Future-se ou Fature-se? Eis o neoliberalismo universitário

Privatização universitária e nova esquerda cooptada pelo Consenso de Washington reúnem Waintraub e Tábata no jogo neoliberal bolsonariano.

Financeirização universitária

Abraham Weintraub, ministro da Educação, homem do mercado financeiro, ideologicamente, neoliberal, como Paulo Guedes, quer transformar as universidades públicas em máquinas de ganhar dinheiro.

No ambiente do congelamento neoliberal de gastos públicos, em nome da austeridade fiscal a qualquer custo, elas virarão fundos de investimentos, a partir dos patrimônios da União, incorporados a eles, pelo MEC, a fim de serem transferidos, via concessão, aos investidores privados.

Cada pedaço da Universidade será explorado, concessionariamente, por empresários, com livre trânsito e direito, para comercializá-lo, na linha Coca-Cola.

Os fundos, formados pelos ativos públicos, geridos pelo setor privado – raposa tomando conta do galinheiro – atuarão conforme leis do mercado financeiro.

Serão aplicados recursos no mercado de ações, buscando as melhores oportunidades, para obtenção de máximas rentabilidades.

É o que aconteceu com os fundos de pensão, nos anos 1980 e 1990, Era FHC, seguida, também, da Era Lula, na tarefa de dinamizar mercado de imóveis.

A grana dos fundos das estatais foi potencializada, no mercado, para garantir aposentadorias futuras.

Mas, como é da natureza do capitalismo, o risco é a tônica do negócio: pode dar certo ou errado.

Quando o dinheiro, seguindo a lógica da especulação, apostou em ativos superaquecidos – ou superaquecendo-os, em busca da maior e melhor lucratividade – que acabaram, em meio à volatilidade, desvalorizando-se, quem jogou, perdeu.

É o negócio da bolsa: os espertos, que chegam na frente, ganham.

A boiada, que vem atrás, dança.

Incerteza total

Os patrimônios de funcionários e servidores e, igualmente, de trabalhadores privados, que entraram nessa onda, ficaram sujeitos aos vais e vens da economia capitalista global em permanente instabilidade, sujeitas não às determinações internas, mas, naturalmente, às externas, acabando por virar, muitas vezes, pó.

O crash de 2008 foi bastante didático.

O que se imaginou para o futuro, aposentadorias gordas, resultantes de rendas auferidas nas aplicações de grandes empreendimentos imobiliários, nem sempre se realizou.

Entraram em bancarrota, no ambiente da economia brasileira, eternamente, sujeitas às ondas cambiais impostas pela deterioração nos termos de troca, dadas as características dela de ser primário exportadora – vende barato matérias primas e importa caro manufaturados, endividando-se para pagar o prejuízo, em permanente círculo vicioso.

No princípio, tudo maravilha, o capital – interno e externo – impulsiona os negócios.

Num segundo instante, como o capital visa a sobreacumulação, sempre, e precisa ser remunerado, obriga o devedor a tomar mais empréstimos, pagando, por isso, juros sobre juros, em escala incontrolável, em meio à economia dependente, que sobreacumula, em contrapartida, insuficiência crônica de consumo.

O que se pensa, relativamente, às universidades públicas, seguirá ou não esse mesmo caminho, se a lógica capitalista obedece o mesmo padrão de acumulação?

Modelo Tio Sam

Waintraub busca modelo das universidades americanas, bancadas pelos investimentos privados e sustentadas pela sociedade rica, que paga mensalidades caras, submetendo-se à pratica do acúmulo histórico de poupança, pelas famílias, para garantir educação dos filhos.

Não há o espírito da escola pública, na linha nacionalista, pensada por Anísio Teixeira, Chico Campos, Darci Ribeiro, Brizola etc.

É o ensino norte-americano, financiado pelas fundações privadas, que, desde os anos 1960, cuida de disseminar, ideologicamente, as diretrizes do Acordo de Bretton Woods, de 1944, no pós guerra.

Os Estados Unidos, poderosos vencedores, com o dólar a ditar as regras da divisão internacional do trabalho, cuidaram de administrar ensino politicamente conservador, para fazer frente às ideologias socialistas, disseminadas depois da revolução soviética de 1917.

Para afastar o espectro do comunismo, os americanos partiram para o Plano Marshall, cujo objetivo foi, no plano econômico, acumular déficits comerciais, bancados por superávits financeiros, oriundo do poder de emitir moeda internacional, a fim de reerguer a Europa, evitando avanço soviético.

O Banco Mundial – seguido de fundações privadas poderosas, como a Fundação Ford, Rockfeller etc – cuidaram da disseminação de “nova” esquerda, ideologia social alternativa à pregação socialista, para evitar a avalanche revolucionária leninista-trotskista.

No Brasil, esse esquema funciona desde os anos 1960, e a Fundação Ford, cuidando de exercitar esse papel, atua desde 1962, financiando intelectuais cooptados, à esquerda e à direita.

A direita sempre defendeu disseminação dessa ideologia amansadora de consciências propensas à revolução marxista.

Porém, a herança universitária brasileira, ancorada no nacionalismo varguista, disseminou-se país afora, embora ocorresse o contraponto, com criação da Universidade de São Paulo(USP), nos anos 30, para reagir à revolução varguista, com a contrarrevolução de 1932.

Nem os militares conseguiram destruir o processo universitário de linha nacionalista, porque eles, como Geisel, vinham do tenentismo que bancaram a revolução de 1930.

Consenso de Washington em cena

A coisa começou a mudar a partir da Nova República, com a falência da economia, endividada em dólar, depois que os americanos, no final dos anos 1980, puxaram as taxas de juros e quebraram a periferia capitalista, submetendo-a ao Consenso de Washington.

Com Lula, no poder, o ensino universitário democratizou-se, ampliando viés nacionalista, mediante programas de inserção dos mais pobres nas universidades, mas, também, incrementou-se, por meio do Fies, financiamento público para pobre estudar em universidade privada.

Depois do golpe neoliberal de 2016, o espírito privatista ganhou impulso.

O que se vê, agora, com Waintraub no Ministério da Educação, é mudança estrutural da universidade pública, tornando-a privada, abrindo-a à denominada Nova Esquerda, de viés liberal, cooptada pelos princípios do Banco Mundial e das fundações privadas.

A deputada Tábata Amaral(PDT-SP) é um desses expoentes da Nova Esquerda, cooptada pela fundação privada do bilionário Paulo Lemman, que a banca, para votar pelo fim do Sistema de Seguridade Social Democrata, no Brasil.

Com ela nasce o “Future-se” de Waintraub, com o nítido espírito de “Fature-se”.

Disseminar novo conceito universitário, na linha americana, empreendedorista, calcada no individualismo, eis a nova ordem universitária.

Ela bate pelo fim do espírito coletivo, que, politicamente, consciente, agita, ideologicamente, pelas mudanças mais radicais, socialistas.

Nesse sentido, a universidade pública, ancorada no empreendedorismo utilitarista, caminha no sentido da privatização do total do ensino público.

É a missão bolsonarista, agitada por Waintraub, em marcha.

República dos tolos