25 jan
2012Terceira guerra mundial em marcha
Conselho Editorial Sul-Americano em 25/01/2012

- O oculto e o latente não conseguiram se disfarçar no discurso do presidente Barack Obama nessa terça feira 24, ou seja, a disposição do governo americano de barrar o avanço da moeda chinesa, o yuan, que ameaça o dólar, abalado pela crise financeira internacional, detonada pelos próprios Estados Unidos. O titular da Casa Branca se dispõe, com todo o arsenal armamentístico atômico do império americano a impedir que o Irã e o Oriente Médio, nesse momento, avancem em negociações com os chineses, trocando mercadorias da China pelo petróleo dos árabes, envolvendo o yuan em lugar do dólar. Assim, a disposição de confrontar o Irã não tem por motivação essencial a vontade soberana do governo Ahmadinejad de construir armas nucleares, algo que já se tornou possível pela humanidade, sem maiores mistérios, diante dos avanços científicos e tecnológicias disponíveis. A posição radical americana que tende a avançar é no sentido de buscar a defesa da expressão maior do poder do império americano , o dólar, que os árabes começam a desdenhar, em face da crescente fragilidade dele nas relações de trocas globais, decorrente da crise mundial, produzida pelo excesso de oferta da moeda americana, no plano especulativo, dado pela supressão da regulamentação do mercado financeiro dos Estados Unidos como estratégia de reprodução ampliada do capitalismo financeiro, em estresse total depois da crise de 2008. A moeda papel que substituiu o padrão ouro, levado de roldão pela crise de 29, responsável por jogar o mundo na segunda guerra mundial, entra em bancarrota, sinalizando perigo da terceira guerra, porque, evidentemente, o império americano tentará de todas as formas manter as aparências de que continua com o poder total, quando a prática demonstra estar ele sustentado em alicerçes cada vez mais fragilizados. O grito de Obama de que o império está forte é a expressão cabal de que ocorre o inverso, pois, afinal, como destaca Freud, as palavras servem para esconder o pensamento. Mas, quem ainda se engana com o dólar em colapso por conta do excessivo endividamento que fragiliza Tio Sam?
A crise de 1929 levou o mundo à segunda guerra mundial. A crise de 2008, mais poderosa que o crash dos anos de 1930, levará ele à terceira? Como demonstram as crises do capitalismo, os movimentos começam de cima para baixo, a partir dos paises ricos, simplesmente, porque elas, invariavelmente, são iniciadas neles, no estouro das contradições que buscam suas superações, detonando-as, impondo mudanças quantitativas e qualitativas inevitáveis, quanto mais são bloqueadas a reprodução ampliada de capital. Por exemplo: no plano da moeda, a crise de 1929 abriu espaço para o rompimento do padrão ouro, vigente no século 19, durante o qual reinou a libra esterlina inglesa, afinal, detonada pela deflação, no início do século 20. Vigorou, no século passado, o reinado do dólar, justamente, porque, com o fim do ouro como mediador das relações de troca, entrou em cena o governo emissor de papel moeda, para puxar a demanda global, num ambiente em que os vencedores dos conflitos, saindo deles todos poderosos, foram os Estados Unidos. E, agora, na crise de 2008, passado mais de meio século de dominação do dólar, na cena internacional, o que se vê? O esgotamento da moeda americana, no sentido de continuar mantendo a hegemonia econômico-financeira dos Estados Unidos, devido, claro, ao esgotamento das finanças do império, visto que não pode mais continuar se endividando por meio da continuidade, sem fim, da emissão de papel moeda, sem lastro, que deixou de merecer a confiança internacional, como outrora. O perigo, portanto, é o mesmo que sinalizou a segunda guerra. A derrocada das moedas dos impérios é parteira dos conflitos globais. De posse do poder imperial de emitir, os Estados Unidos, seguindo os conselhos dos estrategistas econômicos conscientes de que os gastos do governo em guerra seriam a solução, construíram o todo poderoso estado industrial militar norte-americano. A partir dele, a economia ganhou fôlego, para puxar a demanda global, ao mesmo tempo em que a capacidade de emitir moeda sem lastro real garantiu aos americanos poder ilimitado, somente, contido, evidentemente, pelo esgotamento da capacidade de endividar, que foi o sinal claro dado pela crise de 2008, como resultado das decisões do poder imperial, nos anos anteriores, de eliminar toda a regulamentação prudencial ao mercado financeiro dos Estados Unidos, conferindo a ele poder de ampliar suas ações em todas as partes do mundo.
