Gravar vídeo, estratégia de fuga da verdade

O vídeo gravado pelo presidente Temer esconde imensa hipocrisia. Ele reconhece que participou de reunião com empreiteiros da Odebrecht na qual se decidiu valores para seu partido da ordem de 40 milhões de dólares, mas não tomou conhecimento dessa quantia!!! Circulava com grande desenvoltura entre os diversos personagens empresariais e políticos na condição de presidente do PMDB. Tenta passar a imagem de imaculado. Dinheiro? Não é comigo. Como se sabe, nem, mesmo, o dono de empresa mexe com dinheiro. Tem especialistas para tanto. No entanto, não deixa de tomar conhecimento dos relatórios financeiros. O mesmo se dá no meio político. A movimentação financeira tem sua contabilidade própria. O presidente de uma agremiação política não conheceria todos os detalhes, sabendo que tem compromisso com todas as correntes de opinião dentro do próprio partido, um todo formado de parte convergentes e divergentes? Temer não saberia dizer que o dinheiro negociado tinha origem e destino quanto as suas quantidades e qualidades necessárias, para atender seus pares? É aquela velha enganação: experimentou maconha, mas não tragou. Clinton disse essa grossa mentira, para tentar enganar trouxas. Virou piada mundial. A grana foi negociada, mas não havia quantidade definida e o chefe não sabia nem da grana nem da quantidade. Pois, sim. A falta de coragem de encarar uma coletiva de imprensa, a fim de se colocar disponível às perguntas para dar respostas a elas dissemina-se geral entre os políticos. Diante das acusações, em vez de encarar o público, se expor para defender-se, o cara prefere, agora, gravar um vídeo e jogar nas redes sociais. Temer é o mais novo usurário da moda. Como se sabe, Aécio Neves tem sido um craque nisso. A cada bomba que cai na cabeça dele, parte para gravar um vídeo, por meio do qual dá sua versão. Evita-se o bate bola, o ping pong das perguntas e respostas. O que pensar disso, senão que se foge do fogo cerrado? Há, também, os que partem para o ataque, produzindo fatos políticos, para sair da zona de desconforto, onde estão acuados pelas constantes acusações cabeludas. O senador Renan Calheiros, por exemplo, é um deles. Grava vídeo para atacar a política do presidente Temer, com clara disposição de dissidente. Como tem contra si, no seu estado, Alagoas, corrente oposicionista que cresce, visando eleições, no próximo ano, em que ele está mal nas pesquisas, correndo risco de dançar, o que faz? Grava um vídeo para evidenciar dissidência relativamente ao governo, do qual discorda quanto à reforma da Previdência. Cria fato político para tentar melhorar-se nas pesquisas, enquanto sua fala contribui para gerar outro tanto de dissidentes, temerosos de serem fritados na disputa eleitoral de 2018. Depois do vídeo de Renan, a reforma da previdência, praticamente, ficou inviabilizada nos termos propostos pelo Planalto. E pode até ser retirada de pauta, depois do tsunami provocado pela lista de acusados do ministro Fachin. FHC é outro que passou a jogar com vídeos. Emílio Odebrecht disse que botou grana em campanha eleitoral dele, seja para disputa presidencial, seja para senatorial. “Vocês conhecem a peça?”, perguntou o empresário, dando conta de que FHC nunca fala em dinheiro. Dissimula, solicita cooperação de campanha etc. Diplomático e escapista, o ex-presidente, no vídeo, veio com conversa mole de que precisava saber realmente dos termos da fala do empresário. Reiterou apoio à Operação Lavajato e deu a entender que não pedira grana, assim como confia na justiça, algo que os seus pares falam, repetidamente, jogando a culpa na lei eleitoral que permite o jogo da inescrupulosidade. A lei é inescrupulosa, mas quem faz uso dela é santo. Ressalte-se que Lula, no meio do tiroteio, deu entrevista a uma rádio, na Bahia, predispondo-se aos ataques e repostas. Temer, covarde, fugiu. Gravou vídeo para dizer que tem compromisso com sua biografia de jurista que se pauta pela verdade. O Jornal Nacional da Globo corre e joga no ar a fala presidencial. Como não há contestação, vende a declaração do presidente como verdade absoluta. A Folha de São Paulo, safada como sempre, diz que Temer partiu para o contrataque, gravando vídeo. Ou seria o contrário, fugiu do ataque, gravando vídeo, para não ser molestado por perguntas incômodas?