May, estadista, fortalece democracia em trânsito unilateralismo-multilaterismo

Sábia decisão de Theresa May em convocar eleição que derruba sua própria maioria absoluta para ter maioria relativa no parlamento com governo de coalisão na tarefa de conduzir o Brexit relativizado no capitalismo globalizado em crise. Viva a competência feminina no poder. Baita vitória política.

Vou preferir falar hoje de May, primeira ministra inglesa, do que de Temer, acossado no TSE, cuja decisão sobre o destino dele pode sair hoje ou entrar na procrastinação geral característica da justiça brasileira sempre a serviço dos poderosos e inimiga dos ladrões de galinha.

Vamos ver, mesmo, se o TSE cassa ou não o ilegítimo presidente golpista que usurpou o Planalto com sua gang de entreguistas.

May poderia ter ficado numa boa.

Fez maioria absoluta no parlamento, na eleição em que os ingleses aprovaram o Brexit, saída da União Europeia.

Uma maioria que deixou sequelas.

Ficou no ar sensação de desconforto inglês, essencialmente, individualista.

O capitalismo em crise evidencia bancarrota do individualismo, do unilateralismo etc.

A União Europeia nasceu como resposta ao desastre individualista europeu imperialista.

Se unidos, a situação continua precária, imagine se cada país europeu tivesse puxando a sardinha para si, como aconteceu quando explodiram as duas grandes guerras, de 1914-18 e 1939-45!

Os ingleses se sentiram incomodados em participar do euro.

Insistiram em manter a libra, na vã esperança de um dia voltarem ao que foram, ou seja, imperialistas.

Sonho de noite de verão.

Depois da primeira guerra mundial, perderam a hegemonia para Estados Unidos.

Caíram sob domínio do dólar, do qual são dependentes faz mais de 80 anos.

O euro representou encenação de união da Inglaterra com Europa, libra-euro.

Sem a unidade monetária euro-libra, ficou, apenas, promessa no ar, desde que a União Europeia se tornasse, com os anos, independente dos Estados Unidos, o que nunca aconteceu.

Sem união euro-libra, não se configurou força total da União Europeia, para enfrentar, prá valer, o dólar, que entraria em crise a partir dos anos 1970.

Desde então, Tio Sam sofre crescentes déficits para sustentar expansão do estado industrial militar americano nos cinco continentes, em sua aposta imperialista unilateralista.

Esboroou-se o sonho americano de governar o mundo debaixo do padrão ouro.

Nixon, em 1970, descolou o dólar do ouro, diante das pressões dos aliados em resgatarem suas reservas auríferas, depositadas no Fort Knox, ao perceberem que a moeda americana começava a bater biela.

Entraria o império americano na volatilidade decorrente das incertezas relativas ao futuro do dólar descolado do ouro, abrindo-se à especulação e ao reinado da financeirização econômica global.

Dólares em pencas, descolocado do ouro, foram emprestados para todo mundo a juro de 2% a 4% ao ano, encharcando a praça global.

Washington, insegura com o excesso de liquidez monetária, responsável pelo aumento da inflação americana, puxou, em 1979, a taxa de juros para 25% ao ano.

Quem tinha dívidas em dólar, todo mundo, encalacrou-se.

O Brasil, na ocasião, quebrou e a ditadura militar abriu o bico.

Os europeus, inseguros, intensificaram esforços para se unirem contra o dólar em perigo, criando o euro e a União Europeia.

A Inglaterra aceitou entrar na UE, porém, resistiu à união monetária.

Preferiu continuar com a libra, razão pela qual a UE jamais ganhou musculatura para combater, frente a frente, o dólar, devido à dissidência parcial dos ingleses, sempre, excessivamente, individualistas.

A não-integração libra-euro contribuiu para manter relativamente frágil a União Europeia, cujos custos de manutenção exigiram dos seus sócios sacrifícios financeiros crescentes dos quais os ingleses sempre tentaram fugir.

