04 dez
2014LDO: Dilma segue Tancredo, derrota Aécio e desarma golpe favorável ao impeachment
Conselho Editorial Sul-Americano em 04/12/2014

A presidenta Dilma Rousseff seguiu os conselhos de Tancredo Neves: “Não vou matar o povo de fome para pagar os agiotas especuladores”. Ao propor ao Congresso mudança na Lei de Diretrizes Orçamentárias(LDO), para reservar maior parcela de recursos para sustentar o desenvolvimento, retira, não da boca do povo, mas da dos banqueiros, credores da dívida pública, no orçamento da União de 2014. Seguindo conselhos do nacionalista, getulista Tancredo, Dilma impõe nova derrota ao neto dele, senador Aécio Neves, alinhado às forças defensoras da manutenção do chamado superavit primário, dentro do orçamento, em proporção desestabilizadora, para os interesses da economia, a fim de favorecer a burguesia financeira especulativa. O governo teria que fazer, no total, uma economia forçada de quase R$ 200 bilhões, para liquidar juros, cobrados na base da especulação, da agiotagem, sob taxa de juro mais alta do mundo, a selic. Com a vitória dilmista, nessa madrugada, o Congresso zera o superavit primário, configurando, na prática, a nova correlação de forças decorrente do resultado eleitoral. Os congressistas deram um passo à esquerda. Os interesses dos mais pobres, que meteram um pé dentro do orçamento, em forma de obtenção de mais recursos para os setores sociais, prevaleceram, relativamente, em relação aos dos mais ricos. Sem mudança na LDO, a presidenta estaria prisioneira de processo desestabilizador, sob acusação de cometer crime de responsabilidade, por flexibilizar, em nome do desenvolvimento, a lei orçamentária. A tese do impeachment ganharia força, fragilizando extraordinariamente o novo governo, cujos desafios, no âmbito da crise capitalista global, são imensos. Os nacionalistas desarmaram o golpe. O Congresso veste camisa do nacionalismo.
O golpe do
superavit
primário
obedece

Aécio não entendeu nada da história de Tancredo. O avô dele, aliado de Getúlio, jamais, como disse, iria tirar dos pobres para dar aos ricos, como o netinho pretendia. O bobo não entendeu sequer a derrota presidencial e muito menos a surra que levou dos mineiros, para deixar de ser conservador, subordinado a banqueiro. Tancredo, como Sarney, votaria na mudança da LDO. Getúlio encarnou em Dilma.
Muita coisa ainda vai ser dita sobre a eletrizante madrugada dessa quinta feira no Congresso em que foi aprovada revisão da Lei de Diretrizes Orçamentárias, que permite remoção do superavit primário – dinheiro para pagar juros aos banqueiros – de modo a viabilizar a continuidade das atividades produtivas no País.
A burguesia financeira, que lutava encarniçadamente para manter o status quo rompido pela força política dilmista, recém reeleita para o período de 2014-2018, perdeu grande batalha.
Predominou, na prática, o discurso de Tancredo Neves de que jamais pagaria juros da dívida às custas da fome do povo brasileiro.
Se tivesse que ser sustentada a meta de superavit primário fixada pelos banqueiros, na casa dos 2,5% do PIB, no âmbito do orçamento, graças a sua força no Congresso, a burguesia financeira, estaria abocanhando, em 2014, algo em torno de R$ 200 bilhões.
Dilma, com a revisão da LDO, vai deixar no caixa não mais do que R$15 bilhões, a título de economia forçada para pagar juros, enquanto utilizará o restante do dinheiro para fazer desenvolvimento.
o jogo
financeiro
internacional
que
empobrece

