna, ancorada em outrora poderoso mercado consumidor, representa o moto contínuo do desenvolvimentismo consumista. Criou-se o ambiente para os preços desabarem, ao mesmo tempo em que grande oferta de dólares, não desovados internamente, por falta de confiança, desloca-se, com a decisão do governo americano de reduzir a taxa de juro abaixo de zero, para outras praças globais, na periferia do capitalismo. Tal movimento, como todos já estão careca de saber, sobrevalorizam as moedas periféricas, jogando-as em total incerteza. O desespero toma conta das autoridades monetárias. Reservas que foram acumuladas para ser solução viram problema. E, agora, Meirelles?


Charme da dependência

Brasil vai a Paris, mas Paris vem ao Brasil?

Washington não quer nem saber. Transfere para os outros a resolução dos seus próprios problemas, fazendo da taxa de juro negativa novo jogo imperial. Quem não tem cão, caça com gato. Antes, podendo tudo, Tio Sam , quando o dólar vivia tempos bicudos, de aperto e ameaças de confiabilidades, elevava o juro, enxugava o excesso de moeda na praça global, enquanto os devedores em dólares se lascavam geral. Foi o que, por exemplo, aconteceu, nos anos de 1980 e 1990. Tio Sam jogou o mundo na merda e convocou o Consenso de Washington para obrigar os governos neoliberais a comê-la. Os governos neorepublicanos brasileiros, sob pressão do Consenso, administrado pelo FMI, tinham que optar por planos econômicos heterodoxos, já que os ortodoxos, que vigoravam durante a ditadura, não eram convenientes em tempos democráticos. Tudo mágica heterodoxa. Ao longo dos últimos 20 anos, os Estados Unidos, com a estratégia de utilizar a taxa de juro para fazer política monetária, foram acumulando deficits em cima de deficits, mas essa mamata acabou. A arma do juro positivo perdeu eficácia. O que fazem , agora, os gringos inteligentes? Adota o oposto: a arma do juro negativo. Dívida financiada a juro zero ou negativo é cancelamento de dívida, soda cáustica financeira. Quem vai jogar dólar em soda cáustica para vê-los dissolvidos? Melhor jogá-los no juro do Meirelles, no Brasil. Correram e continuam correndo para cá, como, igualmente, para outras praças em que a chegada dos dólares valorizam as moedas locais. Nesse ambiente, a classe média metida vai comprar barato em Nova York, enquanto , no Iguatemi, no Lago Norte, as lojas ficam às moscas.


Policarpo Quaresma

Os tropicos se rendem ao frio europeu para gastar em euros economias suadas

O neoimperialismo financeiro americano, encarecendo geral as moedas nacionais, produzindo euforia consumista na classe média, que renova seus passaportes, teria ou não que ter uma resposta nacionalista, urgente? Falar nisso, no entanto, para os bem pensantes, cuja cabeça é feita por uma mídia colonizada, é atraso total. Nem José Serra, do PSDB, nem Dilma, do PT-PMDB, falam nada sobre o assunto. Temem perder os votos dessa categoria social alienada metida a besta que aposta contra o Brasil quanto mais cai na tentação consumista na terra dos outros. Contra essa alienação, não há outra alternativa senão dar um puxão de orelha, a fim de defender os interesses nacionais, criando nova consciência. Já não basta que esse dólar barato, sobredesvalorizado que entra sem freios destrua empregos e empresas, sucateando geral, caso permaneça por mais algum tempo? Precisa, também, que, ao lado dessa destruição produtiva, ocorra , da mesma forma, a fuga de divisas para atender a classe média? Falta maior divulgação do produto nacional. Por exemplo: Policarpo Quaresma, do genial Lima Barreto. Essa galera que vai para NY torrar suas economias prefere, no entanto, Harry Potter. Fazer o que, senão taxar essa turma?

Dólar forte vem aí para reeleger Obama, deixando pepino para quem suceder Lula

DÓLAR FORTE VEM AÍ. - Olhaí , gente, vocês acham que vamos ficar parados, com a boca aberta, cheia de dentes, esperando a morte chegar, como disse o genial cantor e compositor brasileiro, Raul Seixas? O Paul Vocker, aqui do meu lado, que, sempre, socorreu o dólar com o juro alto, descobriu a pólvora, a arma inversa, o juro baixo ou negativo: enchemos essa periferia de dólar senil, desvalorizado, valorizamos a moeda deles, desovamos nossas mercadorias, acabamos com nossa dívida, barateada por juro negativo, depois lançamos nova paridade cambial. Que tal 1:100? As reservas do Meirelles cairiam para 30 bilhões, as da China, para 300 bilhões, enquanto nossa dívida ficaria uma merreca de 1,5 trilhão. Quem vai chiar? Estamos com um estoque fenomenal de bombas atômicas! O partido Democrata não terá nada a perder, salvo a minha reeleição em 2012, morou? Viva Adam Smith!

