Salve, Celso!

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Política sobrepõe economia

Celso Pinto quando recusou o convite dos tucanos para registrar a história do Plano Real de FHC intuiu, antes, o que viria depois, os erros do populismo cambial fernandino: sobrevalorização do câmbio, para importar barato, e juros altos, para atrair capital, de modo a bancar as importações, achatar inflação, com salário corrigido pela média, e ganhar eleição.
A contrapartida destrutiva ficou explícita: desindustrialização – impulsionada, mais ainda, pela Lei Kandir – desemprego, endividamento acelerado, déficit em contas correntes do balanço de pagamento, colapso fiscal – que levaria o Consenso de Washington impor o tripé neoliberal –, desigualdade social, fuga de capital tal como acontece, nesse momento, com o bolsonarismo ultraneoliberal.
FHC, baleado, nas cordas, em 2012, teve que ajoelhar aos pés de Bill Clinton por socorro do FMI.

Antevisão corajosa

O desarranjo cambial puxado pelos juros altos, denunciado, corajosamente, por Celso Pinto, como arma eleitoral, é, agora, reconhecido por André Lara Resende.
Ex-integrante da equipe de FHC, Resende, adepto da nova política monetária que orienta proposta econômica de Bernie Sanders, faz mea culpa: os juros, fixados, exageradamente, acima do crescimento do PIB, pelos tucanos, representaram maior erro do Plano Real.
É pura abstração a conversa neoliberal de que juro alto é essencial para combater déficit fiscal e inflação, de modo a equilibrar dívida-PIB, para garantir crescimento sustentável(há, há, há).
A inflação e os juros estão baixos e o déficit financeiro do setor público incontrolável, com desemprego elevado, carregando nas costas tensão social e violência.
Totalmente, inverso do que dizem os fanáticos ortodoxos.

Preservar independência, grande triunfo

Se Celso Pinto tivesse aceito o convite dos amigos tucanos dele na USP, como Pérsio Arida, teria perdido a independência para alertar sobre perigo da armadilha populista cambial da qual lançaram mão, ao praticarem juro alto.
Fizeram a mágica do câmbio, ganharam a eleição, mas jogaram a economia no brejo do baixo crescimento estrutural, ao aprofundarem desigualdade social com juro superior ao crescimento do PIB.
A denúncia de Celso virou praga para o tucanato.
Depois que deixaram o poder, 1994-2002, não ganharam mais nada.
Tiveram que dar o golpe de 2016, depois de perderem, pela quarta vez, do PT, em 2014, quando então tentaram melar a eleição no tapetão.
Jogaram a economia na recessão violenta, em 2015 e 2016, porque as incertezas políticas decorrentes do golpe no tapetão sobrepujaram as expectativas positivas construídas nos laboratórios dos fanáticos neoliberais.
Os tucanos chegaram ao poder dando o golpe cambial e tentaram voltar dando o golpe eleitoral.
Estão, com as mentiras que pregaram, no ostracismo.

Golpeado pelo destino

Pena que Celso Pinto tenha, em 2003, depois de criado o Valor, em 2000, saído de campo pelo golpe cruel do destino.
Não pode acompanhar, de forma competente, os desdobramentos do tripé neoliberal, que os banqueiros obrigaram os petistas engolirem, depois da era FHC.
Nem, também, teve condições de analisar a nova matriz econômica que Dilma tentou levar adiante por meio de redução dos juros, atacada, por isso, violentamente, pelos credores.
A ironia do destino, agora, é que o Banco Central, diante da elevada taxa de juro que fixou acima do crescimento do PIB, para engordar a banca, não sabe o que fazer: se aumenta ou se reduz o custo do dinheiro, quando a desigualdade social impulsiona fuga de capital, levando o dólar a quase R$ 5.
Está naquela: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Dilmismo redivivo

A excomungada ex-presidente, na prática, antecipou o que os bancos centrais capitalistas desenvolvidos estão fazendo, nesse instante, jogando o juro para zero ou negativo.
Afinal, o capitalismo, superendividado, keynesianamente, no ambiente da financeirização econômica global, não suporta juro positivo, sob pena de implodir geral.
A nova matriz econômica, botando juro prá correr, torna-se imperativa, no momento global capitalista em transe.
Todo mundo está na da excomungada Dilma.

Independência ameaçada

Duvido que o Valor Econômico, nas mãos do Globo, fechado com o mercado financeiro, para implementar, a ferro e fogo, as reformas ultraneoliberais de Paulo Guedes/banca, deixasse Celso Pinto desenvolver sua exuberância, praticada na Folha de São Paulo e na Gazeta Mercantil, mais ligths na crítica econômica
Dificilmente, exerceria seu espírito crítico, como exercitou ao alertar e antecipar os equívocos dos economistas marqueteiros escravos do populismo cambial.
A liberdade de criticar, em tempos de financeirização econômica especulativa, atrapalharia interesses do grande oligopólio Globo, na bolsa, para onde a economia se descolou, depois de o consumo entrar em colapso com as reformas ultraneoliberais.
O apoio globeleza ao ultraneoliberalismo de Guedes representa o caráter duro, direitona, que se ergueria como empecilho ao espírito crítico.
Mas, a própria direita já está rachada em relação a Guedes.
Os últimos editoriais do Estadão vão na contramão dos radicais ultraneoliberais, responsáveis pelos pibinhos vagabundos alcançados depois do golpe de 2016.
“Tudo muda, só não muda a lei do movimento, segundo a qual tudo muda.”, diz Hegel.
A roda está girando para todos, inclusive, para o Globo.

Monk Pinto