18 jun
2014PÁTRIA MADRASTRA VIL
Clarice Zeitel Vianna Silva Vianna em 18/06/2014

A bela carioca Clarice Zeitel Vianna Silva, 26 anos, formada em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, acaba de vencer concurso de redação da Unesco com 50.000 participantes com o tema “Como vencer a pobreza e a desigualdade”. Algo tão impactante quanto o livro de Thomas Piketty, “O capitalismo no século 21” em que se propõe medidas drásticas para melhor distribuição da renda mundial para acabar com a desigualdade social. No momento em que o mundo vive os estragos sociais, econômicos e políticos decorrentes da bancarrota capitalista global detonada pelo imperialismo americano, com consequências gerais sobre todos os povos, aprofundando a miséria, a exclusão e a desigualdade social, esse texto , mais chegado a uma pungente poesia dramática, deve servir de meditação para todos os povos, como verdadeiro grito de libertação contra a escravidão, que persiste em um sistema que insiste em tratar o ser humano coisa descartável em favor dos interesses do lucro, do desperdício, da ignomínia e da disposição dos mais poderosos em manipular a humanidade como objeto e não sujeito do desenvolvimento e do progresso. O tema esquenta em escala global e principalmente em tempo eleitoral no Brasil quando a presidenta Dilma Rousseff coloca em cena a necessidade da participação social como instrumento de mudança política, algo que levanta as forças reacionárias, resistentes à maior discussão da sociedade quanto ao aprofundamento da democracia participativa no âmbito de democracia representativa que se tornou inócua sob manipulação de forças econômicas e financeiras especulativas que manipulam e paralisam o Congresso na sua função de servir de canal de transformação social por meio dos partidos. Estes, lamentavelmente, abastardaram-se na corrupção, perdendo credibilidade diante da população. A redação de Clarice mostra que mulheres e homens , mais do que nunca, tentam-se afirmar, contundentemente, como ser em si, para si, por si mesmo como sujeito e não como objeto na sua relação de equilíbrio dinâmico e saudável com a natureza, consciente de que tal relação entre o ser humano e o meio ambiente passa,necessariamente, como disse Hegel, pelo homem.
Onde já se viu tanto excesso de falta?
Abundância de inexistência…
Exagero de escassez…
Contraditórios?
Então aí está!
O novo nome do nosso país!
Não pode haver sinônimo melhor para BRASIL.
Porque o Brasil nada mais é do que o excesso de falta de caráter, a abundância de inexistência de solidariedade, o exagero de escassez de responsabilidade.
O Brasil nada mais é do que uma combinação mal engendrada – e friamente sistematizada – de contradições.
Há quem diga que ‘dos filhos deste solo és mãe gentil’, mas eu digo que não é gentil e, muito menos, mãe.
Pela definição que eu conheço de MÃE, o Brasil, está mais para madrasta vil.
A minha mãe não ‘tapa o sol com a peneira.
‘
Não me daria, por exemplo, um lugar na universidade sem ter-me dado uma bela formação básica.
E mesmo há 200 anos atrás não me aboliria da escravidão se soubesse que me restaria a liberdade apenas para morrer de fome.
Porque a minha mãe não iria querer me enganar, iludir.
Ela me daria um verdadeiro Pacote que fosse efetivo na resolução do problema, e que contivesse educação + liberdade + igualdade.
Ela sabe que de nada me adianta ter educação pela metade, ou tê-la aprisionada pela falta de oportunidade, pela falta de escolha, acorrentada pela minha voz-nada-ativa.
A minha mãe sabe que eu só vou crescer se a minha educação gerar liberdade e esta, por fim, igualdade.
Uma segue a outra…
Sem nenhuma contradição!
É disso que o Brasil precisa: mudanças estruturais, revolucionárias, que quebrem esse sistema-esquema social montado; mudanças que não sejam hipócritas, mudanças que transformem!
A mudança que nada muda é só mais uma contradição.
Os governantes (às vezes) dão uns peixinhos, mas não ensinam a pescar.
E a educação libertadora entra aí.
O povo está tão paralisado pela ignorância que não sabe a que tem direito.
Não aprendeu o que é ser cidadão.
Porém, ainda nos falta um fator fundamental para o alcance da igualdade: nossa participação efetiva; as mudanças dentro do corpo burocrático do Estado não modificam a estrutura.
As classes média e alta – tão confortavelmente situadas na pirâmide social – terão que fazer mais do que reclamar (o que só serve mesmo para aliviar nossa culpa)…
Mas estão elas preparadas para isso?
Eu acredito profundamente que só uma revolução estrutural, feita de dentro pra fora e que não exclua nada nem ninguém de seus efeitos, possa acabar com a pobreza e desigualdade no Brasil.
Afinal, de que serve um governo que não administra?
De que serve uma mãe que não afaga?
E, finalmente, de que serve um Homem que não se posiciona?
Talvez o sentido de nossa própria existência esteja ligado, justamente, a um posicionamento perante o mundo como um todo.
Sem egoísmo.
Cada um por todos.
Algumas perguntas, quando auto-indagadas, se tornam elucidativas.
Pergunte-se: quero ser pobre no Brasil?
Filho de uma mãe gentil ou de uma madrasta vil?
Ser tratado como cidadão ou excluído?
Como gente… Ou como bicho?



