Maioria absoluta não garante reformas

EU SOU A FORÇA. ATÉ QUANDO?

Os tempos estão diferentes. Foram-se aqueles em que os governos dispunham de maioria simples, relativa ou absoluta nos congressos e assembleias para garantir sua governabilidade em paz. Não. Eles podem dispor dela, mas podem, também, não governar com ela. A correlação de forças está sujeita ao humor do novo fator que emergiu, as redes sociais. Os humores que circulam nelas mudam com a velocidade do vento. A direita, agora, dando as cartas, está louvando Macron por ter obtido maioria absoluta nas urnas. Supõe que terá governabilidade tranquila. Será? Depende. Se as massas nas ruas protestarem, na velocidade da circulação das informações relativas, contestatórias ou não, no ambiente da mídia eletrônica, os parlamentos tremem. A luta de classe está aberta. O ritmo frenético das mudanças de opinião virou fator decisivo em meio ao capitalismo financeiro global em crise que não garante segurança alguma aos detentores de ativos. Qual a base deles? Especulação, fumaça. Não há base real para a riqueza moderna. Não é a produção de bens e serviços que lhe dá sustentação segura, poder real etc. Este, agora, é, absolutamente, volátil. Altera tudo da noite para o dia. A segurança inexiste. Consequentemente, as incertezas ganharam dimensões incontroláveis.

ME ESTREPEI!

Alteram o que aparentemente é sólido, transformando-o em gasoso etc. A democracia, nos parlamentos, perdeu credibilidade, porque é comprada pelo poder desse capital sem base segura, cuja estabilidade é nenhuma. Forma-se maioria que pode não se sustentar no compasso das transformações que a volatilidade econômica financeira impõe, dada liberdade de circulação de capital, para tentar fugir da instabilidade, de um ponto a outro do planeta, na velocidade de um raio etc. Assim, tentar formar maiorias parlamentares, às custas de financiamentos privados de campanha, cujas origens são contestáveis, 24 horas por dia, sujeitos a chuvas e trovoadas, representa risco total. O dinheiro de Joesley Batista fez maioria ontem. Faria, de novo, hoje? Se as massas se mobilizam contra ela, nas redes sociais, tchau. As maiorias parlamentares podem dar golpes, como ocorre no Brasil, mas, da mesma forma, estão sujeitas a sofrerem golpes mortíferos, pelo polo oposto, maiorias formadas nas ruas. As reformas da previdência e trabalhista estavam aparentemente garantidas pela maioria que deu o golpe parlamentar jurídico midiático. A greve geral e os movimentos pelas diretas já alteraram essa segurança. O certo é que o incerto está no ar.

SOCORRO!

A parada gay monstra de 2 milhões pessoas a defenderem Fora Temer, em São Paulo, evidenciou essa polaridade contra a qual os parlamentos são impotentes. Evaporaram maiorias arregimentadas na França pelos partidos tradicionais, de modo a garantir, para eles, governabilidade conservadora. Elas mudaram de posição. Estão com Macron, cuja essência conservadora não diverge da que caracterizava âncora dos velhos partidos extintos. Conservadores que deixaram de apoiar-se na correlação de forças armadas com partidos extintos pelo vendaval eleitoral francês – republicano, socialista, comunista etc – , para se segurarem no novo partido macroniano, ficam sujeitos às mudanças radicais, se esse partido novo for percebido como essência velha, sem vitalidade, na hora de testes decisivos. Se forem insatisfatórias, do ponto de vista popular, as reformas que Macron propõe, quem garante que as ruas não venham formar novas correlações de forças, impondo-lhe derrotas? Se elas foram capazes de remover o velho, porque não removerão, também, o novo, se este, também, tornar-se senil diante de desafios decisivos? Ou seja, o poder absoluto, na Assembleia, transforma-se em absolutamente relativo na hora do vamos ver prá valer. Na Inglaterra, mesma coisa. Theresa May achou que tinha a força. Foi testá-la, em novas circunstâncias, perdeu. O Brexit corre perigo. Afinal, o Reino Unido depende do mercado da União Europeia para desovar suas manufaturas, seu capital bancário etc. O que valia ontem, saída da UE, deixou, rapidamente, de valer, dadas novas expectativas. Pior, nesse contexto, para os golpistas, como Temer. Tem maioria parlamentar, mas não governa. A democracia brasileira não está no parlamento. As ruas estão contra ele. Que maioria parlamentar vai contra elas?