João Gilberto se vai no funeral do nacionalismo cultural varguista de onde veio para encantar o mundo

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Hegeliano-marxista

Sérgio Ricardo, genial compositor de Zelão, disse que as melhores lições de marxismo que recebeu na vida vieram de conversas com João Gilberto, pai da Bossa Nova, que acaba de morrer aos 88 anos.

Bebia no materialismo dialético hegeliano, segundo o qual a consciência é como pássaro de Minerva, só voa quando a noite cai.

Hegel é a modernidade, que chega com a revolução francesa, colocando abaixo a velharia medieval sob as patas do cavalo de Napoleão, depois do vendaval jacobino.

No Brasil, o modernismo ganha corpo com revolução tenentista de 1930, comandada por Getúlio Vargas, herdeiro de José Bonifácio, que, embora temesse a república francesa, que, como estudante, viu nascer, nas ruas de Paris, almejava a unidade nacional, construtora dos alicerces básicos do desenvolvimento nacionalista integracionista.

João Gilberto é fruto do modernismo varguista-bonifaciano.

Modelou-se, politicamente, pelo movimento cultural dos anos 1930/50, ao som da música popular, tocada na mídia nacionalista da Rádio Nacional, criada por Getúlio, ideólogo do novo Brasil, que pôs abaixo a República Velha, agora, de volta, com Bolsonaro.

Herdeiro do positivismo e do socialismo, Getúlio conhecia, como destaca José Augusto Ribeiro, em sua monumental “A Era Vargas”, a dinâmica da luta social, desde seus primórdios, como leitor voraz das obras francesas, por meio das quais introduziu Freud e as leis sociais no Brasil.

A era social

O tenentismo revolucionário varguista, no poder, materializou a nova legislação, base essencial para dinamização do mercado interno, de modo a garantir consumidores para as indústrias que sua política econômica nacional-desenvolvimentista impulsionava, com forte dose de autoritarismo político, nos anos 1930-37, no Estado Novo.

A nova ordem social precisou de força para vencer o conservadorismo reacionário escravocrata.

A produtividade capitalista, como diz Marx, surge nas cadeias industriais intermediárias da transformação das matérias primas em manufaturados, expressão do avanço técnico especializado, no processo de divisão do trabalho.

Sem indústria não há divisão do trabalho, não há, portanto, desenvolvimento real do ser humano como produto das relações sociais que, necessariamente, se ampliam por meio dela, no ambiente cultural.

Com a indústria, ocorre a maturidade do homem, seus braços, nervos e cérebros se forjando pela tecnologia que o liberta da escravidão e o prepara para a cultura e a poesia, o paraíso futuro, vivido no sofrimento presente pelos visionários.

A Era JK, extensão da Era Vargas, quando João está com 24 anos, evidencia a euforia nacional decorrente do nacional-desenvolvimentismo varguista, bombeado pelas empresas e institutos estatais, leis do trabalho e da produção, justiça social e democratização do poder, no modelo social democrata europeu.

Trata-se de infraestrutura produtiva e superestrutura jurídica do capitalismo nacional, cujos alicerces serão rompidos pelo neoliberalismo que coloca o modernismo iluminista para escanteio no ambiente do fundamentalismo religioso bolsonarista retrógrado.

Nada a ver com João Gilberto, cuja formação cultural e artística surge com o nacionalismo, com o acordar do homem brasileiro para suas potencialidades artísticas globais, orgulhoso por empreender e sem medo de ser feliz.

João morre com a morte da estrutura produtiva varguista que vai sendo entregue na bacia das almas, pelos ultraneoliberais, aos algozes do desenvolvimento nacional, despertando sentimento contrário ao que propiciou o nascimento da Bossa Nova

Batida mágica

A batida do violão de João Gilberto, encanto mundial, é revolução modernista, que abre as portas da percepção artística do povo brasileiro.

Sem pedir licença, ela entra nos salões globais e encanta plateias, como Mozart, Bach e Beethoven encantavam.

João deslumbra Paris, como deslumbrou o nacionalista genial Villa Lobos, varguista, na tarefa de espalhar para as crianças, nos estádios, as lições de canto orfeônico.

Vargas e JK, que brigou com FMI, para construir Brasília, são o nacionalismo em movimento de afirmação do Brasil na cultura universal, deixando as vestes de colônia, para se expor como produto autônomo, soberano.

O imperialismo, claro, estava de olho nessa transformação orgânica, assentada na riqueza do petróleo, base do moderno poder econômico mundial.

Não queria que a periferia se transformasse em potência e o ameaçasse.

