Águas do Velho Chico unem Lula e Vargas. História para rememorar Tiradentes

Ao som de Águas de Março , de Tom Jobim e da sanfona de Gonzagão entoando acordes da canção que descreve o valor da   Usina Hidrelétrica de Paulo Afonso, Lula realizou no mês de março, em Monteiro, na Paraíba, a Celebração das Águas, integrando as bacias do  Velho  Chico com rios do semiárido nordestino, tornando-os perenes, vivos o tempo todo.

Nas águas do Velho Chico navega o barco da aproximação histórica entre Lula e Vargas. O gaúcho Getúlio Vargas construiu a Usina de Paulo Afonso, levando energia para o nordeste, reduzindo sua dependência ao candeeiro, e o pernambucano Luis Inácio, leva água e vida para  região, beneficiando, pelo menos, 12 milhões de nordestinos e um projeto mais equilibrado para o desenvolvimento do Brasil

Lula criou por decreto a Semana Presidente Vargas

Esta aproximação política entre os dois presidentes mais populares que o Brasil já teve,  incomoda à esquerda e á direita, já sabemos. O PT quando nasce, exibia injusta hostilidade ao varguismo, mas tinha  entre seus quadros dirigentes, não por acaso, figuras como Francisco Werffort e José Álvaro Moysés, obedientes no esforço político de rotular tudo o que fora nacional-desenvolvimentismo como um “populismo arcaico”, muito embora tenha sido este movimento o que mais estruturou um projeto estratégico de nação soberana para o Brasil. A tarefa de distorcer a história e hostilizar o varguismo, foi  definida como prioridade política pela oligarquia paulista, assim assumida pela academia uspiniana, e que encontrou na mídia udenista ilimitados espaços de vassalagem para dividir politicamente as forças populares.

Eis que, entretanto, a obrigação de gerir o estado, leva Lula a revisar de forma objetiva a avaliação negativa que exibira contra Vargas no início de sua trajetória. Um exemplo, Lula criou, por decreto presidencial, a Semana Vargas, para homenagear “o grande presidente brasileiro”, conforme consta da exposição de motivos da decisão do Palácio do Planalto. Lula vai ainda mais longe quando, em declaração pública, chegou a taxar o movimento armado que a oligarquia paulista lançou para derrubar o governo Vargas, em 1932, como uma Contra-Revolução, muito embora todo o denodado esforço mistificador  da mídia dominante para rotular  aquilo como se democrático fosse.  Apesar do apoio que a oligarquia paulista recebeu dos capitais externos, Vargas resistiu ao golpe, de armas nas mãos, tal como havia chegado ao Catete, pela Revolução de 1930, derrocando a corrompida Republica Velha,  período em que as greves eram tratadas como “ caso de polícia”.como disse o oligarquíssimo presidente Washinton Luis.

Já é conhecido o fim que levaram ex-dirigentes do PT, da linha de Francisco Weffort e outros, no apoio aos governos neoliberais de FHC e , agora, na sustentação do golpismo de Michel Temer, que tem a própria cara da República Velha.

Excluindo as claras e objetivas declarações de Lula em reconhecimento ao importante papel de Getúlio Vargas, ao longo do tempo estas correções de avaliação do petismo em relação ao varguismo vêm sendo feitas de modo parcial, semiconsciente, meio envergonhado, salvo algumas elaborações mais aprofundadas  por parte de intelectuais petistas, que identificaram e destacaram o valor significativo desta aproximação histórica entre os projetos dos dois presidentes.

Vargas e Lula complementam-se

Durante algum tempo, o petismo hostilizava a própria CLT, rotulando-a até como “o AI5 da classe trabalhadora”, o que já não é mais mencionado. Ao contrário, sem reconhecer publicamente que errou na qualificação da CLT   –   um corajoso e bem elaborado trabalho de regulamentação do trabalho e um tremendo enfrentamento com o capital   –   hoje, a CUT defende energicamente as conquistas laborais da Era Vargas, inclusive com passeatas onde as reproduções em cartazes da Carteira de Trabalho,  as carteiras azul que FHC quase transformou num OVNI,  despontam com símbolo de uma época em que, de fato, se deu início efetivo à destruição da herança escravagista, a partir da Revolução de 30.

