Feminicídio bárbaro: Marx e Freud explicam

Cultura feminicida neoliberal

A brutalidade das mortes das belas juíza Viviane, 45 anos, esfaqueada pelo ex-marido na frente de três filhas, no Rio de Janeiro, e de Thalia Ferraz, 23 anos, 2 filhos, em Jaraguá do Sul, Santa Catarina, em véspera de Natal, vem engordar as estatísticas do crescente feminicídio que se intensifica no Brasil neoliberal, com expansão do desemprego, da fome, da concentração de renda e da injustiça e desigualdade social. O fenômeno não é, apenas, econômico e social, mas, igualmente, psicológico, relacionado ao machismo, especialmente, afetado pela crise, aprofundada pela pandemia do novo coronavírus, que grassa numa sociedade colonizada pela financeirização econômica; esta rompe e destrói a soberania nacional a esvair-se no compasso da dominação estrangeira que acelera desnacionalização econômica, financeira, política e, sobretudo, cultural, no universo da competitividade capitalista descontrolada, confirmando a máxima de Hobbes, em que o homem se torna o lobo do homem etc.
Freud e Marx, respectivamente, em “O futuro de uma ilusão” e “Ideologia alemã” se afinam em suas conclusões psicológicas, psicanalíticas, econômicas e culturais, na abordagem da fragilidade masculina em relação à feminina, ao estar exposta às suas intrínsecas instabilidades morais, físicas e espirituais, no plano cultural; neste, a cultura se ergue como coerção e limitação à barbárie; porém, não, totalmente, porque as massas, infelizmente, diz Freud, carece de formação para aceitar restrições às pulsões autodestrutivas em nome do bem da coletividade etc.

Desejo, prisão destrutiva

O desejo, a conquista do desejo e o medo de perder o desejo são uma constante do homem, do ser humano em sua totalidade, diz o autor da “Interpretação dos sonhos”. A pulsão libidinosa no outro avança para consolidação do desejo, mas ao saciá-lo vem o medo de perdê-lo e, com isso, impõe-se o desejo de morte; a satisfação para reaver o desejo perdido se consuma no ato de matar; nesse contexto, o homem é envolvido, totalmente, pelas circunstâncias que o cercam, dadaS pela impotência de reaver o que perdeu; a ânsia da reconquista de um objeto sobre o qual não tem mais determinação alguma, pelo uso dos costumes, o leva a romper com a coerção natural dada pela cultura( o saber e a riqueza acumulados pela humanidade como conquista da natureza como fator de sobrevivência) em forma de institucionalidades sobre a qual se constrói a civilização.
A cultura passa ser vista como inimiga pelo ego(eu) que deixa de ser fator de equilíbrio diante de suas pulsões(id) e se lixa para as recomendações do superego(super-eu), freio às suas loucuras; O cara perde a mulher e, claro, adeus, viola; reanima-se em propósito assassino, mandando às favas a civilidade cultural ao se ver deserdado pelo desejo.

Casamento, contrato escravocrata

Marx, antes de Freud, relaciona-se a libertação da mulher do casamento como o rompimento da sua condição de escrava diante do homem; pelo contrato de casamento, a mulher, segundo autor de O Capital, torna-se escrava, propriedade privada, base da pulsão masculina à dominação feminina – e a tudo mais; escraviza a mulher e domina-a como propriedade, no contexto das relações sociais, que se constituem como estrutura férrea na sociedade gerida pelas lutas de classe, intrínsecas ao capitalismo em que o mais forte domina o mais fraco e impõe a ordem capitalista etc.
A libertação da mulher do casamento, diz Marx, também, em Manuscritos Econômicos e Filosóficos, leva-a à prostituição geral; a mulher deixa de ser propriedade de um para se dar à humanidade como amor de todos; vira, como na fábula romana, a loba que se responsabiliza pela espécie; o frágil homem não suporta a perda cultural da propriedade privada que manipulava e vai à luta para reavê-la, matando-a, por vê-la transformada em seu inimigo imaginário; é a terrível dor de corno.

Mártires da neobarbárie machista

Viviane saiu fora do seu machão porque alcançou o que este mais teme: a independência econômica, sua verdadeira liberdade, diante do homem, no capitalismo, enquanto não se chega ao melhor, ou seja, a utopia socialista; fragilizado em sua estrutura psíquica e moral, seu ex-companheiro, rompe com a coerção natural dada pela cultura e volta à barbárie; não suporta ver – nem ele, nem o ex-companheiro de Thalia – a mulher livre da escravidão da propriedade privada, usufruto não somente dele, machão, mas da humanidade como suprema reguladora de nova sociedade, livre da imposição do contrato social do casamento, como organizador insuficiente e falso da luta de classe.
Tudo, claro, fica, ainda, pior, para a mulher, diante de governos tipo o do capitão presidente, que entende ser legítima a ação desses ex-companheiros genocidas, com o sentimento tosco de que a segurança real do cidadão, diante do outro e do próprio estado, é o cano de um revólver ou uma faca afiada; preserva-se, dessa forma, pensam os machões, a propriedade privada, protegida pela segurança pública autorizada, igualmente, a matar mediante exclusão de ilicitude, ao arrepio da lei e da cultura.
Viviane e Thalia – e milhares de outras mulheres – foram vítimas dessa neo-barbárie liberada em terra brazilis.