A palavra de ordem do Banco Central dos Estados Unidos é afrouxamento monetário. Quanto mais bambo melhor. Ele põe em marcha nova política monetária internacional. A crescente inflação latente, porém, oculta, do dólar, escondida, dialeticamente, na monumental dívida pública interna americana, que cresce no lugar dela, enquanto, em contrapartida, emerge, aparente, deflação no comércio de bens e serviços, decorrente da bancarrota financeira de setembro de 2008, que interrompeu o circuito do crédito direto ao consumidor, responsável pela dinâmica econômica americana, implementa choque monetário já em curso. O presidente Barack Obama prepara salto triplo sem rede para recuperar o prestígio da moeda de Tio Sam, como fez Itamar Franco, em 1994, ao lançar o real e abrir caminho para a vitória eleitoral do seu sucessor Fernando Henrique Cardoso(1995-2002).

Por que o presidente do BC, Henrique Meirelles, berrou, semana passada, em Washington, na fracassada reunião do Fundo Monetário Internacional, a fim de buscar alternativas à guerra cambial desatada pela maxidesvalorização do dólar? Claro, banqueiro como é, está vendo o óbvio: trata-se de jogada de Tio Sam para zerar a dívida pública interna dos Estados Unidos, que se transformou no estopim de uma bomba atômica econômica global. Quanto mais Washington emite dólares sem lastro, menos vale o dólar, que sob juro negativo, principal arma da nova política monetária americana, cancela, crescentemente, a dívida de Tio Sam. Quando tiver toda a dívida zerada, certamente, emergiria mágica heterodoxa: poderá ser fixada nova paridade cambial. Por exemplo, 1:100. Ou seja, 100 dólares velhos, desvalorizados, valeria 1 dólar saneado pelo fim – ou quase – da dívida pública sob juro negativo.

As reservas cambiais brasileiras, hoje, na casa dos 300 bilhões de dólares, valeriam 30 bilhões de dólares; as da China, na casa dos 3 trilhões de dólares, passariam a ser cotadas em 300 bilhões de dólares. E a dívida pública interna de Tio Sam, no compasso do juro zero ou negativo – quanto mais negativo, melhor – cairia dos atuais 15 trilhões para, 1,5 trilhão de dólares. Vale dizer, perfeitamente, administrável, podendo, novamente, começar outra era de endividamento, comandada, então, pelo DÓLAR FORTE, nascido da dissolvição da dívida sob impacto da soda cáustica expressa em juro negativo.

Quem acha que Tio Sam entrará no ajuste fiscal ortodoxo, reclamado pelo FMI e pelos emergentes e europeus, levanta o dedo? Trouxa! Certamente, partiria para a heterodoxia para acabar com a dívida e renovar o fôlego para endividar mais , como recomenda, em A riqueza das Nações, Adam Smtih. A dívida pública, diz, nunca é paga , mas, permanentemente, rolada. Quando fica incontrolável, requer choque. O choque, agora, é mais dívida, porém,  impactada por juro negativo. Configurar-se-ia o que Marx repetiu sobre dívida pública interna, concordando com Smith, de que ela é valor que se desvaloriza.

Nova arma imperialista

- Acumulei tanto, para Tio Sam vir, agora, com esse juro negativo deixar eu totalmente abarrotado de verdinhas que tendem a desvalorizar-se ainda mais. Que faço com essa montanha de dinheiro? Me ajudem! Tou tentando recomendar a Tio Sam que faça uma ajuste fiscal, mas será que ele vai me obedecer? Ó, céus!

Dever em dólar, agora, representa melhor negócio do mundo. Ficar vendido em real e comprado em dólar, eis a armadilha em que o BC, sob Henrique Meirelles, jogou a economia nacional. O Brasil está comprado em mais de 300 bilhões de dólares, que se desvalorizam, continuamente, no compasso da jogada monetária de Obama de abarrotar o mercado de verdinhas encardidas, via emissão do tesouro. Quem vai comprar esses dólares acumulados, se houver uma nova paridade monetária global em relação ao dólar, depois que a dívida americana, praticamente, secar debaixo da estratégia do juro negativo como arma imperialista em escalada?

A estratégia é clara, só não vê quem não quer. Tio Sam se articula para uma tentativa imperial, de submeter o mundo ao seu talante. Na medida em que aumenta a dívida que não paga juro, que, portanto, se desvaloriza, ao mesmo tempo que estimula investidores a se deslocarem , com esses dólares desvalorizados, para a periferia capitalista que se endivida com o juro alto que atrai moeda podre, como é o caso brasileiro, a dívida americana vai se dissolvendo. Tio Sam vai exportando seus problemas para que os outros resolvam para ele.

