Nacionalismo ou neoliberalismo militar à vista?

Nova ordem

Seja Haddad, seja Bolsonaro, o vencedor vai ter que abrir espaço para novo coadjuvante na formulação das políticas públicas: os militares.

Eles, segundo a mídia, elaboram 40 projetos para assessorar o novo governo, supostamente, Bolsonaro.

Mas, se o capitão não ganhar, o que seria surpresa, dadas pesquisas que o favorecem, amplamente, nessa semana, os projetos militares estarão, igualmente, em cena.

O vencedor vai dispensar, para colher o não-apoio das forças armadas, ou incorporar a contribuição delas, se forem pertinentes e democráticas?

Agenda militar 

Seja Haddad, seja Bolsonaro, dificilmente, a agenda neoliberal do governo Temer, que, também, compõe a agenda de Paulo Guedes, guru de Bolsonaro, continuaria incólume.

O neoliberalismo do ilegítimo Temer é o grande derrotado no primeiro turno, com os candidatos do PSDB e PMDB, bases do governo.

Política antinacional de preços dos combustíveis, que destrói poder de compra dos salários, mercado interno, arrecadação e investimentos, dificilmente, continuaria, seja com Haddad seja com Bolsonaro, sem sofrer revezes, dado que aprofunda arrocho salarial e redução do poder de compra da sociedade, aprofundando crise de subconsumismo.

O discurso de Haddad, nacionalista, reafirma economia política lulista-petista de ampliar participação social no desenvolvimento nacional.

Promete rever a desnacionalização neoliberal da Petrobrás.

Haddad chocou-se de frente e levou à melhor com o discurso ultra-liberal de Paulo Guedes, guru econômico de Bolsonaro.

Na última semana, o capitão acusou o golpe e mudou o discurso.

Empresas estatais estratégicas, disse, não serão privatizadas – Petrobrás, Eletrobrás, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Embrapa etc.

Desmentiu, na prática, Paulo Guedes.

Quem mudou o discurso ultra-liberal de Guedes para o nacionalista de Villas Boas, comandante do Exército, senão os assessores militares?

Bolsonaro chegou admitir preservar o “miolo” da Petrobrás e privatizar refinarias e distribuidoras, mas alertou que se trata de assunto delicado a requerer muita discussão etc.

Há dois discursos em torno de Bolsonaro: o aparente, de Paulo Guedes, neoliberal, e o oculto, dos militares, que, ainda, não tem definição, se nacionalista, se neoliberal, se mistura de ambos etc.

Decepção neoliberal

Os neoliberais tucano foram grandes derrotados, eleitoralmente, estão com pulga atrás da orelha.

Os pais do Plano Real de FHC, mais uma vez, não lograram sucesso nas urnas, algo que ocorre desde 2002.

Gestores de grandes fundos internacionais, economistas tucanos Gustavo Franco, Armínio Fraga, Pérsio Arida e Cia Ltda, ligados, hoje, a George Soros, destacam que Bolsonaro representa volatilidades financeiras incontroláveis.

Pavor geral no mercado.

O fato novo, como destaca o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, entrou em cena, subitamente, para surpresa e espanto geral dos adoradores de bezerro de ouro.

Ninguém, diz, havia feito o cálculo essencial da conquista de espaço político dos militares na agenda Bolsonaro.

A banca, de repente, ficou caluda – calada e muda. 

 Ganhar espaço

As forças armadas jogam com a estratégia de ganhar espaço na guerra de ocupação política do Brasil em que se transformou a luta ideológica depois do golpe neoliberal de 2016.

Bolsonaro, como destacam analistas de vários calibres, seria mera representação, competente, para construir narrativa atrativa à frustração popular diante da desvalorização da classe política no comando de democracia elitista, antinacional, como demonstra o governo ilegítimo Temer.

Por meio do capitão, os militares colocariam em cena seu plano de governo expresso no Plano Nacional de Defesa(PND) e Estratégia de Defesa Nacional(EDN).

Ambos comungam com prioridade ao setor produtivo da economia e não aos setores financeiros especulativos.

Segundo comandante do Exército, general Villas Boas, em palestra, no Ceub, no Dia do Soldado, em 2016, véspera do golpe do impeachment sem crime de responsabilidade, prioridade ao sistema financeiro dificulta exercício da soberania nacional, sob domínio da especulação financeira internacional.

A estratégia desenvolvimentista nacionalista militar contida no PND e na EDN é o norte dos militares brasileiros para um governo soberano e independente, incomungável com a prevalência da especulação financeira, que paralisa a economia.

Ela serve tanto para Bolsonaro como para Haddad, sabendo-se que quem sancionou a estratégia nacionalista desenvolvimentista militar foi o presidente Lula, em 2005 e 2007, depois de aprovada no Congresso.

Nada mais nacionalista, democrático, na linha do programa de Haddad.

Resssurreição neotenentista?

Do ponto de vista dos militares, a estratégia do guru de Bolsonaro, Paulo Guedes, não seria conveniente à implantação do Plano Nacional de Defesa nem da Estratégia de Defesa Nacional.

O pressuposto básico neoliberal do programa de governo do capitão é o congelamento de gasto, adotado pelos neoliberais de Temer, a mando do mercado especulativo.

Ele condena, na prática, em nome da austeridade ultraneoliberal de Paulo Guedes, mais radical, ainda, que a colocada em prática por Temer, os programas nacionalistas desenvolvimentistas dos militares constantes no PND e na EDN.

O resultado eleitoral do plano Temer foi fracasso completo.

Os militares apoiariam governo com proposta neoliberal que destrói popularidade presidencial e o condena à derrota eleitoral?

Ocupariam os militares mais espaço político para apoiar política eleitoralmente suicida?

Se candidatariam a uma segunda desmoralização histórica, depois da que se verificou com a ditadura de 21 anos?

Ou buscam, através de mais protagonismo político o histórico nacionalismo militar neotenentista, agora, generalista?

Ou não é nada disso, e os militares fizeram a opção neoliberalizante, antinacionalista?