Teto neoliberal de gasto expulsa Ford do Brasil

A Indústria automotiva precisa mudar de marcha pós-coronavírus - Carros do Célio - iG

Sucateamento econômico periférico

A decisão da Ford de ir embora do Brasil está diretamente relacionada ao golpe neoliberal de 2016 que congela por vinte anos orçamentos sociais que geram renda disponível para o consumo e prioriza o pagamento de juros e amortizações da dívida pública interna que se aproxima de 100% do PIB; tudo piorou com emergência da pandemia do novo coronavírus e tende a piorar, ainda mais, porque o governo neoliberal resiste a ampliar investimentos públicos no novo setor que pode ser a salvação, o da saúde, afetado pela visão negacionista bolsonarista neoliberal. Em semiparalisia, o mercado consumidor, bombardeado pelas reformas trabalhista e previdenciária, que aprofundam, ainda mais, a insuficiência de consumo, adicionalmente, massacrada com a extinção do auxílio emergencial, apressou decisão da Ford de dar no pé; por que ficaria por aqui, se o Estado neoliberal se nega a fazer reforma tributária que distribua melhor a renda, diante da escalada de concentração de riqueza e de desigualdade social, que impulsiona fuga de capital? Trata-se, poranto, de mais um triste capítulo da desindustrialização nacional.

Culmina-se em tragédia econômica uma sequência de fatos históricos, econômicos e sociais que explicam o apogeu e a decadência da indústria automobilística no país, desde os anos 1950 até agora; segundo o marxista senador do PT/PDT, Lauro Campos(1998-2002), autor de A crise da Ideologia Keynesiana(1980), as indústrias automobilísticas vieram para o Brasil como movimento de pressão do capitalismo cêntrico para a periferia em decorrência da bancarrota de 1929, que durou 13 anos, até 1943; depois do crash, causado, segundo Keynes, por superacumulação de capital, a reprodução ampliada do capitalismo americano mudou de foco; até então, os Estados Unidos fabricavam 5 milhões de unidades/ano, dispondo de mercado de 27 milhões de carros; com queda da bolsa de Nova York, a produção caiu para 900 mil unidades/ano, de 1931 até perto do início da guerra, quando foram fabricados apenas 700 mil; ou seja, não havia mais condições de a reprodução capitalista ampliada se dar mais na indústria de bens duráveis de luxo.

Transplante capitalista

O governo americano de Roosevelt, diz Lauro Campos, passa a seguir o conselho de Keynes, dado em 1936: “Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego –, exceto em condições de guerra; se os Estados Unidos se INSENSIBILIZAREM para a preparação das armas, aprenderão a conhecer sua força”; Keynes considerava positiva a estratégia de Hitler, tocada pelo seu mago das finanças, Hjalmar Shacht, que armara a Alemanha com a expansão monetária do BC alemão, para tirar o país da crise da República de Weimar; o genial autor inglês de Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda seguiu o plano da política econômica fascista hitlerista; Roosevelt confessaria, no seu livro, “Os mil dias”, que fazia nos Estados Unidos o que Hitler fazia na Alemanha, só que com mais cuidado, moderadamente; a expansão bélico-militar-espacial-nuclear americana keynesiana, rooseveltiana passou a ser fator de reprodução ampliada do capitalismo americano; vale dizer, os Estados Unidos jamais caíram na ladainha do discurso neoliberal; já em 1944, o déficit público alcançava 144% do PIB; sem dívida pública para fazer déficit, jamais os Estados Unidos seriam potência global.

A indústria automobilística – o setor de bens duráveis – deixara, então, de ser o acelerador da lucratividade ampliada do capital sobreacumulado; a partir desse momento, a estratégia de Washington e dos países europeus, salvos pelos Estados Unidos, pelo Plano Marshall, foi a de expatriar, transplantar, da Europa e dos Estados Unidos, a indústria automobilística; na periferia capitalista, ela, com sua  poderosa cadeia produtiva, alavancou o capitalismo periférico juscelinista, por exemplo; para operar o transplante, os governos europeus e americanos financiaram, mediante bancos privados e FMI/BIRD/BID, construção de estradas; o Brasil foi rasgado de norte a sul e de leste a oeste por rodovias modernas, sem as quais não seria possível expansão da produção de carros, caminhões, tratores etc; Brasília é fruto do transplante da indústria automobilista do capitalismo cêntrico para a periferia, com importação desse capital problemático; para ele se afirmar, na periferia, foi necessária acumulação de renda numa classe social, em prejuízo das mais pobres, capaz de consumir bens duráveis; os conflitos sociais e econômicos desembocariam no golpe de 1964, destaca Lauro Campos.