Yuan desloca o dólar na crise

- Os chineses, que não acreditam mais na potencialidade do dólar, ameaçado pela crise mundial, buscam valorizar sua moeda, o yuan, acertando acordos comerciais com os árabes e com o Irã, para trocar mercadorias chinesas pelo petróleo passando ao lado das verdinhas de Tio Sam. Detentores de reservas cambiais na casa dos 3 trilhões de dólares, os chineses podem manobrar seu poderio cambial no mundo, jogando para cima e para baixo a cotação da moeda americana, na medida em que elevam ou diminuem a oferta dela, em escala global, ao mesmo tempo em que com as trocas comerciais firmes, acertadas em yuan, com seus parceiros, fortalece, relativamente, o poderio chinês na cena internacional. Ou seja, lenta e gradualmente, a China vai minando o poder imperial da moeda americana, enquanto, internamente, nos Estados Unidos, a saúde das finanças da economia americana vão sendo esvaziadas pela própria divisão política interna entre republicanos e democratas, em torno de providências macroeconômicas capazes de sustentar a potencialidade econômica do império, abalado pela incapacidade de concorrer com os produtos chineses, japoneses e sul-coreanos, agora, dispostos, para horror da Casa Branca, em partirem para uma união comercial asiática pautada pelas moedas dos três países. Estes, por sua vez, necessitados do petróleo do Irã, fortalecem a disposição da China de intensificar o comércio com o Oriente Médio, passando ao largo das relações de trocas tendo a moeda ameicana como equivalente geral, progressivamente, esvaziado. Eis os reais codimentos explosivos que preparam a terceira guerra mundial.
A capacidade dos Estados Unidos de se endividarem chegou ao limite, a partir das contradições que implodiram dentro do próprio sistema político dos Estados Unidos, com os republicanos entrando em campo para conter o poder dos democratas por intermédio do cerceamento da ação governamental no sentido de continuar expandindo o endividamento do governo, cujo eventual estouro financeiro provocaria, evidentemente, hiperinflação exponencial. A descrença na moeda dos Estados Unidos se estabelece, portanto, na medida em que as divisões políticas internas se acentuam, ampliando as posições radicalizadas da direita americana, manifestando, sem meias palavras, posicionamentos políticos fascistas. O resultado das divisões internas, que fazem explodir as contradições inerentes ao sistema econômico ancorado em moeda que paulatinamente vai deixando de ser acreditada em sua capacidade de gerir as trocas comerciais, expressa-se, por sua vez, em desenvolvimento de estratégias econômicas dos aliados, concorrentes e adversários dos Estados Unidos, todos em busca de alternativas salvacionistas. Da parte dos aliados, vê-se a Europa atolada em situação que se desenvolveu a partir da expansão da desregulamentação do mercado financeiro americano cujos tentáculos alcançaram os países europeus, ampliando a ação dos derivativos dolarizados tóxicos, largamente produzidos pela expansão da bolha imobiliária nos Estados Unidos. Inicialmente, expandida, sem limite, até estourar, tal bolha especulativa teve seu corresponde na Europa, especialmente, nos emergentes. Estes seguiram a onda, até, também, estourarem. Os bancos americanos financiaram bancos europeus que passaram dinheiro aos governos que emprestaram ao mercado, puxando uma corrente da felicidade, cujos resultados estão à mostra, ou seja, a prostração econômica européia. Por essa razão, os europeus estão mais do que nunca desconfiados do dólar, que bichou geral o euro, colocando em risco total a união monetária continental. Se da parte dos aliados dos Estados Unidos, como os europeus, a disposição de fugirem do dólar é crescente, o mesmo, em escala, igualmente, ascendente ocorre relativamente aos concorrentes da economia americana, com destaque para os chineses.
Parceiros desconfiados entre si

- Depois de detonarem a Líbia, incensados pelo governo americano, interessado no petróleo líbio, os líderes europeus, igualmente, de olho naquele ouro negro, aliados desconfiados de Obama, ameaçam o Irã, agora, com as forças da OTAN, para que os iranianos sejam impedidos de levar adiante o comércio do petróleo com a China, pautado pelo yuan e não mais pelo dólar. O problema é que a Europa se encontra em enrrascada econômico-financeira justamente por conta da política monetária dos Estados Unidos. A expansão ilimitada de dólares pelo Banco Central dos Estados Unidos, responsável por detonar o mercado imobiliário americano e produzir a crise de 2008, atingiu, em cheio o euro, levando a moeda européia, igualmente, à bancarrota, afetada pelos efeitos contagiantes intoxicantes letais dos derivativos dolarizados, responsáveis por colocar em risco tanto o sistema financeiro como os governos europeus, agora, envolvidos nos perigos inafastáveis das recessões econômicas, tendentes a se prolongarem pelos próximos dez anos. Como os europeus confiarão num parceiro dessa natureza, responsáveis por levarem eles ao colapso? Ao mesmo tempo, a Europa mira a China como possível saída salvacionista, como já se cogita de os chineses comprarem dívidas dos europeus, reciclando-as, em troca de ativos, de modo a reanimar a economia européia, amenizando os perigos da recessão. Se os europeus seguirem cegamente Washington, detonando o Irã, que fornece petróleo para a China, Japão e Coreia do Sul, motivados a ser unirem em torno de um mercado livre que dispense a utilização do dólar, a fidelidade canina da Europa relativamente aos Estados Unidos poderá ser abalada, por chifradas inevitáveis, dadas pela realplitik mundial. Por que ficar ao lado do dólar, se o seu poder nas relações de troca passa a ser mal negócio para os parceiros, visto que seu resultado tende a ser pressões inflacionárias inevitáveis no compasso da guerra cambial em curso?
