02 jul
2012Golpe no Paraguai racha comentaristas globais
Cesar Fonseca em 02/07/2012

- ESPIRITO DO CASTELINHO BAIXA EM NOBLAT. Digno o comentário de Ricardo Noblat, no O Globo, nessa segunda feira, em que reconhece ter sido Fernando Lugo deposto por um golpe que, embora legal, não deixa de ser golpe. O rastro golpista se assenta na desobediência aos pressupostos da própria Constituição do Paraguai. Noblat, com muita perspicácia, busca acomodação crítica às posições que estão se manifestando dentro das Organizações Globo, no sentido de se posionar perante a opinião pública de maneira mais consentânea com a evolução crítica característica dos novos tempos abertos às divergências opinativas totais, no compasso da velocidade da circulação on line, sujeita aos tiroteios das redes sociais, a nova forma do exercício da liberdade. Os escândalos deixam as pessoas boquiabertas. Durante certo tempo, foi legal, no Brasil, o voto na base do bico de pena. Totalmente constitucional. Mas, por que? Evidentemente, essa era a regra do jogo. Legal, sim, mas, moral, não, como disse bem Tereza Cruvinel em seu retorno ao colunismo politico no Correio Braziliense. Noblat, experimentadíssimo na arte jornalística, acostumado a colocar em questão tudo, evidenciando que o correto é sobretudo duvidar, para evidenciar a certeza da dúvida, nos palcos parlamentares brasileiro e sul-americanos, ao longo de sua história, ponderou o objeto sobre o qual se deu o golpe, que ele chama, com uma ponta de ironia e cinismo – no sentido grego de que ser cínico é ser verdadeiro – , “Golpe legal”. Evidentemente, ele não conseguiu engolir esse sapo, construido por meio de excessivo contorcionismo , como se a democracia fosse um grande elástico a caber todas as manobras possíveis e imagináveis, no jogo do poder. Há limite para tudo, como Erundina está aí, mesma, para não deixar ninguém mentir, quando vomitou a parceira Lula-Maluf. O articulista do Globo foi buscar na própria Constituição paraguaia trecho em que se ressalta ser democrática aquela ação que dá oportunidade de defesa ampla a quem está sob ataque, ao contrário do que aconteceu. Ora, o que fez o presidente Federico Franco, assim que assumiu o poder, depois da queda de Lugo? Proibiu que a justiça continuasse as investigações sobre o massacre dos camponeses, que , segundo informações expostas claramente no Paraguai, teria sido realizado a mando de mercenários, para criar fato político. Ora, essa jogada já foi utilizada à larga pelos Estados Unidos, por exemplo, para promover golpes de estado na América do Sul e outros continentes. Ou no Iraque não foi assim, sob as ordens do bucaneiro W. Bush? A história comprova essa afirmação. Se o presidente Federico assume e senta em cima da investigação, que poderia produzir provas capazes de comprovar ou não que Lugo fora envolvido em um golpe, é porque o golpe foi armado. Por acaso, o Wikileaks já não tinha denunciado que em 2009 a embaixada americana em Assunção sabia de tudo que viria acontecer em 2012? Hugo Chavez, também, não foi vítima dessa armação, minha gente, em 2002? Há obscuridade maior do que esse contorcionismo informativo que tem sido levado a efeito pela grande mídia conservadora e seus comentaristas, salvo o comentário isento de hoje do Noblat, uma agulha no palheiro? Que vergonha o comentário de Nelson Motta, no Estadão, na sexta feira passada, putz! O poder midiático sul-americano, dominado por grandes grupos econômicos, alinhados ao capital financeiro nacional e internacional, como é o caso da Rede Globo, como comprovam suas origens históricas, largamente documentadas, está diante de um impasse decorrente da própria evolução dos tempos, eivados de informação por todos os lados, cujos efeitos são os de tornarem difíceis a tarefa de fazer de bobo os outros. A Globo e O Globo já se alinharam às forças golpistas no Brasil e titubearam para se posicionar diante da emergência democrática, que inagurou a Nova República, a partir de 1984. Sua história neorepublicana ganhou contornos de meio de comunicação a serviço da alienação, antes de ser da informação e da formação. Por isso, o comentário de Noblat representa uma luz nova que se contrapõe aos comentários políticos do jornal e da tevê Globo. Sinaliza que há vida inteligente na Organização no sentido de evoluir para uma posição menos brucutu, tipo a do comentarista Merval Pereiera, que abusa da arrogância para tentar comprovar o incomprovável. O saudável exercício da crítica noblatiana é, sobretudo, um respeito ao leitor de O Globo e sinaliza – queira Deus – uma abertura ao contraditório que leva os herdeiros de Roberto Marinho a abrir sua publicação e sua tevê para o debate mais aberto que as posições neoliberais rejeitam, porque se ancoram na visão do pensamento único que está em crise global na bancarrota capitalista. Noblat, nessa segunda feira, lembra o saudoso Carlos Castello Branco, o maior comentarista político do jornalismo brasileiro, quando atuou no JB, sendo o Noblat, possívelmente, o maior aprendiz do mestre, substituto dele, na famosa COLUNA DO CASTELLO, se levarmos em consideração o clássico da crítica política que ele escreveu intitulado “Falso brilhante”, para detonar o falso caçador de marajás, ex-presidente Fernando Collor, hoje senador das Alagoas, sintonizadíssimo em acordar-se com o golpe no Paraguai, considerando-o legítimo. Aaarrrgggghhh!
Samba de uma nota só