Indisfarsável calote se encontra na base da política monetária obamista imperialista. E quando chegar o momento em que a dívida estiver zerada ou quase zerada? Não poderia pintar um NOVO DÓLAR? A função desse NOVO DÓLAR seria a de afastar-se do velho dólar, que não valeria mais nada. Evidentemente, Tio Sam não interessaria pelos dólares que lançou na economia em escala incomensúrável, na fase anterior ao NOVO DÓLAR, ou seja, nesse justo momento.

Afinal, não teria fôlego para enxugar a base monetária dolarizada, sob pena de ter de enfrentar incontrolável implosão do endividamento, que , por sua vez, produziria hiperinflação exponencial, levando tudo de roldão. Não se pode deixar de pensar politicamente no sentido de que o que domina a mente americana, no plano econômico, é o velho nacionalismo.  E os mais nacionalistas são, justamente, os democratas. Ameaçados de perderem a Câmara e o Senado, nas eleições parlamentares, desse ano, criando correlação de forças favoráveis aos republicanos, para disputarem, com vantagens, a sucessão em 2012, os democratas ficariam patinando na ortodoxia econômica neoliberal que faliu?

Nacionalismo eleitoral

Em meio às crises monetárias, a salvação não é a ortodoxia, mas a total heterodoxia, como comprovou o Plano Real, lançado por Iamar Franco, que jogou e acertou no sucesso da heterodoxia do real. Garantiu a FHC dois mandatos presidenciais consecutivos, garantindo inflação baixa via sobrevalorização cambial e juro alto. O contrapolo é a dívida, que, como diz Smith, é rolada, continuamente. Quando o governo brasileiro vai agir para desvalorizar a sua dívida, como faz, agora, o governo americano?

O nacionalismo americano deixaria o dólar entrar em estresse total, a ponto de ir aos ares a soberania imperial? Entre a vida e a morte, Tio Sam optaria pela morte? Primeiro, claro, salvaria a própria pele.

O que fizeram os governos neorepublicanos brasileiros, diante da hiperrinflação desatada pela crise monetária do dólar, nos anos de 1980, que romperam com a ditadura militar? Tiveram que ir às urnas em meio à inflação exponencial. Como não podiam combatê-la, ortodoxamente, por meio de pau nos sindicatos, que fizeram os ditadores, optaram, obrigatoriamente,  pelo combate heterodoxo à alta dos preços.

A ortodoxia neoliberal recomenda a Obama ajuste brabo, como recomendou o FMI na Era FHC? O titular da Casa Branca, que deseja reeleger-se em 2012, seguirá essa terapia antipopular?

Os planos econômicos neorepublicanos – Cruzado(I e II), Collor(I e e II) e o Real – heterodoxos foram alternativas tentadas para combinar combate à super-hiper-inflação com desenvolvimento sob democracia. Qualquer governo que apoiasse represssão salarial na base do cacete perderia eleição.

A salvação da moeda brasileira, como reação ao ajuste monetário americano, desencadeado em 1979, com o aumento da taxa de juro prime rate de 5% para 19%, foi uma tentativa de acerto e erro que caminhou erraticamente, com a redemocratização do país.

Da desindexação do reajuste salarial da inflação, passou para uma inflação futura projetada, acompanhada de controle de preços. Em seguida, congelamento geral de preços e salários. Depois, criação da URV, que engrenou preços e salários sob maxivalorização cambial via juro alto. A inflação despencou, mas a dívida explodiu, sinalizando, posteriormente, bolhas especulativas. De 1994 até agora(Eras FHC e Lula), o Real tem sido fruto da tentativa de equilibrar moeda valorizada, juro alto e endividamento elevado, para combater pressões inflacionárias.

Mágica heterodoxa

- O dólar vai para baixo e o real para cima. Esse jogo nos destroi. É a guerra cambial. Como vamos manter nossa indústria, nossa taxa de emprego ascendente? A estratégia lulista, de sustentar o consumo, enquanto o real se fortalece, representa sangria nas nossas finanças públicas, com o juro alto, enquanto o juro negativo americano dissolve a dívida de Tio Sam. É o neo imperialismo do juro negativo.

Obama, nesse momento, em total sinuca de bico, mira terapia heterodoxa para salvar o dólar, jogando na tática do Real brasileiro, só que de maneira inversa. Que mágica seria essa? Em 1974, o governo Nixon, diante da tentativa do governo Willy Brant, da Alemanha, de resgatar, no Forte Knox, 10 bilhões de dólares em barras de ouro,  já que temia crise deficitária americana por conta da guerra do Vietnan, desindexou-desvinculou o dólar do ouro.

