10 ago
2014Autofagia global no”Escândalo da Wikipédia”
Wilson Ferreira em 10/08/2014

SENSACIONAL O ARTIGO ABAIXO DE WILSON FERREIRA QUE COLOCA EM CENA PROBABILIDADE DE ESTRELAS DO JORNALISMO GLOBAL ESTAREM ENTREGUES AO SACRIFÍCIO EM NOME DO INTERESSE INCONFESSÁVEL DA GLOBO: JOGAR A ELEIÇÃO PARA SEGUNDO TURNO, TRANSFORMANDO SEUS PROFISSIONAIS EM AGENTES DA NÃO-NOTÍCIA. O editorial do Globo, no sábado, e a coluna do Merval Pereira, no mesmo jornal, nesse domingo, expressam, com toda a certeza que a arrogância global possui, que foram aloprados petistas os responsáveis por alterar os perfis de Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg no Wikipédia. Não dão abertura para a própria realidade que é essencialmente dual, dialética. Não poderia, também, ser espionagem, praticada pelos adversários do governo, incrustrados dentro do próprio governo, sabendo que o Planalto tem sido vítima dela, como Snowden denunciou, levando ao estremecimento das relações entre a presidenta Dilma Rousseff e o presidente Obama? Pode ter sido aloprado, mas, também, não se pode descartar o outro lado da notícia. A afirmação peremptória do Globo sinaliza partidarismo, sem dar razão à dúvida, matéria prima do jornalismo. O negócio cheira a armação, em tempo de eleição. Aliás, não custa lembrar a história dos aloprados, na campanha eleitoral de 2006, uma grande armação na qual teria sido utilizado o Jornal Nacional, para publicá-la, em caráter de urgência, num sábado, véspera da eleição no primeiro turno. Lula vinha galopando na frente do seu adversário, Serra. Ia, de acordo com pesquisas, faturar, folgado. De repente, a armação. O resultado desta, que envolveu o que é ritual em todas as campanhas eleitorais, de qualquer partido, ou seja, passeio de dinheiro de campanha, para abastecer candidaturas, foi a descoberta de dinheiro na campanha de Lula. Grande novidade, sabendo que vigora no País uma legislação eleitoral permissa, imoral, da qual situacionistas e oposicionistas lançam mão! Avisado a tempo por delegado suspeito de abastecer a turma de Serra, que sabia a hora em que o dinheiro desembarcaria num comitê petista em São Paulo, o JN parou as máquinas e mandou ver, jogando no ar o segredo de polichinelo, ou seja, dinheiro de campanha que todo mundo utiliza, até o Serra, por que não? Bafafá geral. O adversário do candidato do PT conseguiu o que parecia impossível: levar a eleição para o segundo turno. Confira essa história em http://www.viomundo.com.br/denuncias/leandro-fortes-o-grupo-de-cachoeira-e-o-escandalo-dos-aloprados.html. Lula, para arrumar uma desculpa, chamou sua turma de aloprada, pega pela espionagem serrista. Agora, nesse episódio de utilização de computador do Planalto não poderia estar pintando algo parecido, isto é, uma armação da direita para pegar petista, a fim de taxá-lo de aloprado, com o objetivo de produzir o mesmo resultado de 2006, ou seja, impedir, a qualquer custo que haja vitória eleitoral de Dilma Rousseff no primeiro turno, levando a eleição para o segundo?(César Fonseca)
O “escândalo da fraude da Wikipédia” é a confirmação de que nada mais resta para a grande mídia do que a bomba semiótica da não-noticia.
Em nova “denúncia” jornalistas Miriam Leitão e Carlos Sardenberg tiveram seus perfis na enciclopédia virtual Wikipédia “fraudados” com a inserção de difamações e críticas.
E tudo teria partido do endereço virtual “da presidência”… ou teria sido “do Palácio do Planalto”… ou, então, “de um rede pública de wi fi?”.
A ambiguidade dá pernas à não-notícia, que revela um insólito desdobramento de um jornalismo cuja fonte primária (a Wikipédia) nega a si própria como fonte confiável de investigação.
Abre uma surreal possibilidade de um tipo de jornalismo que se basearia exclusivamente em fontes onde o próprio repórter pode criá-las para turbinar a sua pauta.
E de quebra revela o momento autofágico da TV Globo que oferece suas próprias estrelas jornalísticas em sacrifício no seu desespero de ter que lutar em duas frentes simultâneas: a política e a audiência.
Com o “escândalo Wikipédia” e a perspectiva de uma hilária “CPI do wi fi” está se confirmando que na atual batalha semiótica pela opinião pública a única arma que restou para a grande mídia é a da não-notícia – sobre esse conceito clique aqui.
O jornal O Globo deu a manchete (“Planalto altera perfil de jornalistas com críticas e mentiras”) e a TV Globo repercutiu nos seus telejornais durante todo o dia a “notícia” de que os perfis dos jornalistas Carlos Alberto Sardenberg e Miriam Leitão na enciclopédia virtual foram alterados com o objetivo de criticá-los.
E o IP (endereço virtual) de onde partiram as alterações era da rede do Palácio do Planalto.
As supostas “críticas” inseridas no perfil dos jornalistas qualificam as análises e previsões econômicas de Miriam Leitão como “desastrosas” e de ter defendido “apaixonadamente” os ex-banqueiro Daniel Dantas quando foi preso pela Polícia Federal em escândalo de crimes contra o patrimônio público.
E o jornalista Sardenberg de ser crítico à política econômica do governo por ter um irmão economista da Febraban que tem interesse em manter os juros altos no Brasil.

