Hora da Sociedade Civil contra Estado Absolutista

Somos os pobres da história', diz Bolsonaro sobre disputa com Trump | VEJAA concepção de lógica em Hegel e a crítica materialista de Marx - Diário Liberdade

Bancarrota do absolutismo neoliberal

A crítica da filosofia do direito de Hegel(1770-1831) feita por Marx(1818-1883) deveria, nesse momento de pandemia do novo coronavírus, estar conduzindo a sociedade civil para enfrentar o presidente Bolsonaro travestido de imperador, cercado de militares por todos os lados; trata-se de impor-lhes o seu primado, segundo o qual não é o Estado o Espírito Absoluto, a culminação da filosofia idealista hegeliana, mas, sim, a própria sociedade, de carne e osso, organizada pela luta de classes, que o criou e o determinou. O sujeito da história, diz Marx, é a sociedade civil, institucionalmente, organizada, e não o seu objeto, o Estado; o autor de o Capital inverte a equação hegeliana absolutista, para determinar a razão burguesa, vitoriosa na revolução francesa, novo rumo da história mundial dali em diante. No Brasil bolsonarista, escravizado pelo modelo neoliberal, vigora o objeto como sujeito e o sujeito como objeto, realidade de cabeça para baixo, configurando a antidemocracia tupiniquim, o mandonismo militarista medieval. Não é, portanto, novidade que o espírito negacionista, anticientífico, medievalista, bolsonarista-trumpista, domina, atualmente, o império americano e o seu sub-império tupiniquim.

Hegel culmina seu conceito filosófico na formulação do espírito absoluto encarnado no Estado como a voz da lei universal; o grande filósofo da Fenomenologia do Espírito vivia, no início do século 19, no tempo da poderosa monarquia prussiana de Guilherme I, numa Alemanha, filosoficamente, adiantada, mas, politicamente, pobre, medieval, dividida numa centena de territórios, feudos, sem unidade nacional; dava suas brilhantes aulas, na Universidade de Berlim, com salas lotadas, causando inveja em Shopenhauer; porém, tinha os olhos postos na Franca de Napoleão, que ele conheceu, quando entrou na Alemanha, em cima do seu cavalo branco; viu, nitidamente, ali, ao vivo, como diria, o novo espírito do mundo; Napoleão é a revolução francesa, é a sociedade civil, o sujeito histórico, que destrói o objeto, o rei, o absolutismo monárquico, o espírito absoluto, para colocar no poder nova ordem burguesa, republicana; Hegel, servidor do rei, não poderia contrariá-lo e inverte a sua dialética, para não sucumbir-se, politicamente, diante do autoritarismo prussiano; no entanto, como reconheceria Lenin, não é possível falar em materialismo histórico, sem conhecer Hegel. Marx escreveria O Capital, com a Lógica de Hegel debaixo do braço; nada mais materialista vestido de idealismo, para burlar a censura de Guilherme I.

Bolsonarismo trumpista, adeus

Mutatis mutantis, em pleno século 21, vigora, no Brasil bolsonarista, imposição de ordem unida absolutista, emanada dos quarteis, como a que foi dada, em 2018, pelo general Villas Boas à Suprema Corte de justiça, para negar habeas corpus a Lula, impedindo sua candidatura presidencial; a ordem absolutista militar leva o Brasil não apenas à República Velha, que desmonta Estado nacionalista de Vargas, nascido com a revolução burguesa de 1930, mas à ordem antecedente à Napoleão Bonaparte, à monarquia absolutista.

O absolutismo hegeliano, por exemplo, encarnou, ontem, no general Pazzuelo, ministro da Saúde; sentou, imperialmente, na cadeira de ministro, falou quase uma hora, dando ordens e criticando os críticos de sua política, levantou, foi embora e se negou a responder as indagações da mídia; agiu como quem foge da história; afinal, com sua pompa arrogante, seguindo ordens do monarca de fancaria, Jair Bolsonaro, terá, algum dia, que comparecer ao tribunal; aí terá que dar conta da sua irresponsabilidade, como agente do Estado absoluto bolsonarista, por não ter se precavido e tomado providências reclamadas pela sociedade civil; tivesse agido com humildade e juízo, ao lado dos cientistas,  para minimizar os estragos produzidos pelo vírus, cuja duração é, ainda, incógnita, quantas vidas, das mais de 200 mil que se foram, não seriam salvas?

Agora, completamente, derrotado em sua postura negacionista, como a do seu chefe, pela lógica da ciência, que impõe a verdade científica, atestada pelo Butantã, de que a Coronavac é confiável, tenta correr atrás do prejuízo, arrastando consigo milhares de cadáveres.

Bolsonaro entra para a história como subordinado de Trump, seu ídolo, que procedeu erradamente, como seu mal aluno; em vez de orientar, corretamente, a sociedade americana, tentou, na base do absolutismo monárquico medieval, impor-se a ela; negou o sujeito para afirmar o objeto; tentou anular a democracia – a sociedade civil, o sujeito –, mas foi – como objeto, como estado absolutista – anulado por ela. Triunfou, nos Estados Unidos, a sociedade civil contra o idealismo hegeliano de direita americano.

Já o mesmo não pode ser dito, por enquanto, no Brasil, visto que o monarca tupiniquim, desde já, antecipa que pode haver confusão na sucessão presidencial brasileira, em 2022, mantidas urnas eletrônicas, passíveis de fraudes; preanuncia ou não, em terra brazilis, repeteco do absolutismo idealista imperialista trumpista, derrotado?