Crise capitalista bombeia socialismo

O sonho não acabou

The Economist, mais importante revista de economia do mundo, debate, como matéria de capa, nessa semana, o retorno do socialismo, como alternativa à crise do capitalismo, antevista pelos especialistas em geral, diante da crise do estado keynesiano, atolado em dívidas, incapaz de continuar puxando demanda global capitalista; ensaia-se novo colapso semelhante ao de 2008, que jogou por terra as finanças públicas como motor desenvolvimentista, depois que, em 1929, a economia de mercado, o lassair faire, entrou em bancarrota.

Em 2008, o sistema não incendiou porque o BC americano, dominado pelos banqueiros, correu para salvá-los; estavam abarrotados de papeis bichados; recolheu-os, rapidamente, por meio de megas expansões monetárias, emissões de papeis novos, para substituir os antigos, que apodreceram; na sequência, ditaram aos devedores, encharcados de moeda podre, terapias ultraneoliberais, tipo essa que Paulo Guedes capitaneia, no Brasil; a palavra de ordem da banca aos devedores foi entregar tudo, como resgate da conta de juros e amortizações; tal estratégia exige, sobretudo, destruição do Estado nacional e retorno à ordem neoliberal, apoiada no padrão ouro, século 19, no lassair faire; o problema é que essa saída deixou, já no final do século 19, de ser funcional, pois levara o capitalismo à crise de 1929. A proposição dos banqueiros, em 2008, portanto, seria, para a humanidade, voltar ao útero materno; só Freud explicaria.

Volta ao padrão ouro

Durante o século 19, o capitalismo, como destacam Marx, Malthus, Hobson, Dobb, Hilferding, Lenin, Keynes, Mandel etc, desenvolveu-se por meio de dois departamentos complementares, que entraram em colapso na crise neoliberal de 1873-1893: departamento I, produtor de bens de consumo, e departamento II, produtor de bens de produção(máquinas para produzir máquinas); ambos se sustentavam, no plano macroeconômico, no padrão ouro, no equilibrismo orçamentário; quem gastasse além das reservas de ouro disponíveis, lastro para emissão de moeda, tinha de cortar salários, em obediência à lei de Ricardo dos rendimentos decrescentes, nascida quando a renda da terra ditava ritmo da taxa de acumulação capitalista; as terras novas, mais distantes dos centros de consumo, impunham custos mais altos; para compensá-los, os capitalistas reduziam salários, para manter constante sua taxa de lucro.

Porém, no capitalismo industrial, pós-Ricardo, embora os rendimentos fossem, ao contrário, sistematicamente, crescentes, como novo fator de acumulação do capital, devido ao aumento da produção e da produtividade, dada pelo avanço tecnológico, continuaram os dois departamentos, I e II, conduzidos pela lei ricardiana, que, naturalmente, levou o sistema a sua máxima contradição: acumulação de riqueza, de um lado, e pobreza, de outro; confirmou-se, então, a pregação de Marx:

“A razão última de todas as crises reais é sempre a pobreza e restrição ao consumo das massas em contraste com o impulso da produção capitalista a desenvolver as forças produtivas como se estas tivessem seu limite apenas na capacidade absoluta de consumo da sociedade. “

Resultado: o sistema, organizado pelos dois departamentos I e II, sob padrão ouro, marcharia, inexoravelmente, para a insuficiência crônica de consumo, bombeadora de deflação, maior inimiga do capitalismo, segundo Keynes. Optar pela deflação, ou seja, pelo equilibrismo orçamentário neoliberal, pelo lassair faire, seria, segundo o autor de Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, erro eterno; afinal, foi ele que, depois da crise neoliberal de 1873-1893, impulsionou os movimentos revolucionários na Europa, o nascimento dos sindicatos, a pregação socialista, que desembocaria na revolução comunista russa de 1917 etc.

Nasce departamento III: economia de guerra

O colapso de 29 representaria corolário do padrão ouro equilibrista imposto pelo lassair faire, afogado no subconsumismo antevisto por Marx, em seu diagnóstico, segundo o qual o capitalismo desenvolveria ao máximo as forças produtivas, entraria em senilidade e passaria a desenvolver, dialeticamente, as forças destrutivas, na guerra, a partir de novo padrão monetário, ditado pelo Estado, que ele não desenvolveu, mas, apenas, esboçou; essa tarefa ficaria para Keynes.

Diante da bancarrota deflacionária, expressa na queda violenta da produção dos departamentos I e II(bens de consumo e bens de produção), nasce o keynesianismo, cuja base é o deslocamento do Estado para o plano do consumo, a fim de puxar demanda global estagnada do lassair faire, mediante emissão de sua própria moeda, o state Money; o padrão ouro, a partir de então, como disse Keynes, viraria “relíquia bárbara”.

Evidenciou-se o colapso: os Estados Unidos, que possuíam, em 1929, frota de automóveis de 27 milhões de unidades e produção anual de 5 milhões de carros, passaram a produzir, em 1931, apenas, 900 mil; a crise se estende até 1943, quando a produção caiu para 700 mil; a produção de bens duráveis de luxo – automóveis, geladeiras, eletroeletrônicos e eletrodométicos – deixou de ser carro-chefe da demanda global capitalista.

