Mourão detona Guedes e viabiliza Centrão na Saúde

Está tudo sob controle, não sabemos de quem”, diz Mourão - Brasil 247

Vice arma novo xadrez político eleitoral 

A luta de classes está no centro do controvertido artigo “Limites e Responsabilidades” do vice-presidente general Hamilton Mourão. Ele elenca quatro problemas que estariam dificultando a governabilidade e o diálogo político: 1 – polarização ideológica; 2 – degradação do conhecimento quanto à constituição do federalismo brasileiro, como se fosse confederalismo; 3 – usurpação das prerrogativas do poder executivo, passado para trás pelos poderes legislativo e judiciário, no auge da crise pandêmica; e 4 – prejuízo à imagem do Brasil, principalmente, à dos militares, que, no poder, estariam descuidando da Amazônia, patrimônio da humanidade, de acordo com ambientalistas. Propositalmente, ou não, o general deixou na penumbra o que seria a causa central das contradições em estágio de explosão com a crise aprofundada pelo novo coronavírus: a política ultraneoliberal de Paulo Guedes. A contradição caminha para sua superação e desdobramento em nova contradição com entrada do Centrão no jogo político, ocupando, previsivelmente, o Ministério da Saúde, o que representa derrota de Guedes.

A queda de Teich é, na prática, a remoção indireta de Guedes para entrada do Centrão no poder, que significará aumento de gastos públicos, somente, possível via superação do teto de gasto neoliberal, que inviabiliza combate ao novo coronavírus. O controvertido artigo de Mourão, essencialmente, é uma chamada ao diálogo com o Congresso, que, aliado aos governadores, pôs em xeque-mate o neoliberalismo ultrarradical pauloguedeseano. Está chegando ao fim a insistência de Guedes de enfrentar o novo coronavírus com terapia neoliberal, pautada na austeridade fiscal, contramão do mundo.

Guedes, apoiado, circunstancialmente por Bolsonaro, acirra a luta de classes, inviabiliza o diálogo político e impede vitória eleitoral do centro-direita, enquanto ressuscita a esquerda, o que contraria as forças conservadoras que a removeram em 2016, com o golpe parlamentar, jurídico e midiático. Até o momento, estava sendo possível moderar a luta de classe, evitando explosões sociais, com a supressão dos direitos constitucionais dos trabalhadores, por meio das contrarreformas conservadoras. Estas, fundamentalmente, favorecem os capitalistas, para diminuir salários e elevar a mais valia, taxa de lucro deles. Com a emergência do novo coronavírus, tudo mudou. Aprofundou-se a radicalização da luta de classes via somatório da redução de salários e multiplicação do desemprego. O PIB pode cair 10% e o número de desempregados formais, informais etc deve superar 30% da população economicamente ativa. Situação, portanto, explosiva. Ou seja, lascam-se, tanto o capital quanto o trabalho.

Que fazer? Não é mais possível mandar, em véspera de eleição municipal, proposições neoliberais, para tentar vencer a crise aprofundada pelo vírus. Nenhum país do mundo está fazendo isso. A solução bolsonarista pauloguedeseana de menos Estado para enfrentar emergência social ficou inviável, como se evidenciou no orçamento de guerra encaminhado ao Congresso por Guedes propondo R$ 200 para cada desempregado. Caiu por terra. Os congressistas votaram R$ 600, em caráter temporário, e pode tornar a proposição permanente, como não está descartada possibilidade de ampliar o benefício. Em tempo de deflação, insistir em Paulo Guedes é apostar na guerra civil. Para evitar isso, está entrando no Governo o Centrão, cuja centralidade política é a defesa do aumento de gasto público, ou seja, a queda do teto de gasto e de Guedes, ou a mudança de postura dele, que já diz que vai “chuveirar” dinheiro na circulação.

Com o Centrão, o discurso de Morão ganha conteúdo político, reivindicando o diálogo. Assim, no ambiente de acirramento da luta de classe, a entrada em cena do Centrão, que deverá ocupar o Ministério da Saúde, evita o que Mourão está reclamando, isto é, do excesso de polaridades, que inviabiliza a governabilidade, no ambiente de luta de classes em ascensão, cujo resultado pode ser vitória da esquerda e derrota da direita.