O suicido de Getúlio é resistência à tentativa imperialista de retornar o Brasil à situação passiva de colônia, eterna produtora de matérias primas e semielaborados, subordinada à permanente deterioração nos termos de troca, a mantê-la eternamente dependente.

Nesse ambiente, a alma humana não se desenvolve por inteiro – é uma meia alma vira-lata.

João Gilberto já nos anos 1960, depois de JK, vê a situação política deteriorar-se, e se manda para os Estados Unidos, de onde, encantando plateias, viu avançar as botas da ditadura sobre a cultura emergente getulista-juscelinista.

Voltaria ao Brasil no final dos anos 1970, depois de viver em Nova York e México e circular pelo mundo, fazendo escola.

Fundamentalismo neoliberal triunfante

Sua volta o leva à reclusão total em um Brasil dominado por ditadura, com traços nacionalistas, mas que iria se desestruturar organicamente na fase liberal, submetida à orientação do Consenso de Washington, do poder de Tio Sam, americanizando geral a cultura nacional e sul-americana.

O ataque imperial às conquistas nacionalistas – como as deformas trabalhista e da previdência – foi e é uma constante empreendida pelos neoliberais da Nova República, no decorrer da qual a invasão cultural americana abastardou a alma brasileira.

A era petista desbancou os neoliberais, com o entreguista FHC à frente, mas não venceu o neoliberalismo alienígena.

O lamento lulista, nesse momento em que se encontra encarcerado em Curitiba, por ter colocado, no pescoço, o lenço vermelho de Vargas, no período pré-eleitoral de 2018, depois do golpe neoliberal de 2016, se volta para oportunidades perdidas de afirmação do nacionalismo cultural.

Lula não fez como Getúlio, abrindo a cultura à verdadeira energia nacionalista por meio de regulamentação do poder midiático oligopolizado antinacional.

Na Rádio Nacional getulista havia florescido a cultura popular e os movimentos culturais que desembocaram na revolução rítmica joaogilbertiana bossanovista.

Sem a cultura política de Getúlio, Lula se enganou e deixou a Rede Globo comandar o espetáculo anticultural conservador, politicamente, reacionário, golpista.

Personagem descontextualizado

João Gilberto, morto, encheu o espaço do JN, mas o seu obtuário, feito pelos globetes, não o revelou personagem sociologicamente produzido pela revolução de 1930, base da luta nacionalista, contra a qual a Globo, serviçal de Washington, se bate dia e noite.

O povo brasileiro, certamente, estranhou-se com o desconhecido artista genial no momento da sua morte, pois, a divulgação da sua arte, em vida, não foi uma constante, no oligopólio midiático global, capaz de torna-lo popular, consagrado pelas massas.

Ele aconteceu lá fora e se impôs pelo silêncio aqui dentro, deixando todo mundo atarantado com sua reclusão.

Transformaram-no em ser exótico, alvo de chacotas, antes de ser respeitado como revolucionário marxista da cultura nacional.

Sua reclusão é sua fuga à mediocridade tupiniquim.

João, isolado e esmagado por dívidas, morre quando empresários, igualmente, endividados pela política econômica entreguista, suicidam-se, inconformados com o sucateamento privatista da empresa estatal, que deu impulso ao movimento cultural no qual se consagrou o autor de Obalalá.

O neoliberalismo bolsonariano aniquila as bases nacionalistas sobre as quais ergueu a arte brasileira moderna que produziu João Gilberto.

Sua morte é sua libertação de tormento fundamentalista anticultural, que pesa sobre os brasileiros, sem data para terminar, eivado de presságios e expectativas pessimistas.

Adeus, Brasil!

Uma resposta para “João Gilberto se vai no funeral do nacionalismo cultural varguista de onde veio para encantar o mundo”

  1. E ASSIM VÃO DESAPARECENDO DE CENA OS EXPOENTES DA CULTURA NACIONAL E DO ENQUANTO ISSO, VICEJAM OS VENDILHÕES DA PÁTRIA COMO JAIR “MESSIAS” BOLSOASNO E SUA TRUPE DOS CHICAGO’S BOYS.
    BANDO PERNICOSO QUE TOMOU DE ASSALTO O BRAZIL, COM Z, HOjE QUINTAL, COLÔNIA E REPUBLIQUETA DAS BANANAS DE UNCLE SAM – “Tio Sam” (EUA).

    IGNÓBIL, PUSILÂNIME, VERGONHOSA A POSIÇÃO DO PAÍS NO CENÁRIO INTERNACIONAL!

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