Nova Tropicália marxista detona neoliberalismo

Descubra quem é o jovem pensador marxista que mudou a cabeça de Caetano VelosoCaetano Veloso Entrevista (podcast) - Mídia Ninja | Listen Notes

Realidade mutante

Caetano Veloso é um autêntico artista poeta mutante. Muda, politicamente, de pele aos 78 anos, descrente da falsa modernidade neoliberalóide, que entrou em colapso na debacle capitalista neoliberal democrática americana, abalada pela pandemia do novo coronavírus. Incompatibiliza-se com quem o venera: a Globo neoliberal pró Washington. E agora? Diante do vírus mortífero, a América perde – já vem perdendo há tempos – a hegemonia para seu maior inimigo, a China, comandada pela mistura de confuncionismo e comunismo, impulsionados pela energia disciplinada do Partido Comunista Chinês. Nesse contexto, Caetano, como novo militante da mídia Ninja, se abre ao marxismo.

Não é à toa que Mike Pompeo, secretário de Estado americano, diz que o PC chinês é o principal inimigo dos Estados Unidos. Tio Sam está em transe. Enquanto, no segundo trimestre, o PIB americano, no auge pandêmico, mergulha no crescimento negativo de quase 10%, o PIB chinês avança, no mesmo período, 11% e, em doze meses, apresenta crescimento de 3,2%. Alavanca irresistivelmente a economia chinesa, que deverá, no próximo ano, ser a luz a iluminar o caminho da humanidade. Sua proposta alternativa, de cooperação internacional, ancorada na ciência e tecnologia, responsáveis pela dominação comercial chinesa, na atualidade global, deixa os concorrentes para trás. Revela-se alternativa ao capitalismo agressivo americano, que, do pós-guerra, até agora, instalou quase 200 bases militares em todos os cinco continentes, sinalizando sua lógica de dominação: a guerra. O comunismo nacionalista chinês, por isso, mesmo, com sua proposta de arregimentar alianças, para explorar a nova fronteira econômica global, a desenvolver-se na Eurásia, por meio dos Brics, coloca Tio Sam em impasse total e abala a consciência política mundial.

Baianidade tropical

O tropicalista baiano, nesse contexto global de irresistível mutação, troca o figurino de artista burguês liberalóide, cultuado pela Globeleza, para incorporar-se no pensamento socialista-comunista chinês, que está fazendo a cabeça da juventude mundial. Assim como um dia, como anárquico artista tropical, deu o brado de guerra latino-americano, com Soy Loco por Ti América, abalada pelos golpes militares dados por Washington,  Caetano retoma seu poético impulso juvenil que vive nele. Aproxima-se dos jovens marxistas, para acertar o passo com a neomodernidade desfralda pela nova potência, comanda por Xi Jiping. Seduzido por Jones Manoel e Sabrina Fernandes, estudiosos dedicados de Marx e sua dialética hegeliana revolucionária, impulsionada pela China, o artista de Santo Amaro se lança ao desafio marxista: não cabe mais interpretar, mas mudar a realidade capitalista, que de sonho se transformou em pesadelo geral, no processo de financeirização econômica global. Nesse contexto, a concentração da riqueza ganha velocidade de meteoro por intermédio dos fundos de investimentos que controlam, praticamente, todos os ativos do mundo. Mercantilização geral da vida. A palavra de ordem, portanto, é comercializar tudo em busca da louca liquidez imediata como nova expressão da riqueza que se desenvolve no exterior da realidade impulsionada pelo capital fictício.

