Pensamento único neoliberal é desonestidade intelectual total

REDE ESGOTO, GERADORA DA ALIENAÇÃO SOCIAL

O real e a lira turca

O pensamento único neoliberal mecanicista é, além de anti-histórico, desonesto, enganador, reacionário.

Tivemos, hoje, pela manhã, na CBN, manifestação dele por meio de dois repórteres – Carlos Alberto Sardenberg e Gerson Camarotti –, muito prestigiados na Globo, a central da desinformação do oligopólio midiático tupiniquim.

Ao falar sobre a tempestade em cima da lira turca, sob ataque do império de Tio Trump Sam, Sardenberg destacou a exposição excessiva do país de Erdogan à dívida externa, no momento em que a moeda nacional, só em 2018, sofreu desvalorização de 40%.

Claro, tá lascado, porque precisa de comprar moeda estrangeira, dólar e euro, para cobrir os papagaios.

Sardenberg lembra que o Brasil, embora esteja devendo muito, não está tão exposto, assim, porque sua dívida externa é baixa, relativamente, à dívida interna, ao contrário do que acontece com Turquia.

Por isso, pode se salvar de possível crash que se forma pelaí, derrubando as bolsas, aqui e além.

O comentarista esqueceu de acrescentar que relativa segurança não nasceu espontaneamente; foi fruto de decisão política de Lula, quando presidente, de trocar dívida externa por interna, mandando, ao mesmo tempo, o FMI tomar banho na soda, liquidando papagaios acumulados na Era FHC.

Custava reconhecer?

Graças a isso, o Brasil, nos anos seguintes, livre da canga do Fundo Monetário Internacional, pode acumular reservas, que, ao final do governo Dilma, alcançavam 380 bilhões de dólares.

Só por isso o país se mantém, relativamente, seguro e livre de especulações contra o real, mesmo diante do desastre Temer.

Já pensaram, se o ilegítimo presidente golpista, com sua política econômica suicida, de congelamento neoliberal de gastos públicos, os que geram renda disponível para o consumo, produção, arrecadação e investimento, não tivesse em caixa as reservas acumuladas por Lula-Dilma?

Mas, Sardenberg, sempre cuidando de realçar o desastre econômico petista, esconde essa realidade alvissareira, que mantém os golpistas, por enquanto, a salvo de tremores externos.

O articulista vê, mecanicistamente, apenas, um lado da realidade; faz como Ricupero: o lado ruim, a gente expõe, o bom, esconde.

Bolsa família

Já Camarotti, também, na linha da desonestidade intelectual, ao entrevistar Rafael Jorge, cientista político da OX, sobre o que mais caracteriza o Brasil, a sua desigualdade social, falava sobre bolsa família, como programa social que faz a diferença.

Destacou que lá atrás – ou seja, antes da Era Lula -, o Bolsa Família havia sido criado por FHC, e ficou por aí.

Não adiantou na análise para dizer que, com Lula, o programa ganhou personalidade universal, xodó da ONU etc e tal.

Escondeu, como Sardenberg, a realidade.

O fato é que Lula colocou poder de compra, tanto nos salários, reajustando-os pela inflação e crescimento do PIB, como nos programas distributivos de renda, para puxar demanda global capitalista em tempo de crash global.

Deu certo prá cacete.

Provou que dar ao pobre faz o nobre, enquanto o contrário, dar ao nobre não faz o pobre.

Os capitalistas, com mercado para seus produtos, ganharam e continuam ganhando muito com o Bolsa Família.

Sobretudo, trata-se de programa econômico de estabilização social, multiplicador de investimentos.

Os repórteres de economia, por exemplo, não analisam o caso por esse aspecto, porque estão dominados pelo mecanicismo mental disparado pelas centrais do neoliberalismo de Washington.

Cada 1 real jogado na circulação, para dar poder de compra ao cartão bolsa família, multiplica-se, no mínimo, por quatro vezes, talvez, cinco ou seis, no mecanismo das cadeias produtivas.

Dona Maria, lá do Recando das Emas, Distrito Federal, quando vai ao armazém do seu Zé comprar lata de óleo, com o cartão de crédito do Bolsa Família, dispara multiplicação de investimentos.

