O capital corrompeu todo mundo

Lênin, inesquecível: “A mais democrática das eleições burguesas não passa de expressão da ditadura do grande capital sobre os eleitores!.” As delações premiadas de pai e filho, Marcelo e Emilio Odebrecht, repetidas ad nausen nos noticiários, ressalte-se, com grande dose de manipulação, quando diz respeito aos políticos do PT, principalmente, como faz a Globo, demonstram o lema leninista como absolutamente verdadeiro. O capital comprou todo mundo. Não é de hoje. Em “Minha razão de viver”, de Samuel Wainer, próximo de Getúlio, JK e Jango, a coisa fica deveras explícita. JK deu mole para os capitalistas estrangeiros, quando abriu as fronteiras, sem limites, para eles entrarem, na desova internacional de carros, que estavam estocados na Europa e nos Estados Unidos, como produto, ainda, da crise de 1929. O presidente bossa nova rasgou o Brasil de sul a norte e de leste a oeste, porque os carros estocados no primeiro mundo precisavam rodar no terceiro mundo. Brasília, a nova capital, salvou capitalismo mundial contaminado de excedente de automóveis. As construções das rodovias tiveram os empreiteiros poderosos por trás dos governos. No princípio, os empreiteiros americanos estavam nas bocas, interessados na expansão das fronteiras nacionais. JK priorizou as empreiteiras nacionais, aos poucos. Irritou, profundamente, Washington. Mas, as relações do governo com os capitalistas empreendedores foram marcadas por maracutaias incríveis. No governo Jango, diz Wainer, mesma coisa. Os militares deram o golpe nos nacionalistas JK e Jango, e o campo foi aberto, demasiadamente, para os empreiteiros americanos, especialmente, como reclamou o golpista Carlos Lacerda, atacando o general Castelo Branco como vendilhão da pátria. “Os militares tiraram o poder das mãos dos comunistas e entregaram para os capitalistas americanos, enquanto os capitalistas brasileiros ficaram a ver navios”, disse o corvo carioca, escondendo a sua americanofilia desbragada, na tentativa de voltar ao poder com a Frente Ampla, unindo ele, JK e Jango, em 1976. Delfim, czar da economia nos governos militares de Costa e Silva e Figueredo, foi acusado de receber grossas gorjetas de capitalistas empreiteiros, conforme descreveu o famoso Relatório Saraiva. Geisel isolou ele na embaixada em Paris, para não ser candidato dos capitalistas ao governo de São Paulo ou do Brasil. Depois da ditadura, Sarney e Collor, remanescentes das forças conservadoras, sabiam os caminhos das pedras, para negociarem com os empreiteiros. FHC abriu as porteiras para os gringos, negociando o patrimônio nacional a troco de banana, como está fazendo, agora, o vendilhão Temer e sua quadrilha de espertos, todos na Lavajato. E Lula e Dilma, nacionalistas, também, foram envolvidos nas malhas da corrupção congênita que representa a relação intrínseca dos empreiteiros com o Estado nacional, desde sempre. O pai Odebrecht disse que serve e é servido pelos governos brasileiros faz mais de trinta anos. Pagou propina para FHC, enquanto presidente e, antes, como candidato ao Senado. O filho Odebrecht disse que não existe nenhum político que ele conheça, ou seja, todos, que não tenha usado caixa dois eleitoral. Essa é a lei que vigora em Terra Brazilis. Odebrecht pai chamava Lula, na intimidade, de “chefe”. É impossível, ou melhor, intelectualmente, desonesto, achar que Dilma, também, não sabia das jogadas, permitidas e ampliadas pela legislação eleitoral corrupta, embora não se possa dizer que tenha embolsado grana. Ela fora dirigente de estatais, o local a partir do qual, no jogo da ocupação de cargos, nos governos de coalizão da Nova República, as maracutaias eram armadas para se conseguir, no Congresso, aprovação das providências encaminhadas pelo Executivo. Será que o judiciário não sabia disso, também? Por que não prendeu presidentes e líderes políticos? O estado capitalista brasileiro, assim como todos os demais estados, são organicamente corruptos, porque, como disse Marx, autor de O Capital, o maior estudioso da história do modo de produção burguesa, “o governo é o comitê executivo da burguesia”, comercial, industrial e financeira. O que Lula e Dilma fizeram de bom, diferenciando-se dos seus antecessores, foi, além da execução de política nacionalista distributiva de renda,  aprofundar investigações sobre o Estado corrupto, cercado pela Constituição liberal de 1988. No poder, o PT acelerou regulamentação dos pressupostos constitucionais, determinadores de fiscalizações rigorosas dos poderes da República. Foi conferido aos procuradores poderes extraordinários em demasia, cujas consequências resvalaram-se para os abusos de poder dos juízes, que acabaram servindo aos interesses antinacionais, interessados em paralisar o Brasil, como um concorrente internacional, no ambiente capitalista global, a partir da exploração das contradições emergentes no interior do próprio Estado corrupto. N]ao é à toa que a grande denuncia, à espera de investigações rigorosas, diz respeito à ligação de juízes e procuradores com a CIA e o FBI americanos, para entregar segredos de grandes empresas nacionais, envolvidas na corrupção desencadeada pela legislação eleitoral. Os idealizadores do golpe político construído pela aliança da burguesia nacional corrupta, submissa à burguesia financeira internacional, credora do Estado brasileiro, imaginaram ser possível remover impunemente o poder petista, também, seduzido pela corrupção dos Odebrecht e, igualmente, dos banqueiros, que, agora, dão as cartas no governo Temer, mantendo resguardadas suas imagens deletérias, imaculadas. Não foi, não está sendo possível. O governo de coalizão da burguesia financeira, em torno de Temer, formado pelo PMDB, que traiu o PT, e PSDB, organicamente antinacional, estão com suas digitais expressas no modo de produção burguês, ou seja, corrupção pura. Os líderes conservadores, que usufruíram da legislação eleitoral corrupta, aliando-se aos empreiteiros, da mesma maneira que aconteceu com os líderes petistas e seus aliados à esquerda, caíram também em desgraça. Estão todos mortos vivos, tentando passar reformas conservadoras no Congresso, cuja composição está podre e não tem credibilidade para tocá-las. Eis o ambiente político nacional em completa podridão. O golpe acabou expondo todos diante do poderoso telescópio em que se transforma a visão crítica da sociedade, enojada de tudo.