A arte está presa nas grades da Globo

josewilker10082006Quais passarinhos prisioneiros em uma gaiola, eis como estão se sentindo, em geral, os artistas que trabalham na TV Globo, se lidas, em profundidade, as motivações latentes expressas em entrevistas por José Wilker,  excepcional ator de teatro, cinema e televisão, também, crítico, diretor, escritor etc. Destacou que falta espaço discutir o Brasil, mais intensamente. Ele não saberia, como declarou, dar uma posição mais clara. “Não sei o que está acontecendo. Está faltando discussão, mobilização para o debate”. Lembrou que as insatisfações profundas da classe artística tem levado-a à formação de grupos de debates, desabafos internos, talvez, em apartamentos, fugidios, algo quase secreto, como nos tempos medievais, para escapar de inquisições, a fim de levantar questões. Os artistas estão enjaulados nas programações pelas quais estão submetidos e escravizados. Viraram vozes contidas por oligopólios midiáticos roedores de consciências. Que questões são essas? Ora, o que é a arte, o que é o artista, o que é a produção artística senão a expressão da inquietação social no seio da qual germina a produção artística, o artista, a arte? A inquietação de José Wilker, que, segundo os amigos, emergia em forma de ironia, sinceridade, humor cáustico, algo que os telespectadores sentiam, tranquilamente, estava ancorada na frustração quanto à impossibilidade de debater pelos canais em que ganhava o seu pão, trabalhando como um mouro, na arte difícil de representar a realidade que o envolvia. A realidade, como destaca Hegel, é dual: positivo-negativo, singular-plural, masculino-feminino, yin-yang, claro-escuro, cara-coroa. Os dois lados da realidade se interagem não por meio de movimento mecânico, repetitivo, mas dialético, promotor da controvérsia, para gerar  luz, consciência crítica etc e tal. Ela evolui em movimento de circularidade. Não é a batida na cabeça de um prego, mas a penetração do parafuso, para frente, para o fundo e para o alto. A ausência do debate do real concreto em movimento dialético, transformador, que requer opções fortes, no combate, permanente, que representa a busca da verdade, virara um fantasma no quotidiano do grande artista, inserido no universo global não comprometido com  o pensamento crítico, incômodo, que produz, necessariamente, o contraditório. Não, Wilker e toda a sua classe estão afogados nas nervuras sem vida, sem viço, do pensamento mecanicista, repetitivo, acrítico, revelador, apenas, de um lado da realidade. Eles se tornaram uma massa amorfa de insatisfeitos por não disporem do necessário canal de escoamento da sua criatividade. Passarinhos presos que choram dia e noite a liberdade perdida. A produção artística, como reconheceu Wilker, hoje, amplamente, dominada pela TV Globo, potencializa o entretenimento. O que é, no fundo, entreter alguém? No sentido em que colocou o problema o artista precocemente morto, num tempo em que as expectativas de vidas estão se alongando, é deixá-lo à mercê da enganação, da alienação, da falta de compromisso com o questionamento sobre o que deve ser motivo para a criação da arte, especialmente, numa sociedade, como a brasileira, marcada pela desigualdade social, decorrente da sobreacumulação da renda nacional, submetido à dominação externa. Entretenimento e miséria. A miséria do entretenimento. É preciso entreter o gigante, mantê-lo deitado eternamente em berço esplêndido. O entretenimento artístico alienante  adentrou não apenas nas  novelas, promovendo a dispersão do indivíduo quanto a sua essência questionadora diante do mundo, mas, igualmente, na arte que Wilker amava, o cinema. Jovem, na casa dos 20 anos, ele chegou ao Rio de Janeiro, fugido de Pernambuco. As ações artístico-políticas que exercitava viraram alvo de perseguição dos golpistas militares em 1964. O Brasil fervilhava, culturalmente. A cultura, germe fundamental da inquietação espiritual, humana, pulsava, fortemente, naquele ser. Os debates sobre a realidade mobilizavam a classe artística, os estudantes, os trabalhadores, os intelectuais. Havia uma inflação de efervescência política, na antiga capital do País, então, mais do que nunca, o tambor nacional. O cinema novo viveria o furacão Glauber Rocha e todo um corolário de grandes diretores, atores, atrizes, produtores, roteiristas, todos com uma ideia na cabeça e uma câmera nas mãos, em busca do contraditório nacional intenso, sob o impacto das pregações políticas janguistas pelas reformas econômicas, sociais, culturais etc. A noite escura da ditadura, a