Aposentadoria digna para o gênio global

O ESTADO TEM QUE ASSUMIR O GÊNIO.
PROJETO DE LEI JOÃO GILBERTO CONCESSÃO DE PENSÃO, ASSISTÊNCIA SOCIAL E MORADIA PARA JOÃO EM USUFRUTO CAPAZ DE GARANTIR VELHICE
DIGNA ÀQUELE QUE PROJETOU A ARTE BRASILEIRA MUNDO AFORA.

Tem coisas que, parece, só acontecem no Brasil.

Esse episódio que vive João Gilberto, 86 anos, um dos maiores talentos da música popular brasileira, pai da bossa nova, patrimônio mundial, reverenciado em toda a parte, é muito triste.

O cara está caindo na miséria total, depois de viver uma vida de glória, de muito trabalho, dedicação a sua arte, com obstinação extraordinária.

Brasil, brasileiro, caboclo inzoneiro, dedicou-se às coisas do seu país, com entrega total.

O Brasil vai deixa-lo cair como fez com Lima Barreto?

Como todo gênio, tem lá suas excentricidades, que incomodam os medíocres, mas, por outro lado, encantam, também, os que sabem que os que são talentosos, em excesso, como é o caso de João Gilberto, merecem compreensão, por que não, perdão?

Errou, é um chato, caprichoso, prepotente etc, diz a mediocridade ambulante, nesses tempos de intolerância e ódio fascistas.

Atire a primeira pedra quem nunca…

O dinheiro, para ele, serviu, apenas, enquanto podia gastá-lo, enquanto o possuiu, sem suntuosidade, pelo que se sabe, dada sua discrição cantada em verso e prosa.

Talvez imaginasse que nunca acabaria ou nem se preocupou com isso.

Sua praia era outra, a arte radical e bela.

A verdade é radical.

As coisas materiais tiveram valor menor do que a preocupação da beleza espiritual, artística.

Lembram de Dale Turner, em Round Midnight, vivido por Dexter Gordon, personagem misto de Charlie Parker, Mile Davis e Chet Baker?

Desligado do mundo exterior, voltado, apenas, ao mundo interior, musical.

Isso acontece de montão com os gênios.

João viveu como cigarra, cantando, não como as formigas, acumulando.

Agora, está sendo despejado, insultado, humilhado, o escambau.

As estórias, geralmente, são mal contadas.

A gente está vendo isso, com esse golpe fascista aí…

Olha o lance da criminalização generalizada dos políticos etc, graças a uma legislação eleitoral permissiva, abusiva.

Fica ao sabor dos juízes: uns se salvam, outros se fodem.

A democracia está indo para o brejo, com o STF criminalizando foro por prerrogativa de função, arma democrática contra ditadores, desde o século 17.

Olha como querem destruir o maior político brasileiro de todos os tempos, encarcerado em Curitiba.

Esse lance do tríplex….

Sem provas.

No caso do João, dizem que duas mulheres, nos últimos vinte anos, disputaram seu amor, seu dinheiro, sua fama.

Os filhos – como sempre acontece – cada um foi para seu lado, enquanto o cara batalhava dia e noite, como um mouro, apurando sua arte maravilhosa.

Depois, os rebentos, marmanjos, chegam atrás da herança.

Filho é presente de Deus, mas, também, do diabo, às vezes.

Os direitos autorais do artista, pelo que se noticia, alcançaram R$ 10 milhões(mixaria, não tem preço, esse cara!).

Foram adquiridos por um banco – o Opportunity –, do Daniel Dantas.

Vítima da agiotagem.

Banqueiro não tem alma.

Foram negociados como como garantia, para cobrir demanda com gravadora, em luta judicial em torno da monumental obra do artista.

Pegou a metade, a outra ficou no caixa do especulador.

Porém, como a capacidade dele de administrar essa grana era nenhuma, o negócio foi se deteriorando.

Ao lado do gênio distraído, concentrado, apenas, na sua arte, espertos e espertas, vivendo ao lado dele, meteram a mão.

