Poliamor, o colapso do machismo

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Era do corno manso

Os canais da burocracia estatal executiva e suas relações de poder com o legislativo, judiciário e setor privado simbolizam, no ambiente da corrupção tupiniquim,  canal de esgoto no qual transita o inescrupuloso mundo dos interesses de classe da elite reacionária e antinacionalista brasileira.
Tudo regado, claro, à leniência, malemolência do toma lá dá cá, interminável.
Os partidos políticos, indiferenciados em suas caracterizações ideológicas, rendidos ao liberalismo de Washington, são as peças que azeitam os canais burocráticos, conduzindo-os no processo de irrigação de todas as cabeceiras.
Nesse cenário, o globetrotter H. Doyle, codignome do jornalista, empresário, professor, consultor político, documentarista, escritor, Hélio Doyle, iniciando no romance, “Interregno”, editora Chiado, 385 pgs, tem Brasília como personagem central.
Expõe sua exuberância, fluindo nas imagens de construções e armações do roteiro da novela, para acompanhar um triângulo amoroso em meio à crise política do impeachment.
Paula, linda, inteligente e gostosa, personagem central de “Interregno”, movimenta-se exuberantemente no universo empresarial-estatal-parlamentar-jurídico, como relações públicas, manobrando, pragmaticamente, o mercado das comunicações e do marketing governamental em sua totalidade.
Atua como modus operandi dos negócios, conduzidos pelos lobbies, nacionais e internacionais, que exigem profissionalização e eficiência máximas, como segurança das transações.
Amadores não têm vez.
Paula está inserida de corpo e alma, nesse mundo, no qual as relações são, sistematicamente, espúrias, porque envolvidas por legislações flexíveis aos acertos econômicos e financeiros de grandes interesses que rolam na relação público-privada.
Todos têm tesão em Paula.
Inteligente, linda, sedutora, irresistível e, politicamente, indiferenciada, claro.
Seu pragmatismo profissional é de classe média alta em intermediação com as classes mais altas, que dão as cartas no comando do Estado.
Enquanto abomina os assédios em geral, submete-se à lógica brumosa das negociatas, sempre calcadas na letra da lei, suficientemente, móvel às adaptações, em metamorfose ambulante.
Estamos no mundo badalado da comunicação, publicidade, relações públicas, marketing, mentiras, viagens, convenções, armações, jantares, teatro, hotéis, baladas, envolvimentos sutis, tudo a serviço do convencimento para fechamento de contratos milionários.
Não faltam fantasias da noite, mulheres maravilhosas etc e tal.
A conta, claro, vai para o contribuinte e o lucro/benefício, para minoria de sempre, que paga muito bem o trabalho de Paula, garantindo-lhe alto padrão de vida, na capital, com direito a viajar pelo mundo.
Do ponto de vista, moral/comportamental, porém, Paula é tremenda conservadora.
É escrava do poder e da força do contrato social do casamento burguês, no qual a mulher se insere como objeto de desejo e manipulação nas relações com os homens.
Dessa escravidão, Paula conserva, como valor absoluto, a monogamia sexual.
Poligamia, para ela, é palavrão, mas o mundo dela vai mudar.
Embora estando em segundo casamento e tendo chifrado o  ex-marido com o atual, mais velho, que a conquistou, Alexandre, publicitário, suas convicções morais atam-na aos rigores do comportamento pequeno burguês falso moralista.
A aparência se sobrepõe à essência dos fatos essenciais da existência.
O rígido padrão moral de Paula será, como a novela descreve, com leveza, sutileza e argúcia, testado na prática da sedução internacional, pelo poder do dinheiro.
O milionário bonito e sensual trinitário negro, Rafhael,  que tenta conquistá-la, lançando mão da sabedoria militar, do estrategista chinês Sun Tzu, exigirá da conservadora Paula uma revolução interior, mexendo com todos seus alicerces morais.
Desgasta-se, emocionalmente, para construir nova fortaleza interna que de fortaleza, na verdade, não tem nada, porque está sujeita às chuvas e trovoadas das circunstâncias amorosas irresistíveis, regadas pela grana.
Nesse vendaval, cujo pano de fundo é o estado corrupto nacional, tem que conviver com marido ciumento – ela também é – e criar dois filhos, nos melhores colégios, para se habilitarem à Harvard, objeto de desejo da elite burguesa tupiniquim.
Paula é alvo do capital, como mercadoria, para abrir grandes tacadas.
A mulher, nesse patamar, ainda não se libertou da condição de escrava do contrato social matrimonial.
Não entrou em sua plenitude, que ocorre, como diz Marx, quando ela se abre, livre do casamento, à prostituição geral, no socialismo, como descreve em Manuscritos Econômicos e Filosóficos.
Aí escolhe seus parceiros, virando o jogo machista.
A revolução marxista ainda não está no horizonte de H. Doyle.
Sua personagem é escrava do arranjo contratual econômico, político, moral, cínico e oportunista burguês, essencialmente, discricionário, sem regras claras, quanto mais o capitalismo esteja, como agora, em crise.
Paula vive o fenômeno da modernidade das relações que entram em contradição com seus pensamentos.
A imaginação do autor é exuberante e livre, como ocorre nos milagres da ficção.

Novo conceito de amor

O roteiro se desdobra dos novos conceitos de relacionamento que o mundo de Paula reproduz, do qual se extrai moralidade de conveniência.
A novela de H. Doyle é jogo de espelho e narrativas do sentimento da classe média alta brasiliense/carioca.
O romance nasce nas praias do Rio, em tempos de férias, com família, e tem como substrato o velho ciúme que irrigou imaginação de Nelson Rodrigues, para construir passionalidades suburbanas.
Ciúme, medo e insegurança permeiam as relações tensas, do princípio ao fim, em meio ao jogo tripartite amoroso que se desenrola no cenário paradisíaco de Trinidade Tobago, no Caribe.
Está em cena o novo conceito de amor, Poliamor, que se abre às relações conjugais como revolução comportamental do século 21.
Doyle engendra, na estória, Milena, psicoterapeuta, no triangulo amoroso – Paula, Alexandre Rafhael – , adepta da psicóloga Regina Navarro.
A psicologia racionalizante dos casais, maduros, emocionalmente, até onde pode ir, sem explodir, atua como flexibilização espiritual civilizatória, em situações escaldantes na relação material homem-mulher.
Milena é surpreendente em seu papel de introduzir o novo, ousado e temeroso conceito revolucionário, jogando, sempre, pesado contra o machismo, abalando falsos moralismos.
O Poliamor é uma etapa de avanço pequeno burguês em que ainda não se põe em xeque a propriedade privada, como limite para a liberdade da mulher.
Com o Poliamor, a mulher, ainda, não vai à prostituição geral, proclamada por Marx, mas já produz estragos violentos no machismo.
O conflito dolorido de Alexandre, que ama Paula, para racionalizar o amor que Paula sente por Raphael, sem poder para reprimi-lo, mexe com os nervos machistas.
A flexibilidade comportamental, prenúncio de novos tempos, atua como vanguarda para abalar convicções.
O roteiro de H. Doyle tem poderoso charme artístico para prender leitoras e leitores até o fim emocionante e tocante, no qual o “Interregno” surge como solução de impacto.
Paula, o poder feminino irresistível, faz, no auge da crise conjugal, a proposta aceita a duras penas pelo machismo machucado.
O leitor espera por ela, mas quando surge leva susto.
Sente, na testa, que está nascendo a era do corno manso.