Guedes inviabiliza Frente Ampla anti-Bolsonaro

6.set.2019 - Ministro da Economia, Paulo Guedes - Mauro Pimentel/AFP

Empecilho ou triunfo neoliberal?

Essa semana esquentaram articulações entre o governador do Maranhão, Flávio Dino(PC do B) e os ex-presidentes Lula e FHC, tendo em vista Frente Ampla anti-bolsonarista, para disputar o poder, em 2022, possivelmente, contra Bolsonaro; o presidente já deixou claro que é candidato; nas redes sociais o assunto mobiliza a base bolsonarista etc.

Dizem que a Frente iria da direita passando pelo centro até chegar à esquerda; antigos adversários, em nome do combate ao nazi-fascismo, perfil político bolsonarista, apertariam as mãos?.

Essa possibilidade tem barreira pela frente: política ultraneoliberal de Paulo Guedes.

É aí que a porca torce o rabo; não há consenso; primeiro, a direita e o centro não estão nada distantes de Paulo Guedes; pelo contrário, fecham com ele, embora haja dissidências, como os antagonismos que estão surgindo dentro da Fiesp, que abriga a falida indústria nacional.

O que enoja a direita e o centro cheirosos são os arroubos toscos nazi-fascistas do presidente capitão; para ela, porém, a política econômica de Guedes está uma beleza; o titular do Planalto é suportável, porque fecha com os interesses dela, centro e direita.

Haveria aproximação de todos, esquerda, direita, centro, apenas, em torno da questão da aparência, o nazi-faci, e não da essência, o neoliberalismo socialmente excludente?

Essência e aparência

Paulo Guedes é o peão da discórdia que turva possibilidade de Frente Ampla, já que, dentro da Frente, direita e ultradireita estão com ele.

A esquerda e o centro-esquerda têm como premissa principal nova política econômica emergencial de combate ao desemprego, maior preocupação nacional.

As prioridades da esquerda e centro sociais democratas são a valorização dos salários, o fortalecimento dos programas sociais e a flexibilização dos gastos públicos, para alavancar setores sociais(saúde, segurança,  mobilidade urbanas, infraestrutura etc), que elevam renda disponível para o consumo.

Os empresários – direita e ultradireita – têm outras prioridades; do ponto de vista individual, egoísta, estão satisfeitos com Guedes/Bolsonaro; afinal, a reforma trabalhista aumenta seus lucros, graças redução dos custos de contração de mão de obra, com os salários sendo ditados pelo lassair faire.

Do ponto de vista do todo, da economia, eles se preocupam com redução do consumo, erodido pelo arrocho salarial; sem consumo, não há produção, arrecadação e investimentos; quem vai investir se falta consumidor?

As dificuldades para formação da Frente Ampla situam-se, portanto, na política econômica neoliberal que Guedes pratica, combinando, explosivamente, arrocho salarial e esvaziamento total do estado como agente econômico, por meio das empresas estatais, responsáveis, nos últimos 50 anos, por garantir demanda aos capitalistas do setor privado, com as encomendas governamentais.

Keynesianismo demonizado

A pregação keynesiana da esquerda e aliados bateria de frente com os que fecham com Guedes, inviabilizando, portanto, a Frente Ampla; para esquerda, mais gastos do governo, variáveis econômicas independentes, são as armas para elevar a eficiência marginal do capital, ou seja, os lucros dos empresários, a retomada da economia e política social distributiva de renda, como na Era PT.

Essencialmente, mais gastos públicos aumentam relativamente os preços, diminuem os salários, derrubam os juros e perdoam dívida contratada a prazo pelo governo, famílias e empresas; trata-se do momento, segundo Keynes, em que nasce o espírito animal empreendedor que leva os empresários aos investimentos.

Reduzir juros, apenas, não resolveria a estagnação econômica, porque eles são variáveis economicamente dependentes da variável maior, independente, que são os gastos estatais; sem eles, não emerge o silogismo capitalista: renda, consumo, produção, arrecadação e investimentos; quem iria investir, com juros baixos, se a produção ficará encalhada por falta de consumidor?

Paulo Guedes bombardeia a estratégia da esquerda com o argumento de que tem que acabar com o Estado como agente econômico, para liberar as forças do setor privado; só que em nenhum lugar do mundo capitalista, essa alternativa – o lassair faire – sobreviveu de forma independente, depois que entrou em colapso no crash de 1929.

Volta ao século 19

Guedes vai se revelando economista do século 19,  em que predominava, ainda, o capitalismo bisetorial , composto de, apenas, dois departamentos: o produtor de bens de consumo(D1) e o de bens de produção(D2), subordinados ao padrão ouro e ao equilibrismo orçamentário; essa estrutura produtiva e ocupacional, característica do capitalismo industrial, se transformou em relíquia bárbara depois do crash de 1929; desde então o sistema(D1 + D2) precisou do socorro de D3, gastos estatais; são eles o carro-chefe da demanda global estagnada pela sobreacumulação de capital, de um lado, e explosão da desigualdade social, de outro, característica do modelo D1 + D2.

Guedes quer detonar D3 para retornar à estrutura capitalista clássica dezenovecentista, que a histórica jogou no fundo do baú; vai dar certo o cadáver insepulto voltar ao útero materno?

Por essas e outras, a Frente Ampla, pregada pelo governador Flávio Dino(PC do B-MA), interlocutor desse assunto, nessa semana, junto a Lula e FHC, encontra dificuldade de se estruturar; Dino, potencial pré-candidato a enfrentar Bolsonaro em 2022, bombardearia Paulo Guedes?

O sucesso ou fracasso de Guedes depende da política econômica ultraneoliberal que comanda; se o PIB, nesse ano, repetir 2018, 2019 e 2020, ele vai para o sal; Frente Ampla contra ele teria futuro; mas Bolsonaro, diante de Frente Ampla forte, manteria Guedes no cargo, se seu interesse maior, a reeleição, estiver ameaçado? Ou racharia a Frente assumindo parte do programa dela, justamente, para esvaziá-la?