Colapso econômico impõe controle estatal do crédito

BANCA E CONGRESSO SE TROMBAM
Maia não suportou a pressão do BC e votou dois turnos em que se constitucionaliza risco bancário, transformando BC em operador especulativo. Alcolumbre concordará com isso, quando os governadores estão completamente falidos. Qual será o representante da Federação?

Fracasso privado

Assim como o sistema de saúde conduzido por modelo neoliberal privatista entrou em colapso diante da emergência brutal do novo coronavírus, aprofundando a crise econômica capitalista global, do mesmo modo colapsou o sistema bancário privado, que se revela incapaz de emprestar dinheiro no mercado para fazer circular a economia. Ele só empresta para quem não precisa, os mais ricos. Na hora que tem de emprestar para pobre, tem medo de levar calote, e senta em cima do dinheiro. A crise, porém, não espera. A emergência da falência do setor produtivo como um todo, envolvendo micro, pequenos, médios e grandes, carentes de dinheiro, exige do governo intervenção no mercado. Caso contrário, pode pintar temida revolta popular, instabilidade social e ditadura militar. Os bancos privados, convocados pelo governo para enfrentar a tarefa, revelam-se resistentes. Repete-se o que aconteceu na crise de 2008, com a quebradeira financeira internacional. Foi necessário o Estado, comandado pelo presidente Lula, intervir. Convocou Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES, os braços financeiros do Estado, para operar o mercado, a juro mais baixo. Todos os demais tiveram que seguir. O problema, agora, é que Banco Central, operado por representante da banca privada, resiste a flexibilizar política econômica neoliberal. Age contra o Estado operacional diante da crise emergencial. Enquanto todos os governos do mundo vão nessa direção, o Brasil vai na direção oposta. Mutatis mutantis, mesma orientação de Bolsonaro no enfrentamento do novo coronavírus.

Manobra neoliberal

Guedes e o presidente do BC, Roberto Campos Neto, tentam manobrar o Congresso,  para impedir que os bancos públicos operem o mercado de crédito com o interesse público, não com interesse privado. Tentam fazer do BC brasileiro um Banco Central americano, para poder comprar e vender títulos públicos e privados. Dessa forma, prometem aos congressistas atender a demanda dos R$ 600 para os desempregados e dos empréstimos para as empresas financiarem os empregados. Nesse jogo, o BC gastaria 25% das reservas do tesouro, para enxugar mercado de papel pobre de posse da banca privada.

Isso é algo urgente ou não seria melhor e mais barato para a sociedade lançar mão das próprias reservas de caixa dos bancos, irrigadas, agora, pelo governo na casa dos R$ 1,2 trilhão? Guedes e Campos prometem atender as demandas dos congressistas em favor de ampliação do microcrédito, para os micro e pequenos empresários. A prática, porém, desmente a promessa deles. Os bancos sentam em cima do dinheiro que o próprio governo repassa a eles. Temem calote. Por isso, cresce  convicção no Congresso de que se não houver intervenção no crédito pelo Estado, a situação vai se agravar. Até os banqueiros, nessa hora, torcem por uma certa intervenção, a fim de tirar o deles da reta.

Alcolumbre resistirá? 

É por isso que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, jogou para a semana que vem a votação em primeiro turno da emenda constitucional 10/2020, que constitucionaliza o risco dos bancos. Permitirá à autoridade monetária, ao BC, comandado pelos bancos privados, comprar e vender títulos públicos e privados, para garantir solvência bancária, na hora da crise do novo coronavírus de incerteza total?

Alcolumbre está sob pressão dos governadores para garantir mais dinheiro público aos estados e municípios. Quem vai levar? Os banqueiros ou a sociedade? Os governadores falidos e desesperados por dinheiro serão preteridos pela banca? Poderia pintar até rebelião federativa dos estados mais pobres, Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O adiamento da votação é para ganhar tempo, para Alcolumbre respirar. Seria necessária tanta pressa para resolver as exigências do Banco Central, serviçal da banca privada?

Crescem entre os senadores a desconfiança e a propensão a tirar o assunto da pauta, por não ser urgente. Para eles, a prioridade é atender sua base política rebelada, os prefeitos e os governadores. Se o Senado mexer no interesse dos bancos para não ferir o interesse dos governadores e prefeitos, o prestígio político de Alcolumbre cresce e o de Maia desce, porque o titular da Câmara fez corpo mole para os banqueiros, na votação dos 2 turnos da EC 10/2020, na Câmara.