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Crise abala economia de guerra capitalista

Cesar Fonseca em 07/01/2012

OBAMA INCOMODA OS GENERAIS DA GUERRA. O tiro saiu pela culatra. A direita da direita do Partido Republicano, Tea Party, empurrou o presidente Barack Obama para decisão que os próprios republicanos, os falcões da guerra, não tomariam, ou seja, propor cortes no orçamento militar dos Estados Unidos, na casa dos 450 bilhões de dólares em pleno ano eleitoral. Obama entre a pressão republicana por cortar gastos sociais, a fim de equilibrar, relativamente, o orçamento, que já está saindo pelo ladrão, em matéria de deficit, e elevar impostos dos ricos, desejo dos democratas, decidiu nem uma coisa nem outra, mas uma terceira opção, que incomoda os falcões da guerra, colocando o capitalismo americano em situação de estresse, visto que a economia de guerra tem sido a opção, desde a segunda guerra mundial, para promover a reprodução ampliada do sistema capitalista americano. Sem a dinâmica dos gastos do governo como puxador da demanda global, o sistema passa a depender das forças produtivas que se desenvolvem em confronto com as relações sociais no ambiente da economia de mercado, cujo resultado, como já demonstrou a história, na crise de 1929, é a emergência da deflação, destruidora, tanto do capital como do trabalho. O Estado Industrial Militar Norte-Americano, devido aos excessivos deficits do governo, sofre o abalo decorrente da necessidade de conter seus gastos, de modo a evitar que o estouro do endividamento provoque corrida bancária, diante das desconfianças do povo na saúde da moeda, caso os desmandos financeiros prossigam. Repetindo: o problema é que a demanda estatal é o freio ao perigo de conflito desatado entre o desenvolvimento das forças produtivas, de um lado, e as relações sociais da produção, de outro, que a emissão da moeda estatal tem evitado, desde os anos de 1940. Sem essa providência, bloqueada, agora, pelo excessivo endividamento governamental, o contexto no qual desatou a crise de 1929 entra em cena, o do perigo deflacionário. O capitalismo americano, sem mais poder ir à guerrra, entrou em sinuca de bico total.

Há, sim, males que vêm prá bem, demonstrando que o impossível, às vezes, acontece.

O Tea Party, segmento direitista radical do Partido Repúblicano, nos Estados Unidos, demonizado às pampas, por ter colocado Barack Obama no curé, exigindo cortes nos gastos públicos como pré-condição para aprovar qualquer medida governamental no Congresso que não represente aumento da dívida pública, além de determinado limite, bastante estreito, visto que o endividamento governamental excessivo implode o capitalismo global, está prestando um serviço grande à humanidade.

Por conta do que os críticos estão denominando de posição absurda, irresponsável, irracional etc dos ultra-direitistas americanos, favoráveis às posições mais reacionárias em meio a um novo comportamento social impulsionado pelo espírito individualista libertário, Obama foi obrigado a dar um freio na economia de guerra da qual os Estados Unidos dependem, como os seres vivos necessitam do ar para sobreviver.

Os republicanos fanáticos querem cortes de gastos a qualquer custo, pois, afinal, são adeptos de um Estado mínimo, em que o governo não interfira nas atividades produtivas, deixando-as ao livre jogo do mercado.

Fuga para o passado

Até parece que os integrantes do Partido Republicano não sabem que a crise de 1929 levou a economia americana ao colapso por conta do estresse total do lassair faire, quando a produção de automóveis, 5 milhões por ano, caiu para 700 mil unidades, em meio a uma frota nacional de 27 milhões de veículos, jogando o sistema capitalista na deflação brutal.

E como foi possível sair do buraco, senão por meio do aumento fantástico dos gastos do governo(119% do PIB em 1944), que, puxando a demanda global via moeda estatal inconversível, conseguiu salvar as forças produtivas em colapso frente às relações sociais da produção, simplesmente, evitando que elas continuassem crescendo, intensificando o processo deflacionário mediante estímulo ao seu contrário, o processo inflacionário, dialeticamente, encoberto pela avanço da dívida pública?