Renan conduziu brilhantemente uma das mais longas e importantes da história do parlamento com grande sobriedade, paciência, perseverança e generosidade, garantindo a palavra a todo mundo, manobrando a assembleia, com grande controle emocional, tático e estratégico, depois de ser bombardeado, seguidamente, em sessões anteriores. Credenciou-se a mais um mandato no Senado, se não emergir contra ele tsunamis políticos irresistíveis, por ter tido muito influência na indicação de nomes para cargos em estatais cujo honorabilidade estão sob suspeitas.
Se não fizesse isso, a taxa de desemprego recorde de 4,9%, que mantém valorização dos salários no País, daria lugar a um desemprego na casa dos 10% da população economicamente ativa.
O PIB, em vez de ficar positivo, ficaria negativo.
Zerar o superavit primário – receita menos despesas, exclusive juros – representa tirar dos ombros da população uma agiotagem financeira especulativa que está em prática desde o Consenso de Washington, nos anos 1990, Era FHC, como imposição do Fundo Monetário Internacional e credores.
Foi nesse contexto que nasceu também a Lei de Responsabilidade Fiscal, para assegurar aos banqueiros o superavit primário elevado que chegou a alcançar 5% do PIB, um escândalo, em nome de equilibrismo orçamentário recessivo.
O Consenso de Washington, comitê executivo da burguesia financeira internacional, para obter, nos parlamentos, essa poupança forçada, que não passa de pura agiotagem, criou o famoso tripé macroeconômico neoliberal, como arma para atender os interesses dos credores.
Formado por superavit primário elevado, metas inflacionárias irrealistas, para a realidade brasileira, marcada por violenta desigualdade social, e câmbio flutuante, sempre afetado pelas decisões dos países capitalistas ricos, cujas moedas são emitidas sem lastro, para realizar o jogo comercial global interessante para eles, no caso os americanos, com o dólar, e os europeus, com o euro, o tripé, indiscutivelmente, transformou-se em arma econômica imperialista, cuja função tem sido a de extrair renda a forceps dos mais pobres.
o povo
em favor
da
agiotagem
cujas

Sarney, com seu tino político de grande navegante em alto mar sob tempestades, sacou que estava em cena golpe parlamentar contra Dilma. Ficou no plenário até às cinco da manhã, dessa quinta, para posicionar de forma nacionalista, tancredista,dilmista, lulista, contra a burguesia financeira que lutou e perdeu a batalha dela pela preservação da agiotagem em cima do povo. Pôs panos quentes em cima dos golpistas. Ele já passara por isso, quando não teve forças políticas para enfrentar os credores, traído que foi por Ulisses Guimarães, durante sua presidência. Esteve ontem ao lado da esquerda, que faturou o episódio político contra a direita aecista bancocrática.
A economia, prisioneira desse tripé imperial, não poderia crescer além de determinado patamar do PIB sob pena de ferir responsabilidades fiscais, fixadas em lei.
Haveria, em caso de desobediência, dizem os credores, aumento da inflação, cujo diagnóstico neoliberal é o de ela decorre do excesso de consumo do povo, sendo necessário conter os salários, visto como custo de produção e não como renda que eleva consumo, produção, emprego, arrecadação e investimentos.
Se Lula e Dilma não tivessem resistido às regras estabelecidas por Washington, teriam sucumbido à crise mundial, criada pelas próprias contradições do capitalismo americano, expressas em enxurrada de moedas desvalorizadas para desestabilizar os concorrentes nas disputadas comerciais globais.
A manutenção do superavit primário na Lei de Diretrizes Orçamentárias, na sequência da derrota eleitoral da oposição, cujo programa de governo seria reforçar a tese neoliberal, financeira, especulativa, paralisante, economicamente, era cartada da burguesia financeira e sua base, apoiada na oposição conservadora, fortalecida pela grande mídia, para pararem o Brasil.
consequências
são as
de manter
a economia

Senador Romero Jucá, RO, PMDB, relator da LDO. Um camaleão governista. Esteve, com FHC, com Lula e com Dilma, navegando em águas revoltas. Agora, vestiu camisa nacionalista, para garantir o dinheiro do superavit primário para as causas sociais e não para os agiotas. Pode ser o próximo presidente do Senado e do Congresso. Defender o poder é com ele, mesmo, seja à direita ou à esquerda. Fantástica personalidade política.
Dilma estaria, politicamente, desestabilizada, como primeiro passo para levar adiante a tese do impeachment, sob argumento, ardilosamente, construído de que teria cometido crime de responsabilidade, passível de julgamento político no Congresso etc.
A diplomação dela, no próximo dia 18, no Superior Tribunal Eleitoral, se daria de forma constrangedora, talvez, impossibilitada por mobilização de manifestantes arregimentados pela oposição, como aconteceu, na terça, à noite, nas galerias da Câmara dos Deputados, na tentativa de impedir a mudança na LDO.
O golpe parlamentar, articulado pela burguesia financeira e seus comandados no parlamento, não vingou.
Ele visava abalar Dilma para viabilizar o impeachment.
Perderam a primeira batalha.
Aliás, segunda.
A primeira, foi a eleição.
A de ontem foi tentativa de faturar no tapetão.
Mais uma vez, o PMDB se mostrou como o maior aliado do PT, do governo, para segurar o pretendido golpe parlamentar.
O preço desse apoio fundamental, certamente, será reforçar a cobrança peemedebista de estar no núcleo duro do poder, dando as cartas com o PT etc.
A presença do senador e ex-presidente da República, José Sarney, no plenário, até às 5 da manha, dessa quinta, não foi algo trivial.
em baixo
crescimento,
para
garantir
supremacia