Tio Sam deixou a moeda flutuar. Deu tremendo beiço na praça global. Quem estava comprado em dólar dançou; quem estava vendido, se deu bem.

Em 1979, livre, definitivamente, do padrão-ouro, Washington, diante do excesso de oferta de eurodólares, nipodólares e petrodolares, candidatos a comprarem o patrimônio americano, elevou, brutalmente, os juros, para enxugar geral a praça encharcada. Ainda tinha fôlego para tanto, o que não é o caso atual mais. Quem devia em dólar, como a periferia capitalista, Brasil em destaque, lascou-se de verde amarelo.

E agora, em 2010, depois da bancarrota financeira de 2008, quando, de novo, o deficit americano ameaça o dólar, mas o governo não pode mais lançar mão do juro alto, o que faz? Parte para o juro negativo, o calote.

O berro de Henrique Meirelles, em Washington, seria início de uma reação nacionalista brasileira à nova investida monetária imperialista de Tio Sam,  para salvar a moeda americana, deixando ela virar boró na mão dos outros?

Alienação eleitoral

Enquanto a sucessão brasileira descamba para o fundamentalismo religioso e para o falso moralismo, a discussão dos problemas concretos está sendo deixada para depois, sem que a sociedade saiba o que será feito para evitar que a moeda brasileira mergulhe no abismo cavado pelo neoimperialismo jurista negativo americano. Dilma, Serra, vão continuar mudos?

Com inflação  e dívida cadente sob impacto do juro negativo, Tio Sam, seguindo os passos de Adam Smith, poderia, novamente, tentar exercitar o velho papel, talvez, sob nova correlação de forças globais, porém, com seu poder, relativamente, renovado e ainda forte. Que papel? Claro, o de ser emissor de capital dinheiro, de acordo a famosa fórmula de Marx.

Inicialmente, nas trocas comerciais, diz o autor de O Capital, rolava  a relação M-M, ou seja, mercadoria trocada por mercadoria, escambo; depois, o dinheiro entra como mediador: M-D-M, mercadoria trocada por dinheiro que compra mercadoria, sendo o dinheiro equivalente geral; por fim, o dinheiro vira capital e a circulação capitalista passa a ser D-M-D’.

Vale dizer, o capitalista joga D(dinheiro) na circulação, para produzir M(mercadoria), que se transforma em D’, dinheiro valorizado-potencializado pelo trabalho humano(mais valia).

Esse papel imperialista do dinheiro, sob deficit elevado, não pode mais ser exercitado por Tio Sam, salvo se a dívida for dissolvida pelo juro negativo, heterodoxamente.

Morte e ressurreição

O capital dinheiro emitido por Tio Sam confirma Marx que previu o empoçamento desse dinheiro capital na crise, inviabilizando sua autonomia, que Keynes imaginou ser capaz de se realizar como dínamo perpétuo, enquanto a taxa de juro fosse capaz de irrigar e enxugar a circulação monetária. A realidade mostra que o juro zero ou negativo é a nova força que Tio Sam tenta acionar como último recurso imperialista. Conseguirá?

Keynes destaca que a única variável econômica verdadeiramente independente sob capitalismo é o aumento da quantidade da oferta de  moeda(D) na circulação capitalista pela autoridade monetária que promove a eficiència marginal do capital(lucro), expressa em 1 – aumento de preços, 2 – redução dos salários, 3 – diminuição dos juros, 4 – perdão da dívida do empresário nas compras a prazo e 5 – aumento da oferta da unidade de trabalho abstratamente homogeneizado do ponto de  vista do custo decorrente da pressão inflacionária, que diminui seu poder de compra, elevando a lucratividade do capital.

Nesse exato momento da crise global, Tio Sam, depois da bancarrota de setembro de 2008, não pode mais lançar D(dinheiro) na circulação, pois já se encontra excessivamente endividado. Para exercitar essa função, que lhe garantiu o poder imperial, teria que, com juro negativo, desindividar-se, só que não através da ortodoxia, a la FMI, mas da heterodoxia.

O caráter heterodoxo da manobra americana, por sua  vez, é inversamente proporcional à heterodoxia adotada, sob pressão do FMI, pelos emergentes e subdesenvolvidos, a partir dos anos de 1980 , mediante desindexações, que zeravam inflação e expandiam as dívidas por conta de juro alto para atrair poupança externa.

Tio Sam, opostamente, quer zerar a dívida e expandir – um pouco – a inflação, senão se afoga na deflação.  Não há dúvida: Obama alavanca calote para fortalecer, heterodoxamente, o dólar.

Tal heterodoxia cumpre um roteiro macabro: o dólar precisa morrer para renascer, qual prega o espiritismo, para salvação das almas pecadoras, por meio da ressurreição.