O que, desde então, a expansão da dívida pública proporcionou? O incremento do consumo, pelo governo, de mercadorias não consumíveis pela sociedade, ou seja, produção bélica e espacial, bem na linha sugerida por Keynes a Roosevelt em 1936:

“Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer minha tese – a do pleno emprego -, salvo em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, aprenderão a conhecer a sua força.”

Talvez, conscientemente, os republicanos não tenham desejado fossem feitos cortes de gastos públicos na área militar, onde estão os falcões, quase todos ligados ao Partido Republicano, como se viu no tempo de W. Bush, que, embora dissesse, depois da derrubada das torres gêmeas, que não sabia que os Estados Unidos possuiam tantas armas assim, aprovou expansão quase sem limite do orçamento do Pentágono, a fim de promover a guerra contra Sadam, Bin Laden etc.

Mas, eis que as contradições explodem por todos os lados.

Dança do equilíbrio esquizofrênico

Os republicanos reclamam dos gastos do governo, exigem cortes, principalmente, nos gastos sociais, enquanto resistem que o mesmo seja feito relativamente aos ricos, elevando os impostos destes, tudo, enfim, para que seja restaurado o mínimo de equilíbrio, atuando, para tanto, no Congresso mediante posicionamentos radicais, mas veem suas atitudes se materializarem em providências que talvez não adotassem, se estivessem no comando da Casa Branca.

Dificilmente, iriam até ao Pentágono para avisar aos generais americanos que chegou a hora de dar uma enxugada no poderoso orçamento militar dos Estados Unidos, como fez durante a última semana o presidente Barack Obama.

Nem mais cortes nos programas sociais, para prejudicar os mais pobres, afetados pelo desemprego, como pregam os republicanos, nem mais redução de impostos para os ricos, também, abalados pela redução do consumo interno, que coloca suas industrias no limbo, mas, sim, linha, relativamente, mais dura quanto à economia de guerra.

O que esse jogo de cintura equilibrista representa para a economia americana em termos globais? Simples. O colosso imperialista, cuja dinâmica depende da economia de guerra, não pode lançar mão desta como instrumento indispensável à reprodução ampliada do capitalismo americano, no mundo, devido ao esgotamento da dívida pública em relação ao PIB, cuja sustentação, nos termos atuais, caso continue, tende a produzir perigosa corrida bancária nos Estados Unidos, levando o sistema a uma implosão hiperinflacionária exponencial.

Aparentemente, a redução dos gastos com a produção bélica e espacial conteria o deficit público americano, evitaria o crescimento da dívida em relação ao PIB, ajudaria, mais significativamente, a equilibrar o orçamento dos Estados Unidos, como pregam os neoliberais, mas, será que resolveria os impasses que afetam a saúde do dólar, cuja oferta excessiva no plano global, expressa em derivativos do próprio dólar, expandidos, especulativamente, sinalizou sua desvalorização perigosa para a estabilidade do capitalismo mundial?

Capitalismo sem guerra é possível?

A pergunta fundamental é a seguinte: sem a sustentação dos gastos do governo em bens improdutivos, de guerra, produtos bélicos e espaciais, que geram renda disponível para o consumo nos setores de bens de produção e bens de consumo – duráveis e semiduráveis -, seria possível a sobrevivência do capitalismo, em um retorno àquele mundo em que os integrantes do Partido Republicano considera ideal, ou seja, o mundo econômico caracterizado pela existência de um Estado mínimo, como vigorou até ao crash de 29?

Barack Obama, depois de retirar as tropas americanas do Iraque, sinalizando sensação de distencionamento guerreiro global, foi ao Pentágono aprofundar tal clima de distensão, anunciando aos generais do império que os tempos estão mudando, ou seja, que a crise econômica americana, colocou a dívida num patamar que impede ampliação, sem limites, como antigamente, do endividamento, já batendo no teto.

O problema de agora em diante é que quanto mais o governo venha a reduzir os gastos públicos em preparação para a guerra, desconfigurando o perfil do Estado Industrial Militar Norte-Americano, assim definido, com preocupação, em 1960, por Eisenhower, mais vai sendo jogada a economia americana para o contexto em que o desenvolvimento das forças produtivas e das relações sociais da produção seja obrigado a se desenvolver no ambiente em que ela já provou ser explosivo, vale dizer, sob o livre jogo das forças de mercado, cujo desfecho brutal foi o crash deflacionário.

