Paraíbas e Marmiteiros abrem sucessão 2022

Luta ideológica

O capitão presidente Bolsonaro pode ter caído na danação do brigadeiro Eduardo Gomes, um dos heróis das forças armadas brasileiras, eterno pretendente ao posto de presidente, mas derrotado por Getúlio Vargas, em 1944 e 1950.

Agora, como antes, pode ser fatal menosprezar os mais pobres, como fez o brigadeiro, na campanha eleitoral de 1944, chamando a base de Getúlio de malta, sinônimo de marmiteiros.

Bolsonaro chamou os nordestinos de “Paraíba”, uma variação de marmiteiros, na adjetivação genérica preconceituosa e racista contra quem os derrotou na campanha eleitoral.

Está montado cenário da próxima luta política eleitoral: Nordeste continuará na oposição, respaldado por Lula, versus Bolsonaro, que conseguiu juntar as forças antilulistas, em 2018.

Desde então, o capitão não suporta nordestino, sempre deixando vazar sua ira contra o que considera inimigos, aliados do lulismo.

A ojeriza bolsonarista contra o Nordeste se acentua, nesse momento, durante discussão e votação da reforma da Previdência, que destrói o sistema de seguridade social democrata brasileiro.

Os governadores nordestinos falidos desejam guarida na reforma, para se livrarem de despesas previdenciárias, que os sufocam, no ambiente de escassez financeira total.

Querem empurrar o abacaxi das despesas com aposentados para a União.

Os parlamentares nordestinos estão em cima do muro, temerosos quanto a se submeterem às pressões dos governadores, correndo perigo de serem punidos pelos eleitores.

Sucessor de Lula?

Bolsonaro está irritado com os governadores e, mais ainda, com o governador do Maranhão, Flávio Dino, que considera representação de Lula.

Essa polarização acelerada por Bolsonaro indica ou não que está escolhendo o adversário no Nordeste?

Jurista e político, ácido crítico da Operação Lavajato e executivo de sucesso, que ganha amplitude em pesquisas eleitorais, com vista à sucessão presidencial de 2022, Dino virou calo no pé de Bolsonaro.

Calculam-se, prospectivamente, forças oposicionistas que, se candidato, Flávio Dino, poderia unir o Nordeste.

Será?

Como ficaria Ciro Gomes, do PDT?

Embora seja do PC do B, Dino, no fogo cruzado contra Bolsonaro, abre-se, pragmaticamente, às composições, à possibilidade de comandar uma união oposicionista, podendo, até, transferir para o PT etc.

O presidente capitão, candidatíssimo à reeleição, quer comer o fígado do governador maranhense, que se ergue como contrapolo a ele, depois da agressividade preconceituosa e racista de taxa-lo o pior dos “Paraíba”.

Aqui se encontra a história se repetindo como farsa: a identidade política desastrosa do brigadeiro Eduardo Gomes e do capitão Bolsonaro.

Bolsonaro construiu o seu farofeiro, o Paraíba Dino, a ideia Lula em movimento.

Ignorância autoritária

Essa união extemporânea – do brigadeiro com o capitão – tem raízes na histórica política nacional.

Corresponderiam hoje os farofeiros aos paraíbas nordestinos, menosprezados por Bolsonaro.

As pesquisas, em 1944, campanha eleitoral, davam o brigadeiro udenista na cabeça, dado seu charme e engajamento, como militar, em lutas históricas pela democracia, desde 1926, quando participara da Coluna Prestes.

Sua história é heroica, cultuada nas forças armadas, especialmente, na Aeronáutica.

Fora gravemente ferido na batalha do 18 do forte.

Destacou em 1935 contra rebelião comunista stalinista, que fortaleceu laços militares com Washington contra Moscou.

Bonito e charmoso, o brigadeiro das doceiras do Rio, estava fortíssimo – segundo a mídia udenista – para enfrentar Getúlio, representado por Dutra.

O país respirava democracia lutando na Itália.

Getúlio, considerado fascista, estava, politicamente, por baixo, de saia justa com a vitória democrática norte-americana contra o fascismo.

Foi aí que nasceu a arrogante bobagem política fatal do famoso brigadeiro ao tentar menosprezar a base eleitoral getulista, ironizando os farofeiros, em palanque eleitoral.

Burro.

Dutra, brandindo o nacionalismo social getulista, faturou.

O brigadeiro feriu autoestima dos trabalhadores, indo contra interesse dos “Paraíba” farofeiros, desdenhados, agora, por Bolsonaro.

Orgulho nordestino

Bolsonaro revelou ignorância quanto nordestinos, desconhecendo sua história e a recente inserção histórico-desenvolvimentista do Nordeste na economia, com peso significativo na formação do PIB nacional.

Os nordestinos se rebelaram contra a condição de marginais no processo de desenvolvimento econômico brasileiro, quando se tornou insuportável o nível de exploração sobre eles, durante os anos 1990.

Sempre haviam sido bucha de canhão para fornecer valor à industrialização de São Paulo, graças a um sistema tributário colonial.

A tributação executada nos estados produtores e não nos consumidores, esvaziou economicamente o Nordeste, no sistema tributário militarizado do governo Castelo Branco.

Roberto Campos e Gouveia de Bulhões, os Paulo Guedes da ocasião, aplicaram o receituário neoliberal como “sangria depuradora”.

Desbalancearam a distribuição da arrecadação interna para bombear industrialização paulista e acumulação de renda numa classe social para comprar as mercadorias industrializadas paulistas.

Os nordestinos se rebelariam contra esse sistema tributário colonial por meio da atração de investimentos dos capitalistas do sul para irem produzir mais barato no Nordeste.

Nascia a guerra fiscal que levou para o Nordeste industrias historicamente instaladas no sul, no embalo da política desenvolvimentista lulista.

Base sólida

O lulismo criou base política que garantiu vitória dos governadores que levantaram a bandeira lulista.

Bolsonaro quer arriar essa bandeira lulista a qualquer custo.

Dino é uma variação do lulismo social democrata, polo oposto à política econômica antinacionalista, neoliberal recessiva colocada em marcha por Paulo Guedes.

Lula está preso, fisicamente, mas suas ideias estão soltas, comandando o processo político, organizando a oposição a partir da sua base eleitoral forte: o Nordeste.

Bolsonaro pode ter dado passo em falso que fortalece Dino, ao inocular espírito separatista na cena política nacional, cujas consequências afetam ainda mais, a economia em recessão.

A arrogância militar intrínseca à personalidade bolsonariana antecipa a luta eleitoral de 2022?

O brigadeiro e o capitão se encontram no espírito autoritário que abala, ainda mais, a democracia brasileira.

Grande Ataúlfo Alves