06 jun
2012Programa econômico popular anti-crise global
Conselho Editorial Sul-Americano em 06/06/2012

O comportamento da presidenta Dilma Rousseff vai se revelando, paulatinamente, no compasso do desdobramento da crise mundial. Esse é o foco dela. O Brasil está sendo afetado duramente pelos efeitos da grande bancarrota global. Depois dos ataques cambiais, expressos nas expansões monetárias inflacionárias comandadas pelos bancos centrais dos Estados Unidos, da Europa e do Japão, o que se verifica, agora, é uma corrida especulativa contra o real, que obriga o BC brasileiro a ficar de olho, irrigando e enxugando dinheiro, de acordo com as circunstâncias. A guerra monetária em curso é fruto da financeirização econômica global decorrente da total desregulamentação dos mercados financeiros que colocam as economias sob domínio da circulação especulativa das moedas, em quantidade muito maior do que os PIBs, cujas consequências são as de alterarem, para cima e para baixo, bruscamente, os preços dos ativos, evidenciando confusão total sobre a economia real, produtora de bens e serviços. Os capitais especulativos estão deixando de acreditar na política econômica dilmista, apoiada na expansão do consumo interno, porque os consumidores estão superendividados em meio à cobrança de juros de agiota pela bancocracia nacional, que, claramente, aposta contra a política econômica em curso, ao resistir ao chamamento dilmista em favor de uma diminuição mais acentuada do custo do dinheiro. Emerge uma luta de gigantes: de um lado, o oligopólio financeiro privado, que resiste ao juro mais baixo; de outro, o oligopólio financeiro estatal, que tenta reduzir o juro a pancadas, para induzir o setor privado a fazer o mesmo. O oligopólio estatal, ao mesmo tempo, corta a mamata do oligopólio privado de viver de renda especulativa, jogando a selic no chão. Restará, com o passar dos dias, semanas e meses, ao oligopólio financeiro privado lucrar com o poderoso mercado interno consumidor. Mas, como o juro que ele está cobrando quebra esse consumidor, mata a galinha dos ovos de ouro, ele, também, oligopólio financeiro privado, tenderia, no limite, a quebrar. O espectro da bancarrota do banco Cruzeiro do Sul ronda a bancocracia privada, como um todo, principalmente, se ela continuar agindo como age, na base da agiotagem. Haveria novo PROER, se pintar quebradeira bancária, no compasso do avanço da inadimplência, patrocinada, justamente, pelo juro de agiota? O destino dos banqueiros está amarrado ao dos consumidores, quanto mais a selic cair e sobrar, para sustentar a lucratividade bancária, o consumo interno, que se falir, fale, também, os bancos e interrompe, completamente, os investimentos. Não haveria arrecadação para permitir ao governo cumprir esse papel, o de continuar alavancando o desenvolvimento. Por isso, Dilma está colocando na mesa o seu programa econômico salvacionista. Sua opção, claro, é pela saúde da sociedade, não dos banqueiros.
OPÇÃO RADICAL
1 – Reduzir a dívida ou uma moratória(zerar temporariamente o superavit primário).
2 – Suspensão do pagamento dos juros até que a economia estabilize ou mostre sinais de recuperação.
3 – Ligar o serviço da dívida à taxa de crescimento.
4 – Rejeição do corte no salário mínimo.
5 – Alargar o subsídio de desemprego a um período de dois anos em vez de um.
6 – Aumentar a despesa pública para garantir pequenas e médias empresas.
7 – Para aumentar as receitas, taxar a riqueza e os rendimentos milionários.
8 – Registrar bens dos cidadãos no país e no estrangeiro, com apreensão em caso de declarações falsas.
9 – Redução de impostos sobre produtos alimentares essenciais.
10 – Reforma fiscal menos penalizadora dos baixos rendimentos.
11 – Fim das isenções fiscais aos magnatas.
12 – Investimento em tecnologia e meios humanos para combater a evasão fiscal.
13 – Nacionalização dos bancos recapitalizados pelo Estado.
14 – Usar as receitas da exploração de petróleo e gás para criar um fundo que garanta educação e programas sociais.
CALMA, MINHA GENTE
Esse programa não é – POR ENQUANTO – o do Governo Dilma, mas do Syryza, coligação dos partidos de esquerda gregos, que, com 31% nas pesquisas, deverá ganhar a eleição no próximo dia 17.
Comandados por Alexis Tsipras, os oposicionistas propõem esse “Plano de Reconstrução Nacional”, levantando, basicamente, o argumento de que “O povo grego não está a pedir dinheiro. Não são pedintes. Querem trabalhar e poder suportar o seu custo de vida”.