FUGA DO CONTRADITÓRIO. Dominado pelo medo, pelo espanto e pela falsa neutralidade conservadora, o programa Globo News Painel, comandado por William Waack, está virando samba de uma nota só, mas sem nada a ver, é claro, com a maravilhosa música de Tom Jobim e Vinícius de Moares, cheia de riquezas tonais surpreendentes pela harmonia do mestre Tom. Contrariamente, Waack está comandando seu programa com o mais descarado maniqueísmo, explícito de um mecanicismo-positivismo ideológico que tenta desvincular-se da ideologia em forma de neutralidade, sem conseguir isolar seu indisfarsável espírito tucano. Não há o contraditório. O exemplo claro foi o programa da semana passada em que focou o golpe no Paraguai, sob a ótica da tucanagem explicita de três entrevistados: o ex-chanceler tucano Luiz Felipe Lampreia; o professor Eduardo Viola, argentino neoliberal menemista, da UnB, que envergonha a casa de Darci Ribeiro, e Eduardo Feifer, consultor empresarial de multinacionais que agem no Mercosul, com espírito contrário à integração expressa na proposta do Fundo de Investimento do Mercosul(Focem). Waack, sem dúvida, o mais competente e articulado repórter das Organizações Globo, pela sua extroversão e inteligência esperta no domínio da frase - às vezes, oca - bem conduzida, exercita um contorcionismo indisfarsável para conduzir o telespectador para onde ele quer, ou seja, para justicar o injustificável, que não houve golpe, em agressão à Constituição paraguaia, cujos termos, como ressalta Noblat, sublinhando-os, requerem as condições necessárias para o direito de defesa, em vez do procedimento sumaríssimo adotado pelos parlamentares paraguaios, em nome de uma maioria esmagadora, como se a minoria não fosse merecedora de respeito democrático, para seguir adiante em defesa de maiores investigações sobre o episódio do massacre dos camponeses, transformado em motivo emergente do golpe parlamentar. Nem os nazistas foram mais maltratados em Nuremberg do que Lugo no Paraguai. Lampreia, ex-ministro das Relações Exteriores, na Era FHC, saiu com o argumento de que a diplomacia brasileira deixou de ter uma visão de Estado para adotar posições ideológicas, expressas, atualmente, na América do Sul, sob comando do pensamento nacionalista que deslocou o neoliberalismo golpista do poder. Ser neoliberal é ter visão de estado; ser nacionalista, ao contrário, é ser ideológico. O que pregam os neoliberais, senão aquilo que, na prática, configura o fracasso econômico, político e social global em marcha sob bancarrota capitalista dominada pela financeirização econômica mundial sem freio nem regras impulsionada pelo Estado mínimo? A ideologia marginalista, utilitarista, neoliberal, foi para o brejo! Viola vai na mesma linha, demonizando as posições nacionalistas que, justamente, elas contribuiram para o governo brasileiro, nos últimos dez anos, fortalecer o mercado interno, melhor distribuir a renda e preparar o poder de compra nacional para enfrentar a grande crise mundial, cujos estragos seguem perigosamente ameaçadores, para os emergentes, depois de detonarem os ricos. Viola e Lampreia querem que o neoliberalismo - que identificam como posição independente, visto que exercitam essa "independencia neoliberal" fracassada - seja a posição brasileira em matéria diplomática internacional. O utilitarismo ideológico que deixou de ser útil, deixando, portanto, de ser verdade, é a falsa verdade, ou melhor, a mentira de ambos. Já o consultor empresarial Feifer anteviu dias difíceis para o Mercosul, porque, sendo representante das empresas multinacionas, teme que os governos nacionalistas enquadrem elas nos propósitos do Focem - o Fundo de Investimento do Mercosul -, cujo objetivo é integracionista, diverso do das multinacionais, desintegracionista, interessadas em transformar a América do Sul em palco para arrancar seus lucros a fim de serem repatriados, de modo a tirar dos sulamericanos, para cobrir os buracos financeiros de suas matrizes no mundo rico em derrocada financeira. Por que Waack não convida, para fazer o contraponto dessas opiniões reacionárias, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, que poderia lançar o contraditório, contribuindo para o telespectador pulsar os dois lados da questão e não ficar prisioneiro do maniqueísmo mecanicista williamwaackeano em oposição à postura crítica noblatiana? O mecanicista positivista Waack, certamente, tem horror da dialética, que, segundo Marx, é o azimute da burguesia financeira em crise.







O acompanhamento da crise paraguaia traz nostalgia e frustração. O paradoxismo gerado pela constitucionalidade do “golpe” provoca uma sensação do dejá vu , e nos remete ao golpe contra o Presidente João Goulart e similares na América Latina: Alvarado, no Peru, por exemplo. Todos acusados de inépcia gestora. Frustração porque está em jogo um processo de integração duramente construído e porque mudamos de gerações, mas continuamos a tratar o Paraguai, nosso parceiro vizinho e irmão, com quem temos dívidas históricas, com desrespeito à sua voz e à sua autonomia. Nossos colegas não escrevem com seriedade, nem têm quaisquer comprometimentos pessoais ao fazê-lo. São verdadeiros bailarinos.
Caro Cesar,
No Oglobo pode, mas na Globo continua aquele palhaço (sem querer ofender a profissão)troglodita, Arnaldo Jabor e, para deleite da alta classe médio, esse fantasmagórico Waak.