Neoliberalismo avança na Argentina

Crença neoliberal de Macri se apoia na defesa do estado mínimo, para abrir ao máximo oportunidades ao setor privado, na linha do Consenso de Washington: preços livres, cambio livre, desregulamentação geral, reforma da previdência, trabalhista etc. O mesmo que tenta fazer por aqui Temer, o ilegítimo, com a diferença de que está respaldado pelas urnas, até 2019. Se, sem respaldo, os neoliberais, com Temer, estão entregando tudo, imagine com o apoio da maioria! Vocação latino-americana ao suicídio. A diplomacia de Washington está a toda velocidade para arreganhar o Mercosul aos produtos americanos e europeus, principalmente. Mas, os chineses, também, querem, e estão com a grana toda disponível para executar essa tarefa.

DEMOCRACIA NEOLIBERAL

Macri faturou eleições parlamentares na Argentina, diminuindo tamanho das bancadas de oposição a ele no parlamento, sem, entretanto, ganhar maioria.

O candidato de Macri ao Senado, Bullrich, teve 41,38% dos votos, ombreando com Cristina Kirchner, 37,25, e o representante da esquerda, Pitrola, 4,75%.

Ganhou fôlego para ir adiante, até 2019, com reformas neoliberais, ditadas pelo Consenso de Washington, tudo liberado para ampliar penetração ainda maior do capital estrangeiro e Mercosul desregulamentado para multiplicar importações de bens manufaturados, prejudicando industrialização argentina.

Essa caminhada neoliberal portenha, logo, logo, vai criar atritos com o Brasil, porque, com o Mercosul mais aberto, os produtos brasileiros encontrarão mais concorrentes – americanos, europeus, chineses – na casa dos hermanos.

Certamente, a vitória de Macri, com seu Cambiemos, que impôs segunda derrota à Cristina Kirchner, da Unidade Cidadã, equidistante dos justicialistas peronistas radicais, favorece movimento defendido pelos Estados Unidos de criar, na América do Sul, a Área de Livre Comercio(ALCA), inviabilizada pelas forças nacionalistas, agora, derrotadas, no País.

Brasil e Argentina, portanto, estão, contraditoriamente, no mesmo rumo, com a diferença que lá, Macri tem respaldo popular, embora continue minoritário no Legislativo, enquanto aqui, Temer, o ilegítimo, amargue índice de apenas 3,5% de apoio, mantendo-se no cargo graças às compras de votos, para se livrar de acusações de corrupção e julgamento pelo Supremo Tribunal Federal.

O povo argentino voltará às urnas em 2019, em eleição presidencial, e até lá Macri, candidato à reeleição, estará respaldado, politicamente, para tocar agenda neoliberal, amplamente, aplaudida pela Casa Branca.

POLARIDADE CONTINENTAL

A polaridade política, portanto, acirra-se, relativamente, às relações America do Sul com Estados Unidos, entre Argentina e Venezuela, enquanto o Brasil, debaixo de ditadura jurídica parlamentar midiática, deixa, temporariamente, de exercer influência por dispor de presidente sem legitimidade.

Macri deve lamentar o fato de ter de carregar o ilegítimo nas costas para brandir seu discurso neoliberal contra Maduro, que já mandou bala no titular do Planalto, considerando-o sem condições de ditar regras aos venezuelanos.

Não se pode, porém, desconsiderar que por trás dos presidentes sul-americanos argentino, venezuelano e brasileiro, está em cena choque maior entre Estados Unidos, de um lado, e China-Rússia, de outro, no novo jogo geopolítico continental.

Ampara Maduro contra ataques de Trump os presidentes Jiping, da China, e Putin, da Rússia.

Ambos ampliam comércio e financiamentos à Venezuela em troca de petróleo, usando na relação de troca não mais o dólar, mas rublo e yuan.

Evidencia evolução, no ambiente econômico sul-americano, de novo sistema monetário internacional, com entrada em cena de moedas chinesa e russa, contrapondo ao dólar.