Os neomarxistas, como Jones Manoel, Sabrina Fernandes, Elias Jabour e vários outros, que circulam na órbita da Editora Boitempo, voltam-se para o estudo sistemático do processo chinês e conquistam consciências. O poeta baiano foi fisgado por essa energia que lhe dá resposta ao que fica obscuro no neoliberalismo: a falsidade democrática comprada por caixa dois eleitoral, ou seja, democracia comandada pelo dinheiro. Novo militante Ninja, Caetano se moderniza, atualiza e acelera nova mutação, descrente das verdades furadas que acompanham a ideologia individualista, egoísta, rentista, utilitarista, rendida ao que se torna miragem enganadora para a humanidade: a propriedade privada, engolida pelos oligopólios em todas as áreas. Líder do movimento tropicalista dos anos 1970, ele – como os Mutantes e Rita Lee – dá uma balançada legal nos acomodados pela narrativa intoxicante neoliberal, em versão marxista tropical. Finca no coração dos reacionários entreguistas do patrimônio nacional sua nova bandeira: o marxismo.

Manifesto Comunista x Reformismo liberal 

O reformismo liberal fracassou na crise de financeirização capitalista, produziu, por toda parte, direita fascista e perde a corrida para o Partido Comunista Chinês, cuja máxima é o mandamento 5º do Manifesto do Partido Comunista, de 1847/48, de Marx e Engels. A chave do desenvolvimento econômico, diz o Manifesto, é o controle do crédito público, para garantir desenvolvimento nacionalista, socialista, comunista, comandado pelo Estado, organizado pela disciplina do PC chinês, antagônica ao anarquismo burguês neoliberal falido. Trata-se, com nuances históricas diferenciadas, porém, assemelhadas, do que ocorreu, em 1917, na revolução marxista leninista trotskista, herdeira da Revolução Francesa. Afinal, como destaca Elias Jabour, que viveu na terra de Mao Tse Tung, como operário e estudante, a China, sob ótica de longo prazo de Confúncio, vive seu momento nacionalista, herdado da combinação das revoluções francesa e soviética.

O novo foco de Caetano, portanto, é a China, que encanta os neomarxistas Jones Manoel, Sabrina Fernandes, Jabour e uma penca de estudiosos de Marx, engendrados pela Boitempo, xodó da nova intelectualidade revolucionária. Com seus bancos públicos, central, regionais e municipais, abastecendo mais de 900 empresas estatais, sob coordenação do Partido Comunista, atuando em escala global, os chineses dão as cartas, enquanto Tio Sam bate biela. A revolução de Adam Smith, do livre mercado, que, na verdade, nunca existiu, hoje está completamente ultrapassada pela oligopolização acelerada pela financeirização econômica, que abocanha tudo, vorazmente, já que sua essência é a sobreacumulação.

Sacudindo a poeira

Caetano, o novo ninja,  levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, como disse a Pedro Bial, que, ao entrevista-lo, quis identificar socialismo com nazismo. – Não estou mais nessa de liberalóide, disse o baiano deixando Bial, teleguiado pelo Instituto Milenium, financista das ideias neoliberalóides, de queixo caído. O poeta baiano foi buscar sua renovação nos jovens marxistas. Adeptos do marxista italiano Domenico Losurdo, Jones Manoel e Sabrina Fernandes estudam marxismo com afinco, disciplina e determinação, tal como os militantes do PC chinês comandam a economia da China. Fazem, por isso, a cabeça da galera. Sabrina e Jones se transformam em astros pelas mãos de Caetano. Bela e exuberante, Sabrina, goiana, inteligentíssima, aos 19 anos já havia lido O Capital, obra máxima de Marx. Jones Manoel, pernambucano, descobriu Marx num rap musical em seu tempo de estudante, por meio do qual, como diz, aprendeu o que é mais valia, o processo de exploração do capital pelo trabalho.

Lógica Hegeliana marxista 

Sobretudo, o marxismo desenvolve o raciocínio lógico hegeliano e desperta racionais paixões arrebatadas. Tudo muda, só não muda a lei do movimento, segundo a qual tudo muda, diz o autor de Fenomenologia do Espírito. O processo de dedução lógica se sintoniza com as ondas do mar, eternamente, mutantes, que exigem habilidades de surfista, para entender e viver a realidade, como diz Tomio Kikuchi, ideólogo marxista japonês da macrobiótica. Viva os surfistas mutantes.

