Brasil e Argentina no trote de Cavallo

GOVERNANDO ECONOMIA DE MACRI POR MEIO DE BILHETINHOS AO BC
Macri é Temer, assim como Menem é FHC. Os neoliberais estão no poder nos dois principais países da América do Sul. Na Argentina, democraticamente; no Brasil, via golpe parlamentar, jurídico, midiático. Todos alinhados ao Consenso de Washington. Cavallo, no El País, quer Argentina inserida neoliberalmente no mundo, como defende, também, FHC e Temer, de joelhos, para os impérios. Diz que depois da eleição de outubro, na Argentina, Macri tem que aprofundar neoliberalismo, senão a crise explode no colo dele. Mas, fará mudanças, se Cristina Kirchner arrebentar a boca do balão nas urnas, sinalizando Congresso independente, mais na linha nacionalista?

As eleições parlamentares na Argentina estão colocando o mercado financeiro em polvorosa. O modelo neoliberal de Macri não está sendo solução, mas problema. O desemprego cresce e a economia escorrega na pista. Mercado interno fragiliza-se com queda do poder de compra dos salários e as exportações perdem valor na deterioração dos termos de troca diante das pressões monetárias americanas para empurrar dólares na América do Sul. Os banqueiros internacionais estão cheios de moeda americana, advinda da expansão monetária obamista, para sair da crise de 2008. Não querem que essa massa monetária quente espalhada pelo mundo volte para Estados Unidos. Daria hiperinflação. Isso força valorização artificial do peso e diminui lucro dos exportadores. Amplia, por sua vez, dívida interna e juros. Pinta a ciranda financeira velha de guerra. Cristina Kirchner, nesse contexto, tira sarro em Macri. O neoliberalismo, abertura total ao capital externo, como prega Consenso de Washington, para toda America do Sul, desequilibra relações de troca e empurra economia para a crise de subconsumo, que força salários para baixo e juros para cima, por conta do risco que se eleva aos sentidos dos banqueiros, pressionados pelo excesso de dólar barato. O peso, na corda bamba, deixa los hermanos, propensos à especulação, em alta tensão psicanalítica. Nessa hora, Cavallo repete a dose das suas recomendações neoliberais ao BC, à moda de Jânio Quadros, mandando bilhetinho: acelerar cortes de gastos, privatizar tudo, empresas, previdência social, leis trabalhistas e flexibilizar relação do Mercosul com União Europeia. Trata-se, na prática, de fincar as bases de uma nova ALCA, aquela que não vingou, na América do Sul, para ampliar mercado para os manufaturados americanos e europeus, no continente. É o que Cavallo destaca como necessário “insertar-se Argentina en la economia mundial”.

– Cris, eles não aguentam o teste eleitoral. Por isso, apressam em sucatear tudo e mudar a legislação, para tentar amarrar a gente, quando o povo escolher democraticamente os nacionalistas como nós.

Ele faz o mesmo discurso quando ministro de Ménem, tempo de FHC, por aqui, agindo na linha do Consenso de Washington, do qual é um dos fundadores, em 1989,  junto com Mário Henrique Simonsen, em favor da liberação dos mercados, da redução do tamanho do estado na economia, do excesso de burocracia, de regras nacionalistas etc. Não levam em conta os problemas criados pela excessiva oferta de moeda, bombas atômicas econômicas, que, por exemplo, Obama quer jogar por aqui, quando combate xenofobia das oligarquias financeiras tupiniquins, resistentes à abertura do mercado bancário que elas dominam oligopolicamente. Puxa sacos, serviçais de banqueiros. Para Cavallo, assim como para os economistas neoliberais do governo Temer, o ilegítimo, os males dos países capitalistas periféricos, da América do Sul, são excesso de estado e não deteriorações nos termos de troca devido às inserções dependentes dessa periferia cronicamente subordinada à poupança externa, na economia mundial, sujeita às chuvas e trovoadas, sob comando de elite política antinacionalista, entreguista etc. É o que Keynes disse a Santiago Fernandes, em “A Ilegitimidade da Dívida Externa do Brasil e do III Mundo”, Nórdica, 1985, durante Bretton Woods: “O jogo cambial trabalha a favor dos ricos e em prejuízo dos pobres.” O blá, blá, blá do Estado inchado é mero discurso neoliberal. A solução Cavallo para Macri é a mesma de Meirelles para Temer, diretamente, de Nova York, Wall Street, para Brasília e Buenos Aires: congelar gastos sociais para pagar juros da dívida, em primeiríssimo lugar. Os superavits primários(receitas menos despesas, exclusive juros) se transformam em deficits nominais(receitas menos despesas, inclusive juros), porque as contas financeiras sobrepujam as não financeiras, de modo a melhor sucatear a periferia capitalista. O déficit é financeiro, não não-financeiro. Corte de gastos sociais, privatizações, desestatizações, liberdade de câmbio, liberdade de juros, mercantilismo à antiga, enfim, “insertar” a América do Sul ao mundo globalizado pelos ricos que não seguem essas receitas, vulneráveis, politicamente, quando têm que enfrentar as urnas. Por isso, Macri, na Argentina, tem medo da volta de Cristina, assim como Temer sabe que seu modelo entreguista não se sustenta em teste eleitoral, com Lula.