Jimmy Walles: Wikipédia não é apropriada como fonte primária.
Três características chamam a atenção nessa segunda detonação seguida de uma bomba semiótica da não-notícia (a anterior foi a tentativa de transformar a existência do media trainning na Petrobrás em escândalo político): a irrelevância, o timming e o tautismo.
Wikipédia é relevante?
Como a própria Wikipédia já admitiu, a enciclopédia não deve ser utilizada como fonte primária de investigação (“Wikipedia Reasearching With Wikipedia”).
Jimmy Walles, co-fundador da Wikipedia, afirmou que “enciclopédias de qualquer tipo não são apropriadas como fontes primárias, e não devem ser invocadas como autoridades”.
Pelo seu caráter colaborativo onde qualquer usuário pode alterar o conteúdo dos verbetes, o uso da Wikipédia não é aceito em escolas e universidades.
No máximo é utilizada como indicadora para fontes externas.
Mas repentinamente para a grande mídia a Wikipédia passou a ter uma surpreendente relevância como documento primário de investigação.
Como “dar pernas” à não-notícia?
Estamos na típica situação jornalística em que se tenta “dar pernas” para a notícia que, em si, não possui relevância.
A melhor forma de dar algum gás à não-notícia é por meio da retórica da ambiguidade.

Uma notícia controversa, mal elaborada, que produz mais confusão do que informação, evidenciando, a forma de o jornalismo global produzir notícias muito pareceidas com factóides.
A matéria do jornal O Globo ora fala que o IP era da “Presidência da República”, ora do “Palácio do Planalto”, ou também de “computadores do Palácio” e “IP da Presidência”, para no final diluir tudo no “endereço geral do servidor da rede sem fio do Palácio do Planalto”.
Naturalmente o teaser é dado pela manchete e primeiro parágrafo que tentam aproximar ao máximo o fato (irrelevante em si mesmo) da figura da presidente da República.
Se o leitor persistir a leitura até o final da matéria, perceberá a diluição do próprio impacto noticioso.
Qual a matéria-prima dessa suposta notícia?
De um lado a própria enciclopédia virtual que é até cautelosa consigo mesma e do outro uma rede wi fi pública.
Com isso se projeta a possibilidade de que se alguém alterar o perfil do governador Geraldo Alckimin em rede wi fi pública instalada pela prefeitura de São Paulo, o gabinete do prefeito seria responsabilizado…
A matéria abre uma surreal possibilidade de um tipo de jornalismo que se basearia exclusivamente em fontes primárias de investigação onde o próprio repórter pode criar para turbinar a sua pauta.
O timming do escândalo
Outra coisa que chama a atenção é o timming da detonação dessa bomba semiótica.
Supostamente o “fato” teria ocorrido nos dias 10 e 13 de maio e somente agora é “revelado”.
Desde então, os perfis da Wikipédia encontravam-se alterados, sem haver qualquer tipo de escandalização – o que demonstra a “relevância” da enciclopédia virtual.
Nesse momento, outras bombas semióticas estavam em andamento na Operação Anti-Copa (manifestações de rua, Black blocs etc.).
A não-notícia foi guardada no paiol de armas semióticas da grande mídia, aguardando o momento propício para a detonação, que acabou sendo na sequência da suposta fraude da CPI da Petrobrás.