Marx, com base na Lógica, de Hegel, desenvolveu o materialismo histórico dialético, para entender e avançar na economia política no processo de acumulação do capital, por meio do exercício permanente de dedução lógica. Não é à toa que os fundamentalistas e religiosos querem sempre destruí-lo, mas nunca conseguem. Nesse 7 de setembro, Bolsonaro demonizou os comunistas, mas, apesar disso, os comunistas se multiplicam no compasso do sucesso chinês. O materialismo histórico acoplado à dialética encanta a juventude. Afinal, vende algo autenticamente honesto e verdadeiro, o conhecimento dedutivo que eleva a autoestima, a segurança espiritual e a certeza que se nasce em si, para si, por si, mesmo, em processo antagônico de contradição. Tese, antítese e síntese, a trindade hegeliana-marxista se movimenta pela crítica de tudo, submetido à transvalorização racional do conteúdo real, abolida fantasia da imaginação.

A base de Marx são as lutas sociais e não a alienação abstrata de que o pensamento cria a realidade e não o inverso. Elas são o instrumento de trabalho ao qual submeteu a lógica de Hegel, âncora do desenvolvimento do materialismo histórico dialético. O desenrolar crítico de Marx, especialmente,  na avaliação da economia política, faz a cabeça dos jovens. Bate na veia. Jones e Sabrina são craques em dialética marxista hegeliana. Marx esclarece o que o neoliberalismo confunde e aliena. São estudiosos do assunto de forma sistemática, a partir dos melhores autores. Caetano caiu na fluidez da narrativa marxista deles e, parece, está numa boa.

Latinoamericanidade na cabeça

São autênticos latino-americanos, fãs incondicionais de José Carlos Mariatégui, que estudou o comunismo primitivo dos incas e o desenvolveu com base no materialismo dialético marxista adaptado à realidade peruana, para fundar o PC peruano, nos anos de 1930. Genial, Mariátegui, faz a cabeça dos jovens marxistas brasileiros, que adoram o fato de que ele é consultado pelos próprios historiadores europeus e, especialmente, italianos, para estudar o tempo em que viveu na Itália, como jornalista. Seu conhecimento marxista latino-americano do momento europeu pós revolução soviética é super-estudado por Jones, Sabrina e sua turma. Toda a América Latina é leitora de carteirinha dele, estudado, minuciosamente, pelos marxistas aos quais o artista baiano passou a frequentar.

O pensamento mágico, infantil, alienígena, abstrato, neoliberal, não existe para os marxistas hegelianos, leninistas, trotskistas. Por isso, estão encantando platéias. Na economia, os neomarxistas tropicalistas balançam fortemente o neoliberalismo e sua essência colapsada, a economia de mercado. Ela é a crise que não vende esperança para a juventude. Já, Marx é a utopia geral. O capitalismo, segundo o autor de O Capital, padece, desde seu nascimento, graças a sua vocação de roubar mais valia do trabalhador, de crônica insuficiência de consumo, que o acompanha por toda a vida. Por isso, não se consome a oferta capitalista, ao produzir subconsumismo, exclusão social e concentração absurda de riqueza. As mercadorias sobram diante da escassez dos salários. Sua vocação é a deflação. Super-produção e crise são a pedagogia que Marx ensina, didaticamente, aos marxistas neotropicalistas. Não se resolve com reformas do sistema ancorado na propriedade privada. Supera-o negando a propriedade.

Caetano se identificou com o sentimento de Jones e Sabrina, porque sentiu o mesmo que o levou ao seu grande poema musical. Soy Loco por Ti América é pura transgressão para ganhar libertação. Sabrina e Jones fazem a cabeça ideológica e poeticamente anárquica de Caetano, que neles encontrou o que se perdeu e não se acha na ideologia da Globo onde seu discurso novo pode lhe criar problemas, sabendo que Marx é persona non-grata na vênus platinada.

El cielo como bandeira