VENDA DO BRASIL

VENDA

 (Boanerges de Castro)

 

Venda a tristeza e a alegria

Venda a sua fantasia

Venda o gozo e o prazer

Venda a pobreza e a fartura

Venda a própria criatura

E o direito de nascer

Venda

Venda os braços que apertam

Venda os órgãos que enxertam

Pelo bem ou pelo mal

Venda o saber e a inteligência

Venda a sua consciência

Venda o livro e o jornal

Venda

Venda o sangue e a própria vida

Venda o samba na avenida

Venda o corpo e o coração

Venda o sentimento brasileiro

Venda tudo pra o estrangeiro

Sem qualquer contemplação

 

Venda

Venda o trunfo do baralho

Venda a força do trabalho

Se quiser sobreviver

Venda

Venda o pão

Venda o sapato

Venda mesmo o que for chato

E difícil de vender

Venda

Sai vendendo enciclopédia

A notícia e a tragédia

Venda curso de inglês

Venda o carnê e o bagulho

Venda o lixo e o entulho

Tire as calças do freguês

Venda

Venda o fumo e a cachaça

Venda a glória e a desgraça

Venda a terra

Venda o mar

Venda o modelo ultrapassado

Pra o basbaque empavonado

Se exibir e desfilar

 

Venda

Venda o voto e o compromisso

Seu encanto e seu feitiço

Sua magia e seu poder

Venda as entranhas dessa terra

Venda as armas para a guerra

Pra matar ou pra morrer

Venda todo esse patrimônio

Venda a alma ao demônio

Venda tudo o que puder

Venda até mesmo aquela herança

Venda a fé e a esperança

Venda até sua mulher

Venda o que resta da vergonha

Venda logo a Amazônia

Venda toda tradição

Venda a sua joia preciosa

Venda a casta orgulhosa

Venda a honra da Nação

 

Venda tanta coisa que ainda resta

Que é útil ou que não presta

Para o ato de vender

La, la, ia, la, ia……

 

ADEUS, MESTRE