João Cuinha mete sebo na chuteira de Tabinha

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Por que Dorinha se quebrou para os lados de Moi? Tabinha entrou em campo naquele domingo cinzento cheio de presságios. Queria vingança. Sentiu a alma pesada. O coração não respondia aos encantos do seu sorriso interior. Tremenda dor de corno. Suas esperanças se seguravam num além imaginário e festivo do qual não desejava retornar. Mas, estava disposto a morrer em campo, e tentar repetir aquele golaço que havia marcado naquela partida decisiva contra o Unaí Esporte Clube. O grito de CAMPEÃO! estava dependurado na sua alma. Sairia do seu pé direito, tamanho 54, o gol decisivo, que faria os santanenses paracutuenses vibrarem, correndo, depois do jogo, para o baile de forró nos salões de Luís Dario, no Largo do Santana? Esse era o tempo em que  Joaquim Barbosa nem sonhava com o dia em que chegaria à presidência do Supremo Tribunal Federal, tempo em que saia com seu pai percorrendo as redondezas dos córregos de Paracatu para pegar as tapiocangas, a fim de armar os alicercerces das casas que o velho pedreiro levantava para arrumar dinheiro para o filho querido estudar e brilhar algum dia na dura vida de um Brasil racista. Tabinha tinha certeza que haveria, no decorrer da partida, talvez, no meio do segundo tempo, alguma troca de passes entre Vatinho, Sivi, Silvinho(Beiço) e Celino, o maior craque de todos os tempos da cidade, quem sabe do Brasil, da América do Sul, quiçá do mundo, que lhe esticaria de bandeja aquela oportunidade de ouro para meter um sem-pulo, à lá Nezinho, ao fundo das redes de Veludão, da Amoreira Esporte Clube, onde brilhava o  grande Rapa Cuia. Quando encontravam Celino, de um lado, do Santana E.C, e Salvadorzinho, da Liga Esportiva Católica, de outro, aí, sim, era o encontro dos deuses do gramado. No meio dessa cena, Mestre Taba. Como diria Moacir, de Manoel Folheira, “Ah, Fritz! Ah, Fritz! Ah, Fritz!”.

santana esporte clubeQuando diziam ta tudo certo, Tabinha desconfiava.

Ele consultava os umbigos e concluía, não pode ta tudo certo.

Razão simples: pra ta tudo certo, eu estaria sorrindo de morto de felicidade.

No caso momento, não estou.

Pelo contrário, to chateado.

To até mesmo puto.

Isso mesmo.

Não precisava acontecer aquilo.

Dorinha enfiar olhos de morcego nos ângulos

proibidos de Moi.

Ela me pensava não ter visto, mas vi.

Vi e conferi.

Moi ficou todo si todo, o bonito da festa.

Também pudera!

Dorinha com vestido amarela borboleta, cintado no último furo, avolumando o par de carnes arredondadas traseiras, e aquele jeito dengoso tinhoso de ajeitar o sutian empinando os bicos pra flechar largatixa em muro.

Mulher tem disso.

O homem descuida, mulher se cuida.

Depois, resta ao infeliz arrepiar-se todo, esfregar a alma com sabugos de dor e sabão de muitas outras enfermidades, imaginando o acontecido nos confins dos sentimentos e dobrinhas escondidas das pessoas queridas.

Nesse emaranhado de interrogações sem respostas, amanheceu Tabinha.

Saiu da cama apijamado e foi ao banheiro.

Era lá no fundo, depois da cozinha.

Pôs força pra urinar e, aproveitando, expulsar outras misturas ruins escondidas nos avessos do intestino.

Vó Felícia dizia, menino sossega, isso sai na urina.

A questão não se resumia em resolver alguma coisa.

Quando é isso, torna-se fácil.

O negócio era entender o porquê da questão.

Tabinha sentou nas ideias e sentiu não ser fácil.

O diabo era não saber o rumo e conteúdo das coisas.

Dorinha estaria apaixonada, sem saber, por Moi e Moi, sem saber, apaixonado por Dorinha.

Problema difícil.

O coração rasga-se e remenda-se sem solução.

Tabinha farejava solução no descampado da ignorância.

Isso é, quando se ignora, meta o pé e debruça os olhos nos infinitos dos mundos, pois lá residem os encontros desencontrados da vida dos vivos e dos mortos.

Montado e arreado nesses conforme, Tabinha ergueu os ombros, estirou os olhos no horizonte da madrugada já se refugiando nas primeiras luzes do sol, e disse quase confiante: seja lá o que for é melhor eu deixar prá resolver depois.

Saiu das traseiras e foi pras dianteiras da casa.

Entrou no quarto, abriu o guarda-roupa, mirou demorado os cabides e, descaindo a cabeça, estacionou os olhos no assoalho ao pé da cama.

Lá estava o par de chuteiras.

Que alegria!

santana esporte clubeAlegria igual à mocinha estreando roupa nova pra ir à festa de 15 anos.

Alegria igual derrubar manga amarelinha na primeira pedrada.

Alegria igual sentir a parceira tirar a mão esquerda do ombro direito e pousar na nuca da gente – olha, isso iguala ao divino obrando sem exigir obrigação para o abençoado!

Pois foi isso.

Tabinha sungou o short branco, elástico ajustado na cintura e largo na altura das coxas, vestiu a camiseta vermelha, calçou os meões azul e afivelou o par dos dourados desejos, as chuteiras.

Isso era a encarnação do eterno pra além do sem fim, Santana Esporte Clube.

É preciso explicar com cuidado isso.

A relação de Tabinha com suas chuteiras não se traduzia em calçar adequado para jogar bola.

Havia algo mais.

Chuteiras para Mestre Taba significavam momentos de confissões e juramentos.

Momentos de sagrações.

Momentos de louvor e glórias.

Lembrem e digam se estou mentindo.

Aquela falta batida, aos 38 minutos do segundo tempo contra o Unaí Sport Club.

Chovia, bola pesada.

O campo esburacado.

O gol do adversário estreitado em 17 centímetros e a torcida enfurecida com raiva contida de dois anos – goleada sofrida do mesmo Santana no Campeonato Alto Parnaibano.

Taba fez a bola subir e baixar em velocidade constante e oscilações à esquerda e direita, à revelia do vento, enfiando-a entre as pernas de Genival, guardião das traves do adversário.

Conseguiu essa façanha metendo efeito triplo.

Chutou com a ponta interna do pé direito, deixando escorregar enviesado o restante do pé ajustando o calcanhar pra imprimir desnível no peso da bola face o vento e a chuva.

E aquele outro gol contra o URT de Patos de Minas!

João Cuinha jogou sebo de bode curtido na Quaresma pra cobrir a biqueira da chuteira e provocar o efeito paralisante.

Falta na entrada da grande área.

Tabinha chutou com o peito do pé.

Detalhe: chutou dando trinado no peito do pé no exato momento do encontro com a bola – isso mesmo, trinado igual pitassilgo quando vê fêmea arejando os fundos defronte ao sol.

A bola pegou efeito retardante.

O goleiro voou no canto certo, porém a bola chegou 0,517 segundos atrasada, quando ele já estava esparramado no chão.

De posse dessas recordações e acariciando as companheiras, Tabinha rumou para o campo do Santana e disse prá alma: Dorinha não vai agüentar a sensação quando me vir inteiro.

Vai urrar no barranco do desassossego querendo saber o contido daquele homem.

Isto é, qual matéria constitui o Mestre Taba.