14 abr
2012Guerrilheira ataca bancos e assusta Congresso
Rudolfo Lago em 14/04/2012

COM POPULARIDADE EM ALTA, ATUANDO COMO AUTÊNTICA GUERRILHEIRA POLÍTICA EM TEMPO DE DEMOCRACIA REPRESENTATIVA ACUADA PELA LEI DA FICHA LIMPA, a presidenta Dilma Rousseff, no ataque aos banqueiros em defesa dos juros civilizados para sustentar crescimento econômico, busca os conselhos de Lula, se acha suficientemente capaz de dispensá-los, para conduzir os desdobramentos políticos em processo de tumulto com a emergência da CPI de Cachoeira, ou estaria contrariada com o ex-presidente diante do descortínio dele em favor da aceleração do processso político tumultuado que aponta para acontecimentos imprevisíveis que colocariam o governo em situações políticas complicadas nas próximas semanas? Ou ela, sabendo que oposição e situação se encontram diante dos mesmos desafios, estaria apostando naquilo que sempre representou a grande solução nacional, ou seja, a conciliação das elites nos momentos cruciais de impasse, em que as redeas do poder podem sair do controle dos velhos mecanismos estabelecidos para sustentar o status quo? Montada em seu crescente prestígio popular, decorrente da sua disposição de acabar com o toma lá dá cá da política sob governabilidade eternamente provisória, a titular do Planalto se encontra entre dois polos: poderá se acomodar diante de uma possível conciliação das forças no Congresso ou se não houver tal conciliação, certamente, navegaria no rumo em que apontar as demandas sociais, se estas decidirem influir para valer nos destinos da nascente CPI, arrastando governistas e oposicionistas para um haraquiri político inevitável. Façam suas apostas.
Um experimentado parlamentar da base governista observa meio atônito e preocupado o curso dos acontecimentos. A presidenta Dilma Rousseff resolveu peitar os poderosos caciques do PMDB – os senadores José Sarney (AP), Renan Calheiros (AL) e Romero Jucá (RR) e o deputado Henrique Eduardo Alves (RN) à frente. Mandou, pelo novo líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM), avisar o fim das “velhas práticas” na relação política. Endossou o aviso de Eduardo Braga, em entrevista à revista Veja, dizendo que não gosta de “toma-lá-dá-cá”. Permitiu – ou, pelo menos, não se mexeu para evitar – que se constituísse uma CPI para investigar a relação do bicheiro Carlinhos Cachoeira com parlamentares – CPI cujo alvo principal será o opositor Demóstenes Torres (sem partido-GO), mas não o único. Não serão focos de confusão demais para um governo só?
Para o parlamentar petista, Dilma escora-se em seus altíssimos índices de popularidade. Coberta de razão, a opinião pública aplaude a presidenta e torce para que ela tenha sucesso na tentativa que faz de mudar a forma da relação política entre o Executivo e o Legislativo, hoje muito baseada na troca de favores, na troca de votos por cargos e verbas. O problema é que, a cada movimento que faz, Dilma vai deixando descontentes pelo caminho que, num termo do próprio parlamentar, vão guardando seus “fígados na geladeira”. Enquanto tudo estiver correndo bem, a presidenta pode manter sua queda-de-braço com os políticos. Mas, se algo der errado e Dilma precisar de apoio, será a hora de os descontentes descongelarem seus fígados. Como será, então?
Olha a faca!

- NA CORDA BAMBA. A ministra Ideli Salvatti, das Relações Institucionais, e o ministro Antônio Patriota, das Relações Exteriores, estão piando fino com a presidenta Dilma. Ideli, pelas broncas que tem levado da titular do Planalto, parece confirmar aquilo que dela falou o ex-ministro Nelson Jobim, defenestrado por Dilma do Ministério da Defesa, por abuso de poder, ou seja, que a coordenadora política do governo é muito “fraquinha”. Não teria suficiente pulso para domar as feras do Congresso. Já, Patriota não teria atuado de forma competente na atual visita da Presidenta aos Estados Unidos, na medida em que não recebeu, do presidente Obama, tratamento vip, sendo tratada com relativa frieza, como personagem de segunda categoria. O titular da Casa Branca não dispensou a ela a importância da sua representação, visto que o Brasil ganhou dimensão extraordinária no ambiente da crise mundial, merecendo do próprio status quo empresarial americano novo tratamento, não refletido no encontro dela com Barack. Patriota, que parece menino medroso frente a Dilma, não tem, realmente, se destacado, para conferir o novo poder econômico brasileiro no cenário globalizado. Celso Amorim estaria fazendo falta. Esses dois precisam se cuidar, senão…
Mesmo mantido o atual quadro favorável, o cenário já gera, considera o parlamentar, uma confusão que provoca uma certa lentidão no governo, especialmente com relação àquilo que depende do Congresso. Estão aí os problemas correntes na aprovação da Lei Geral da Copa, para dar um exemplo. Com uma CPI em curso, o grau de confusão só tende a aumentar. É bobagem imaginar que a investigação anunciada vai chamuscar apenas o outrora ícone da oposição Demóstenes Torres. Ou resvalar somente em outros oposicionistas, como o governador de Goiás, Marconi Perillo. A história já pegou um auxiliar dos mais próximos do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, do mesmo PT de Dilma. E há outros deputados da base do governo mencionados. É evidente que as tropas governistas e oposicionistas vão cerrar fileiras para abater o máximo de adversários do outro lado. Todo mundo já citou Ulysses Guimarães nos últimos dias, mas não custa repetir: “CPI, se sabe como começa; não se sabe como termina”.
Conciliação das elites à vista

- SURREALISMO PURO. O que esperar de um ex-presidente da República cassado por corrupção, hoje senador, e de um, também, ex-senador fugitivo do mandato para não ser cassado, a fim de voltar a ser, de novo senador, agora, integrantes de uma CPI para apurar corrupção, se ambos foram defenestrados por conta desta? Como a política é uma eterna caixa de surpresas, não se pode prever, antecipadamente, como ambos se comportarão. Porém, sendo representantes das forças políticas oligárquicas, certamente, não colocarão o pescoço à força, se forem forçados a tal, buscando, antes, alguma conciliação, para fazer valer o que sempre ocorreu na política brasileira, o ajuste por cima, como arma histórica das elites.



