04 jan
2012Inflação eleva emprego e populariza Dilma
Cesar Fonseca em 04/01/2012

A taxa de desemprego no Brasil é uma das mais baixas da história. Está em torno de 5,5%. Tende a cair ainda mais porque ao afirmar que o governo vai elevar mais os seus gastos para puxar investimentos em infraestrutura, a presidenta Dilma sinaliza ao mercado de trabalho e à produção geral de insumos que a demanda relativa global na economia aumentará, levando os empresários a uma frenética atividade decorrente da ação governamental. A inflação puxada pelos gastos do governo desperta o espírito animal do empreendedor, levando-o a refazer suas contas. A meta inflacionária - variável de 4,5% a 6,5% - vai se tornando algo bastante flexível com o qual se convive sem traumas, como se fosse adequada às necessidades de crescimento do país, onde tudo ainda está por fazer, ao contrário do que se verifica nas economias ricas, onde, praticamente, tudo já está feito, razão pela qual são menores as tensões inflacionárias. Os analistas conservadores, temerosos quanto o desenrolar da crise global, prevêem que o PIB esse ano não alcança 3%, mas o Palácio do Planalto trabalha com expectativa de crescimento na casa dos 5%. Chegará lá? Não chegará? O fato é que , na prática, a tensão sobre os preços das matérias primas e dos salários eleva o nível de ocupação geral, o que favorece a popularidade presidencial em ano de eleição. O Brasil, nesse sentido, caminha na linha oposta ao que está acontecendo nos países capitalistas ricos onde o que se verifica é a tensão deflacionária, ou seja, a morte do capital e do trabalho. Os investidores internacionais, sem opção, podem estar muito bem tendo a economia brasileira no seu horizonte como opção fundamental, porque a decisão política governametal é a de apostar todas as fichas no mercado interno e na manutenção de política social capaz de melhorar distribuição da renda, dinamizando o consumo, a arrecadação e o investimento.
A inflação, como se sabe, lesa os salários, mas, em contrapartida, aumenta o volume de ocupação. O preço da unidade de trabalho cai, mas como no conjunto ocorre maior oferta de emprego, verifica-se, no plano geral, não, apenas, o maior volume de ocupação, mas, igualmente, o aumento da renda nacional. O contrário da inflação é a deflação que destroi não apenas os salários, mas, também, o capital.Portanto, trata-se de escolha de Sofia.
Enquanto a taxa de emprego sobe por conta da inflação que aleija os salários, mas garante o capital, tem-se que o processo inflacionário, do ponto de vista do capital, representa, como disse Lauro Campos, instrumento de controle social. Afinal, o oposto, o processo deflacionário, ao desestruturar o capitalismo, destruindo a moeda, prepara o terreno para o socialismo.
Com o aumento da oferta de emprego sob salário aleijado pela inflação, o trabalhador é, psicologica e ideologicamente, ludibriado pelo fenômeno da homogeneização das classes sociais, que, no plano geral, subentende que o aumento da renda nacional representa, também, aumento e não redução do salário, enquanto, no plano individual, do trabalhador, seu poder de compra cai sob o efeito da exploração da mais valia. Há, sim, o arrocho de salários, quando os preços para o consumo dos bens salários sobem, mas, como, no conjunto, o volume de ocupação aumenta, o trabalhador, prisioneiro das rendas fixas, opta, sem outra alternativa, pela oferta salarial disponível, pois a alternativa é o desemprego, a fome.
Vai, assim, como diria Keynes, aumentando o desemprego involuntário. Quer dizer, o trabalhador assalariado só fica desempregado se quiser por não se dispor a trabalhar pelo salário vigente. Por isso, desemprego involuntário, na visão ideológica de Keynes, um gênio, significa, pleno emprego. O valor da unidade de salário cai, relativamente, aos preços que sobem, elevando a margem de lucratividade dos capitalistas.
O que permite esse arrocho salarial sutil, indireto, via inflação, diferente daquele que era proposto, no século 19, pelos economistas clássicos, materializado na diminuição direta do valor nominal do ganho salarial? O aumento inflacionário dos gastos do governo, na medida em que é ele que manipula a única variável econômica verdadeiramente independente sob o capitalismo, conforme Keynes, ou seja, a quantidade da oferta de moeda na circulação capitalista.
Quando ele faz isso, provoca, simultaneamente, 1 – o aumento dos preços, 2 – a diminuição dos salários, 3 – o perdão das dívidas dos empresários contratada a prazo e 4 – a redução da taxa de juros. Nesse ambiente, desperta-se, como destaca o economista inglês, o espírito animal dos empresários que leva eles aos investimentos, já que enxergam, nitidamente, diante de si o que denominou de eficiência marginal do capital, vale dizer, o lucro.
A inflação diminui indiretamente os salários e eleva diretamente a taxa de emprego. Há emprego, mas pelo salário dado pela inflação provocada pelo governo, quando lança moeda na circulação, com uma mão, a fim de aquecer a demanda global, e títulos da divida pública, com a outra, para enxugar parte da alagada base monetária, a fim de evitar a enchente inflacionária, de modo que a dívida cresce, dialeticamente, no lugar da própria inflação, conforme o modelo keynesiano colocado em ação pela presidenta Dilma Rousseff, a fim de puxar os investimentos do PAC.
Estado gera euforia empresarial