partir de 67/68 cairia sobre todos, cassando, punindo, exilando, matando, destruindo. Os canais políticos foram fechados. Os debates, encerrados. As lideranças, punidas, excomungadas. Nascia a Rede Globo, cujo dono, Roberto Marinho, como se sabe, agora, 50 anos depois, tramava golpes e mais golpes, nos bastidores, para impedir as eleições diretas em 1965, defendendo, em parceria com Lincoln Gordon, o fechamento do regime, por meio da prorrogação de mandato do ditador Castello Branco. RM, braço midiático de Washington. No rastro dessa ação antidemocrática, golpista de RM, ampliar-se-ia um dos maiores poderes midiáticos do mundo, como se pode ver, atualmente, pelo montante da riqueza da família Marinho, pontificando, nas grimpas, entre as mais ricas e poderosas do planeta, pela revista Forbes. Servir ao capital, poder sobre coisas e pessoas, é a forma mais rápida para formação das riquezas desproporcionais. Caminharam, celeremente, as Organizações Globo, para um patamar de poder excepcional, espalhando seus tentáculos por todo o país, articulando-se com as classes políticas conservadoras, cujos líderes tiveram a vantagem gorda da aliança com RM e os militares, unha e carne. A comunicação e a política, juntos, abriram, pelo Brasil afora, sucursais de rádios, jornais e tevês filiados à Globo. O Congresso, literalmente, transformou-se num latifúndio global, nesses últimos 50 anos. A ditadura militar tinha em RM seu homem de confiança, as edições mais fidedignas aos interesses dos ditadores, cuja ideologia se filiava ao pensamento neoliberal de Washington, desde o primeiro momento do golpe militar. O compromisso de RM, nesse contexto, foi o de buscar, de todas as maneiras, enterrar o pensamento nacionalista, que vinha crescendo desde Getúlio Vargas, passando por JK e Jango, podendo se ampliar, novamente, com JK, se a eleição direta, em 1965, fosse realizada, com o discurso desenvolvimentista-nacionalista, que irritava Washington, como irrita o discurso dilmista, agora, em 2014, 50 anos depois do golpe ditatorial. Finda a ditadura, em 1984, com a Nova República, a partir de 1985, a elite política, no comando do poder da comunicação, aliada à Globo, manteria a boca torta contornada pelo cachimbo da ditadura. Antônio Carlos Magalhães e José Sarney, oriundos da ditadura, se transformariam nos políticos mais poderosos da Nova República, assim batizada por Tancredo Neves, principais aliados de RM. Manipulações e golpes midiáticos ficaram famosos. Marinho tentou destruir Brizola, manipulando as urnas; editou, anti-jornalisticamente, o debate Collor-Lula, para derrotar o candidato operário. Rede Globo, nada a ver com jornalismo. Isso sem falar que, antes, RM desconhecera o movimento social pelas Diretas Já, que derrubou a ditadura. Não se admira, agora, que a cobertura dos assuntos econômicos, desde o estouro da crise global do capitalismo especulativo, nos Estados Unidos e Europa, em  2007-2008, que os governos Lula e Dilma enfrentaram e enfrentam com as armas do pensamento nacionalista, em meio à derrocada neoliberal, esteja eivada de manipulações e preconceitos, que negam, taxativamente, a lei maior do jornalismo, de ouvir os dois lados da notícia. Basta assistir o Globonews Painel, canal pago, para ver e sentir que se assiste e se ouve, tão somente, o samba de uma nota só. O contraditório não entra em cena. Ora, não é de se admirar que, nesse contexto, em que as forças do capital financeiro especulativo, que mandam e desmandam na cobertura jornalística, manipulada e enviesada, esteja a classe artística – e não só ela – totalmente frustrada pela falta de liberdade para debater, profundamente, a realidade nacional, em todas as suas variáveis e nuances, no ambiente da luta de classe, que é a realidade em movimento contraditório.  Certamente, José Wilker, nos seus anseios de liberdade reprimida de um artista consciente do seu papel, furtado pelas circunstâncias de uma nova inquisição, sentia o pulsar do chamamento de Glauber Rocha em torno do conceito do cinema novo, essência da liberdade criativa. Estaria em cena o cinema novo em cada um que sentisse a necessidade de ir buscar, no fundo de si mesmo, os sons inquietantes da realidade nacional, marcada pela miséria social, para mostrá-la viva, sem mácula. Como? Impossível, se toda a classe artística hoje está a serviço da indústria poderosa do entretenimento da Globo, mantendo a sonolência do gigante. Tornando a classe artística acéfala, a Globo matou a arte. A morte liberta Wilker dessa prisão.

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