Metamorfose ambulante do general. Triunfo do Consenso de Washington

Dois anos depois do golpe de 2016, comandante do Exército fecha com os princípios de Washington, deixando de lado defesa do nacionalismo econômico.

Há dois anos, véspera do golpe do impeachment, que derrubou presidenta eleita com 54 milhões de votos, sem crime de responsabilidade para caracterizá-lo, o general Eduardo Villas Boas, comandante do Exército, dizia, em palestra no Ceub, que o grande problema brasileiro era a especulação financeira, que destrói a nação.

Defendia, com energia, o nacionalismo econômico, capaz de resgatar o País da crise, criando empregos, renda, produção, estabilidade política e democracia.

Promover indústria brasileira, a partir de visão nacionalista, para fortalecer defesa do país, representaria, para o general, opção desenvolvimentista, um dos principais carros-chefe da economia.

Relacionava os gastos com defesa ao multiplicador keynesiano desenvolvimentista, a exemplo do que acontece nos países capitalistas desenvolvidos, especialmente, Estados Unidos.

Nada mais nacionalista.

Destacava que o pouco apego à defesa das ideias nacionalistas, no Brasil,  decorria de formação histórica preconceituosa.

“Preferimos elogiar o nacionalismo dos outros, enquanto condenamos o nosso.”

Lembrava que a estabilidade política requer prioridade ao desenvolvimento nacionalista, maior instrumento para garantir soberania nacional.

Certamente, vocalizava as conquistas que, nos governos Lula e Dilma,  as forças armadas, pela primeira vez na história, alcançaram, com aprovação, no Congresso, em 2005 e 2007, do Programa Nacional de Defesa(PNE) e da Estratégia de Defesa Nacional(EDN), respectivamente.

Ali estão, praticamente, consignados os sonhos dos militares brasileiros de possuir programa nacionalista de desenvolvimento econômico a partir do multiplicador de Keynes, produzido por meio da indústria de defesa.

Era o que os generais, Geisel, à frente, defendiam, quando no poder, para irritação das potências imperialistas, contrárias à afirmação de verdadeira geopolítica brasileira, no contexto global.

Villas Boas fechava, naquela ocasião, com o conceito de segurança nacional moderno, desenvolvido pela Escola de Copenhague, o qual está intimamente ligado à manutenção do emprego, da renda, da educação, da saúde e da preservação ambiental.

Segurança nacional é desenvolvimento nacional sustentável.

A soberania nacional, portanto, requer desenvolvimento econômico nacionalista com justa distribuição da renda, o que não ocorre com economia dominada pela especulação financeira, cujo propósito essencial descarta o social em favor do meramente econômico-financeiro, comprometido com a concentração absurda da renda.

Ou seja, para o general, o maior problema nacional era a desigualdade social decorrente de opção econômica equivocada, invertida pela prioridade concedida à especulação.

Rendição a Tio Sam

Agora, ele fala outra coisa.

Cala-se diante da estratégia neoliberal de Temer/Meirelles/Guardia, sintonizada com o Consenso de Washington, que acelera desmobilização das bases econômicas desenvolvimentistas, como Petrobrás, Eletrobras etc, bem como da supressão de direitos e garantias dos trabalhadores asseguradas na Constituição.

Passados dois anos de sua pregação aos universitários, quando rolava golpe parlamentar-jurídico-midiático, que colocou o país em estado de exceção, conforme denunciam juristas nacionais e internacionais, o problema maior, não é mais a desigualdade social, a especulação financeira, concentradora de renda, mas a corrupção.

Vocaliza o mesmo discurso do vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pense, pronunciado, semana retrasada, em Lima, Peru, durante reunião dos presidentes das Américas, para alinhar pensamento continental às diretrizes de Tio Sam.

A corrupção, que se alastra na América do Sul, do ponto de vista ideológico de Washington,  do governo Trump, das suas agências financeiras – FMI, Banco Mundial, BID etc – está centrada no estado nacional.

Muito ativo na economia, tal estado, segundo Tio Sam, precisa, urgentemente, desfazer dos seus ativos produtivos e financeiros (Petrobrás, Eletrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal etc), como  a forma de combater a corrupção.

Mas não foi com esse Estado, assim articulado, que o Brasil virou sétima potência mundial, e que, com o golpe neoliberal, desarmado, volta-se à condição de colônia, pré revolução de 1930?

Não é à toa, portanto, a articulação do departamento de justiça dos Estados Unidos, FBI e CIA,  com o Ministério da Justiça brasileiro e suas ramificações na PGR, Polícia Federal, na produção da Operação Lavajato, para acelerar espionagem geral sobre o governo Dilma, Petrobrás, Congresso etc.

Ou foi algo extemporâneo, desarticulado, tanto o golpe de 2016, como, agora, a prisão de Lula, impedido de candidatar-se à eleição de 2018, os responsáveis pela quadrilha criminosa que transformou o estado brasileiro no centro da corrupção nacional, como destaca o discurso de Washington, para pautar o poder midiático oligopolizado tupiniquim?