O mesmo se pode dizer em relação à Previdência Social, que só na Era Vargas ganhou o status de Ministério, tal como ocorrera com o Ministério do Trabalho, da Educação e Saúde e outros. Aqui também, na defesa da Previdência Pública, que recebeu movimentos de expansão  no regime militar (Funrural) e depois com Lula e Dilma, pode-se registrar  uma revisão prática, semiconsciente, não declarada, da condenação política que o petismo fazia em relação ao presidente gaúcho. Vale destacar  que a expansão da cobertura previdenciária estatal foi energicamente ampliada durante os governos Lula e Dilma, pelo o que se pode afirmar existirem entre estes e Vargas, muito mais complementaridade que contradições, como ainda é erroneamente acentuado, com exageros políticos interessados, à esquerda e à direita. Mas, reconheçamos, cada vez menos nas fileiras do petismo.

CLT: Vargas criou, Lula expandiu

Se na Era Vargas se criou a CLT, na Era Lula esta conquista foi expandida a sua aplicação prática, com 22 milhões de empregos com carteira assinada, a carteirinha azul que Temer quer destruir, tornou-se uma das grandes marcas dos governos Lula-Dilma. Se na Era Vargas foi criada a Petrobrás e o monopólio estatal do petróleo, e a empresa estatal foi fortalecida durante a gestão de Geisel  –   após o crime de quebra do monopólio  estatal, praticado por FHC  –   Lula retoma o sentido histórico da obra varguista, recriando o monopólio estatal do petróleo pré-sal, cuja existência,  já era prevista durante a ditadura, o que levou Dilma Roussef, então prisioneira política, a defender, com objetividade e grandeza,  as 200 milhas marítimas decretadas pelo governo Médici. Ou seja, tanto na questão  social, que a República Velha tratava como caso de política, como na questão da infra estrutura energética, que era praticamente inexistente antes da Revolução de 1930, há muito mais identidade e complementação entre varguismo e lulismo, o que sugere um bom debate para o Congresso do PT, uma agenda nem sempre tratada com objetividade no petismo,  por estar  sempre acompanhada de rótulos condenatórios que a direita lançou contra a Era Vargas.

Usina de Paulo Afonso e Transposição, alcances históricos

A Celebração das Águas, a obra de integração das bacias do Velho Chico  com os rios do semiárido nordestino , tem alcance histórico para o país na mesma envergadura da construção da Hidrelétrica de Paulo Afonso,  obra de Vargas, mas que a pilantragem oportunista de  Café Filho tentou usurpar , tal como a vergonhosa tentativa de usurpação de Michel Temer sobre a transposição das águas do grande rio. Certamente , a tentativa de retrocesso à República Velha, a demolição dos instrumentos estratégicos criados na Era Vargas (Petrobra, BNDES, Previdência Social, CLT etc) indicam a sintonia absoluta dos remanescentes daquela carcomida oligarquia paulista com os interesses das Aves de Rapina do capital externo, denunciadas  por Vargas em sua Carta Testamento, que deveria ser do conhecimento de todos os brasileiros, e também dos petistas que tanto condenaram , injustamente, o ex-presidente gaúcho.

O tremendo alcance que a obra da Transposição das Águas do Velho Chico possui para  o Nordeste, representa uma continuidade de grandes obras também realizadas por Vargas para aquela região. Além da Usina de Paulo Afonso,  Vargas criou o Banco do Nordeste, o Instituto do Açúcar e do Álcool, o Estatuto de Lavoura Canavieira, entre outras alavancas estruturantes para o desenvolvimento da economia nordestina

“Dr Getúlio” e Lula, nos braços do povo

Os artistas populares não esquecem os heróis nacionais. Mano Décio, do Partido Comunista, exaltou Tiradentes, em versos geniais. Chico Buarque e Edu Lobo, igualmente, exaltaram Getúlio. O poder midiático oligopolizado, vendilhão da pátria, cuida de boicotá-lo.

Vargas contou com o apoio de destacados intelectuais e artistas para seus projetos na área da cultura e da informação. Villa Lobos presidiu o Instituto Nacional de Música; Roquete Pinto e Humberto Mauro dirigiram o Instituto Nacional de Cinema Educativo; Sérgio Buarque de Hollanda e Mario de Andrade foram diretores do Instituto Nacional do Livro ; Vinícius de Morais e Cecília Meirelles trabalharam no jornal varguista A Manhã , e Carlos Drummond de Andrade , na Rádio Mauá. Lula também conta com o apoio de notáveis pensadores, artistas e cientistas, que reconhecem o valor histórico de seu governo,  bem como o seu direito de disputar as eleições presidenciais previstas para 2018 e,  tal como Vargas, voltar nos braços do povo.

 

Beto Almeida

Membro do Diretório da Telesur