13 abr
2014Guerra monetária, 3ª guerra mundial
Cesar Fonseca em 13/04/2014

Será que os Estados Unidos, em 2014, poderão quebrar a Rússia, como quebraram, nos anos 1980, a União Soviética? O poder do dólar valorizado destruiu o império soviético, quando Washington, ameaçada pela inflação, puxou, em 1979, as taxas de juros de 5% para 20,5%. Quem devia em dólar dançou. Moscou sifu. Em 2014, porém, o quadro é outro. Os Estados Unidos, hoje, devem 17 trilhões de dólares. Se puxarem os juros, para enxugar o excesso de moeda que o FED lança em circulação, Tio Sam vai à falência. Por isso, não podem mais subir juros. Seria tiro no próprio pé. Mas, Washington inventou outra jogada: continua emitindo moeda, mas, agora, não paga mais juro. O império demonstra crença infinita na própria força. Exporta para os outros seus próprios problemas, para derrubar seus mercados. As guerras sempre foram disputadas para conquistas de mercados consumidores para os produtos fabricados nos países super-armados, dominantes. Grécia fazia guerra nos mares. Roma nos continentes. Inglaterra idem. Estados Unidos, igualmente. Os exércitos e as forças poderosas de guerra iam na frente promovendo terras arrasadas. Depois estabeleciam bases militares. Fixavam as relações de trocas com a moeda dominante. Hoje, as armas de fogo não têm mais valor absoluto. Todos possuem armas. Não é possível afirmar que fulano vencerá sicrano ou beltrano porque dispõe de armas poderosas, bombas atômicas etc. Não, todos, atualmente, têm acesso às bombas. A arma fundamental para dominar os outros, a fim de abrir mercados é outra. É a moeda. Poderoso, somente, é aquele que emite a moeda reserva legal na relação de troca global. Por que os Estados Unidos poderão vencer a Rússia, como venceu a União Soviética nos anos 1980? Porque Obama lança mão do dólar desvalorizado que, AINDA, tem credibilidade. Putim emite rublos, não dólar, não tem, portanto, o poder de destruir o mercado americano. Se jogar seus rublos para vencer o dólar, provoca, apenas, gargalhadas. O rublo não tem credibilidade. A União Soviética caiu porque não criou a moeda soviete, quando o império comunista se tornou poderoso, enquanto a libra inglesa perdia terreno e o dólar, ainda, não era uma potência absoluta. Poderá cair, agora, a Rússia? Se Putim se vê obrigado a enxugar o excesso de dólar que entra na Rússia por conta da política monetária expansionista americana que aboliu pagamento de juro(não se sabe até quando), vai quebrar a indústria russa, assim como está sendo destruída a indústria brasileira e da periferia capitalista. Não é preciso jogar bombas de fogo. Basta jogar a bomba monetária. A dívida pública americana de 17 trilhões está sendo resgatada a custo zero pelas novas emissões monetárias sobre as quais não incidem juros. Tremendo calote. Os detentores de dólares voam para outras praças. Aí valorizam as moedas dos outros e destroem suas bases produtivas, para que seja predominante a base produtiva americana, a fim de que com ela os Estados Unidos continuem sendo o império no século 21. É o mesmo jogo de Colbert, ministro das finanças de Luis XIV, que disse ser a dívida pública o nervo vital da guerra. A arma a ser destruída é o dólar, por meio de reforma monetária, que abra espaço para emergência de novas moedas, ancoradas em garantia reais, porque o dólar tende, nesse compasso atual, a virar moeda papel de parede. O império está ancorado na moeda papel podre, que engana geral, mas até quando?
Faz-se necessário e
urgente novo sistema
monetário que contenha
no mínimo seis moedas – uma