Crise monetária acelera subdesenvolvimento

A tendência dessa escalada na América do Sul, na Ásia, Oceania, África etc salva a indústria automobilística de novos colapsos tipo 1929, até que com a nova expansão americana, nos anos 1970, com o descolamento do dólar do ouro, voltasse à cena o que acontecera nos Estados Unidos nos anos 1930, reproduzido no capitalismo periférico: aumento da oferta em relação à demanda; as montadoras foram para todos os lugares, aumentando, globalmente, a capacidade instalada, capaz de sobreviver graças aos subsídios garantidos pelos incentivos governamentais, cujas consequências foram aumento dos déficits público; o mercado começaria a claudicar depois que o excesso de moeda americana na circulação global, diante do dólar sem lastro, levou os credores internacionais a pressionarem o FED americano a elevar as taxas de juros contra perigo de inflação mundial; os americanos puxariam as taxas de 6% para 22%, em 1979; consequentemente, quebrou a periferia capitalista, endividada.

Os draconianos ajustes fiscais, impostos pelos credores, os arrochos salariais, as políticas cambiais desindustrializantes, as privatizações se intensificaram, com o novo Consenso de Washington, baixado, em 1980, pelos bancos: a prioridade passa a ser pagar juros da dívida aos bancos, que haviam financiado o transplante; o discurso do equilibrismo orçamentário neoliberal vira a nova ordem econômica e, desde então, inicia-se a lenta retração dos mercados internos da periferia para os bens de luxo, afetados pela restrição de consumo crescente imposta pela visão neoliberal ditada pelos credores; as montadoras instaladas na periferia, reformulam sua estratégia para diminuir a oferta, especialmente, devido à incapacidade de os governos continuarem a bancar incentivos fiscais; o teto neoliberal de gasto, por exemplo, impede a continuidade do subsídio às montadoras; se tentasse continuar, teriam que dar calote na dívida; desmonta-se, com isso, a estrutura produtiva e ocupacional de bens duráveis, cujo fôlego se esgotou depois da crise monetária dos anos 1970 em diante.

Marcha ré ao passado

Tudo ficou mais complicado para a indústria automobilística americana com a entrada da China no mercado de bens duráveis, no final dos anos 1980 em diante; os chineses não se subordinaram à teoria monetária restritiva imposta pelo Consenso de Washington; ficaram com as mãos livres para adotar política monetária segundo a qual o governo não tem restrição para gastar mediante emissão de sua própria moeda; resultado, a indústria automobilística chinesa, japonesa, coreana, submetida à lógica monetária aplicada pela China e Japão, principalmente, passou na frente da indústria americana e europeia e tomou mercado mundial.

A Ford, primeiro, nos Estados Unidos, depois, nos demais países para onde fora transplantada, arriou; há anos, vem perdendo lucratividade; só sobreviveu, até agora, graças aos subsídios governamentais; os executivos da empresa, diante do neoliberalismo de Paulo Guedes, jogaram a toalha; não poderiam mais contar com a política protetora do Estado brasileiro, diante da ordem neoliberal imposta depois do golpe de 2016, para impor a ferro e fogo o teto de gastos; este congela, por vinte anos, os orçamentos sociais, os que geram renda disponível para o consumo capaz de impulsionar mercado interno; a prioridade não é construir mercado interno, mas destrui-lo para que a conta de juros seja quitada; diante disso, as empresas, como acaba de fazer a Ford, aceleram fuga, para tentar se salvar. É a lógica do sucateamento neoliberal periférico; na prática, as montadoras tentam voltar para a casa de onde saíram na década de 1950, sem ter garantia de que, voltando, sobreviverão.