Frente esquerda derrota esquerda

Pinera, empresário bilionário, soube rachar a esquerda com discurso de união nacional, favorecendo-se, principalmente, do desencanto dos chilenos com processo eleitoral democrático burguês, que não resolve problema dos mais pobres, sempre contribuindo para concentrar mais renda em mãos de minoria que domina a maior fonte de riqueza nacional, o cobre. Resultado: 52% não compareceram às urnas. Para esse contingente eleitoral, tanto faz quem chegar ao poder, descrentes de que alguma coisa mudará em favor do povo.

Direita, volver

Repetiu no Chile o que aconteceu na Argentina. No segundo turno, a esquerda, em vez de se unir, dividiu-se. Dançou. A direita caminhou para o centro e arrebanhou indecisos frente ao discurso esquerdista frouxo. Resultado: Pinera, oposição, 54,5%; Guillier, situação, 45,5%; abstenção, 52%(o voto no Chile não é obrigatório). A Frente Ampla de Esquerda derrotou a esquerda. Não honrou o próprio nome. A maioria dos e das eleitoras/es, absenteísta, não compareceu. Deu um duro recado aos políticos, seja de centro, seja de esquerda, seja de direita: não acredita neles. No poder, a esquerda vira direita, como aconteceu com Bachelet. Dilma, no segundo mandato, igualmente, caiu em tentação. E, fora do poder, direita promete ser de esquerda, para ganhar eleição; chegando lá, mantém-se no que é, realmente, conservadora, se necessário, golpista, remenber Pinochet. O poder, no chile, é de centro. Pinera, que governou, antes de Bachelet, e não teve sucesso, aprendeu, agora, a lição. O modelo neoliberal, que comandou, foi rechaçado. Volta, de novo, ao poder. Promete, dessa vez, união nacional e combate à pobreza. 5% dos chilenos mais ricos abocanham 55% da riqueza nacional. Super concentração da renda. É o velho problema latino-americano: economia dependente da poupança externa, que produz, no compasso das suas contradições, insuficiência crônica de demanda. Falta consumo, sobra produção, aumentam dívidas e instabilidade econômica. Busca-se a exportação, para colocar o excedente, mas, quando as condições internacionais, são instáveis, como acontece, no momento, o panorama interno piora, a insatisfação social cresce e o desalento avança, quando a população conscientiza-se de que a classe política conservadora latino-americana é, essencialmente, antinacionalista, não merece seu apoio. Bachelet não conseguiu transferir votos para Guillier, porque a economia está semiparalisada, com o preço do cobre, principal produto nacional, em baixa histórica. Faltou pão na mesa dos chilenos mais pobres, que haviam votado nela, na expectativa de que seria melhor que o seu antecessor, Pinera, de volta, quatro anos depois. A presidenta derrotada não conseguiu fazer reforma econômica, tipo distribuir melhor a renda, por meio de reforma tributária, a fim de cobrar mais dos mais ricos e menos dos mais pobres. Seria a forma de criar renda disponível para o consumo interno, principalmente, da classe média, como promete fazer por aqui Lula, aliviando-a de imposto de renda. A renda disponível para o consumo interno aumentaria via aumento de salário indireto.

Força neoliberal

No Chile, a arrecadação estacionou e os investimentos, segundo economistas chilenos, não se expandiram na escala necessária capaz de estabilizar produção, consumo, circulação e distribuição, o silogismo capitalista. A esquerda não conseguiu estratégia para romper com a estrutura deixada por Pinochet, em 11 anos de ditadura(1973-1984), cujo maior desastre foi reforma neoliberal da Previdência. Privatizou-a e os aposentados sentiram, depois, o logro: fizeram poupança, nos bancos privados, que durou pouco. Sem o aval do Estado, quando crises de volatilidade capitalista pintam, o patrimônio dos pobres é comido pelos ricos. É o que deve pintar, também, no Brasil, com a destruição programada, pelo governo ilegítimo Temer, do sistema de seguridade, do qual a previdência faz parte, junto com assistência social e saúde pública: os banqueiros abocanharão as rendas dos aposentados e o mercado interno, desfavorecido com tal iniciativa, minguará, prolongando o mal que está passando a economia: subconsumismo e investimento baixo, em meio à sobreacumulação de capital que detona taxa de lucro dos capitalistas. Os neoliberais vão mostrando sua força inquestionável, sempre apoiados no capital externo, que os enriquece, enquanto empobrece a população, relativamente, em ritmo histórico constante, devido à incapacidade da esquerda de superar suas diversidades, no âmbito da democracia burguesa, onde manda o dinheiro da direita, sempre.

Eterna, Violeta