Seu Zé, na sequência, liga para a fábrica, a fim de se reabastecer; o fabricante aciona a agricultura para plantar mais soja; o agricultor vai à montadora comprar máquinas para plantar e colher; os transportadores compram caminhões para distribuir o produto pelo Brasil afora; a Petrobrás enche as burras, vendendo combustível; os postos de gasolina se abastecem; crescem, pelas estradas, o comércio de bens e serviços, e ampliam-se as cidades.

Ou seja, em cada etapa da comercialização, o governo, que lançou, inicialmente, R$ 1 real, vai arrecadando R$ 0,40 de imposto, nas etapas seguintes, da produção, circulação e comercialização, acumulando, dessa forma, 4 ou 5 vezes mais do que jogou no mercado.

Milagre da multiplicação dos pães, como na estória bíblica.

Do ponto de vista do pensamento mecanicista, o governo gasta e acumula déficit, distribuindo esmola; do ponto de vista dialético, investe e arrecada, gerando desenvolvimento.

Lula arrebenta a boca do balão nas pesquisas e o pessoal mecanicista não entende porquê.

Poupança e investimento

É isso que levou Keynes a dizer que a única variável econômica verdadeiramente independente no capitalismo é a quantidade da oferta de moeda lançada na circulação pelo governo, que é, essencialmente, capital, poder sobre coisas e pessoas.

Quando faz isso, diz, produz quatro movimentos simultâneos, que puxa a economia: 1 – eleva os preços; 2 – reduz salários; 3 – diminui juros e 4 – perdoa dívida contraída a prazo do governo, do consumidor e do capitalista.

Cria, dessa forma, o que o autor de Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda denominou de “Eficiência marginal do capital”, ou seja, o lucro, responsável por despertar, na hora, o espírito animal investidor do capitalista.

A inflação, segundo o genial economista inglês, “é a unidade da solução”, o elixir que dinamiza as forças produtivas, evitando que a economia desemboque em deflação, maior inimiga do capitalismo.

A deflação, disse, é um erro eterno.

Aí vem os mecanicistas neoliberais para dizer que inflação arrocha salários; sim, claro, é isso, mesmo, mas entre inflação e deflação, escolha de Sofia – uma aleija, a outra, mata.

Com Keynes, a dívida pública cresce, dialeticamente, no lugar da inflação, produzindo déficit como forma de gerar desenvolvimento.

O jeito, para evitar o descontrole, é: 1 – garantir direito de consumo aos mais pobres, para evitar insuficiência de demanda, que joga o sistema na crise de subconsumo, gerador de deflações, e 2 – renegociar dívida, recorrentemente, como disse Adam Smith.

O autor de “A riqueza das nações” ressaltou que dívida interna não se paga, renegocia.

O que fizeram os países ricos, para não se sucumbirem ao crash de 2008?

Apelaram para expansões monetárias gigantescas, jogando a taxa de juro para zero ou negativa, aliviando dívidas do governo, das empresas e dos consumidores, para voltarem a consumir.

Pura jogada keynesiana.

Ciro Gomes disse que renegociará dívida dos inadimplentes no SPC.

Escândalo, para o pensamento mecanicista, positivista, reacionário; algo normal, lógico, racional, para o pensamento dialético.

Como abrir espaço para o consumo, se o consumidor esgotou sua capacidade de consumir, diante da agiotagem bancária?

O efeito Ciro surgiu em anúncio de página inteira, publicado pela Febraban, nos jornais, na sexta, depois do debate, na Band, na quinta, pelo qual promete renegociar dívida dos excomungados devedores encalacrados.

Getúlio Vargas, em 1932, promoveu auditoria da dívida, sobreacumulada durante República Velha neoliberal colonizada; obteve, com isso, fôlego para alavancar industrialização nacional.

Renegociar, para o mecanicista Sardenberg, é dar calote; para Keynes e Vargas, adeptos da dialética, é abertura de espaço para desenvolvimento social democrata.

Não é à toa que a Globo, porta voz do mecanicismo neoliberal, não entende que apostar no social, como Lula e Dilma fizeram, é a única saída capaz de evitar as crises capitalistas.

Os neoliberais tupiniquins brandem a velha estória mentirosa: falta ao Brasil poupança para investir.

Primeiro poupar, pregam; depois investir.

Mas, o que vem antes, poupança ou investimento?

Poupa-se para investir ou investe-se para poupar?

Olha o golpistaTemer aí, com seu congelamento neoliberal, em nome da formação de poupança: desastre total.