Abarrotada de moeda americana em seus cofres, acumulada nos anos de bonança do mercado consumidor dos Estados Unidos, antes do estouro da crise de 2008, a China, agora, busca fugir do dólar, fechando negócios com os parceiros em moeda própria, o yuan. O acerto que o presidente chinês, Hu Jin Tao acaba de fazer comos árabes, de trocar petróleo por moeda e mercadorias chinesas, desloca a moeda americana na área dos petrodólares. O que, realmente, está por trás da disposição do governo dos Estados Unidos de detonarem o governo do Irã não é outra coisa senão a decisão dos aiatolás de comerciarem com os chineses ao largo do dólar, trocando, como começou a fazer a Arábia Saudita, petróleo por yuan. O discurso da União de Obama, já em campanha eleitoral, dando o recado de que fará tudo para evitar que o Irã consiga desenvolver armas nucleares, tem tudo para ser mera cortina de fumaça. O que o titular da Casa Branca teme, na verdade, é a bancarrota total da expressão do poder imperial, isto é, a moeda, o dólar, que, graças ao excessivo endividamento dos Estados Unidos, vai perdendo o poder de determinar, em favor dos americanos, a deterioração nos termos de troca, dado pelo poderio cambial das verdinhas. Estas passaram a encardir no bolso dos seus detentores, depois do estouro da crise de 2008, da mesma forma que o estouro da crise de 29 soou o fim da hegemonia da libra esterlina inglesa. O império, ou seja, o dólar, está ferido e ruge, criando argumentos diversionistas para confundir. Na prática, o que o imperialismo americano, sob comando de Obama, orientado pelos falcões do Pentágono, desejam é barrar as vendas de petróleo do Oriente Médio para os chineses, colocando em risco o abastecimento de energia para o maior adversário comercial e industrial dos Estados Unidos. Para alcançar esse objetivo, tem que detonar os aliados dos chineses que lhe fornecem essa energia, o Irã, principalmente. Entra nessa geopolítica de guerra a Síria, aliada do Irã. Destruir o governo sírio, amigo dos aiatolás, representa criar estado de guerra geral no Oriente Médio, para obstruir o avanço do comércio Irã-China, pautado em yuan e não em dólar. Nada mais temido e indesejado pelos americanos.
América do Sul busca união

- Brasil e Venezuela, os dois maiores produtores de petróleo da América do Sul, que, juntos, representam a maior produção mundial do ouro negro, colocam suas barbas de molho diante do avanço do espírito guerreiro de Washington, na tentativa de impedir o progresso comercial do Irã com os chineses e asiáticos em geral, em detrimento da moeda americana. Reunidos nessa terça feira em Caracas, o presidente Hugo Chavez e o ministro da Defesa do Brasil, Celso Amorim, discutirem os rumos da crise internacional e as estratégias de defesa conjunta a ser desenvolvidas pelos dois países, visto que ambos, estrategicamente, podem se transformar no fiel da balança, no plano global, se a guerra estourar entre Estados Unidos e China, a partir do Oriente Médio, que pega fogo, com a disposição dos governos da Síria, do Irã e da Arábia Saudita de intensificarem comercialização do seu petróleo com os chineses, sem utilização do dólar como equivalente monetário das relações comerciais, colocando, realmente, em risco o império americano, cuja moeda perde credibilidade, no compasso do aumento do endividamento público dos Estados Unidos, sob desconfiança generalizada do mercado financeiro global. Chegou a hora de acelerar a união sul-americana, quando todas as forças da guerra colocam suas unhas de fora, sinalizando que Estados Unidos e China, as duas maiores potencias mundiais, se estranham em escala crescente, no compasso da guerra cambial total.