Se as presidentas Dilma Rousseff e Cristina Kirchner levassem adiante, para valer, as trocas comerciais, ancoradas no peso e no real, ao largo do dólar, criariam fato político mundial, capaz de fortalecer o discurso dos BRICs, para gerar o Banco dos Brics, a fim de converter moedas dos seus países integrantes. Nova correlação de forças estaria em cena no ambiente monetário global, barrando o poder destrutivo do dólar sobredesvalorizado pela ação desestabilizadora e imperialista do FED.
O discurso conservador de que a moeda é mero instrumento neutro para intermediar relações de troca é pura conversa fiada, mera propaganda ideológica neoliberal .
Ele esconde o verdadeiro conteúdo dela, ou seja, o de ser uma arma de guerra, especialmente, no contexto da financeirização econômica global, onde o dólar atua como reserva mundial.
Sua utilização como arma de guerra está a pleno vapor, nesses dias de crise mundial, para manter a supremacia americana na cena capitalista global.
A Rússia que se cuide.
Se o Banco Central dos Estados Unidos continuar praticando juro zero ou negativo e mantendo oferta de dólar em escala considerável, sem pagar juro aos detentores de títulos do tesouro americano, a Rússia e seu império de guerra não aguentam.
O mesmo rola em relação aos demais países emergentes na periferia capitalista.
O euro tentou ser uma alternativa ao dólar, mas a crise de 2007-2008 desestruturou a Europa.
norte-americana, uma
europeia, uma asiática,
uma sul-americana, uma
árabe e uma africana -,
expressando

A Unasul está sendo travada pela expansão monetária praticada pelo Banco Central dos Estados Unidos, que joga moeda podre na praça sul-americana, destruindo as moedas locais e a indústria, fragilizando a economia sul-americana, impedindo sua ação integracionista. O jogo dos ricos é manter os pobres divididos para melhor dominá-los. Lição velha e repetitiva dos impérios.
Ao lado da unidade monetária, não aconteceu a união fiscal.
Cada país ficou com a sua independência em matéria de política fiscal.
Não sendo possível, até agora, realizar a união monetária e fiscal europeia, o destino do euro é uma incógnita, mesmo com o Banco Central Europeu se dispondo a repetir o que faz o Banco Central americano, ou seja, jogar o quanto for necessário de moeda na circulação, desvalorizando-a, a fim de manter as forças produtivas em ação.
O excesso monetário europeu e o americano tem lá suas diferenças qualitativas, dadas pelo fato de que os Estados Unidos é uma federação centralizada monetária e fiscal.
A Europa, não.
Assim, a força do dólar, num embate com o euro, tende a levar, como está levando, a melhor.
O problema dos americanos é o excesso de dívida.
o poder do G-20,
assim como o Banco
dos Brics, como nova
caixa de conversão
monetária,

Rachar a América do Sul politicamente em relação ao governo de Nicolás Maduro, da Venezuela, é a estratégia fundamental dos Estados Unidos e da Europa, para evitar uma união sul-americana, capaz de promover a criação da moeda continental, de modo a dar sustentação, a partir do aval das riquezas do continente, ao avanço econômico, político e social sul-americano sustentável. Isso não interessa aos ricos, que seria a salvação da América do Sul.
Ele limita a ação da potência, porque o mercado financeiro coloca sempre as barbas de molho, quando o excesso de endividamento fragiliza a moeda.
Desse modo, aquela força de Tio Sam, de velhos carnavais, já era, enquanto a dos europeus ainda não se consolidou.
Esse poder imperial relativo dos americanos e europeus está ameaçado pela avanço da deflação, que destrói não apenas o capital, mas, igualmente, o trabalho, jogando a economia, no ambiente do excesso monetário, na eutanásia do rentista.
Tanto os americanos como os europeus passaram a depender do grau de paciência e capacidade de suportar os abusos monetários dos emergentes.
Estes diante das expansões monetárias americana e europeia são obrigados a aguentarem o tranco da sobrevalorização de suas moedas.
Os bancos centrais dos emergentes, diante da avalanche de moeda americana e europeia, são obrigados a enxugarem a base monetária global, puxando para cima, brutalmente, os juros, porque nem Europa nem Estados Unidos, dados os excessos de endividamento público, aguentam exercitar essa tarefa.
para que o mundo
não fique à mercê
da moeda americana
sobredesvalorizada que

Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, caiu na real, dizendo que fará tudo que precisa ser feito, para manter o euro em pé. A expansão monetária que iniciou, jogando títulos ancorados em euros, segue o jogo americano, para alavancar as forças produtivas ameaçadas de deflação. Segue o caminho do Japão, sabendo de todas as consequências, mas espera o milagre, que seria a continuidade da paciência dos emergentes de continuarem sendo enganados pelos ricos.
E porque também não cobrar juros sobre os papéis que emitem virou nova arma dos países ricos – o Japão está nessa, também -, para manterem suas moedas desvalorizadas, a fim destruir os mercados dos concorrentes, dos emergentes.
Até quando estes suportarão isso?
O G-20, como se viu na reunião do FMI, semana passada, intensifica pressão em favor de mudança na política da instituição, para que sejam abertos canais para fixação de nova política monetária global.
O problema é que quem manda no FMI são os Estados Unidos.
Porém, se o dólar, crescentemente, desvalorizado, vai perdendo credibilidade, mantida a política monetária expansionista, acompanhada de juro zero ou negativo, a tendência será a multiplicação de trocas comerciais ao largo da moeda americana.
Os chineses já ampliam o comércio com a Ásia, utilizando, sua moeda, o yuan.
Da mesma forma, a Rússia quer intensificar suas trocas comerciais com a China, utilizando rublo em troca de yuan.
eterniza a dominação
internacional, sem
dispor de garantia
real. Dessas moedas, a

Shinzo Abe sabe que não tem saída senão apostar em emissão de papel, embora tal estratégia tenha colocado o Japão na armadilha da deflação há mais de uma década. No entanto, pratica a expansão monetária, copiada dos japoneses pelos americanos, para ir fragilizando os mercados dos outros, sobrevalorizando suas moedas, a fim de abrir espaço para os produtos japoneses.
Se for criado o Banco dos BRICs, para promover conversão de moedas dos seus sócios(Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), a fim de produzir outra unidade monetária, por meio da qual sejam estabelecidas trocas comerciais, a coisa pode balançar para o lado do dólar, se sua desvalorização inflacionária no ambiente dos emergentes continuar se intensificando.
Pimenta nos olhos dos outros é refresco.
A presidente do Banco Central americano, Janet Yellen, deixou claro que não está no horizonte de curtíssimo prazo dos Estados Unidos subir juro, por enquanto.
Ora, isso significa que quem , como os chineses, possui reservas trilionárias em dólar e em títulos americanos, que deixam de render, vai ser, cada vez mais, tentado a desovar esse papel que perde valor.
O Brasil, por exemplo, tem quase 400 bilhões de dólares em títulos americanos que estão perdendo valor, quanto mais os americanos sustentam sua expansão monetária, dando beiço ao não pagar juro.
Enquanto Tio Sam vai desbastando, fortemente, seu endividamento via juro zero ou negativo.
Em contrapartida, os concorrentes de Tio Sam vão se endividando para enxugar o excesso monetário americano.
que teria mais força,
naturalmente, seria
a sul-americana, porque
a sua âncora são

Não interessa de jeito nenhum à presidenta do BC americano, Janet Yellen, que surjam novas moedas, porque seriam exigidas dos Estados Unidos garantias reais, para ancorar sua moeda desvalorizada, o que não existe. O dólar se segura numa montanha de papel candidato a virar decoração de parede.
Até quando, antes que os prejudicados caiam na real – se já não caíram – para criarem, conjuntamente, sua própria moeda, ancorada em riquezas reais?
Cheio de ouro, ferro, petróleo, minérios de toda a natureza, terras férteis, capazes de produzir até três safras anuais e diversidade energética, ou seja, riqueza real, por que o Brasil não encabeçaria, junto com a Argentina e Venezuela, riquíssimos, também, em alimentos e petróleo, a criação da moeda sul-americana, em vez de ficar se empobrecendo, no rastro do dólar sobredesvalorizado?
A China parece que já farejou as intenções reais de Tio Sam de, de repente, dar um rabo de arraia geral.
Por isso, vez ou outra, uma autoridade chinesa balança o mercado financeiro global, dizendo que os chineses podem desovar uma quantia forte de dólar que detêm, em busca de ativos mais seguros, deixando os americanos em polvorosa.
garantias reais das
quais toda a manufatura
global depende.
Basta decisão política.

