Bolsonaro suicida-se, eleitoralmente, ao balear salário mínimo

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Autodestruição política

O presidente Bolsonaro está caindo na conversa mole neoliberal de Paulo Guedes de que é preciso acabar com o salário mínimo, descola-lo do orçamento, para fazer ajuste fiscal legal, e, assim, sair da crise.

Se entrar nessa, aposta na agitação social e na queda de popularidade.

Perderia ou ganharia, com isso, eleição municipal, em 2020, e presidencial e parlamentares, em 2022?

As cabeças mecanicistas, como as que comandam o governo, correm risco de namorar com regime de força.

Estão ainda na era ricardiana da economia clássica, no início do século 19.

Consideram salários custos para as empresas e não renda para a economia, sem a qual elas não sobrevivem.

Afinal, sem consumo dos assalariados, não há produção.

Ricardo justificou arrocho salarial ao formular lei dos rendimentos decrescentes no ambiente em que a renda da terra e o padrão ouro ditavam a acumulação capitalista sob libra inglesa.

O cultivo das terras mais distantes aumenta custo de produção do dono da propriedade.

Para sustentar os lucros crescentes, reduzia salário.

Era lógico, economicamente, falando.

Na era industrial, da inteligência artificial, a lei de Ricardo é ilógica.

Ele acumula lucros crescentes diante do aumento exponencial da produtividade.

Por que os salários teriam que continuar decrescentes?

Os salários, pela lógica, teriam que ser crescentes, para consumir a produção crescente.

Por que, até, hoje, os neoliberais lançam mão de Ricardo?

Malthus x Ricardo

Malthus, anti-neoliberal, disse que a economia capitalista é ciência triste.

É subjugada pelo aumento da produtividade que eleva desigualdade social no reinado da lei dos rendimentos decrescentes de Ricardo.

Defendia trabalho improdutivo, como reação ao subconsumismo capitalista, imposto pelos rendimentos decrescentes.

Keynes nasce com Malthus.

Como o sistema produz, intrinsecamente, desigualdade, a solução, para evitar o colapso, é contrapor ao aumento da produtividade o aumento da improdutividade.

Emprego improdutivo para garantir produtividade!

O trabalhador perde o emprego, mas precisa comer.

Sem o consumo, a máquina humana e a capitalista param.

Malthus defendeu trabalho improdutivo pago pelo Estado para gerar consumo para setor privado.

Trata-se de gastos para garantir investimento.

Dívida pública vira dínamo desenvolvimentista.

A lei ricardiana, ao contrário, condena capitalismo à permanente insuficiência de consumo.

Os neoliberais, anti-Malthus, anti-Keynes, defendem combate ao trabalho improdutivo em nome da produtividade máxima.

Equívoco total.

Aprofundam a profecia de Marx: salário zero ou negativo na sua expressão máxima do termo produz crônica insuficiência de demanda e crise deflacionária.

Certamente, garante pleno emprego neoliberal: não falta trabalho, desde que o trabalhador aceite salário zero ou negativo disponível.

Tem que pagar para trabalhar.

As recessões e os desempregos são a lógica da lei dos rendimentos decrescentes em contraposição ao avanço da produção e da produtividade exponenciais.

Gasto x investimento

Salário zero ou negativo derruba inflação, mas é anti-multiplicador de riqueza e multiplicador de desigualdade.

Já salário real, inflação + crescimento do PIB, ao contrário, é fator de multiplicação.

Com essa estratégia, entre 2003-204, Brasil acumulou reservas de R$ 1,5 trilhão.

Guedes quer a destruição do salário mínimo em nome da lei dos rendimentos decrescentes que aprofunda subconsumismo.

A eterna discussão, portanto, prossegue: salário é custo/gasto ou renda/investimento?

Ah!, não pode subir salário mínimo, porque impacta custos da Previdência, alarmam-se os neoliberais neoricardianos, bolsonaristas.

O governo, dizem, gasta, com reajuste do SM, algo em torno de R$ 300 bilhões.

Não há déficit que aguente!

Vende tudo!, defendem, radicalmente.

Prá onde vai o dinheiro dos aposentados, maioria, esmagadora, composta por quem ganha até 2 salários mínimos?

Direto para consumo, que gera arrecadação imediata.

60% da renda municipal, que dinamiza desenvolvimento regional, são de aposentados.

Se governo eliminar os R$ 300 bilhões de “gastos” com a previdência, deixando de aumentar mínimo conforme inflação e crescimento do PIB, não terá renda para investir.

Qual prejuízo maior para sociedade: gasto de R$ 300 bi com SM ou renúncia de receita de R$ 480 bi que o SM proporciona, sabendo que cada R$ 1 jogado na circulação dá retorno aos cofres públicos de R$ 1,6?

Governo/estado emissor de capital é capital.

Faz dinheiro girar e multiplicar.

Escassez x Abundância 

A destruição do salário mínimo, submetido à decadente lei dos rendimentos decrescentes, interrompe circulação de capital, que gera arrecadação e investimentos.

Aprofunda desigualdade, que, como diz Armínio Fraga, espanta capital, temoroso de conflito social.

O capital especulativo está diante do seu maior desafio histórico:

1 – insistir no salário zero ou negativo(acabar com o mínimo), que produz deflações, desigualdades, e ameaças ao sistema?; ou

2 – praticar, como já ocorre nas economias desenvolvidas, juro zero ou negativo, para evitar implosão da dívida pública e destruição de si mesmo?

Cortar os dedos ou entregar os anéis?

Juro zero ou negativo é o inverso da estratégia da escassez ultraneoliberal, vigente, ou seja, juro, artificialmente, alto para garantir lucros exorbitantes aos sanguessugas do endividamento público.

Juro zero ou negativo segura a dívida, mantendo-a como instrumento desenvolvimentista, sinalizador de abundância.

Calcula-se que a estratégia da escassez acumula reservas de cerca de R$ 4, 5 trilhões, no circuito Banco Central-Tesouro Nacional.

Se esse dinheiro fosse para circulação, juro e dívida despencariam, espetacularmente.

Juro zero ou negativo, sobretudo, evita salário zero ou negativo.

Consequentemente, afasta perigo de deflação, maior inimiga do capitalismo, segundo Keynes.

Evitar salário zero ou negativo com juro zero ou negativo é garantir dívida pública como instrumento capitalista desenvolvimentista.

Sem a dívida como irrigador e enxugador de capital, o capitalismo morre de inanição.