Música, música, mulheres e uma maconhazinha, porque… é isso aí.

A dilapidação do patrimônio, pelos espertos, foi um crime.

Se os administradores/administradoras tivessem se preocupado em comprar uma casa ou apto para ele, pelo menos, hoje, estaria garantido, ou não, né.

Pelo visto, não.

Afinal, depois que vem a bancarrota, as dívidas acompanham, provocando devastações, multas, juros, mora, o cacete, além de penas judiciais, podendo até dar cadeia etc.

Há, dizem, demanda judicial, que rola há vinte anos ou mais.

Ele – ele, não, seus agentes, certamente – acionou gravadora que tentou passar-lhe para trás.

Esses capitalistas são, sempre, uns filhos da puta.

Mas, já viu, né, justiça, no Brasil: preterições, preterições, preterições, até chegar as prescrições etc e tal.

O gênio não se preocupa com essas coisas, não tem tempo para isso.

O som mágico invade seu cérebro e ele fica envolvido no negócio.

Dexter Gordon… assistam “Por volta da meia noite”, sensacional, direção de Bertrand Tavernier.

Tem a cena em que ele conversa com psiquiatra, apenas gesticula, the sound, the sound, the sound, invasão do cérebro, inquietude genial etc.

Não dá para ligar para dinheiro, pagamento de aluguel de apto, essas coisas mundanas etc.

Já os espertos…

Os que administram o dinheiro, que compram as drogas, que acertam os compromissos do gênio, falam por ele, inventam, mentem, armam ciladas…

Resultado: na desgraça, filhos e filhas, agora, não se entendem, acusam-se, mutuamente, rompem-se com as mulheres do gênio, estas brigam entre si e com os filhos dele, que tentam se aproximar, justiça entra na parada, a pedido das partes, mentiras, armações, o processo se estica e vira aquele angu, uma monstruosidade.

A estória é longa, dá para esticar, porque as versões se multiplicam, cada um acrescenta um parágrafo, encheria espaços e mais espaços, desdobrando-se ao sabor das línguas venenosas, maledicentes.

Estórias fantásticas, fantasmagóricas.

Mas, para além das controvérsias, apenas, cuidando do valor do gênio, do homem, do artista, que deu tudo de si para a arte brasileira, valeria ou não iniciativa, por alguma excelência por aí, de projeto de lei, para tramitar em regime de urgência, que garanta a um ancião genial brasileiro, afetado em sua sanidade, reconhecido, mundialmente, pela sua arte, final de vida com dignidade?

Proposição legislativa asseguraria a ele aposentadoria, moradia e assistência social em usufruto até final dos seus dias.

Do jeito que caminha a situação dramática dele, esse desfecho pode, talvez, não estar muito longe.

O cara está doente, maltrapilho, sem casa e sem plano de saúde, com os sanguessugas em cima, querendo tomar tudo.

Horrível.

Certamente, essa iniciativa é polêmica, vai levantar discussão, mas, com certeza, projetará quem a propor em nome do espírito humanitário.

Dará manchetes no Brasil e no mundo: o cara que emergiu na Era JK, época de ouro, da afirmação nacional, sucumbe-se, na miséria, na era neoliberal, do ilegítimo Temer etc.

Pode ser, até, que governo de outro país se sensibilize com a situação do João e faça o que deveria ser feito por alguém – esse governo de merda, por exemplo – que dignifique sua arte, nacional, internacional, planetária.

O cara é um patrimônio mundial.

Se isso acontecesse, seria uma vergonha nacional.

4 respostas para “Aposentadoria digna para o gênio global”

  1. Concordo inteiramente com você, César. Esse sim, deveria merecer uma maior atenção do Estado. Contribuiu , e muito, para fortalecer a identidade nacional, sem pieguismos e ideologismos. Parabéns.

  2. Artigo genial!
    Personagem artística mundial, para esses navegar é preciso, viver não é preciso

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