Microempresas podem reagir com candidatura em 2022

O longo prazo de ontem é agora, diz Guilherme Afif Domingos | Poder360

Base social da economia

O desespero das micro e pequenas empresas, sufocadas pela crise econômica, agravada pelo novo coronavírus, pode levar suas lideranças a uma reação política que desembocaria em candidatura do segmento econômico majoritário da economia  à presidência da República em 2022.

Por enquanto, o governo ensaia, mais uma vez, tentativa para salvar esse segmento econômico politicamente poderoso por representar 16 milhões de empresas e 70% da oferta de trabalho no País, mas, parece, que, no campo da economia, apenas, não haveria saída.

A alternativa política, então, seria o escoadouro para a salvação diante do perigo do colapso econômico à vista, aprofundado pela política ultraneoliberal, cuja prioridade não é a produção e o consumo, mas a satisfação do mercado financeiro especulativo.

Depois de apelar aos bancos para emprestar a elas, mesmo com garantia oficial, e ter recebido rotundo não deles, temerosos dos riscos diante das incertezas, o governo, dessa vez, busca outra estratégia, também, sem muita certeza de dar certo.

Pretende, agora, que “empresas âncoras” resolvam a parada.

Grandes grupos econômicos não financeiros – grande comércio e grande indústria – tomem empréstimos bancários para repassar recursos às suas fornecedoras, empresas micro e pequenas.

O custo do dinheiro seria Selic(3%) + 0,1% ao mês + taxa de risco de 1,5% ao ano.

Capitalizado, esse empréstimo pode ir a 6% ou 8% ao ano, dependendo do cliente.

Trata-se, evidentemente, de dinheiro caro, sabendo que a taxa de juro real – excluída inflação –, aproxima-se de zero ou negativa, no compasso de possível tombo do PIB na casa dos 10%, esse ano, sem expectativa alguma de retomada da economia.

Âncora segura ou furada?

Essa estratégia de levar as “âncoras” a serem tomadoras e repassadoras dos recursos aos seus fornecedores pequenos seria ou não a saída para romper resistência dos bancos, temerosos de calotes?

Se não há certeza alguma de retomada econômica, nem nacional nem internacional, é de se perguntar, também, qual empresário, diante das incertezas gerais, vai tomar dinheiro para repassar aos seus fornecedores?

Pode ser que nem juro de 0,5% ao ano seja atrativo, se os negócios não reagirem.

Isso, apenas, demonstra que juro baixo não é variável independente no capitalismo, como disse Keynes.

Fazer o que com dinheiro dos outros no bolso, parado, sem realizar negócio que dê retorno ao capital aplicado, apenas, para pagar juro no vencimento do compromisso?

A única variável realmente independente no capitalismo, segundo o grande economista inglês, é a quantidade de oferta jogada na circulação pelo governo para puxar a demanda global, de modo a despertar espírito animal investidor.

Os grandes bancos estão, mais uma vez, fugindo da responsabilidade de emprestar.

E o banco público escalado para essa função, o BNDES, a exercerá não junto aos micros, mas aos grandes.

Afinal, somente, eles teriam as garantias exigidas pelos credores para emprestarem.

Por outro lado, haveria dependência total das microempresas aos seus novos “patrões” ou novos “acionistas”, as tais empresas “âncoras”.

Tudo, para dar mais ou menos certo, dependerá da oxigenação do mercado, que, simplesmente, inexiste, enquanto perdurar austeridade fiscal neoliberal tocada por Paulo Guedes por imposição do mercado financeiro.

Oligopolização em marcha

No limite, se correr tudo bem com essa boia de salvação para as empresas de pequeno porte fornecedoras das grandes que passam a ser suas avalistas, o resultado poderá ser dependência total do mais fraco ao mais forte.

Não seria novidade, nesse caso, o forte engolir o mais fraco, ampliando oligopolização econômica e financeira geral na economia nacional.

Pintaria tendência inevitável de desaparecimento da verdadeira base social da economia, responsável pela maior oferta de empregos.

O estrategista da tentativa de salvação das microempresas, empresário e político Guilherme Afif Domingos, assessor especial do Ministério da Fazenda, joga cartada decisiva.

Ligado, historicamente, à Associação Comercial do Estado de São Paulo, ex-secretário de Agricultura, ex-presidente do Sebrae, ex-secretário de desenvolvimento de vários governos paulistas, do PFL, DEM, PSD e PSDB, ex-secretário no governo Dilma e, agora, no governo Bolsonaro, Afif, também, candidato à presidência da República, em 1989, com o bordão “Juntos chegaremos lá”, tem o apoio da classe nessa cruzada política.

Política entra em cena

O maior adversário dele, porém, é a política econômica comandada por seu aliado liberal histórico, Paulo Guedes.

A austeridade fiscal neoliberal, somada ao novo coronavírus, pioram tudo.

Por ele, a saída, mais adequada, para esse momento, seria moratória geral das dívidas fiscais e tributárias dos microempresários, por largo período de tempo, de modo a ganharem fôlego.

Mas, o neoliberalismo, que não dá certo em lugar nenhum do mundo, nesse momento, insiste em comandar a economia, na qual são favorecidos, apenas, os credores, resistentes à flexibilização monetária, adotada pela maioria dos países capitalistas para enfrentar a pandemia que não tem data para acabar.

Diante desse impasse e do perigo de bancarrota dos microempresários, Afif Domingos, mais importante líder histórico dos microemperesários, no País, tenderá, no limite, à reação política.

Liderará ou não movimento de resistência que poderia levá-lo a uma candidatura em 2022, como representante do maior segmento econômico do país, com o mesmo bordão de 1989, “juntos, chegaremos lá”?