Consideravam essa tarefa fruto negativo da globalização econômica, entendendo-a positiva, apenas, se lucrassem com ela, mas dela procurando fugir, quando tinham que enfiar a mão no bolsa para ajudar mantê-la.

Tremendos individualistas.

A bancarrota capitalista de 2008 azedaria tudo.

Os dólares bichados pela especulação financeira mundializada pelos bancos americanos feriram profundamente a União Europeia.

Os governos endividados europeus, que haviam usado dólares bichados, para construir, na base do endividamento público, a infraestrutura nos países de segunda linha, tiveram que entrar nos duros ajustes fiscais, impostos pela troika FMI-União Europeia-Banco Central Europeu.

Os banqueiros ingleses, aliados dos bancos americanos, a famosa dupla anglo-americana, sentiram cheiro de calotes.

Tornaram-se adversários da União Europeia e prepararam o espírito dos ingleses sobre a inconveniência de se manterem aliados dos europeus.

Essa tentativa anglo-americana de cair fora da União Europeia dividiu a Inglaterra, sempre dependente do riquíssimo comercio europeu, desde o início da industrialização inglesa, no final do século 18 e durante todo o século 19 e 20.

Venceria a parada, com o fenômeno do Brexit, o pensamento especulativo bancário inglês, temeroso dos prejuízos decorrentes dos duros ajustes fiscais impostos aos países europeus mais pobres, sob pressão, principalmente, da poderosa Alemanha.

A vitória dos bancos, com a consagração do Brexit, no entanto, afeta, duramente, a economia real inglesa, a indústria, o comércio, os serviços, a agricultura etc, enfim, os empregos por ela criados, visto que banqueiro especulador não gera postos de trabalho.

Therese May sentiu que sua vitória, no bojo do movimento Brexit, deixou a Inglaterra em dúvida.

Por isso, embora tenha feito maioria no parlamento, quis testá-la em novas eleições, no momento em que o Brexit intensificou controvérsias.

Os ingleses, desconfiados da eficácia do Brexit, depois de inicialmente aprova-lo, deram nova vitória a May, porém, sem garantir a ela maioria no parlamento, exigindo, dessa vez, governo de coalisão.

Divididos, os ingleses confirmaram as dúvidas da própria Theresa May.

Ou seja, o sentimento de desconfiança do povo em relação ao que tinha anteriormente aprovado resolveu mudar de posição.

Todos os ingleses, agora, são obrigados a dividir as responsabilidades conjuntas sobre passo a dar relativamente à União Europeia, da qual sempre dependeram.

Vitória ou derrota de Theresa?

A ideologia utilitarista capitalista inglesa entrou em cena ao se ver diante de incertezas quanto a abandonar a velha aliada Europa, para cair nos braços dos americanos.

O dólar deixou de ser segurança mundial, especialmente, no momento em que se unem China e Rússia, na tarefa de criar novo modelo monetário internacional.

O utilitarismo inglês, temeroso em relação à moeda americana, falou mais alto pela boca de Keynes: “Tudo que é útil é verdadeiro. Se deixa de ser útil, deixa de ser verdade.”

O individualismo capitalista extremista predominante ao socialismo marxista segundo o qual a riqueza é produzida socialmente no trabalho humano fabricou a glória do poder imperial inglês, mas demonstrou não ser eterno.

A história se rendeu à máxima de Hegel, da qual Marx foi discípulo: “Tudo muda, só não muda a lei do movimento segundo a qual tudo muda.”

O resultado eleitoral na Inglaterra deixa claro que os ingleses não abandonam o dólar, mas volta a abrir uma oportunidade ao euro.

A velha Inglaterra, desconfiada, individualista, decidiu, com a sabedoria de Theresa May, jogar com vara de dois bicos, no ambiente do capitalismo globalizado em mudança permanente.

Grande decisão da primeira ministra: convocou a democracia para dar a palavra final.

 

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