Enquanto havia manifestações anti-Copa as não-notícias não eram necessárias
Enquanto havia manifestações anti-Copa, as não-notícias não eram necessárias.
E para turbinar a não-notícia dos “perfis fraudados” da Wikipédia (como pode haver “fraude” se a enciclopédia é colaborativa?), a manjada estratégia da chamada agenda setting, que até aqui o Governo federal mantêm-se inacreditavelmente refém: a não-notícia é repercutida pela imprensa ao “noticiar” que políticos de oposição pedem que a Procuradoria Geral da República apure a “denúncia”; ou divulgando a “preocupação” de órgãos como Associação Brasileira de Imprensa, Associação Nacional de Jornais e Federação Nacional dos Jornalistas.
O que exige uma resposta institucional da Secretaria de Comunicação do Governo, dando legitimidade e combustível à não-notícia da “fraude da Wikipédia”.
Um escândalo tautista
Outra característica dessa não-notícia é que ela revela não só o desespero da grande mídia em ter que continuamente rebocar um oposição política inepta como também o próprio tautismo da Organizações Globo.
Por tautismo nos referíamos em postagem anterior a um momento de crise que a Globo enfrenta revelada por uma combinação de tautologia com autismo, por meio do conteúdo da sua programação cada vez mais autorreferencial e metalinguística – sobre isso, clique aqui.
Quando a emissora oferece as própria estrelas do seu jornalismo como supostas vítimas no script de uma não-notícia (repare na matéria do Jornal Nacional como o depoimento de Miriam Leitão foi feito com a câmera pegando-a de cima para baixo para reforçar a ideia de vitimização e fragilidade), é que estamos diante de uma situação análoga ao caso de um indivíduo que, sob condições extremas de fome ou de alteração do metabolismo basal, o corpo começa a entrar em processo catabólico (processo de degradação onde o corpo começa a consumir seu próprio tecido muscular).
Essa autofagia da TV Globo pode ser percebida nessas seguintes características que tornam a não-notícia da “fraude da Wikipédia” num exemplar caso de tautismo global:
(a) ao colocar seus próprios jornalistas como vítimas de uma armação cibernética, a Globo insere essa não-notícia na sua tradicional linha editorial de criminalização da Internet.
Em geral nos seus telejornais a Internet é pautada em seus aspectos negativos e difamatórios (crimes, vício, fraude etc.).
Afinal, a mídia digital é o grande vilão da crise de audiência da TV aberta e concorrente direto da mídia tradicional.
(b) A insólita edição do Jornal Nacional do dia 08/08 onde um repórter entrevista outro jornalista da própria emissora, acaba revelando uma situação comum na cobertura de eventos extensivos como Copa do Mundo e Olimpíadas: na falta de assunto, jornalistas entrevistam-se entre si.

Dinheiro de campanha petista que os serristas conseguiram levar à Globo para provocar o segundo turno em 2006
No atual cenário eleitoral com uma frágil oposição política, a grande mídia começa a consumir a si mesma ao oferecer seus próprios integrantes como matéria-prima das bombas semióticas.
(c) Essa não-notícia revela também ser nostálgica: reviver os antigos fantasmas da censura, do controle da Imprensa por governos autoritários e toda a mitologia da extinta Guerra Fria – as supostas ditaduras comunistas como a cubana onde não haveria liberdade de imprensa e os jornalistas críticos seriam cruelmente perseguidos.
(d) O episódio guarda uma impagável ironia com a jornalista Miriam Leitão.
No meio jornalístico ela é conhecida como “urubóloga” por suas apocalípticas previsões para o País que nunca acontecem e pela forma como gagueja e engole seco quando é obrigada a dar notícias econômicas positivas nos telejornais da TV Globo.
A “fraude” do verbete “Miriam Leitão” revela essa fina ironia autorrealizadora: numa suprema metalinguagem, a emissora brinca com a própria notoriedade pública da sua jornalista.
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Caro Beto,
Instigante, na forma e no conteúdo, o “independenciasulamericana.com.br”.
Esta publicação poderia perfeitamente ser uma espécie de encarte de um jornal popular.
Esse tipo de matéria, embora mais longas, só encontramos no Le Monde Diplomatique.
Quanto a tese, adorada e divulgada a toda hora pelo pensamento conservador, que JURO ALTO CONTROLA INFLAÇÃO é uma das táticas/mantras abusivamente empregada pelos arautos desse pensamento: “- não discutam, não argumentem. Apenas repitam a ideia. Repitam várias vezes. Eles acabam entendendo.” Foi assim com o gasto dos estádios da Copa versus recursos para a Educação e a Saúde. De tanto ouvir a tese absurda a classe média brasileira acabou assimilando-a. E passou a repetir essa tolice como se fosse uma verdade incontestável.
Longa vida ao Independência Sul Americana.
Abs, geniberto