Mas, o estado enxuto, como prega Washington às colônias aliadas( visto que vê a América do Sul como quintal norte-americano), representaria, realmente, ataque à corrupção ou concessão de benesses aos gringos?

Armou-se, dessa forma, o raciocínio lógico imperial.

Estado enxuto neoliberal, segundo esse conceito,  como arma de combater corrupção, não pode capitalizar suas empresas, que, descapitalizadas, precisam ser vendidas.

Olhaí a Eletrobras: patrimônio de R$ 400 bilhões, sendo liquidado por R$ 12 bilhões!

Doação!

Seria a melhor forma de combater a corrupção, desmontar o estado nacional, liquidando suas bases de alavancagem desenvolvimentista?

Reforçaria ou não o modelo especulativo no lugar do modelo desenvolvimentista, na medida em que se enxuga o Estado desativando setores que geram renda disponível para o consumo, para favorecer especuladores do mercado financeiro?

Não seria essa lógica promoção da própria corrupção?

Desarma-se, no Brasil, com o golpe neoliberal washingtoniano de 2016, o agente desenvolvimentista que anima o capitalismo mundial, no século 20, desde a crise de 1929, a partir da maior potência econômica, os próprios Estados Unidos, empenhados, agora, em recomendar aos outros o que não pratica para si mesmo.

Como combater a corrupção por uma classe política que derrubou governo democrático cuja orientação destrói o Estado em sua capacidade de promover o que o general julga essencial para garantir soberania nacional?

Metamorfose batraquiana

Verifica-se, claramente, que o general Villas Boas adota, dois anos após o golpe parlamentar-jurídico-midiático, dois discursos, completamente, divergentes e contraditórios.

O nacionalismo, que defendeu no Ceub, é, inteiramente, incompatível com o discurso, orientado por Washington,  de combate à corrupção, para desarmar o estado nacional, sem o qual a estabilidade econômica e política pregada por ele torna-se, praticamente, impossível.

Por que a metamorfose batraquiana do general Villas Boas?

Ocorreu ou não pixotagem do PT na relação política com os generais?

Dilma Rousseff e seu voluntarismo explicam ou não?

No auge da crise, em que se armava a sua derrubada, no Congresso, ela, em 19 de abril de 2016, não compareceu ao desfile militar do Exército, no Forte Apache.

Mandou representá-la o ministro da Defesa, Aldo Rebelo, com o qual o general Villas Boas, como disse aos estudantes, no Ceub, convivia muito bem, apesar de ser comunista.

Não teria sido a hora exata para ela buscar apoio dos militares contra o golpe antinacional que os congressistas preparavam?

Que teria acontecido, se Dilma colocasse, no Ministério da Defesa, o general nacionalista Villas Boas, respeitado entre seus pares?

Outra jogada errada de Dilma: desprestigiou os militares com extinção do Gabinete de Segurança Institucional(GSI).

Foi ou não a gota d’agua, para afastá-los do seu governo?

O que fez  o ilegítimo Temer, na primeira hora que assumiu, depois do golpe?

Recriou o GSI e colocou, para comandá-lo, o general Etchgoyan, ala direitista do Exército, contrapolo da posição nacionalista do general Villas Boas, que se viu, naturalmente, esvaziado.

Dois anos depois do golpe parlamentar-jurídico-midiático, o general nacionalista se rende ao discurso do Consenso de Washington de que o principal problema nacional não é a desigualdade social, que ele identificou avançar com o país sucateado pela especulação financeira, mas a corrupção entranhada no Estado nacional, que justifica a desnacionalização comandada por Temer, tendo ao lado um general de direita.

O Consenso de Washington triunfou.

 

3 respostas para “Metamorfose ambulante do general. Triunfo do Consenso de Washington”

  1. #LULALIVRE

    COMPARTILHEM POR MIM, SE PUDEREM OU CONCORDAREM.

    NÃO. NÃO ESTAMOS ENCURRALADOS. TEMOS AINDA DUAS OPÇÕES
    > https://gustavohorta.wordpress.com/2018/04/20/nao-nao-estamos-encurralados-temos-ainda-duas-opcoes/

    … … Está mesmo evidente que o golpe envolve a cumplicidade de todos, como dito por um dos golpistas, COM O SUPREMO, COM TUDO.

    Está claro também que existe um apoio internacional na clara forma de uma conspiração contra os povos da América do Sul que ousaram ter alguma esperança de felicidade por uma sociedade equânime.

    Esta conspiração, em tudo congruente com a antiga operação Condor da década de 60, alcançou muitos de nossos países latinos, sempre fundamentada nos golpistas legislativo-jurídico-midiático, quase sempre envolvendo fortemente o executivo e sempre cooptando as instituições e seus agentes que anteriormente dariam suporte à democracia. … …

  2. COM MILITARES “NACIONALISTAS” DESSE NAIPE E O POVO A LHES FAZER CORO, O QUE SERÁ DESTE INFELIZ E CONDENADO BRASIL???

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