Keynes, em 1936, sopraria no ouvido de Roosevelt:

“Penso ser incompatível com democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego –, salvo em condições de guerra; se os Estados Unidos se INSENSIBILIZAREM para preparação das armas, aprenderão a conhecer sua força.”

Materializa-se a pregação de Marx de que o capitalismo deixaria de ser dinamizado pelas forças produtivas, para dar lugar às forças destrutivas, na guerra; sai de cena as mercadorias(bens de produção e de consumo), para dar lugar às não-mercadorias(produtos bélicos e espaciais, consumidos por moeda estatal), como conceituou, genialmente, Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”, 1980, Ed. Campus; o Estado consumidor keynesiano/malthusiano entra em cena, para: 1 – congelar os departamentos I e II, mantendo-os no reinado da escassez, de modo a evitar excesso de produção frente ao consumo, que leva à deflação, e 2 – muda, dialeticamente, o padrão de acumulação capitalista.

Aposentou-se, portanto, o padrão ouro(relíquia bárbara), substituído pela moeda estatal inconversível; a moeda perde, com Keynes, sua pretensa neutralidade macroeconômica, para ser, por meio da expansão da dívida, a dinâmica do capitalismo de guerra, cuja base de sustentação é a capacidade de endividamento estatal.

Ingenuamente, os neoliberais, ainda hoje, pensam que se acabar com a dívida(zerar déficit primário – receita menos despesas, exclusive pagamento de juros), elimina-se a crise(há, há, há)

Fim de uma época

A bancarrota financeira global de 2008 demonstrou o fim do fôlego keynesiano como carro-chefe do capitalismo global puxado pelos gastos americanos em produção bélica e espacial, cujo retrato falado é a construção de mais de 180 bases militares do império espalhadas nos cinco continentes.

Já nos anos 1970, o fôlego esgotado se prenunciava; os déficits, produzidos pela guerra do Vietnan, haviam, desde 1944, alcançado 140% do PIB; Nixon, pressionado pelos que tinham ouro depositado no Forte Knox, como a Alemanha de Willy Brant, decidiu descolar o dólar do ouro, deixando a moeda flutuar, selvagemente.

Acompanhava essa decisão imperial pregação pela liberação geral da circulação de capital financeiro pelo mundo, ancorado no dólar, deslastreado do ouro, mas lastreado nas bombas atômicas, no poder bélico e espacial em constante expansão; o colapso desse novo cenário, em 2007-2008, demonstraria a impossibilidade de continuidade eterna do remédio keynesiano; a dívida pública mundial alcançara os 65 trilhões de dólares, enquanto, no mercado global, a circulação de dólares e seus derivativos superava 700 trilhões de dólares.

Repeteco do crash de 1929, com muito maior virulência; assim como deixara de ser funcional produção de automóveis, para dinamizar a taxa de acumulação capitalista, porque preços foram ao chão, da mesma forma, emitir dinheiro em cima de mais dinheiro, apenas, desvalorizaria ainda mais, a própria moeda americana.

Inicialmente, os banqueiros recolheram as moedas podres, para emitir novas moedas, jogando-as, mais parcimoniosamente, na circulação; porém, a capacidade de endividamento dos estados, em escala global, para continuar esse jogo, deixou de funcionar; a moeda de Tio Sam se desvaloriza como desvalorizaram os carros diante da superprodução, virando moeda podre.

Quem vai comprar máquinas novas, para colocar no lugar das que estavam paradas?; quem vai emitir novas moedas, para substituir as que deixaram de ter valor?

Eis o dilema da nova crise global em marcha.

Blá, blá, blá neoliberal

A bancarrota do departamento III(gasto estatal), como carro chefe da demanda global, está á vista; os neoliberais, como Paulo Guedes, orientado por Chicago, pregam retorno aos departamentos I e II, como se essa etapa histórica não tivesse sido já ultrapassada há 88 anos; ora, o departamento III, como anteviu o excomungado Marx, surge, exatamente, para tirar os departamentos I e II da crise de realização de lucros, sob a economia de mercado, sob o lassair faire.

Sem o departamento III, os departamentos I e II não sobrevivem.

Acabar com o Estado seria solução ou mais problema?

A falta de saída do capitalismo tem deixado a classe média propensa ao fascismo, como aconteceu, no Brasil, na eleição de 2018; o mesmo ocorre, agora, na Espanha; em toda a Europa, a mesma ladainha; acena-se para a direita, como boia de salvação; essa alternativa, porém, é pura miragem; o capitalismo de guerra, que viera para salvar o capitalismo de mercado, entrou, também, em crise; abre-se, dessa forma, tempo de incerteza.

Não há, na proposição neoliberal, saída para o maior problema da economia: o desemprego, já na casa dos 20%, se for levada em consideração a massa de desalentados, que deixaram de procurar trabalho.

Os países capitalistas, atolados de desempregados, discutem direito de consumo; o ser humano deixa de trabalhar por falta de oferta de trabalho, mas não deixa de comer; continua consumidor; se não comer, entra em cena o mesmo dilema que o sistema entrara no final do século 19: reforma ou revolução?

O keynesianismo produziu a reforma, o estado do bem estar social; mas o esgotamento do Estado como produtor de dívida, que cresce no lugar da inflação, sinaliza nova crise.

Certamente, por isso, The Economist lança a discussão incômoda para os capitalistas: socialismo ou barbárie.

 

https://www.economist.com/leaders/2019/02/14/millennial-socialism