CHEIRO DE PÓLVORA NO AR

Tio Sam está incomodado com invasão da América do Sul, espaço que sempre considerou seu, para manipular economia, política e governos, mediante orientação emanada de Washington.

O ponto em comum entre Venezuela, Brasil e Argentina é que os três se ligam, igualmente, aos interesses chineses, importadores, em grande escala, das commodities sul-americanas(soja, milho, frango, porco, minerais, petróleo etc).

O fato novo é a disposição dos chineses de financiar infraestrutura continental para facilitar exportações em sua grande maioria para a China.

Liga-os, por laços firmes, com governos sul-americanos, por cima das suas divergências ideológicas, como são os casos, presentes, de Venezuela, de um lado, e Brasil e Argentina, de outro.

Washington tentou desestabilizar Maduro, mas, por enquanto, não conseguiu, porque Putin entrou em cena para fortalecer o exército venezuelano, que comanda exploração de petróleo nacional e apoia Maduro, numa ofensiva democrática cívico-militar.

Esse novo status político econômico se consolida rapidamente com convocação de Constituinte popular seguida de vitória eleitoral parlamentar.

China e Rússia, aliadas no novo poder eurasiático, estão mais do que nunca irmanadas em território sul-americano, desafiando Tio Sam e criando instabilidade ideológica no contexto da luta política continental.

DIREITA E ESQUERDA DEMOCRÁTICAS

A democracia avança na Venezuela e na Argentina com discursos opostos, enquanto, no Brasil, encontra-se em fase de regressão conservadora, cujas consequências poderão ser novas derrotas eleitorais em 2018.

Se os perdedores das eleições de 2014, com Aécio Neves à frente, não tivessem sido excessivamente açodados, partindo para o golpe antidemocrático, a posição deles, para eleições presidenciais, estaria favorecida.

O desgaste de Aécio e o racha da direita, cuja posição nas pesquisas é negativa, sinalizam possível vitória eleitoral da esquerda, ano que vem, o que talvez não fosse viável, se tivesse sido mantida no poder Dilma Rousseff, com a agenda neoliberal que adotou depois da vitória.

Assim, o retorno do PT, agora, com Lula, amplamente, apoiado nas pesquisas, tornou-se viável, mas os petistas terão que prestar muita atenção ao que acaba de acontecer na Argentina, com revés da esquerda.

No poder, mediante políticas de concessões, PT e aliados compactuaram com legislação eleitoral repudiada popularmente, ao mesmo tempo em que desdenharam de política de comunicação capaz de esclarecer à população políticas sociais e econômicas voltadas à melhor distribuição da renda, de modo a formar consciência crítica favorável às reformas políticas para acelerar democratização do poder.

Permitiram as esquerdas, com sua ambiguidade política, avanços de candidatos demagogos e direitistas, como Bolsonaro, Huck e Dória.

Inteligentemente, eles exploram desgaste moral das esquerdas diante de classe média conservadora sujeita às manipulações de poder midiático oligopolizado, totalmente, comprometido com retrógrada agenda neoliberal antinacional.

CONFUSÃO IDEOLÓGICA

A confusão é total na cabeça da classe média emergente e conservadora que teve nos governos petistas oportunidade de evolução quantitativa e qualitativa, mas que se viu órfã  de política de comunicação capaz de levá-la ao juízo crítico razoável, para separar o joio do trigo.

Por isso, 2018 é incógnita geral, para as esquerdas, especialmente, se o judiciário, braço direito do golpe de 2016 contra o PT e aliados, punir candidatura Lula, sob ataque da direita, que, como faz a Globo, prepara o seu candidato, atuando como indisfarçável partido político.

O jogo conservador neoliberal é explícito: tentar faturar Planalto com armas da propaganda subliminar, fazendo com que um jovem apresentador de tevê vire presidente da República, caso de Huck, versão tupiniquim do Macron francês.