Henrique Fontana, lider petista, gaúcho, mostrou a face de um PT que pretende, no novo governo Dilma, liderar a pequena burguesia, alinhando-a, como se viu, no episódio da LDO, não ao lado da grande burguesia financeira, mas à classe média baixa ascendente, no ambiente da melhor distribuição da renda, que avançou na Era Petista, mudando correlações de forças no parlamento. Credenciou-se, com uma postura moderada, no ambiente de radicalização política, imprimida pela oposição, aliada dos banqueiros, à presidência da Câmara, disputando com Eduardo Cunha, uma incógnita total quanto a marchar como aliado de Dilma, caso vença eleição em fevereiro.
Águia política, ele sabia muito bem o que estava por trás da manobra parlamentar, ou seja, parar o Brasil e desestabilizar Dilma.
Os peemedebistas perceberam claramente o que estava em jogo, ou seja, a estabilidade política dilmista.
O presidente do Congresso, senador Renan Calheiros, pode ter tido o seu grande papel no Legislativo, conduzindo, espetacularmente, uma sessão que se iniciou às 10 horas da quarta para estender às 5 da matina do dia seguinte.
Uma África.
Nesse contexto, evidenciou o espetáculo da traição de Aécio Neves.
Ele foi na direção oposta da pregação de Tancredo, que jamais faria o que o netinho playboy se dispôs a fazer: tornar-se o Capriles brasileiro, manipulado pelos interesses de Washington.
da burguesia
financeira
especulativa
contrária ao
desenvolvimento
sustentável.

Na reta final de quase 60 anos de vida parlamentar, o senador Pedro Simon, PMDB, RS, serviu, no episódio da LDO, de soldado fiel às forças da bancocracia, jogando contra o nacionalismo. Alinhou-se à causa udenista, anti-dilmista, que visa o impeachment. Ergueu-se com a bandeira moralista, contrária ao decreto, aprovado pelo Congresso, que fixa quantitativo financeiro para emendas parlamentares, destacando que se trata de propina regulamentada para violar responsabilidade fiscal. Confundiu as bolas. Não entendeu que a Lei de Responsabilidade Fiscal é irmã gêmea do tripé neoliberal que o FMI e o Consenso de Washington, na Era FHC, empurraram goela abaixo do Congresso, para sustentar as benesses bilionárias da burguesia financeira, responsável maior por patrocinar a corrupção no rastro da legislação eleitoral, adequada à sustentação dos superavit primários elevados que aprofundam a desigualdade social. Simon limitou-se à aparência dos fatos e esqueceu a essência fundamental deles. Lamentável ocaso político.
Obama, como se sabe, quer fritar Dilma, por ter perdido a venda dos boeings para a Aeronáutica brasileira, depois do episódio da espionagem.
A presidenta, afrontada, preferiu comprar os aviões dos suecos, e, na sequência, juntou-se, decisivamente, à Rússia, China, Índia e África do Sul, para fundar o Banco dos Brics.
Nada mais incômodo para Washington, que vê o Banco dos Brics, germe que ameaça o sistema monetário internacional, ancorado no dólar,abalado pela crise mundial, que se prolonga, derrubando, agora, o euro, jogando a Europa na recessão.
O episódio da votação da LDO é um capítulo de um grande enredo que envolve armação de golpe contra o Brasil sob Dilma cuja opção política contraria o império.