Os chineses, cheios de dólares, candidatos à desvalorização, levam Xi Jinping às constantes ameaças e à disposição para lutar por novo sistema monetário, já utilizando o yuan, nas relações de trocas internacionais.
Por que o Brasil não faria a mesma coisa?
Ficar achando que Tio Sam utiliza sua moeda, apenas, como instrumento de troca, quando já agride todo o mundo com ela, é acreditar em papai noel.
A moeda sul-americana já está passando da hora de nascer.
Ela seria o antídoto sul-americano contra a destruição que o dólar desvalorizado está provocando nas forças produtivas do continente.
O que está faltando é liderança política sul-americana, para defender a América do Sul, por meio de um discurso único contra o golpe monetário que o FED está praticando, impunemente.
Até quando
vai continuar o
subdesenvolvimento
mental sul-americano?
.





Caro Cesar,
Parabéns por sua avaliação do mega-calote dos EUA e questões relacionadas.
Uma observação: os juros altos no Brasil e em outros países sugados – inclusive através de suas dívidas públicas, alimentadas pela composição de juros e juros sobre juros – não repele, mas, ao contrário, atrai o dólar fajuto, que realiza também, além da receita de juros, ganhos de capital, quando as moedas dos países vitimados se valorizam, com a entrada desses dólares.
Mais uma: o Banco Central Europeu (BCE) não emite euros com a mesma liberdade que o FED emite dólares, uma das travas que a oligarquia angloamericana implantou na União Europeia, quando a permitiu, no Tratado de Maastricht, juntamente com a limitação dos déficits públicos dos países-membros e a proibição de o BCE emprestar aos tesouros dos países-membros (só empresta a bancos, até parece o Brasil, em conformidade com o entreguista art. 164 da Constituição).
É para isso que estão convidando a já dilacerada Ucrânia. Como disse o jornalista Pepe Escobar, a perspectiva que a UE oferece a ela é transformá-la em algo que faria a Grécia parecer o jardim da Cinderela.
Como você aprecia as referências históricas, lembremo-nos do grande estadista, General De Gaulle, o que exigiu o pagamento em ouro dos dólares acumulados nos superávits comerciais com os EUA e que levou Nixon a dar grande calote, em 1971, (termo que os poodles liberaloides só empregam quando a dívida é de países periféricos, vítimas do conto de vigário da “comunidade financeira internacional”).
De Gaulle, que não misturava ideologia com política externa, fez profética advertência, por cuja não-observância a França e o restante da Europa estão pagando caro: a entrada do Reino Unido na Comunidade equivaleria à do cavalo de Troia em Troia.
O diretório anglo-americano que tutela a própria Alemanha, vista incorretamente, por muitos, como potência independente, impôs as condições de Maastricht como preço para autorizar a reunificação alemã, após a queda do muro de Berlim. Assim, uniu o útil ao agradável: acabar com o comunismo no Leste da Europa e cobrar da Europa por isso.
Já que me estendi, acrescento: realmente, estamos num momento decisivo, em que se testa a entrada da multipolaridade com a possibilidade de Rússia, China, Irã, Índia e países da Ásia Central fazerem acordo monetário para valer que dispense o dólar.
A China, em vez de chorar com a desvalorização de suas reservas de mais de um trilhão de dólares, poderia ir aproveitando, como provavelmente já venha fazendo em escala crescente, para comprar mais ativos no exterior.
Não dá para esperar que o Brasil faça o mesmo com suas reservas, sequer para nacionalizar patrimônios locais desnacionalizados, porque não existe poder sem armas e sem infra-estrutura e estrutura para produzi-las autonomamente a curto prazo.
Abraço,
Adriano Benayon
Adriano Benayon abenayon.df@gmail.com