Bolívia socialista fortalece socialismo petista

Opera Mundi: Bolívia vai às urnas; esquerda, favorita, tenta reverter golpe de 2019Novo tempo latino-americano

Os golpes de estado de direita que tomaram o poder no Brasil e na Bolívia podem ou não aproximar as esquerdas bolivianas e brasileiras, em suas propostas socialistas,  no novo cenário que se abre com vitória esmagadora do MAS? O novo presidente boliviano Luis Arce Catacora, economista nacionalista, progressista, adepto do Estado forte, ancorado em empresas estatais de energia, para defender interesses populares e políticas sociais, mediante empresas e bancos públicos, tal como modelo chinês, sensação internacional, sugere novo ritmo ao PT, rumo ao socialismo. Prega moratória de 2 anos da dívida e câmbio fixo. Nega, portanto, o tripé neoliberal do Consenso de Washington, com câmbio flutuante, metas inflacionárias e superavit primário, receita descartada pelo mundo que o Brasil continua seguindo. Golpeado pelos neoliberais, em 2016, que impuseram teto de gastos em nome de ajuste fiscal desestatizante, concentrador de renda, incompatível com democracia, o PT recebe injeção de ânimo com a vitória nacionalista socialista boliviana. Seu programa de Reconstrução Nacional, que privilegia o forte do partido, do ponto de vista histórico, que são suas políticas sociais desenvolvimentistas, ganha outro olhar, novo impulso. Nem a burguesia comercial e industrial, afetada pela financeirização econômica especulativa antinacionalista neoliberal, quer saber de teto de gasto, depois que se beneficiou do auxílio emergencial aprovado pelo Congresso. O novo presidente boliviano comunga com estatização da energia, que, no Brasil, sofre desmonte da Petrobras, para impulsionar desenvolvimento. Intensificar nacionalismo boliviano é o programa do novo governo, que estimula, no Brasil, os que proclamam a reestatização e consequente freio às privatizações.

O PT se fortalece ideologicamente com a vitória de Lucho Arce para reforçar a luta contra congelamento neoliberal, razão maior da semiparalisia econômica, dado que intensifica concentração de renda e exclusão social, cujas consequências são fuga de capital e desequilíbrio cambial. De saída, Arce promete “bono contra el hambre”, o nosso Auxílio Emergencial de R$ 600, que Bolsonaro já reduz para R$ 300 e diz que não vai ser possível renová-lo no próximo ano. Arce ataca, de cara, a miséria, mas Bolsonaro lança dúvidas se vai continuar combatendo-a. Ou seja, potencializará, portanto, fuga de capitais, que aumenta quanto mais avança desigualdade social, alvo de combate do programa de Reconstrução Nacional petista. Arce, com sua proposta de auxílio emergencial, foge do austericídio fiscal da direita boliviana que perdeu poder. Bate de frente com o mercado financeiro, ao qual, por aqui, Bolsonaro e seu homem da economia, Paulo Guedes, se rendem, completamente. O novo presidente da Bolívia sinaliza combate à financeirização que empobre a nação. Já Bolsonaro, que ganhou popularidade com os R$ 600, aprovados pelo Congresso, parece render-se aos rentistas, que aprofundam miséria social, ao abocanhar perto de 50% do orçamento geral da União em forma de juros e amortização da dívida pública. O fato é que Arce, com sua política social vira o norte do PT, pregador das mesmas posições políticas.

Guerra à financeirização

A renda disponível para o consumo, constante do orçamento, em forma de gastos não-financeiros(saúde, educação, infraestrutura etc), desapareceu diante dos gastos financeiros, acelerados pelo teto de gasto, para pagar juros e amortizações da dívida. Arce levanta a bandeira da renegociação com os credores. A dívida pública, com as antirreformas, cresceu, em vez de diminuir, porque contribuíram para redução da arrecadação tributária, sem a qual o governo se torna ainda mais prisioneiro do mercado financeiro, maior bombeador do endividamento público. Tal situação agravou-se, sobremaneira, com a emergência do novo coronavírus, responsável por deteriorar os setores de saúde, a exigir mais gastos, cujo resultado foram mais déficit, maior vulnerabilidade econômica, graças ao aumento incontrolável do desemprego. Os neoliberais, com sua narrativa pró-ajuste via cortes orçamentários, somente não entraram em completa bancarrota, porque o Congresso votou Auxílio Emergencial, aprovando Orçamento de Guerra, que contornou o teto de gasto. Não fosse isso, não teria havido recuperação parcial do mercado interno favorecido pelos R$ 600, responsável pelo aumento das vendas do varejo e consequente aumento dos ingressos tributários. O neoliberalismo, como demonstra a situação exposta pela pandemia, não é solução, mas problema, e, certamente, o discurso socialista na Bolívia, para enfrentá-lo, repercutirá, positivamente, no Brasil, no próximo ano.

Nem Bolsonaro segura mais o discurso neoliberal de Guedes. Já percebeu que com ele não alcança o que deseja: a reeleição. Até o FMI se adianta em favor do auxílio emergencial para minorar a desgraça social que Guedes aprofunda. Desesperado, Bolsonaro alia-se ao Centrão para tomar as bandeiras petistas, sem as quais não conquistará seu objetivo maior. O avanço bolsonarista, indo da ultra-direita para o centro-esquerda petista, obrigará o PT a acelerar a pregação socialista. A eleição boliviana é virada de mesa da conjuntura neoliberal para conquista de maior espaço progressista. O PT e o MAS boliviano tem tudo a ver de agora em diante.

Bolívia brasileira