Na prática, a ida de Obama ao Pentágono para anunciar a má nova – para os generais – em 2012 sinaliza estresse completo do modelo monetário capitalista em vigor durante todo o século 20 substituto do modelo ancorado no padrão ouro vigente no século 19. Este, sustentado na ideologia do equilibrismo orçamentário, segundo o qual os gastos do governo somente podem se expandir se houver correlação com as reservas em metais(ouro e prata) disponíveis, implodiu quanto emergiu a deflação irresistível, no início do século 20.

Soara o dobrar do sino do padrão ouro. Fez-se necessário padrão alternativo, expresso na criação da moeda papel emitida pelo governo que passa a usar a dívida governamental como alavanca da demanda, comprando mercadorias que somente ele, governo, pode comprar, consumir: infraestrutura, funcionalismo público, produção bélica e espacial etc – ou seja, não-mercadorias, cuja produção entra em crise.

Colapso das não-mercadorias

A sustentação dessa demanda dependeria, necessariamente, da capacidade de endividamento governamental, percebida pelo mercado como suficientemente segura, para que os títulos do governo fossem comprados de modo a permitir-lhe manejar a política monetária: com uma mão emitiria, sem limites, a moeda para puxar as atividades produtivas, com a outra lançaria, também, sem limites, títulos da dívida para enxugar parte da base monetária, a fim de enxugar a enchente inflacionária. O ideal seria a eternização desse moto contínuo.

Essa fonte de reprodução ampliada do capitalismo, na esfera puramente financeira, fictícia, garantida pela emissão de moeda sem lastro real, entrou, porém, definitivamente, em bancarrota, como demonstrou a crise de 2008, em curso de aprofundamento, de acordo com as previsões generalizadas dos diferentes analistas internacionais.

Os bancos, excessivamente, encharcados de papéis dos governos, irresgatáveis, estão, ameaçados de falência, sendo salvos pelos bancos centrais, enquanto os governos atolados em déficits são jogados para os ajustes fiscais draconianos, que colocam a sociedade contra eles.

Já os grandes conglomerados empresariais oligopolizados se encontram ultra-capitalizados, mas não investem nada, sabendo que, sem a demanda estatal, incrementarão ofertas que não terão demandas, se a economia depender, tão somente, do livre jogo da produção e do consumo privados, cujo resultado, como demonstra a própria história do capitalismo, é crônica insuficiência relativa de demanda global, desembocando em deflação.

Enfim, o Partido Republicano, nos Estados Unidos, ao colocar Obama em sinuca de bico, no plano orçamentário, sob argumento de que se faz necessário retorno ao Estado mínimo, jogou a economia americana no seu maior impasse, decorrente da decisão obamista de enxugar o orçamento militar.

A guerra acabou?

Resta saber, se isso é mesmo para valer. Parece que não.

Se, por um lado, o titular da Casa Branca diz que enxugará gastos com a economia de guerra, por outro, destaca que a prioridade americana, agora, é investir em segurança, na Ásia.

Ali, China, Japão e Coreia – com o apoio da Rússia – anunciam criação de livre mercado entre si que dispensaria a utilização do dólar, para dar lugar às troca comerciais realizadas entre as moedas locais.

Ou seja, ninguém está mais acreditando na solidez da moeda americana para comandar as relações comerciais como equivalente monetário global. Estímulo para que, na América do Sul, os sul-americanos atuem no mesmo sentido.

Ora, vendo que a expressão do seu poder está sendo quetionada na Ásia, a Casa Branca anuncia que a Ásia passa a ser o alvo da política de defesa americana.

Precisa ser dita mais alguma coisa que confirme o óbvio, vale dizer, que dificilmente será desarmado, prá valer, o Estado Industrial Militar Norte-Americano?

Esse estado superarmado terá que continuar.

Não custa lembrar W. W. Rostow, secretário de Estado americano, durante a guerra fria, quando disse que o objetivo dos Estados Unidos era continuar investindo sem limites em guerra para obrigar a então URSS a fazer o mesmo, a fim de evitar que ela desenvolvesse as forças produtivas rumo ao socialismo.

É isso aí.

Categoria: (Economia, Política)

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