Essencialmente, o programa da oposição grega é um contrataque à financeirização econômica global que levou o sistema capitalista europeu ao buraco, a fim de abrir espaço para a recuperação econômica, sem a qual o caos político tende a se instalar sobre toda a Europa, visto que, junto com a Grécia, podem desabar, igualmente, Espanha, Portugal, Itália, Irlanda, Inglaterra etc.
Mas, convenhamos, esse programa grego não apresenta característica semelhante ao que vai sendo, paulatinamente, montado pelo Governo Dilma, acossado, também, pela financeirização econômica que domina o Estado nacional, para evitar que o Brasil se transforme numa Grécia?
Vejamos as medidas que estão sendo debatidas essa semana, no Planalto:
OPÇÃO CONSERVADORA
1 – Adiar recolhimento de impostos
2 – Isenção de cobrança de impostos sobre investimento
3 – Redução dos preços de energia
4 – Adiamento das exigências de conteúdo local para encomendas à Petrobrás
5 – Ampliar uso das compras governamentais para ajudar setor privado
6 – Depreciação acelerada dos investimentos
7 – Redução da Contribuição Social sobre Lucro Líquido(CSLL)
8 – Mobilização tributária para diminuir impostos
9 – Flexibilizar mercado de trabalho sem violar direitos
10 – Diminuir despesas de custeio sem reduzir inserção social
11 – Atacar oligopólios que sustentam tarifas altas
HORA DA ONÇA BEBER ÁGUA

Se os banqueiros brasileiros não tomarem jeito, se continuarem insistindo em praticar a agiotagem desenfreada, se não cairem na real de que se os consumidores falirem diante do custo do dinheiro que estão cobrando/espoliando, eles, também, falirão, certamente, poderão ter pela frente não uma Dilma Rousseff, se conseguirem derrubar ela, mas algo muito mais severo do que a titular do Planalto, em matéria de radicalidade política econômica. Poderão encontrar um Alexis Tsipras pela frente. O lider radical da coligação das esquerdas gregas entusiasma a opinião pública, ao pregar contra os agiotas, ao defender a dignidade dos trabalhadores, que estão perdendo tudo, para que os interesses dos banqueiros e suas politicas espoliativas sejam atendidas. A crise mundial põe um curso novo ritmo político, marcado pela radicalização das massas, ao reagirem ao discurso dos que procuram defender o poder de compra delas, afetado pela especulação financeira submetida à completa desregulamentação, responsável por jogar o mundo no abismo econômico financeiro especulativo suicida. Dilma, por enquanto, joga na mesa uma proposta burguesa, conservadora, para reanimar a economia, afetada, agora, pelo início de bancarrota do consumo, decorrente da agiotagem bancária. Tenta ela animar a produção, via investimentos, que, claro, somente, surgirão, se o consumo, também, for mantido ativo. Produção é consumo, consumo é produção, já dizia Marx. Não há separação entre as partes que avançam dialeticamente, assim como não pode haver separação entre banqueiro e consumidor, especialmente, depois que o governo vai detonando a selic, deixando os bancos na dependencia do crediário, para continuarem sustentando sua lucratividade. Ou os banqueiros querem que Dilma se transforme num Alex Tsipras?
Essencialmente, as medidas em arrumação, pela equipe econômica dilmista, visam a dinamização do setor produtivo, que está rateando, diante do perigo de colapso do consumo interno, devido ao garroteamento que os consumidores estão sofrendo nas mãos dos agiotas, no crediário.
A queda de braço se acentua na emergência da luta política entre o oligopólio financeiro privado que mantém o juro nas alturas, inviabilizando, completamente, a continuidade da política econômica dilmista, e o oligopólio financeiro estatal, por meio do qual a presidenta tenta enquadrar a bancocracia agiota nacional, induzindo o mercado a uma queda mais acentuada do custo do dinheiro para a produção e o consumo.
A diferença entre o programa grego e o programa dilmista, ainda, em concertação, administrado em doses homeopáticas, insuficientes, é que o primeiro visa agir sob uma realidade já em colapso, enquanto o segundo tenta animar algo que está funcionando, porém, precariamente, conforme mostra a evolução do PIB nacional no primeiro trimestre.
Evidentemente, se não houver progresso com essas medidas, o espectro grego irá jogando sombras cada vez mais sinistra sobre o Brasil e os países sul-americanos.
Está chegando a hora de a onça beber água: o defeito é da opção dilmista pelo consumo como forma de dinamizar a produção e os investimentos ou do sistema financeiro nacional, que, nas águas da financeirização econômica global, ampliou seu raio de ação de forma desproporcional, cuja continuidade, se não for interrompida, transformaria o Brasil em Grécia?
Vamos dizer, assim, que o programa dilmista continua tendo característica burguesa, enquanto o programa grego vai ganhando conotações políticas radicais, de cunho mais socialista.







