Guerra monetária à vista abala capitalismo

China e Rússia se unem e deixam Estados Unidos à beira de crise monetária com excesso de dólares, ameaçados pelo avanço da parceria rublo-yuan, que começa espalhar pela praça global, desvalorizando verdinhas de Tio Sam.

A união monetária em construção entre China e Rússia, com trocas comerciais entre os dois países, realizadas em rublo e yuan, ao largo do dólar, é o fato político mais impactante no capitalismo global. Talvez, por isso, em Washington, o ministro Henrique Meireles, durante reunião do FMI, manifestou preocupação de Tio Sam, dizendo que tremores econômicos e financeiros globais estão a caminho. O dólar americano está deixando de ser a única referência monetária global, nas trocas internacionais. Já, já, os demais países do ocidente começarão a comercializar, nas bolsas, as moedas russas e chineses, porque a união delas, na relação comercial, fortalece suas cotações diante da moeda americana. Cria-se, desse modo, fator inusitado para o comercio de moeda, que tende a afetar o dólar, dada sua excessiva oferta no mercado global, como rescaldo da bancarrota de 2008, seguida de expansões monetárias sem limites. Como se sabe o BC americano, seguido pelos BCs da Europa e do Japão, jogaram dinheiro em circulação para diminuir a taxa de juro capaz de reduzir dívida pública, mediante juro zero ou negativo, responsável pelo alivio financeiro dos governos superendividados, dos consumidores e das empresas, sob risco de bancarrotas especulativas etc. Os governos americano, europeus, japonês, bem como o chinês, se deram bem com o aumento da oferta monetária, mas, passada a onda de perigo, o problema mundial se transformou em o que fazer com o excesso de dólar advindo da excessiva liquidez monetária. Os bancos europeus, americanos e japoneses, nesse momento, abarrotados de dólar, buscam tomadores na periferia do capitalismo. Forçam empréstimos a juros baixos, armadilha velha conhecida dos mercados do capitalismo periférico. Num primeiro momento, os empréstimos ativam economias. Num segundo momento, são necessários novos empréstimos, a juros mais altos, para compensar riscos. A dívida, sob especulação, sai do controle. Vira bola de neve. Os ajustes pintam, com cortes de gastos, desemprego, recessões, privatizações, desnacionalizações, arrochos salariais, desvalorizações cambiais, mais dívidas, juros altos, impostos pelos novos empréstimos etc. Repeteco histórico. O fato novo com a entrada em cena da China e Rússia, sinalizando novo sistema monetário, é que ambos os países, integrantes do Bloco Brics, que já tem seu próprio banco, não exigem, pelo menos por enquanto, condicionalidades para emprestar aos endividados, como fazem o FMI e Banco Mundial, comandados pelos Estados Unidos, na área do domínio do dólar. FMI e Banco Mundial impõem duras condicionalidades aos tomadores, de forma que armam para estes verdadeiras armadilhas, cujos desfechos são bancarrotas inevitáveis. Tio Sam, nesse cenário, vai ter que mudar de política, senão perde corrida para moeda chinesa, alvo das novas demandas dos especuladores, temerosos pelo excesso de liquidez global em dólar, que joga seu preço para baixo etc. Washington sofre, ainda, pressão adicional, porque o país maior detentor de dólar é, justamente, a China. Desse modo, quem passa a cair na armadilha da liquidez são, mesmo, os Estados Unidos, se o mundo começar vomitar verdinhas. Desvalorização do dólar, nesse sentido, vira sinal de perda de poder da potência global americana. Mercado em crise pressiona por trocas de moedas, dólar por yuan/rublo. Em outras ocasiões, sempre que algum país tentou jogar contra o dólar, acabou dançando, caso do Iraque, Líbia etc. No momento, quem desafia forte os americanos é a Venezuela, maior reserva mundial de petróleo, que negocia venda do produto cotado em moeda chinesa e russa, para irritação extrema da Casa Branca. Domingo, na Venezuela, haverá eleições parlamentares. Se Maduro vencer, depois de conseguir eleger, com sucesso, Assembleia Nacional Constituinte, com oito milhões de votos, pronto: nova onda de instabilidade, forçada pelos americanos contra venezuelanos, entrará em cena. Espalham, nesse momento, que Maduro foi corrompido pela Odebrecht. Tentativa de destruí-lo eleitoralmente. Trump vai sendo desafiado fortemente na América do Sul pela aliança China-Rússia-Venezuela. Os russos e chineses, cada vez mais, próximos, do ponto de vista geopolítico estratégico global, estarão predispostos a ampliar sua presença na América do Sul, que possui o que eles mais precisam: energia, alimentos, matérias primas em quantidades incomensuráveis etc. Continente sul americano vira palco de disputa das superpotências em meio a guerra monetária.