O governo aposta que em 2012 a inflação estará sob controle, com o aumento da produção gerando oferta compatível com a demanda, ao mesmo tempo em que a desaceleração da economia mundial estará proporcionando menor pressão altista sobre os preços das matérias primas. Nesse ambiente, o câmbio ficaria relativamente apreciado para importar barato, como contrapeso às altas internas, que ocorreru diante do aumento do poder de compra do salário mínimo. E para diminuir os juros, a arma do governo são suas reservas financeiras, bem como o grande volume de depósitos compulsórios que certamente serão utilizados para diminuir o custo de financiamento das prestações via juro mais baixo ao crédito direto ao consumidor. Trata-se de ano difícil, que exigirá monitoramento de sintonia fina.
Em 2012, portanto, como a promessa da titular do Planalto é sustentar os investimentos, mediante ampliação dos gastos do governo, para dinamizar a infraestrutura, a fim de dar conta das obras indispensáveis à realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas, além das que são reclamadas pelo dinamismo econômico, dado pela opção pelo incremento do mercado interno, alternativo à retração da economia dos países ricos, a resposta dos empresários é, igualmente, a de investir para atender a demanda governamental.
Por isso, precisam ir ao mercado de trabalho contratar trabalhadores e insumos básicos à produção. A competição decorrente dessa demanda aumenta os custos de produção das empresas que repassam tudo aos preços das mercadorias, em escala superior aos preços que desembolsam em forma de pagamento dos salários.
O valor total da receita com as mercadorias produzidas, claro, é maior do que o valor total pago em salários. Como o valor total recebido pelo trabalhador em forma de salário é inferior ao valor total das mercadorias vendidas, ocorre um gap histórico,como demonstrou Marx, traduzido em crônica insuficiência relativa de demanda global.
Tal defasagem entre o valor vendido das mercadorias pelos empresários e o valor pago aos trabalhadores sinaliza, do ponto de vista macro, a deflação, ou seja, a morte do capitalista, só combatida, de acordo com a visão do capital, por mais investimentos do governo, já que se torna essencial manter diferença entre preço – a mais - e salário – a menos -, capaz de assegurar ao investidor o lucro necessário para evitar que ele faça opção pela liquidez, ou seja, decida aplicar seu dinheiro no juro em vez de fazê-lo na produção.
A preferência fundamental pela liquidez é combatida, diretamente, pelo aumento dos gastos do governo, pois, caso contrário, os investimentos privados não se realizam. Nesse contexto, o desafio do governo, em 2012, é diminuir a taxa de juro, para que ele possa continuar gastando, sem forçar, relativamente, de forma mais intensa, o endividamento governamental, cujo montante, se o custo do dinheiro não cair, se elevará, perigosamente, provocando mais deficit e , claro, mais inflação, agora, em uma escala que pode se tornar disfuncional, macroeconomicamente, falando.
Juro ameaça nova classe média

A nova classe média brasileira que vai às compras em escala crescente no crédito direto ao consumidor teve acesso a bens de consumo que elevaram seu padrão de qualidade de vida cuja essência é a de torná-la mais exigente em relação tanto às demandas econômicas, como, igualmente, às políticas, como se verificam os movimentos que se espalham em favor do combate à corrupção. O grande perigo que o governo enfrenta relativamente às novas classes sociais em ascensão, nas quais ele aposta para manter a demanda global aquecida, é a taxa de juro elevada, verdadeiramente, característica da maior agiotagem em vigor no planeta, responsável pela nova escravidão, moderna, do capital financeiro. Se o custo das compras a credito não for reduzido mediante diminuição do juro no crediário, a inadimplência tende a crescer e a bloquear a satisfação social com a emergência do seu novo padrão de vida, cuja sustentação se rompa em favor do maior enriquecimento dos agiotas. A presidenta Dilma sofreria, certamente, as consequências políticas, inviabilizando sua disposição de disputar a reeleição em 2014, se as expectativas das novas classes sociais mudarem de positivas para negativas diante da conjuntura econômica em acelerada mutação quantitativa e qualitativa em interação dialética.









