Guedes fortalece Maia e enfraquece Bolsonaro

PANDEMIA GERAL
– Esse programa seu, Paulo, vai acabar me queimando todo no Congresso e com os governadores. Mas, vamos lá, tá okey? Até quando não sei!

Neoliberalismo detona bolsonarismo

O maior inimigo do presidente Bolsonaro, na crise do novo coronavírus, é sua política econômica neoliberal, que entrou em colapso. A terapia de Paulo Guedes caducou aqui e em todo o lugar, mas a força do mercado financeiro especulativo continua dando as cartas, colocando o presidente em saia justa diante de todas as forças políticas no Congresso. O Centro-direita se uniu à esquerda e isolou a ultra-direita bolsonarista, para prevalecer palavra de ordem de que a hora é de enfiar a mão no bolso e gastar e não insistir em austeridade fiscal. Os neoliberais de Guedes, porém, estão vivendo no Brasil pré-coronavírus, com programa Mansueto de massacre aos governadores e prefeitos. Novo paradigma entrou em cena, mas  a velha receita tenta sobreviver, sem dar conta do recado. O interesse público e a demanda social viraram imperativo categórico. O Congresso se sintoniza com a nova lógica, mas Bolsonaro, prisioneiro da terapia de Guedes, insiste, a qualquer custo, no posto Ipiranga, que está sem combustível. A derrota de Guedes,  com o Plano Mansueto ultraneoliberal, na Câmara, para a proposição de Rodrigo Maia – mais grana para Federação + renegociação de dívidas -. rompe com o neoliberalismo governamental. Colocou Bolsonaro em sinuca de bico. Ele fica com Guedes ou com o Congresso?

Batendo contra realidade

A realidade joga contra o presidente. Até final do ano, segundo a Fundação Getúlio Vargas,  a taxa de desemprego baterá em 24% da população economicamente ativa. Outros preveem que poderá chegar aos 30%. O FMI prevê PIB -5% esse ano para Brasil. Diante desse novo contexto, Guedes mandou ao Congresso uma proposta ridícula de R$ 40  bilhões para atender governadores e prefeitos, desesperados com queda da receita de ICMS e ISS. Os deputados aprovaram R$ 89 bilhões, mais que o dobro. Desesperado, Bolsonaro/Guedes contrapropôs R$ 70 bilhões, para negociar com os governadores, por cima dos congressistas. Abriu-se guerra. Vai tentar ganhar no Senado, casa dos governadores. Dificílimo. O presidente, diante da nova posição pró-gastos dos representantes do povo, sofreu derrota acachapante – 431 x 70 – e entrou em paranoia. Vê-se  vítima de conspiração do Congresso em aliança com governadores, ambos apoiados pelo STF. Suas excelências, no Supremo, chancelaram autonomia federativa para governadores e prefeitos agirem livremente diante crise do novo coronavirus. Frente à agilidade congressual, dada pelas novas circunstâncias, o Executivo se mostra lerdo. Está amarrado ao renegado receituário neoliberal Guedes, contrário à nova ordem anti-austeridade fiscal. Guedes segura o dinheiro para salvar os governadores e os trabalhadores desempregados e informais, mas solta generosamente para garantir mais recursos ao sistema financeiro. Entre as agruras dos governadores e as demandas dos banqueiros, preferiu priorizar a banca. Desincompatibiliza-se com Legislativo.

Colapso financeiro privado

Os bancos estão cheios de títulos privados em carteira, candidatos a se evaporarem, na fogueira da crise. Por isso, querem passar o pepino para a viúva, o tesouro nacional.  Maia, Guedes e o BC negociaram PEC para salvação dos bancos: R$ 1, 2 trilhão(25% do orçamento do Tesouro), para BC comprar deles esses títulos, no mercado secundário. São papeis candidatos a apodrecerem. Essa negociação implicou menos recursos para Estados e Municípios. Maia se desentendeu com Guedes, nesse ponto, porque o ministro liberou uma merreca de dinheiro, insuficiente para atender as demandas dos governadores. A derrota de Guedes colocou Maia primeiro ministro parlamentarista no presidencialismo bolsonarista em colapso. Os banqueiros estão preocupados. A PEC retornou à Câmara. No ambiente de conflagração entre Maia x Bolsonaro, ela poderá empacar lá.

Conselho do Czar

Qual a saída? Negociar ou radicalizar? O Palácio do Planalto não está escutando o recado sábio de Delfim Netto, para que Bolsonaro faça maioria no Congresso. Como? Simples, colocando os aliados dentro do governo, como ocorre em todas democracias capitalistas. Bolsonaro, em vez de fazer isso, abre guerra contra Congresso. Está querendo ganhar o jogo sozinho com Paulo Guedes. O experiente Delfim completou seu recado dizendo que entrou em cena o Estado moral. O que isso quer dizer? Prioridade total ao social, com ampliação de gastos antes de falar em economia. Ou seja, Delfim derruba Guedes, para salvar politicamente Bolsonaro. Os generais entenderam? Girar a maquininha de fazer dinheiro é o que todos os economistas em todo o mundo recomendam diante do novo paradigma econômico aberto pelo novo coronavírus. Bolsonaro não está entendendo a nova realidade. Segura Guedes, seu próprio algoz, e coloca na Saúde, onde mais a demanda social se impõe, para lutar contra o vírus, alguém que reclama de gastos com respiradores, para salvar vidas! A derrota da receita Guedes no Congresso é o sinal de que sem o Legislativo, como alerta o ex-czar da economia na ditadura militar, o presidente não governa. Seria ou não candidato a ser o terceiro presidente da República empichado?